Archive for the ‘Artistas’ category

Madeleine in Rio

11/11/2017

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Madeleine Peyroux está longe de ser uma grande entertainer, mas conquista com sua simplicidade de quem entra para cantar como se estivesse no pub da esquina. Já os outros componentes do trio, o guitarrista Jon Herington e o baixista Barak Mori esbanjam carisma, além de garantir uma solidez sonora que transforma qualquer bobagem musical em um clássico do jazz.
O setlist também está longe de contemplar os grandes sucessos para agradar ao público. Madeleine canta o que quer, como todo bom artista deve fazer. Seu único erro, a meu ver, foi logo na segunda música desfiar uma série de alfinetadas musicais contra Donald Trump. Não que me incomode em fazê-lo, mas apenas uma canção é pouco para criar um clima de intimidade com a plateia para embarcar nesse tipo de brincadeira.
Assim, o show decolou lá para quinta ou sexta canção, quando manda uma inusitada versão de Getting Better, dos Beatles, e canções como I ain’t got nobody e You can’t catch me. O repertório incluiu uma bela canção argentina e duas brasileiras (Corcovado e Água de Beber), com o espanhol dela soando melhor que o português. Aliás, Madeleine fez questão de traduzir todas as suas falas para o português. Cantou melhor do que falou, naturalmente.
No meio da apresentação, um pequeno descanso para os músicos, e ela emenda um longo e cativante medley ao violão, que inclui uma canção em francês, J’ai deux amours, e Trampin’. Os músicos voltam com uma vibrante Shout, Sister Shout e o novo set termina com um tiro certo: sua versão para Dance me to end of love, de Leonard Cohen. A saída protocolar é seguida de um emocionante bis com, salvo engano, duas canções.
Já havia reparado no Youtube… Estranhamente, Madeleine Peyroux soa melhor para mim nos discos do que ao vivo. Nada a ver com a voz, excelente, ou os arranjos, igualmente excelentes. Há algo na sua presença de palco que parece querer negar o glamour das divas do jazz. Nesse ponto, o Teatro Municipal do Rio de Janeiro não poderia ser palco melhor para a sua apresentação. Uma casa que garante charme a qualquer espetáculo e que, ao mesmo tempo, permite que o público veja os músicos nos olhos, os escute como se não houvesse nenhum aparato eletrônico a intermediar o som entre artista e plateia. Enfim, uma noite absolutamente agradável.
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The Joshua Tree Tour 2017

08/11/2017

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Joshua Tree Tour sempre foi o show que eu quis ver. Acho que eu trocaria todos os shows que eu vi na vida (ok, menos o do Queen no Rock in Rio) para estar em um daqueles shows filmados em Rattle & Hum. Portanto, não preciso dizer o que significou pra mim saber que o U2 iria fazer uma tour especial de 30 anos do disco.

Tratei logo de garantir meu ingresso para um show em Barcelona. O problema é que meu segundo filho estaria recém-nascido. Mas, antes disso, foram anunciados os shows em São Paulo. Vendi o ingresso de Barcelona e comprei duas noites em São Paulo: dias 19 e 22 (primeira e terceira de quatro noites) no Morumbi.

Pela primeira vez, não quis saber de nada sobre a turnê. Não li sobre nenhum setlist, não assisti a nenhum vídeo. Mas, na última hora, deixei escorregar o mouse pro setlist do show em Santiago. Ele era quebrado em três atos: um com quatro músicas pré Joshua Tree, tocados no palco B sem telão. O segundo composto de todo o álbum, na ordem do disco. O terceiro com sucessos posteriores. Talvez tenha sido a turnê mais engessada dos irlandeses.

Costumo dizer que, para ver um show, é preciso vê-lo duas vezes. Na primeira vez, a adrenalina faz com que aquela experiência se dissipe rapidamente. É como back-up. Quem um, não tem nenhum. Por isso, a minha primeira noite, lá no alto da arquibancada em um fim de tarde escaldante, foi como um ensaio geral. A minha segunda noite, nas cadeiras inferiores do Morumbi, em uma noite chuvosa, é que seria a experiência real. Não sei se por isso ou se de fato, a segunda noite foi musicalmente espetacular. Tanto para o U2 quanto para o show de abertura com Noel Gallagher.

Dessa primeira noite guardo, como inesquecível, o snippet de Heroes em Bad e uma versão avassaladora de Vertigo, turbinada pela antecessora Elevation. Mas, acima de tudo, a capacidade de revitalizar uma canção já batida: Sunday Bloody Sunday. Há tempo que sua inclusão no setlist causava um certo enfado. Mas, ali, abrindo o show… ouvir a bateria de Larry como o primeiro “big sound” da noite… espetacular!

O lado negativo, pra variar, veio do público (devo dizer, aliás, que é o primeiro show no Brasil onde a organização estava melhor preparada que o público). Já em Running to stand still, pouco tocada nas últimas turnês, a galera começou a aproveitar pra conversar e consultar seus celulares. Foi assim até o fim do lado B de Joshua Tree: justamente o mais importante pra mim. Como eu tive o azar de NUNCA ter visto ao vivo Running to stand still ao vivo (logo uma das minhas favoritas). Foi uma sequência de sete músicas inéditas!!! Afinal, Red Hill Mining Town nunca havia sido tocada ao vivo. Exit e Trip through your wires, só na Joshua Tree original. As outras três foram tocadas bissextamente.

Fiquei hospedado com minha família em um condomínio ao lado do estádio, bem em frente justamente do portão de acesso à arquibancada daquela primeira noite. À tarde, pude ouvir da minha varanda a passagem de som (a base pré-gravada de Where the streets have no name). Parecia estar dentro de um filme. O som era forte e claro. Dava pra escutar tudo. Estava do lado certo do vento. E assim foi o som em todas as noites: alto e claro. Em menos de 10 minutos após o encerramento com One, já estava em casa com meu filho nos braços. No sábado, abri uma cervejinha e fiquei sentado na varanda só escutando… até o meu filho começar a chorar.

No domingo, lá estava eu de novo. Dessa vez pra valer. A chuva não cessava e chegou a cair durante parte do show do Noel. Mas, como o U2 nasceu virado pra lua, nem uma gota durante a apresentação dos irlandeses. Dessa vez consegui comprar o copão de cerveja e uma camiseta da turnê (não qualquer camiseta, mas a única que eu realmente queria). Coincidências da vida, sentei entre um casal carioca e uma família de Fortaleza, e bem na frente do camarote do São Paulo.

Já no sábado (da varanda) eu havia sentido a resposta do público mais intensa do que na quinta. O mesmo ocorreu no domingo. Se Sunday Bloody Sunday surgiu revitalizada, Pride, que encerra o primeiro ato, soou mais batida e cansada. Senti falta de algo do Boy, como I will follow (que seria tocada na quarta no final, como ocorrido em Santiago) ou Out of control . Um snippet que eu sempre quis ouvir Bono cantando era Rain, dos Beatles. Estimulado pela chuva do dia e o encontro com Paul McCartney no início da semana em São Paulo, lá vem ele com a música toda em Bad. Morri. Na passagem para o set de The Joshua Tree, pude, vendo mais de perto, perceber sutilezas que antes haviam me escapada. É arrepiante!

Por mais sensacionais que sejam, as quatro primeiras músicas eu já havia escutado nos shows anteriores e se tornaram comuns nos setlists da banda. O uso do telão, mais como uma moldura visual das canções do que um registro para quem está vendo de longe, é fantástico. Em I still haven’t found what I’m looking for, ele manda o cover de Stand by me, que toca no encerramento do show e sempre faz a galera cantar. Ele deve ter reparado isso, pois na quinta e no sábado ele não havia cantado. E ficou nítida a improvisação de momento. Durante o lado A, predomina a paisagem panorâmica. No lado B, as imagens são mais interativas.

Em Red Hill Mining Town, o arranjo é todo reformulado e aparece no telão um conjunto de sopros que acompanha a banda. A releitura do hard rock para o coreto da praça é magnífica. In God’d country talvez seja a canção com a versão mais fiel ao disco. Trip through your wires foi, para mim, a grande surpresa da turnê. Mesmo na turnê original, sua execução soava um tanto apagada. Nesta, foi uma das melhores canções da noite. Particularmente no domingo, onde ela começa com uma pegada meio funkeada. One Tree Hill, com sua batida atemporal e moderna, foi a que mais atraiu a atenção do público desinteressado em ouvir o que não conhecia. O vigor de Exit revela o quão equivocado foi o seu prolongado exílio dos palcos. Por fim, Mother of the disappeared foi pura poesia, com um belo solo do Edge.

Pequena pausa e a banda volta com um set matador: Beautiful day, Elevation e Vertigo. O estádio pula sem parar. O falso fim de Vertigo e seu retorno com Rebel Rebel é de lavar a alma. Em novo intervalo, eu comento com o casal do meu lado que eles costumavam tocar Mysterious Ways na turnê, mas que em São Paulo ela tinha ficado de fora. E qual são os acordes que eles tocam na volta? Pois é… na minha segunda noite ganhei uma música a mais.

You’re the best thing about me, música do até então novo single, foi ouvida com polida atenção, mas sem empolgar. O que empolga mesmo é a homenagem às mulheres no telão em Ultraviolet. Já se sabia que apareceria uma homenageada brasileira, só não sabia que apareceriam tantas. Enquanto do Chile aparece Michelle Bachelet, no Brasil eles prudentemente deixaram a política de lado (Tarsila do Amaral, Irmã Dulce, Taís Araújo, Maria da Penha), o que significa que estão bem informados sobre o que se passa por aqui. Por fim, o encerramento com One.

Um show redondo, sóbrio, perfeito. Como o disco celebrado.

Top 20 – filmes e vídeos de música (final)

16/10/2017

Finalizando o Top 20 de filmes e vídeos, acabo como tudo começou: com o U2.

Under a Blood Red Sky

Quando estava na escola, todo mundo andava debaixo do braço com o EP ao vivo do Under a Blood Red Sky, cuja maioria das faixas foi gravada na verdade em um festival de verão na Alemanha (há um DVD pirata dessa apresentação, e vale bastante a pena), e Pride (in the name of love) bombava nas rádios. Eu não gostava de Pride e New Year’s Day não me encantava. Até então, a única música do U2 que me agradara era Sunday Bloody Sunday.

Então eu estava na casa do meu primo Sérgio quando um amigo nosso, Rogério, pediu pra ver o vídeo de um show do U2: justamente Under a Blood Red Sky, cujo conteúdo é bem diverso (e mais extenso) que o disco. Simplesmente não consegui desgrudar o olho da tela. Fiquei chapado, deslumbrado, apaixonado! Toda a minha paixão pelo U2 deriva dessa tarde em um apartamento de fundos no Flamengo.

A banda tinha consciência de sua força ao vivo e investiu tudo o que tinha na gravação do vídeo. Já é lendário o caso do cancelamento do show em Red Rocks por causa das chuvas, precisando a banda ir à rádio e garantir que eles iam tocar.

Como acontece em toda lenda, a chuva parou miraculosamente pouco antes do show. Os poucos que se aventuraram a subir até o anfiteatro participaram de uma espécie de “seleção natural”: só os verdadeiros fãs passarão pelas portas do Paraíso. Todo este contexto quase bíblico garantiu uma plateia apaixonada e uma noite mágica.

Infelizmente, o vídeo ficou pouco conhecido no Brasil, longe das lojas e da TV (por aqui era mais fácil ver um especial de uma hora da TV alemã de um show da Unforgettable Fire Tour), de forma que o VHS do meu primo foi o único no qual eu pus as mãos (e copiei, claro). Uma versão em DVD só foi lançada 24 anos depois, e dessa vez completa! O vídeo original começava com Surrender, que era quarta música do setlist.

U2 Go Home

Depois da experiência com o do Under a Blood Red Sky, o U2 demorou a fazer um grande vídeo ao vivo. A tour de Unforgettable Fire ficou sem um registro oficial (de fato, na época, não havia essa facilidade de fazer álbuns ou vídeos de cada turnê) e Rattle & Hum escapa totalmente ao modelo tradicional. Nos anos 90, tanto o show da ZooTv em Sidney quanto o da Popmart no México são bastante mornos. O especial da MTV da ZooTv é bem melhor que o vídeo oficial, lançado até em Laser Disc. Só na na Elevation Tour a banda voltou a fazer um DVD tão mágico quanto aquele lançado em 1984. O de Boston talvez já merecesse ser incluído nessa seleção, mas acabou sendo superado pelo gravado em Slane Castle, U2 Go Home, uma semana após a morte do pai do Bono, e no mesmo dia da classificação da Irlanda para a Copa do Mundo de 2002. A eletricidade do momento foi tão intensa que muitos que assistiram à transmissão pela TV pediram que ele fosse lançado em DVD. O que acabou ocorrendo. A interação da banda com o público é sintetizada em Out of Control, quando Bono grita “essa é a nossa tribo!”. Kite soa tão emocionante quanto em Boston, mas você nunca verá uma corrida em Where the streets have no name como aquela. Não, não verá…

Caetano 75

08/08/2017

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Lá em casa a gente escutava MPB desde criança por causa do meu pai, mas ele não curtia os baianos. Só Gal Costa teve vez por causa da minha irmã. Da Maria Bethania, creio que só um mísero disco. Bem, e aquele ao vivo com o Chico Buarque. Mas é porque lá era “Chico fã clube”. Chico e Elis Regina, acima de tudo, seguido de Vinícius de Moraes com Toquinho e Baden Powell. De Caetano Veloso, com Caetano, só conhecia Alegria, Alegria e Leãozinho.

Gilberto Gil também não entrava, embora conhecesse muito mais canções de Gil, que tocavam no rádio e na TV. E, claro, a épica Domingo no Parque, que tínhamos em um vinil com uma coletânea de canções da época dos festivais, a qual incluía Alegria, Alegria.

Meu irmão foi quem furou um pouco o “bloqueio” e comprou dois discos dele, Outras Palavras e Cores, Nomes, que eu não parei pra escutar até chegar à faculdade. Só fui parar mesmo pra ouvir Caetano na época do programa Chico & Caetano na Globo.

Na faculdade, houve a virada. Era um fã de Chico em meio a uma horda de fãs de Caetano. No final da faculdade, ouvi de um colega, Hugo Sukman, que eu era quem tinha razão: enquanto todo mundo falava do baiano, eu dizia que o bom era Chico. Frase com a qual ele passou a concordar. A ironia é que eu já havia passado completamente pro time de Caetano.

O bom do Chico dos anos 70 é que ele não tapava buraco. Nenhuma faixa estava ali por acaso. Assim como nenhuma frase em suas músicas estava ali só pra fechar a estrofe. Mas depois desandou. Diziam que o combustível de Chico era a rebeldia política. Finda a ditadura, Chico caiu na mesmice com alguns rompantes de inspiração.

Caetano, por sua vez, ainda que tenha sido atingido pela pasteurização dos anos 80, sempre foi inquieto, um experimentador. Assim, nunca envelheceu. De tempos em tempos encontrava um veio musical e o explorava até esgotar. Se os fracassos de Caetano fazem ranger os dentes e estourar a paciência do ouvinte, seus sucessos são revigorantes. Caetano é uma fênix que renasce antes mesmo de se tornar cinzas.

Hoje, tenho toda a discografia de Caetano (exceto um ou outro ao vivo), Mas, de Chico, só até o disco da samambaia (em CD, pois em vinil tinha ido um pouco mais longe, comprando “Vida” e “Almanaque”).

Ainda hoje, aos 75 anos, Caetano pode soar tão jovem quanto a última revelação da temporada.

The Joshua Tree Tour

25/06/2017

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Quando John Lennon morreu, eu não era ainda um adolescente, de forma que a reunião dos Beatles nunca chegou a ser um sonho real. O show que de fato povoou meus sonhos, fez palpitar meu coração como nenhum outro, e que sempre carreguei a amargura de jamais ter chegado perto de assistir, absorvendo com avidez qualquer migalha dele que chegasse a meus olhos e ouvidos, foi o da The Joshua Tree Tour, ou ainda a Lovetown Tour (algo como a Zooropa Tour para a ZooTv Tour).

Não de cara o U2 se tornou minha banda preferida em vida (antes o lugar havia sido ocupado por Dire Straits), graças ao vídeo de Under a blood red sky. Embora já conhecesse todos os discos anteriores (inclusive um excelente disco pirata da turnê do Boy), o Joshua Tree foi meu primeiro lançamento da banda.

Como costuma ocorrer com o U2, não foi paixão à primeira audição. Talvez na terceira. A coisa explodiu quando veio o filme Rattle & Hum. O U2 tem a curiosa característica de continuar a trabalhar suas músicas ao vivo. O disco é apenas o registro de um momento. Ao vivo, a banda parte para outro plano de existência. Não necessariamente as músicas serão melhores, mas muitas o são. Não é como Bruce Springsteen, em que tudo ao vivo soa melhor. No caso do U2, existe uma química entre banda e público que até hoje escapa à razão.

Assim, Joshua Tree se tornou meu álbum favorito, e a turnê catapultou o grupo irlandês para a constelação do rock. Os fãs mais jovens possuem essa relação com a ZooTv Tour, mas acredito que a maioria dos fãs da minha idade sonham com um show da Joshua Tree Tour como os adolescentes dos anos 50 sonhavam com Brigitte Bardot. Qualquer disco, show, vídeo, entrevista ou matéria de jornal, depois disso, não deixava de ser uma tentativa de compensar o rombo existencial de não poder ter visto Joshua Tree ao vivo.

Portanto, quando a banda anunciou uma turnê nostálgica do disco, comemorando seus trinta anos, e ainda garantindo tocar todo o álbum (o que inclui obrigatoriamente músicas jamais tocadas ao vivo), foi como um portal se abrindo para que eu voltasse ao passado para realizar um sonho. Será o mesmo show? Claro que não. Mesmo que eles tentassem reproduzi-lo, a voz do Bono está muito aquém do que foi no passado.

Ouvi o show do Jethro Tull tocando Aqualung na íntegra. Burocrático e sem alma. Em tese, este tipo de resgate costuma apresentar problemas do tipo, exceto quando se trata de artistas que colocam a alma em tudo que fazem, como Bruce e U2. No Rock in Rio, Bruce Springsteen tocou Born in the USA na íntegra, e pouca diferença fizeram os quase 30 anos que separavam a apresentação da turnê original.

Não perdi nenhuma vinda da banda ao Brasil (assim como as de Bruce), e nem esperava que viessem dessa vez, por isso já havia comprado ingresso pra Barcelona. Mas eles vêm! E eu estarei lá, mais uma vez (ou melhor, duas vezes!). Não é sempre que temos a chance de realizar um sonho.

Top 20 – filmes e vídeos de música (parte 13)

19/06/2017
Buena Vista Social Club DVD

Buena Vista Social Club (1999), Wim Wenders.

Foi na casa de um amigo que descobri Buena Vista Social Club. Ele havia sido contaminado por um colega de trabalho que escutava o CD o dia inteiro. Quem não viveu a época pode nem desconfiar, mas o álbum foi um furor, trazendo a música cubana de volta às paradas. O sucesso, claro, foi internacional, levando o diretor alemão Wim Wenders, que já havia apresentado Madredeus ao mundo, a fazer um documentário sobre o álbum.

As entrevistas e cenas em Cuba são um espetáculo, numa época em que o acesso à ilha não era tão fácil. Felizmente, Fidel resolveu dar uma força aos velhinhos da música pré-revolucionária. Ry Cooder, o cérebro por trás do álbum, está sempre presente, mas pouco se fala da sua importância para a roupagem atraente dada à música até então considerada brega e ultrapassada.

O toque especial do filme está na forma simples e sincera com que os artistas são retratados. É possível senti-los nas rugas e porosidade da pele, na parede descascada, na ferrugem do refrigerador. O fim, na verdade, é o início de tudo: a apresentação do grupo em Nova York. O clímax se encontra nos olhos esbugalhados daqueles que jamais sonharam vislumbrar as vitrines da Broadway. Perplexos, paralisados, como se surpreendidos acordados em pleno sonho proibido.

Poucos filmes, mas pouco mesmos, são capazes de captar a alma da música como Buena Vista.

HO-BA-LA-LÁ – À procura de João Gilberto

14/06/2017

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Acabei de ler o mais inusitado dos livros sobre João Gilberto.

No segundo semestre de 2010, entre a vitória de Dilma nas eleições e a ocupação do Morro do Alemão pela polícia, o jornalista e escritor alemão Marc Fischer, seguidor do Novo Jornalismo de Gay Talese, veio ao Rio na tentativa de encontrar (e, se possível, entrevistar) o mais recluso dos nossos mitos musicais: João Gilberto.

Quem conhece João já sabe de antemão o final dessa empreitada. Fischer, então, transforma em livro suas desventuras e descobertas, num misto de biografia artística e autobiografia jornalística.

Autodenominando-se um Sherlock moderno, acompanhado de uma Watson carioca que lhe servia de tradutora, assistente e investigadora, Fischer vai contando os bastidores de cada entrevista, cada porta na cara e até mesmo eventuais porres. Em vez de construir uma narrativa em cima do material levantado, ele narra como obteve cada informação. Assim temos o capítulo com Menescal, o capítulo com Marcos Valle, com João Donato, Miúcha, um ex-cozinheiro do Plataforma etc., incluindo uma ida improvisada a Diamantina em busca do banheiro mágico onde a Bossa Nova teria sido inventada.

O mito (real) do banheiro da casa da irmã, o gosto pela maconha e a reclusão de João são bem conhecidos, mas o livro traz outras revelações que, ao menos a mim, surpreendem, como a relação e a filha com a bela e jovem Claudia Faissol. E principalmente, como ele encontrava a filha todos os fins de semana como um avô brincalhão. A batalha com a EMI e a razão da ausência de seus primeiros discos no mercado. A forma como ele se relaciona com o mundo (na verdade, uma pequeníssima parte dele) através do telefone.

A lentidão com que a investigação se desenrola me lembrou a primeira temporada de True Detective. Muito beco sem saída, muita porta na cara, até que a persistência e os contatos rendam frutos. Neste ínterim, o autor preenche as lacunas fazendo elucubrações românticas dignas de um “João Gilberto e a Filosofia”, com uma ingenuidade que ganha ares de literatura adolescente. No final, quando se dá conta que tinha chegado até onde podia sem atingir a meta pretendida, bate o desespero.

Entretanto, um detalhe na orelha do livro acabou por dar sentido à paixão juvenil que permeia a narrativa. Marc Fischer morreu em abril de 2011, aos 40 anos, pouco antes da publicação do livro. Fiquei curioso em saber se havia sido acidente, uma doença terminal ou algo assim. Marc se suicidou. Seu perfil no Facebook continua ativo, com uma última postagem em fevereiro. A maioria de seus posts era de música, e havia alguns sobre a viagem ao Brasil. E, claro, músicas de João Gilberto.

Perguntei-me, então, se, ao vir ao Brasil atrás de João, o jornalista já encarava aquela viagem como uma última e louca missão guiado pela paixão, talvez uma tentativa de dar sentido a sua vida. E eis que me pego fazendo as mesmas elucubrações que ele. Menescal tem razão: esse João é mesmo um perigo…