Silvia Pérez Cruz no Blue Note, Rio de Janeiro, 18/04/2018.

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Se não fôssemos ao show do Jorge Drexler, nunca teríamos ficado cientes da presença dessa magnífica cantora catalã em nossas terras. Drexler não só a chamou ao palco para três canções (uma delas, solo), como também fez questão de fazer propaganda do show na semana seguinte. Comprei os ingressos na mesma noite.

O Blue Note é pra lá de inadequado. Não só insiste no irritante modelo antimusical das mesinhas, como o espaço entre as cadeiras é constrangedoramente apertado. O som, pelo menos, é ótimo, mas você escuta com a mesma nitidez o cara com coqueteleira detrás do balcão.

Silvia chegou chegando. Falando um português melhor que o amigo Drexler (o que era esperado, pois ela canta em espanhol, catalão e português), esbanjou simpatia, boniteza, timidez sedutora e, o mais importante, a belíssima voz.

Assim como Drexler, deixou a plateia babando ao contar a noite na casa de Caetano com todos tocando e cantando.

Com forte influência flamenca, Silvia transita principalmente pela música popular, adaptando-se facilmente à bossa-nova, ao samba, ao fado e à chanson (sim, ela nos brindou com uma palhinha de Piaf), mas seus discos contém muito experimentalismo, costumeiramente acompanhada por músicos nada tradicionalistas.

Silvia explorou pouco seu repertório autoral, sempre apresentado solo ao violão. Aos poucos foi chamando seus amigos brasileiros para tocar com ela. Marcelo Caldi (Farra dos Brinquedos) na sanfona, André Vasconcellos no baixo acústico, Rafael dos Anjos no violão e Hamilton de Holanda no bandolim. Também tocou um outro violonista (muito interessante) do qual só peguei o sobrenome, Delgado, mas que não era da mesma tchurma. Todos os demais acabaram se juntando em uma superbanda, com Hamilton debandando mais cedo.

Com seus amigos, Silvia preferiu apostar num repertório conhecido do público para mostrar seu lado intérprete. Elencou canções standard, tipo Asa Branca, Carinhoso, Chega de Saudade. Mas, como de convencional Silvia tem pouco, o karaokê logo virava improvisações jazzísticas com sotaque flamenco. E aí mostrou uma versão definitiva para Não deixe o samba morrer.

Se as canções eram batidas para nós, ela parecia se divertir com a possibilidade de cantar tal repertório em um show. Isso dava um raro frescor a algumas canções. Foi mais ou menos o que passou pela minha cabeça ao ver o disco Carminho canta Tom Jobim: para ela, isso deve ser uma aventura.

O show teve dois momentos de êxtase. O primeiro, o dueto com Hamilton de Holanda em Currucucucu Paloma, que ela já havia feito (só soube agora) com ele no Baile do Almeidinha, em 2016, no Circo Voador. Com Jorge Drexler, uma semana antes, ela tinha cantado a mesma música numa versão mais comportada. Com Hamilton, a performance se tornou aqueles momentos mágicos que você simplesmente agradece à vida por ter presenciado (é o vídeo que eu posto aqui).

O segundo momento é no bis, quando ela fica na dúvida do que fazer, as pessoas (inclusive eu) começa a pedir canções do repertório dela, ela se emociona, começa um Acabou Chorare (pedido por alguém) a capella, emenda com Eu sei, da própria lavra, e vai emendando em outras.

Enfim, uma noite fantástica que eu espero que se repita outras vezes.

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