RINGO

Ringo

 

A biografia escrita por Michael Seth Starr (“não somos parentes!”), infelizmente, trata-se apenas de uma longa reportaqem escarafunchando tudo o que já foi publicado sobre Ringo Starr. Nem o biografado nem ninguém próximo a ele foi entrevistado exclusivamente para o livro. As entrevistas feitas pelo autor se limitam aquelas feitas com pessoas periféricas ou cuja proximidade ocorreu em algum lugar do passado. Portanto, nada de revelações bombásticas ou insights reveladores. Contudo, a pesquisa é muito bem feita e vale a leitura.

Em primeiro lugar, por ser o menos badalado dos quatro Beatles, a maior parte da sua vida pessoal soa como notícias fresquinhas. Ringo não era exatamente um Don Juan, mas fazia suas farras. E teve três relacionamentos mais sérios na vida, e dois casamentos. E esticou o Lost Weekend de Lennon por quase 15 anos. E nisso podemos encontrar uma surpresa.

Quem conhece os problemas de Ringo com o álcool, logo pensa que foi devido ao pouco sucesso de seus discos ou de sua carreira como autor, ou ainda a sua pouca criatividade, que eles mesmo reconhece. No entanto, ao ler sobre sua vida nos anos 70, chegamos a outra conclusão: seu ostracismo se deveu ao seu alcoolismo, e não o inverso.

Ringo vinha de dois bons discos, Ringo (73) e Goodbye Vienna (74), respectivamente o 3° e 4° da carreira; havia dirigido um documentário sobre o T.Rex e atuado em um filme elogiado, That’ll be the day, que também contava com Keith Moon. Apesar da critica positiva, teve preguiça de participar da sequência, Stardust. Mas o desleixo com que passou a gravar seus discos e escolher seus projetos cinematográficos, pensando mais no quanto iria se divertir, começou a queimar toda a gordura de boa vontade que a mídia e o público tinham com ele. Pra piorar, vieram os terríveis anos 60, que feriu de morte, com raras exceções, os artistas que começaram suas carreiras nos anos 60. Rolling Stones, George Harrison, Jethro Tull, Paul McCartney, Pink Floyd, Bob Dylan, Elton John, a maioria passou por um inferno astral no período. Inclusive no Brasil. No cinema, Ringo ainda obteve um sucesso com Caveman, onde conheceu sua segunda esposa, Barbara Bach, mas precisou de uma baba durante as filmagens pra não enfiar o pé na jaca.

Em 1988, Ringo e a esposa entraram num spa de reabilitação (que funcionou!) e ele recuperou a dignidade e a simpatia da mídia com o lançamento americano da série infantil do trenzinho Thomas, de cuja versão britânica ele havia sido o dublador da primeira temporada (e não continuou porque não quis). Quanto à carreira fonográfica, apesar das críticas bastante positivas ao seu retorno em 1992 com Time Takes Time, o álbum não vendeu. Mas as turnês com a All-Starr Band, iniciadas em 1989, a partir da iniciativa do produtor David Fishof, que praticamente definiu o que o sóbrio Ringo faria até o final da vida.

Em segundo lugar, depois ler biografias de Paul e John, e assistir ao documentário sobre George, foi curioso revisitar o período dos Beatles do ponto de vista daquele que sentava atrás da bateria. Nessa parte, que toma bastante espaço no livro, já se sabe de antemão tudo o que vai acontecer, mas é divertido ver os outros três como figurantes, ainda mais sabendo o que eles estavam aprontando naquela época.

No que diz respeito ao relacionamento de Ringo com os três após a separação, fica evidente o apoio que os três sempre deram à carreira do amigo, principalmente George, no início. Mas John também foi muito generoso. Ringo foi o último Beatle a ver com John com vida. Ele e Barbara estiveram no Dakota um mês antes para falar do próximo álbum de Ringo, uma vez que John havia voltado à música. Ringo conta como ele estava feliz e que separou duas músicas para o amigo: Nobody told me e Life begins at 40. Lennon deixou agendadas datas em janeiro de 1981 para as gravações.

Em terceiro, como costuma ocorrer nessas biografias, o período mais instigante é o pré-fama. Como a pessoa ainda não é famosa, ela vive em aberto, sem se preocupar em se preservar ou falar e fazer besteira em público. E os amigos e conhecidos que ficaram pra trás não se importarão em se sentir importante ao dar entrevistas sobre aquele conhecido famoso.

Por fim, a parte técnica de Ringo é comentada ao longo do tempo. Ringo sofre muito com críticas. Ele se reconhece como uma pessoa pouco criativa e de técnica limitada, mas sabe o seu valor. Por ser autodidata, acabou criando um estilo próprio e até mesmo técnicas próprias que, devido ao impacto causado pelos Beatles, passou imitado por uma legião de jovens bateristas. E todos são unânimes em exaltar a capacidade rítmica do Baterista Mais famoso do Mundo, preciso como um metrônomo. Hoje, Ringo é mais reconhecido por seus pares do que foi nos anos 60, 70 e 80. No final do livro, há um epílogo com depoimentos de Phil Collins, Max Weinberg, John Densmore e Kenny Aronoff.

 

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