Digital vs Analógico

Confesso que não tenho saudades da época do vinil.

Quem viveu, há de se lembrar da fragilidade, dos cuidados, do perrengue. Ocupavam mais espaço, tinham de estar em pé, todo o cuidado pra não empenarem, não deformarem, não quebrarem. Levar disco pra casa de um amigo ou simplesmente comprar e levar pra casa era uma aventura! Comprar em uma viagem, então, sinônimo de muita dor de cabeça.

É bem verdade que o visual das capas e do encarte era deslumbrante, mas tamanho não é documento. A praticidade dos CDs é insuperável! Vinil você tinha de levantar pra trocar de lado, e nem tinha como selecionar só uma faixa, ou faixas. E ainda tinha de limpá-lo volta e meia, pois juntava poeira e mofo. Pouco importa se ficava dentro de um plástico, ou se a própria capa era envolta em um plástico externo: isso só alterava a frequência. E não podia ser qualquer pano, qualquer produto. Às vezes era necessário deixar o vinil em banho-maria em uma solução.

É bem verdade que falo dos vinis antigos. Os de hoje são caríssimos, feitos em alta definição. E aí eu me pergunto: por que os antigos não eram assim?

Quando o CD surgiu, todos realçaram a limpeza e clareza do som. Mas logo apareceram argumentos que mostravam ser o som analógico superior. O mais pertinente dizia que o som analógico era continuo, enquanto que o digital era fatiado. Faz sentido! Isso dava crédito a quem dizia que o som do vinil era mais “quente”, passava mais emoção, provavelmente uma sensação derivada do som contínuo. Mas quem teria ouvidos para perceber a diferença? A única coisa que eu sei que nenhuma versão digital de Aqualung, do Jethro Tull, superou o original.

Contudo, mesmo supostamente superior, a reprodução de um vinil só soaria superior a um CD se os sulcos do vinil não estivessem desgastados e a agulha (que não poderia ser qualquer uma) em perfeitas condições. Ou seja, um vinil perfeito seria como a voz de Axl Rose (no auge), que acaba na terceira música.

E então veio o MP3, que seria o som digital já fatiado com as arestas aparadas. Isso deixaria o som mais compacto e de alta intensidade, o provocaria uma certa saturação auditiva. Curiosamente, em vez das gravadoras apostarem na profundidade sonora dos CDs, algumas passaram a reproduzir o tipo de som dos MP3s, tornando a audição integral de um disco um tanto maçante. Por sorte, nem todos seguiram a onda, e hoje temos vários formatos que tentam dar à música ouvida na internet uma dignidade auditiva.

Relembrando a discussão entre vinil versus CD ao longo dos anos 90, é irônico constatar que quem saiu perdendo foi o CD, suplantado por versões digitais de qualidade inferior.

MP3 e CD é o inverso de cerveja puro malte e cerveja com milho e arroz. Na cerveja, quando você bebe uma pilsen puro malte, você não percebe a diferença pra uma cerveja industrial padrão. Porém, se você fica um tempo só bebendo puro malte, ao voltar a beber a outra, esta fica parecendo água suja. No caso dos formatos digitais, quando você começa a ouvir MP3, não nota a perda de qualidade. Mas quando volta a ouvir CD, o som faz toda a diferença do mundo.  Mas nunca tive a chance de fazer o mesmo teste com vinil.

Nesse meio deste ano, finalmente voltei a ter um toca-discos (ainda não inaugurado). Não me desfiz de nenhum vinil, mas a preguiça de limpá-los será grande. Ainda mais considerando que tenho praticamente todos em CD (e MP3). Mas a nostalgia é uma doença que piora com idade…

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