As confissões de inverno de Charly Garcia

Charly Garcia é um dos mais importantes personagens do pop/rock argentino. Entretanto, tudo que ouvia dele não me chamava tanto a atenção, até ficar apaixonado por uma versão do Paralamas do Sucesso de Viernes 3am, no álbum Hey-na-na!, composta por ele. Fiquei de dar-lhe uma segunda chance.

Hello! MTV Unplugged (1995), Charly Garcia.

Então, certo dia, num café-sebo ao lado do IFCS, dei de cara com um CD usado, meio sujo mas em bom estado, de Hello! MTV Unplugged, pela bagatela de 10 reais. Comprei-o. E não é que o acústico de Charly Garcia era danado de bom? E estava lá ele tocando Viernes 3am. Mas a música era precedida por uma outra num tal de “medley Serú Girán”. Que diabos é isso? Nada como o Google…

Aí descobri que minha amada música não era da carreira solo (que, fora o acústico, ainda não me encantou), mas da época de uma banda chamada Serú Girán (?!). E lá fui eu atrás dos discos.

O Serú Girán reunia músicos argentinos de peso. Além de Garcia, David Lebón, Pedro Aznar e Oscar Moro. Entre 1978 e 1982 fizeram história no rock hispânico fazendo um rock progressivo de boa qualidade. Bem setentista, diga-se de passagem, o que o torna, apesar de bom, um pouco datado. E a versão original de Viernes 3am era também maravilhosa.

La Grasa de las Capitales (1979), Serú Girán.

Mas Charly Garcia não surgira ali, mas sim em 1972, num duo com o amigo de escola Nito Mestre, chamado Sui Generis. E foi nessa hora que descobri a sua melhor obra.

O Sui Generis durou apenas 3 álbuns e um ao vivo (em 2 volumes), entre 72 e 75. Em todos os discos, o duo é acompanhado por músicos, sendo um deles David Lebón, que mais tarde acompanharia Garcia no Serú Girán.

Vida (1972), Sui Generis.

O som da banda me evoca muitas coisas: rock progressivo, psicodelia, folk, rock mineiro dos anos 70, assim como o pessoal do Clube da Esquina. Mas a primeira coisa que me chamou a atenção foi o trabalho vocal de Nito e Charly, tão orgânico quanto Simon & Garfunkel. Além do acento folk, o fato da voz de Nito ser mais limpa e Charly ser o responsável pelas composições também reforça a comparação.

O álbum de estréia, Vida, com seu folk psicodélico, é bom, mas trata-se apenas um ensaio do que viria a ser Confesiones de Invierno. Neste, a dupla realiza sua obra-prima (e a melhor coisa que já ouvi com Charly Garcia até hoje). Um canto inspirado e afinadíssimo, belos arranjos e canções vigorosas, com uma pegada mais roqueira que o anterior.

Confesiones de Invierno (1973), Sui Generis.

Ainda que o som encarne o espírito dos anos 70, como podemos encontrá-lo nos discos de um 14 Bis, que possua um clima “eu acredito em fadas” de Jon Anderson, o disco, surpreendentemente, não me soa datado. Deve ser a idade…

No álbum seguinte, Pequeñas anécdotas sobre las instituciones, a banda se torna mais eletrificada e parte pro progressivo psicodélico. Há um estranhamento por parte do público, mas pior foi a reação do governo militar. Tiveram que cortar músicas, mudar letras. Desconheço se foi por isso, ou o mergulho cada vez mais profundo no progressivo e nos teclados, que Charly quis gravar um álbum todo instrumental, o que provocou o desânimo de Nito. O disco nunca saiu e eles decidiram fazer um show de despedida e lançá-lo em disco: Adiós Sui Generis.

Pequeñas Anécdotas de las Instituciones (1974), Sui Generis.

Nito Mestre se juntou a uma banda batizada de Los Desconocidos de Siempre, formada pela então namorada de seu ex-companheiro, seguindo o som mais folk do início do Sui Generis. Depois, teve uma carreira solo bem sucedida nos anos 80. Já Charly Garcia se bandeou de vez para o rock progressivo formando outra banda, La Máquina de Hacer Pájaros (que ainda não ouvi), da qual participava Oscar Moro e que não durou muito, antes de criar o Serú Girán. Sua carreira solo (um pouco pop demais nos anos 80) é marcada pela inquietude. Por isso, explorá-la pode ser como caminhar num campo minado.

Filosofia Barata y Zapatos de Goma (1990), Charly Garcia.

Rasguña las Piedras, do álbum Confesiones de Invierno, ao vivo no show Adiós Sui Generis.

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