John Lennon

John Lennon, a vida

Não costumo ler biografias de artistas que viraram símbolos, pois geralmente a narrativa é capturada pelo mito. Seja para exaltá-lo, seja para contestá-lo. Por essas e outras, nunca me interessei em ler sobre John Lennon.

Entretanto, após ler duas biografias sobre Paul McCartney e pesquisar sobre George Harrison, fiquei interessado em conhecer mais sobre aquele lado da história. Coincidentemente, ganhei de aniversário justamente uma biografia do líder dos Beatles: John Lennon, a vida, escrita pelo jornalista londrino Philip Norman, também autor de Shout!, livro sobre os Beatles execrado por Paul McCartney.

A leitura exigiu fôlego. São 800 páginas sobre 40 anos de vida. São, então, 200 páginas para cada 10 anos. A expectativa é, de saída, uma obra bem detalhada, o que não é frustrada pela leitura. Paul McCartney só aparece depois de 100 páginas. O primeiro capítulo é inusitadamente dedicado a contar a história de Alfred Lennon, filho de John Lennon e pai de John Lennon, o Beatle. Se o livro de Norman tem uma particularidade é justamente o fato de resgatar a figura do pai de John, tido como aquele que abandonou o filho. Lendo o livro, você fica com pena do cara: chifrado incansavelmente pela mulher, execrado pela família dela, ele bem que tentou criar John, a quem amava (assim como um tio, irmão de Alfred, que quis adotá-lo), mas acabou deixando que ele ficasse com a mãe. Não sabemos qual teria sido sua decisão se soubesse que, no fim das contas, o filho seria criado pela tia, e não por Julia. Uma coisa que nunca soube é que, quando ainda era casado com Cynthia, John e o pai se reconciliaram; e só lá pelo final da década John, totalmente surtado, chegou a ameaçar o pai de morte e não mais se falaram.

A mãe, por outro lado, era pintada como a tresloucada incapaz de criar uma criança. Na verdade, Julia queria criar John, assim como o novo namorado. Tanto que, com este, teve mais duas filhas. Trata-se no caso de uma alienação parental por parte da irmã Mimi, que, cooptando o pai (avô materno de John), aproveitou-se da personalidade instável de Julia e conseguiu para si um filho sem ter de passar por situações como sexo, gestação e parto. Extremamente rigorosa e preconceituosa, a Tia Mimi achava terrível que John fosse criado sob um lar “ilegítimo”. Há muita coisa aí que o livro não fala, mas que permite supor que ninguém nessa história era normal. A vítima, claro, foi o menino, que não podia jamais ser alguém normal.

A separação dos pais se deu aos 6 anos. John cresceu com sérios problemas de afeto e sofreu sucessivas perdas nesse sentido em um espaço relativamente curto de tempo. Depois da separação, veio a morte do Tio George, figura paternal e afetuosa que aceitava protagonizar um casamento virgem. Em seguida, a morta da mãe, atropelada. Pouco depois, a súbita morte do melhor amigo, Stu. Mais tarde, a de Brian Epstein. Pra piorar o enredo, logo no início do sucesso, sentiu-se obrigado a se casar ao engravidar a namorada, quando já a chifrava frequentemente com outra, por quem se dizia apaixonado. Nos anos seguintes, repetiu impotente a sina da família: mesmo sem desaparecer como Alfred, foi um pai (e marido) extremamente ausente.

John era uma alma conturbada, bipolar. Uma pessoa bastante insegura, mas que sustentava uma persona confiante e arrogante. Escondia de (quase) todos sua sensibilidade e interesses intelectuais. Tinha rompantes explosivos no qual se tornava uma pessoa fisicamente violenta, além de possuir uma ética um tanto duvidosa. Muitos amigos foram alvo de sua fúria, a quem espancava selvagemente. Algumas vezes sem motivo aparente. Numa delas, quase à morte. Fraco pra bebida, duas cervejas já eram o suficiente pra transformá-lo num ogro. E era praticamente incapaz de pedir desculpas. As drogas, por outro lado, poderiam torná-lo divertido e pacífico, mas também mais paranoico e emocionalmente mais instável que o normal. Ninguém se via livre de sua língua ferina, nem seu filho Julian. Só Ringo nunca foi alvo de seus ataques verbais. Se, com Sean, John foi a vanguarda do pai participativo, com Cynthia foi a caricatura do macho abusivo. E, por fim, tinha um enorme apetite sexual.

Dos aspectos positivos, me surpreendeu a crítica positiva de seus livros e os elogios a suas caricaturas, o Lennon artístico, mas não desenvolvido. Sua língua ferina seria inofensiva não tivesse ele um olhar bem perspicaz sobre as pessoas (pena que tal olhar falhou ante a bajulação de Allen Klein). O talento como compositor, desnecessário comentar. Como amigo, deveria ter mesmo um lado bastante cativante, capaz de compensar sua agressividade.

Até os Beatles assinarem com uma gravadora, Norman teve o mérito de entrevistar qualquer um que tenha esbarrado em John pelas ruas de Liverpool e Hamburgo. Da fase dos Beatles, como ocorre em qualquer biografia ou história do Rock, é impossível escapar da força gravitacional da banda, que passa a ser o foco da narrativa. Já não dá pra falar só de John. Fala-se de George, Paul, Ringo, Brian, Martin, os álbuns, as músicas etc. Depois, a base é, principalmente a versão de Yoko Ono, o que pode gerar alguma distorção. Mas o que importa que a sua visão sobre o casal faz sentido.

Aquela simbiose entre John e Yoko na fase final dos Beatles, que sempre me pareceu ser coisa dela, na verdade foi ideia de John. Com drogas na cabeça, paranoico com a Beatlemania, sufocado com o 1° casamento, órfão de Epstein e sentindo-se aquém de Paul, John quis construir para si um mundo próprio, no qual não tivesse que dar satisfações a e não dependesse de mais ninguém. Entretanto, era incapaz de fazer isso sozinho. Quando surgiu Yoko, pôde abrir mão da banda. Mas levou um tempo para sentir-se seguro para tanto. Na verdade, foi Yoko quem teve de abdicar boa parte de sua vida para viver essa fantasia de John. Algo um tanto inusitado para uma feminista. Coisas que eu não sabia sobre o romance: desde o 1° encontro na exposição de arte, demorou muito pro caso engrenar; Yoko engravidou duas vezes de John e perdeu a criança nas duas vezes de forma traumática.

Após o “lost weekend”, período em que ficou separado de Yoko (por iniciativa dela) em meados dos anos 70, a relação dos dois atingiu outro patamar, Logo de início, Yoko finalmente pôde ter um filho com John. O livro traz um generoso relato desses anos em que ele passou longe da mídia, evitando os amigos que pudessem levá-lo de volta ao álcool, às noitadas e à bebida. O jejum não anunciado de produção artística acabou sendo imposto também a Yoko, que não ficou muito satisfeita com isso. Enquanto se dedicava ao lar, ao filho (na tentativa de compensar o fracasso anterior dele como pai e o do próprio pai) e até à gastronomia, Yoko assumiu o papel de mulher de negócios (a contragosto, apesar de mostrar-se bastante talentosa na função). O John que emerge dessa limpeza física (Yoko, por sua vez, teve uma recaída às escondidas) é um ser solar, ainda temperamental e de língua ferina, mas bem mais tranquilo.

Quando tudo parecia ir bem, quando finalmente parecia estar satisfeito consigo mesmo e com sua família, cheio de planos para o ano seguinte, John é assassinado. Se a volta à ribalta o levaria de volta a velhos hábitos é algo que infelizmente nunca saberemos. Um “p.s.” com uma entrevista com Sean Lennon quase me levou às lágrimas. Creio que isso só não ocorreu porque estava em um restaurante. As páginas finais, com a morte iminente, e justamente quando eu começava sinceramente a amar o personagem (e não só a sua arte), já haviam me deixado com um nó na garganta.

Enfim, dificilmente haverá uma biografia tão completa e honesta sobre John (tão honesta que Yoko acabou por não endossá-la). Nas partes mais polêmicas, como a viagem de John e Brian à Espanha, o autor se limita a fornecer as versões, sem tomar partido ou tirar conclusões. Talvez um livro sobre fases delimitadas (como o livro sobre os anos 70 de Paul) possam servir de complemento, mas só.

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