Minha fama de mau

Minha fama de mau

Depois que assisti ao filme Minha fama de mau, saí do cinema me coçando pra descobrir o quanto dali era verdade e o quanto não era. Afinal, já estava vacinado com o Bohemian Rhapsody. A diferença é que a biografia do Queen eu já conhecia.

Dito e feito. Boa parte do filme é ficção. Na parte de “origem”, o filme é suficientemente fiel. Faz algumas adaptações aceitáveis, como o fato do Erasmo não estar no escritório quando a esposa do advogado deu o flagra, ou eles terem fugido da polícia quando roubavam o encanamento da casa em ruínas. Por outro lado, alguns eventos abordados no filme estão mais engraçados e “cinematográficos” no livro. Vai entender…

Outras mudanças acabam provocando distorção. Erasmo de fato substitua Carlos Imperial na rádio, se fazendo passar por ele. Mas isso era rotineiro e apoiado por Imperial. Erasmo Carlos já era cantor na época, mas Imperial queria que ele fosse produtor. Esse detalhe é importante porque o afastamento se deu por fato completamente distinto.

Erasmo entrou nos Snakes, que por sua vez surgiu após a implosão dos Sputniks (após a briga entre Roberto Carlos e Tim Maia), e não aquele que teve a ideia do conjunto.

A briga entre Roberto e Erasmo não provocou o fim da Jovem Guarda e nem levou Erasmo àquela depressão profunda. Eles continuaram gravando o programa, mas sem se falarem nos bastidores. Durante a Jovem Guarda, Erasmo morava em São Paulo, e ficou de fato um período perdido após o seu fim. O reboot do astral se deu quando decidiu voltar pro Rio, quando conheceu Narinha em um baile de carnaval, acompanhada por Taiguara.

E não preciso dizer que “Amigo” foi composta quase dez asnos depois do que foi mostrado no filme, né?

Bem, dito isso, ao livro.

O filme retrata muito bem o clima do livro. É a mesma linguagem narrativa. Lances rápidos, episódicos. A autobiografia lembra muito a estrutura da autobiografia de Rita Lee (lançada depois), com capítulos curtos dedicados a temas ou eventos específicos. Com isso, o livro não segue uma cronologia linear. Se ele fala de futebol, ela vai falar tudo sobre a relação dele com o Vasco. Se ele narra um encontro com Chico Buarque, ele fala de todos os causos envolvendo os dois. Há um avanço no tempo, mas cheio dessas idas e vindas.

O livro bem poderia se chamar “Festa de Arromba”, pois ele fala de muita gente: Rita Lee, Ronnie Von, Chico, Gal Costa, Simonal, Jorge Ben (com quem dividiu casa no primeiro ano em São Paulo), Julio Iglesias e muitos outros.

Sobre Roberto Carlos, dedica um enorme espaço, mas de forma bastante superficial e discreta, centrando apenas na formação da amizade e da forma como compõem juntos. Ele sabe o amigo que tem.

Discrição também é a tônica do livro no que se refere aos amigos, pois quanto a ele próprio, não se constrange em fazer revelações bem pessoais. É bem cuidadoso ao falar de Wanderléa e, curiosamente, fala de Maria Bethania sem contar o início da amizade deles. Detalhe que é a única pessoa com quem ele faz isso.

O livro ganha mais linearidade quando ele chega aos 40. Fala do Rock in Rio, das turnês, mudança da cena musical e muito da ex-esposa. Aliás, quase nada acrescenta após a morte dela, por suicídio.

Erasmo não se preocupa em fazer literatura. A linguagem é simples, como quem conta um caso na sala de estar ou compartilha lembranças com os filhos. Algumas podem ser interessantes ou divertidas apenas para os envolvidos. Ainda assim, o saldo é pra lá de positivo.

Um “bônus” do livro é o retrato do cotidiano de cada período, com ruas, armazéns, lojas, produtos e tipos urbanos. Ainda que sem ênfase, Erasmo dá boas pinceladas de crônica urbana.

Um dado curioso, pra mim, é a voz narrativa na minha cabeça. Na fase coberta pelo filme, a imagem que vinha era a do ator, não do Erasmo real. Este só aparece nos anos 70, e quando começa a destrinchar os encontros proporcionados pelo show buisness. Mais maduro, me vinha à mente o saudoso Zeno, pai do meu amigo Carlos Klimick. Sei lá por que cargas d’água eu sempre fiz essa associação: o jeito de olhar, de mexer a boca, o corpanzil. Vai entender…

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