Arquivo para abril 2019

Springsteen on Broadway

26/04/2019

Springsteen

De outubro de 2017 a dezembro de 2018, Bruce Springsteen protagonizou uma série de 236 apresentação no Walter Kerr Theatre, em Nova York. As apresentações dos dias 17 e 18 de julho foram gravados para um especial da Netflix, disponibilizado um dia após o término do espetáculo.

Springsteen on Broadway é um talk and singing show. No palco, apenas Bruce, ora com o violão, ora ao piano, às vezes com uma gaita. Fala mais do que canta, pois o espetáculo pode ser considerado uma turnê de seu livro de memórias. Porém, ele não fala de sua carreira. O tom confessional é direcionado à família e aos anos em Freehold, New Jersey, até sua saída da região. Bruce fala dele, dos pais, dos companheiros já falecidos, de sua cidade natal, dos anos de luta antes de assinar contrato com uma gravadora.

As músicas servem de moldura à narrativa, numa estrutura similar, porém invertida, a sua apresentação no programa Storyteller da VH1Como de hábito, algumas canções são bastante transformadas. Ele recebe apenas um convidado no palco, a esposa Patti Scialfa. Juntos eles cantam Tougher than the rest e Brilliant Disguise, o que é curioso, uma vez que esta diz respeito a seu primeiro casamento, com a atriz Julianne Phillips.

Bruce talvez seja o maior contador de histórias vivo do rock, e certamente o melhor contador de sua própria história. Sua narrativa é tão impactante e envolvente quanto a sua música. Diria que ele tem um tom melancólico de júbilo. Ao falar do pai, canta às lágrimas. Anima a plateia ao homenagear a E Street Band em Tenth Avenue Freeze-out. E talvez seja a melhor versão de Dancing in the Dark, que bem poderia ser Dancing with  the Darkness. Aliás, este poderia ser o título do show.

Aos 68 anos (na época da gravação), Bruce ainda esbanja vitalidade e surpreende com sua capacidade de reinventar-se continuando o mesmo.

 

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Minha fama de mau

12/04/2019

Minha fama de mau

Depois que assisti ao filme Minha fama de mau, saí do cinema me coçando pra descobrir o quanto dali era verdade e o quanto não era. Afinal, já estava vacinado com o Bohemian Rhapsody. A diferença é que a biografia do Queen eu já conhecia.

Dito e feito. Boa parte do filme é ficção. Na parte de “origem”, o filme é suficientemente fiel. Faz algumas adaptações aceitáveis, como o fato do Erasmo não estar no escritório quando a esposa do advogado deu o flagra, ou eles terem fugido da polícia quando roubavam o encanamento da casa em ruínas. Por outro lado, alguns eventos abordados no filme estão mais engraçados e “cinematográficos” no livro. Vai entender…

Outras mudanças acabam provocando distorção. Erasmo de fato substitua Carlos Imperial na rádio, se fazendo passar por ele. Mas isso era rotineiro e apoiado por Imperial. Erasmo Carlos já era cantor na época, mas Imperial queria que ele fosse produtor. Esse detalhe é importante porque o afastamento se deu por fato completamente distinto.

Erasmo entrou nos Snakes, que por sua vez surgiu após a implosão dos Sputniks (após a briga entre Roberto Carlos e Tim Maia), e não aquele que teve a ideia do conjunto.

A briga entre Roberto e Erasmo não provocou o fim da Jovem Guarda e nem levou Erasmo àquela depressão profunda. Eles continuaram gravando o programa, mas sem se falarem nos bastidores. Durante a Jovem Guarda, Erasmo morava em São Paulo, e ficou de fato um período perdido após o seu fim. O reboot do astral se deu quando decidiu voltar pro Rio, quando conheceu Narinha em um baile de carnaval, acompanhada por Taiguara.

E não preciso dizer que “Amigo” foi composta quase dez asnos depois do que foi mostrado no filme, né?

Bem, dito isso, ao livro.

O filme retrata muito bem o clima do livro. É a mesma linguagem narrativa. Lances rápidos, episódicos. A autobiografia lembra muito a estrutura da autobiografia de Rita Lee (lançada depois), com capítulos curtos dedicados a temas ou eventos específicos. Com isso, o livro não segue uma cronologia linear. Se ele fala de futebol, ela vai falar tudo sobre a relação dele com o Vasco. Se ele narra um encontro com Chico Buarque, ele fala de todos os causos envolvendo os dois. Há um avanço no tempo, mas cheio dessas idas e vindas.

O livro bem poderia se chamar “Festa de Arromba”, pois ele fala de muita gente: Rita Lee, Ronnie Von, Chico, Gal Costa, Simonal, Jorge Ben (com quem dividiu casa no primeiro ano em São Paulo), Julio Iglesias e muitos outros.

Sobre Roberto Carlos, dedica um enorme espaço, mas de forma bastante superficial e discreta, centrando apenas na formação da amizade e da forma como compõem juntos. Ele sabe o amigo que tem.

Discrição também é a tônica do livro no que se refere aos amigos, pois quanto a ele próprio, não se constrange em fazer revelações bem pessoais. É bem cuidadoso ao falar de Wanderléa e, curiosamente, fala de Maria Bethania sem contar o início da amizade deles. Detalhe que é a única pessoa com quem ele faz isso.

O livro ganha mais linearidade quando ele chega aos 40. Fala do Rock in Rio, das turnês, mudança da cena musical e muito da ex-esposa. Aliás, quase nada acrescenta após a morte dela, por suicídio.

Erasmo não se preocupa em fazer literatura. A linguagem é simples, como quem conta um caso na sala de estar ou compartilha lembranças com os filhos. Algumas podem ser interessantes ou divertidas apenas para os envolvidos. Ainda assim, o saldo é pra lá de positivo.

Um “bônus” do livro é o retrato do cotidiano de cada período, com ruas, armazéns, lojas, produtos e tipos urbanos. Ainda que sem ênfase, Erasmo dá boas pinceladas de crônica urbana.

Um dado curioso, pra mim, é a voz narrativa na minha cabeça. Na fase coberta pelo filme, a imagem que vinha era a do ator, não do Erasmo real. Este só aparece nos anos 70, e quando começa a destrinchar os encontros proporcionados pelo show buisness. Mais maduro, me vinha à mente o saudoso Zeno, pai do meu amigo Carlos Klimick. Sei lá por que cargas d’água eu sempre fiz essa associação: o jeito de olhar, de mexer a boca, o corpanzil. Vai entender…