Top 30 – 1970/1979 (10ª parte)

A primeira vez na vida que ouvi falar na existência de uma banda chamada The Doors foi algumas semanas antes do RPM reviver a Beatlemania em solo tupiniquim. A turnê que os catapultou ao estrelato estava para estrear no Canecão e uma matéria na Globo chamou a atenção para um pequeno snippet de Light my fire em Rádio Pirata, passando imagens de Jim Morrison, todo de preto,  contorcendo-se no palco. Da música eu já tinha ouvido a respeito. Meu pai tinha um vinil da Maysa ao vivo no mesmo Canecão, no qual ela também cantava a música. Um tanto inusitado, não?

Entretanto, só com os covers do Echo & The Bunnymen nos antológicos shows também no Canecão, Soul Kitchen e snippets de Ligh my Fire em Crocodiles e The End em Thorn of Crowns (Renato Russo também mandava um The End em uma das diversas versões ao vivo de Ainda é cedo), que eu resolvi dar uma olhada mais de perto. Um amigo tinha o Alive she cried (um ao vivo com excelentes versões de Gloria e Moonlight Drive) e outro tinha uma coletânea dupla. E assim gravei minhas fitas K7, às quais juntei um vinil do Hollywood Bowl (na verdade um EP ao vivo chumbrega).

Bem, isso tudo foi nos anos 80. Não sei bem por quê, em algum momento dos anos 90, quanto todo mundo escutava grunge ou britpop, comecei a arrebanhar todos os CDs da banda. Um eu já conhecia bem de casa de amigos, Morrison Hotel, e talvez por isso mesmo tenha demorado um pouco mais para comprar. Outro, do qual só conhecia duas músicas e que foi um dos primeiros a adquirir, tornou-se logo meu preferido: LA Woman.

L.A. Woman (1971), The Doors.

L.A. Woman (1971), The Doors.

Sempre que penso no álbum LA Woman, vem à mente um disco de blues. De fato, as faixas Been down so long, Cars hiss by my window e a tradicional Crawling King Snake contribuem nesse sentido, mas é pouco pra justificar essa impressão tão arraigada em mim.

O disco abre com um funk, The Changeling, que não ficaria nada mal na trilha sonora de Shaft.  Na sequência, a ótima Lover her madly que tanto irritou o produtor Paul Rotchild. Adoro a canção, que me faz lembrar outros momentos despretensiosos da banda, como Take it as it comes e I looked at you. Hyacinth House é uma relaxante e melancólica balada. The WASP (Texas Radio and the Big Beat), uma interessante mistureba de estilos que hoje provavelmente ganharia incrementos eletrônicos (aliás, Jim Morrison já profetizava o futuro da música eletrônica numa entrevista de TV).  As mais conhecidas do disco, claro, são a faixa-título e Riders on the Storm. Apenas L’America não diz muito a que veio.

Sabendo que as gravações começaram com o pior clima possível e com a debandada de Rotchild, salvas pela iniciativa do então engenheiro de som Bruce Botinck, que conseguiu estimular um cansado Jim Morrison e arejar o ambiente, o resultado impressiona. Assim como a horrorosa capa, que lembra aquelas coletâneas de gravadora pirata, com erro de digitação no nome das músicas.

Vídeo de LA Woman.

*****

Morrison Hotel (1970), The Doors.

Morrison Hotel (1970), The Doors.

O disco anterior e mais conhecido, Morrison Hotel, é até mais rock do que LA Woman. A banda sempre teve o blues como referência, assim como a psicodelia e toques experimentais. Mas, com o fracasso de Soft Parade (fraquinho mesmo), a reação foi um blues-rock na veia. A única exceção foi Waiting for the Sun, título do 3º álbum, de cujas sessões a música teve origem.

Ao contrário do que ocorre com a primeira faixa de LA Woman, que dá uma impressão totalmente equivocada do que será o disco, Roadhouse Blues é um perfeito cartão de visita para o que o ouvinte vai encontrar pela frente. Entretanto, o álbum peca um pouco no acabamento, soando às vezes como colagem de pedaços de canções.

O CD perde um detalhe curioso do vinil, que são os títulos diferentes para cada lado: o lado A é Hard Rock Cafe, e o lado B, Morrison Hotel. Algumas curiosidades em torno disso podem ser lidas aqui.

Vídeo de Roadhouse Blues.

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