Archive for the ‘Artistas’ category

Norah Jones in Rio

15/12/2019

Em dezembro de 2012, tínhamos ingressos comprados para o show de Norah Jones no Vivo Rio, mas o pai dela, Ravi Shankar, faleceu no início da semana e o show foi cancelado. Então levou SETE anos para que pudéssemos vê-la ao vivo no Vivo.

Em 2012 ela havia lançado o bom …Little Brokens Hearts, que oferecia uma pegada mais pop. A partir de 2015 com o advento da paternidade, ficou difícil acompanhar lançamentos, de forma que seus álbuns mais recentes, Day Breaks (2016) e Begin Again (2019), são desconhecidos para mim.

Aos 33 anos, Norah Jones estava certamente no auge da forma física, mas aos 40 aparenta estar em plena maturidade artística. Voz precisa, aveludada, sabendo botar mais potência em determinados momentos.

Norah não deixou a plateia órfão de seus maiores sucessos. Senti falta apenas de ‘Sinkin’ Soon, de seu terceiro álbum. A sonífera (no bom sentido) Come away with me foi gratamente repaginada com guitarra em vez de piano. Sim, Nora Jones troca o piano pela guitarra em duas músicas. A outra foi a ótima Little Broken Hearts.

O percussionista Marcelo Costa a acompanha num set de três músicas. Numa delas, Sunrise, numa excelente versão, muito superior à do álbum, entra também um flautista, que havia tocado também na música de abertura, A outra canja do dia foi a de Jesse Harris, amigo da cantora e compositor de Don’t know why, que fez o bom show de abertura para uma plateia escandalosamente barulhenta. Harris me lembra muito Paul Simon em sua fase mais jazzística da carreira solo.

Por fim, Norah é acompanhada por um excelente dupla de baixo e bateria, que muitas vezes rouba a cena.

Sobre o Vivo Rio, uma das razões de ter encarado os ingressos caríssimos foi o fato de ser cadeiras, como em um teatro, e não aquelas odiosas mesas. Porém, podem tirar a mesma, mas a mesa não sai da mentalidade das pessoas. Assim, tivemos de conviver com atendentes trançando entre as fileiras para entregar comidas e bebidas nos assentos, equilibrando suas famigeradas lanterninhas na boca.

O público brasileiro, como de hábito, não para de falar um só minuto, pra não falar no vai e vem. Não à toa meus últimos shows, fora o Rock in Rio, foram no Teatro Municipal, o último bastião onde a música está em primeiro plano. Por sorte, o som da casa estava alto e límpido, nota 10.

 

Springsteen on Broadway

26/04/2019

Springsteen

De outubro de 2017 a dezembro de 2018, Bruce Springsteen protagonizou uma série de 236 apresentação no Walter Kerr Theatre, em Nova York. As apresentações dos dias 17 e 18 de julho foram gravados para um especial da Netflix, disponibilizado um dia após o término do espetáculo.

Springsteen on Broadway é um talk and singing show. No palco, apenas Bruce, ora com o violão, ora ao piano, às vezes com uma gaita. Fala mais do que canta, pois o espetáculo pode ser considerado uma turnê de seu livro de memórias. Porém, ele não fala de sua carreira. O tom confessional é direcionado à família e aos anos em Freehold, New Jersey, até sua saída da região. Bruce fala dele, dos pais, dos companheiros já falecidos, de sua cidade natal, dos anos de luta antes de assinar contrato com uma gravadora.

As músicas servem de moldura à narrativa, numa estrutura similar, porém invertida, a sua apresentação no programa Storyteller da VH1Como de hábito, algumas canções são bastante transformadas. Ele recebe apenas um convidado no palco, a esposa Patti Scialfa. Juntos eles cantam Tougher than the rest e Brilliant Disguise, o que é curioso, uma vez que esta diz respeito a seu primeiro casamento, com a atriz Julianne Phillips.

Bruce talvez seja o maior contador de histórias vivo do rock, e certamente o melhor contador de sua própria história. Sua narrativa é tão impactante e envolvente quanto a sua música. Diria que ele tem um tom melancólico de júbilo. Ao falar do pai, canta às lágrimas. Anima a plateia ao homenagear a E Street Band em Tenth Avenue Freeze-out. E talvez seja a melhor versão de Dancing in the Dark, que bem poderia ser Dancing with  the Darkness. Aliás, este poderia ser o título do show.

Aos 68 anos (na época da gravação), Bruce ainda esbanja vitalidade e surpreende com sua capacidade de reinventar-se continuando o mesmo.

 

Minha fama de mau

12/04/2019

Minha fama de mau

Depois que assisti ao filme Minha fama de mau, saí do cinema me coçando pra descobrir o quanto dali era verdade e o quanto não era. Afinal, já estava vacinado com o Bohemian Rhapsody. A diferença é que a biografia do Queen eu já conhecia.

Dito e feito. Boa parte do filme é ficção. Na parte de “origem”, o filme é suficientemente fiel. Faz algumas adaptações aceitáveis, como o fato do Erasmo não estar no escritório quando a esposa do advogado deu o flagra, ou eles terem fugido da polícia quando roubavam o encanamento da casa em ruínas. Por outro lado, alguns eventos abordados no filme estão mais engraçados e “cinematográficos” no livro. Vai entender…

Outras mudanças acabam provocando distorção. Erasmo de fato substitua Carlos Imperial na rádio, se fazendo passar por ele. Mas isso era rotineiro e apoiado por Imperial. Erasmo Carlos já era cantor na época, mas Imperial queria que ele fosse produtor. Esse detalhe é importante porque o afastamento se deu por fato completamente distinto.

Erasmo entrou nos Snakes, que por sua vez surgiu após a implosão dos Sputniks (após a briga entre Roberto Carlos e Tim Maia), e não aquele que teve a ideia do conjunto.

A briga entre Roberto e Erasmo não provocou o fim da Jovem Guarda e nem levou Erasmo àquela depressão profunda. Eles continuaram gravando o programa, mas sem se falarem nos bastidores. Durante a Jovem Guarda, Erasmo morava em São Paulo, e ficou de fato um período perdido após o seu fim. O reboot do astral se deu quando decidiu voltar pro Rio, quando conheceu Narinha em um baile de carnaval, acompanhada por Taiguara.

E não preciso dizer que “Amigo” foi composta quase dez asnos depois do que foi mostrado no filme, né?

Bem, dito isso, ao livro.

O filme retrata muito bem o clima do livro. É a mesma linguagem narrativa. Lances rápidos, episódicos. A autobiografia lembra muito a estrutura da autobiografia de Rita Lee (lançada depois), com capítulos curtos dedicados a temas ou eventos específicos. Com isso, o livro não segue uma cronologia linear. Se ele fala de futebol, ela vai falar tudo sobre a relação dele com o Vasco. Se ele narra um encontro com Chico Buarque, ele fala de todos os causos envolvendo os dois. Há um avanço no tempo, mas cheio dessas idas e vindas.

O livro bem poderia se chamar “Festa de Arromba”, pois ele fala de muita gente: Rita Lee, Ronnie Von, Chico, Gal Costa, Simonal, Jorge Ben (com quem dividiu casa no primeiro ano em São Paulo), Julio Iglesias e muitos outros.

Sobre Roberto Carlos, dedica um enorme espaço, mas de forma bastante superficial e discreta, centrando apenas na formação da amizade e da forma como compõem juntos. Ele sabe o amigo que tem.

Discrição também é a tônica do livro no que se refere aos amigos, pois quanto a ele próprio, não se constrange em fazer revelações bem pessoais. É bem cuidadoso ao falar de Wanderléa e, curiosamente, fala de Maria Bethania sem contar o início da amizade deles. Detalhe que é a única pessoa com quem ele faz isso.

O livro ganha mais linearidade quando ele chega aos 40. Fala do Rock in Rio, das turnês, mudança da cena musical e muito da ex-esposa. Aliás, quase nada acrescenta após a morte dela, por suicídio.

Erasmo não se preocupa em fazer literatura. A linguagem é simples, como quem conta um caso na sala de estar ou compartilha lembranças com os filhos. Algumas podem ser interessantes ou divertidas apenas para os envolvidos. Ainda assim, o saldo é pra lá de positivo.

Um “bônus” do livro é o retrato do cotidiano de cada período, com ruas, armazéns, lojas, produtos e tipos urbanos. Ainda que sem ênfase, Erasmo dá boas pinceladas de crônica urbana.

Um dado curioso, pra mim, é a voz narrativa na minha cabeça. Na fase coberta pelo filme, a imagem que vinha era a do ator, não do Erasmo real. Este só aparece nos anos 70, e quando começa a destrinchar os encontros proporcionados pelo show buisness. Mais maduro, me vinha à mente o saudoso Zeno, pai do meu amigo Carlos Klimick. Sei lá por que cargas d’água eu sempre fiz essa associação: o jeito de olhar, de mexer a boca, o corpanzil. Vai entender…

RINGO

26/02/2019
Ringo

 

A biografia escrita por Michael Seth Starr (“não somos parentes!”), infelizmente, trata-se apenas de uma longa reportaqem escarafunchando tudo o que já foi publicado sobre Ringo Starr. Nem o biografado nem ninguém próximo a ele foi entrevistado exclusivamente para o livro. As entrevistas feitas pelo autor se limitam aquelas feitas com pessoas periféricas ou cuja proximidade ocorreu em algum lugar do passado. Portanto, nada de revelações bombásticas ou insights reveladores. Contudo, a pesquisa é muito bem feita e vale a leitura.

Em primeiro lugar, por ser o menos badalado dos quatro Beatles, a maior parte da sua vida pessoal soa como notícias fresquinhas. Ringo não era exatamente um Don Juan, mas fazia suas farras. E teve três relacionamentos mais sérios na vida, e dois casamentos. E esticou o Lost Weekend de Lennon por quase 15 anos. E nisso podemos encontrar uma surpresa.

Quem conhece os problemas de Ringo com o álcool, logo pensa que foi devido ao pouco sucesso de seus discos ou de sua carreira como autor, ou ainda a sua pouca criatividade, que eles mesmo reconhece. No entanto, ao ler sobre sua vida nos anos 70, chegamos a outra conclusão: seu ostracismo se deveu ao seu alcoolismo, e não o inverso.

Ringo vinha de dois bons discos, Ringo (73) e Goodbye Vienna (74), respectivamente o 3° e 4° da carreira; havia dirigido um documentário sobre o T.Rex e atuado em um filme elogiado, That’ll be the day, que também contava com Keith Moon. Apesar da critica positiva, teve preguiça de participar da sequência, Stardust. Mas o desleixo com que passou a gravar seus discos e escolher seus projetos cinematográficos, pensando mais no quanto iria se divertir, começou a queimar toda a gordura de boa vontade que a mídia e o público tinham com ele. Pra piorar, vieram os terríveis anos 60, que feriu de morte, com raras exceções, os artistas que começaram suas carreiras nos anos 60. Rolling Stones, George Harrison, Jethro Tull, Paul McCartney, Pink Floyd, Bob Dylan, Elton John, a maioria passou por um inferno astral no período. Inclusive no Brasil. No cinema, Ringo ainda obteve um sucesso com Caveman, onde conheceu sua segunda esposa, Barbara Bach, mas precisou de uma baba durante as filmagens pra não enfiar o pé na jaca.

Em 1988, Ringo e a esposa entraram num spa de reabilitação (que funcionou!) e ele recuperou a dignidade e a simpatia da mídia com o lançamento americano da série infantil do trenzinho Thomas, de cuja versão britânica ele havia sido o dublador da primeira temporada (e não continuou porque não quis). Quanto à carreira fonográfica, apesar das críticas bastante positivas ao seu retorno em 1992 com Time Takes Time, o álbum não vendeu. Mas as turnês com a All-Starr Band, iniciadas em 1989, a partir da iniciativa do produtor David Fishof, que praticamente definiu o que o sóbrio Ringo faria até o final da vida.

Em segundo lugar, depois ler biografias de Paul e John, e assistir ao documentário sobre George, foi curioso revisitar o período dos Beatles do ponto de vista daquele que sentava atrás da bateria. Nessa parte, que toma bastante espaço no livro, já se sabe de antemão tudo o que vai acontecer, mas é divertido ver os outros três como figurantes, ainda mais sabendo o que eles estavam aprontando naquela época.

No que diz respeito ao relacionamento de Ringo com os três após a separação, fica evidente o apoio que os três sempre deram à carreira do amigo, principalmente George, no início. Mas John também foi muito generoso. Ringo foi o último Beatle a ver com John com vida. Ele e Barbara estiveram no Dakota um mês antes para falar do próximo álbum de Ringo, uma vez que John havia voltado à música. Ringo conta como ele estava feliz e que separou duas músicas para o amigo: Nobody told me e Life begins at 40. Lennon deixou agendadas datas em janeiro de 1981 para as gravações.

Em terceiro, como costuma ocorrer nessas biografias, o período mais instigante é o pré-fama. Como a pessoa ainda não é famosa, ela vive em aberto, sem se preocupar em se preservar ou falar e fazer besteira em público. E os amigos e conhecidos que ficaram pra trás não se importarão em se sentir importante ao dar entrevistas sobre aquele conhecido famoso.

Por fim, a parte técnica de Ringo é comentada ao longo do tempo. Ringo sofre muito com críticas. Ele se reconhece como uma pessoa pouco criativa e de técnica limitada, mas sabe o seu valor. Por ser autodidata, acabou criando um estilo próprio e até mesmo técnicas próprias que, devido ao impacto causado pelos Beatles, passou imitado por uma legião de jovens bateristas. E todos são unânimes em exaltar a capacidade rítmica do Baterista Mais famoso do Mundo, preciso como um metrônomo. Hoje, Ringo é mais reconhecido por seus pares do que foi nos anos 60, 70 e 80. No final do livro, há um epílogo com depoimentos de Phil Collins, Max Weinberg, John Densmore e Kenny Aronoff.

 

Minha fama de mau

26/02/2019

Minha fama de mau

Na preguiça de me deslocar até um bom restaurante para celebrar meu aniversário a dois, decidi na última hora ver Minha fama de mau, baseado na autobiografia do Erasmo Carlos. Ênfase no baseado, por favor.

Depois de Bohemian Rhapsody, parece que virou moda de vez tratar biografia como obra de ficção, haja vista Marighella. Com o Tremendão não é diferente.

Dito isso, assim como o filme do Queen, Minha fama de mau funciona muito bem como filme. Parafraseando o nosso guia em visita a Windhoek, é tão bom que nem parece cinema brasileiro.

O estilo faz lembrar aqueles filmes britânicos ousados dos anos 90. A direção é muito boa e com uma linguagem pop de altíssimo nível, misturando quadrinhos, imaginação, realismo.

Dizer que Chay Suede convence como Erasmo é pouco. Ele brilha, reinventa e toma posse de um personagem real e célebre. Não se trata aqui da transfiguração de Val Kilmer e Rami Malek, mas de um Christopher Reeve ou de um Morgan Freeman.

Gabriel Leone também não se acovardou ao vestir a pele do Rei. E Bruno de Lucca surpreende no papel do escorregadio Carlos Imperial. O elenco como um todo emoldura bem o o universo do protagonista, sem desequilíbrios. Quem aparece dá o seu recado a altura.

Pra não dizer que só falei de flores, a última cena destoa do resto. Típica cinema nacional ou especial da Globo. O recorte do filme, tendo em vista a longa vida do biografado, é bastante curto. Então não há um final propriamente dito. Ao contrário de Bohemian Rhapsody, o roteirista não conseguiu encaixar um bom gancho para fechar a história, optando por uma cena desgarrada e narrativamente forçada e frouxa.

Mas o deslize é rapidamente varrido pra debaixo do tapete pelos créditos finais com filmes caseiros do Tremendão em família.

Por falar em créditos, filme brasileiro tem tantos produtores e patrocinadores, que a apresentação deles no início do filme faz lembrar a época em que toda a ficha técnica vinha no início. E nada do filme começar…

Silvia Pérez Cruz no Blue Note, Rio de Janeiro, 18/04/2018.

14/02/2019

dscn0596.jpg

Se não fôssemos ao show do Jorge Drexler, nunca teríamos ficado cientes da presença dessa magnífica cantora catalã em nossas terras. Drexler não só a chamou ao palco para três canções (uma delas, solo), como também fez questão de fazer propaganda do show na semana seguinte. Comprei os ingressos na mesma noite.

O Blue Note é pra lá de inadequado. Não só insiste no irritante modelo antimusical das mesinhas, como o espaço entre as cadeiras é constrangedoramente apertado. O som, pelo menos, é ótimo, mas você escuta com a mesma nitidez o cara com coqueteleira detrás do balcão.

Silvia chegou chegando. Falando um português melhor que o amigo Drexler (o que era esperado, pois ela canta em espanhol, catalão e português), esbanjou simpatia, boniteza, timidez sedutora e, o mais importante, a belíssima voz.

Assim como Drexler, deixou a plateia babando ao contar a noite na casa de Caetano com todos tocando e cantando.

Com forte influência flamenca, Silvia transita principalmente pela música popular, adaptando-se facilmente à bossa-nova, ao samba, ao fado e à chanson (sim, ela nos brindou com uma palhinha de Piaf), mas seus discos contém muito experimentalismo, costumeiramente acompanhada por músicos nada tradicionalistas.

Silvia explorou pouco seu repertório autoral, sempre apresentado solo ao violão. Aos poucos foi chamando seus amigos brasileiros para tocar com ela. Marcelo Caldi (Farra dos Brinquedos) na sanfona, André Vasconcellos no baixo acústico, Rafael dos Anjos no violão e Hamilton de Holanda no bandolim. Também tocou um outro violonista (muito interessante) do qual só peguei o sobrenome, Delgado, mas que não era da mesma tchurma. Todos os demais acabaram se juntando em uma superbanda, com Hamilton debandando mais cedo.

Com seus amigos, Silvia preferiu apostar num repertório conhecido do público para mostrar seu lado intérprete. Elencou canções standard, tipo Asa Branca, Carinhoso, Chega de Saudade. Mas, como de convencional Silvia tem pouco, o karaokê logo virava improvisações jazzísticas com sotaque flamenco. E aí mostrou uma versão definitiva para Não deixe o samba morrer.

Se as canções eram batidas para nós, ela parecia se divertir com a possibilidade de cantar tal repertório em um show. Isso dava um raro frescor a algumas canções. Foi mais ou menos o que passou pela minha cabeça ao ver o disco Carminho canta Tom Jobim: para ela, isso deve ser uma aventura.

O show teve dois momentos de êxtase. O primeiro, o dueto com Hamilton de Holanda em Currucucucu Paloma, que ela já havia feito (só soube agora) com ele no Baile do Almeidinha, em 2016, no Circo Voador. Com Jorge Drexler, uma semana antes, ela tinha cantado a mesma música numa versão mais comportada. Com Hamilton, a performance se tornou aqueles momentos mágicos que você simplesmente agradece à vida por ter presenciado (é o vídeo que eu posto aqui).

O segundo momento é no bis, quando ela fica na dúvida do que fazer, as pessoas (inclusive eu) começa a pedir canções do repertório dela, ela se emociona, começa um Acabou Chorare (pedido por alguém) a capella, emenda com Eu sei, da própria lavra, e vai emendando em outras.

Enfim, uma noite fantástica que eu espero que se repita outras vezes.

20180418_224528.jpg

Queen, antes e depois.

14/02/2019

Em um final de semana assisti ao (salvo engano) mais antigo show do Queen lançado em DVD e ao mais recente: Queen Live at the Rainbow ’74 e Hungarian Rhapsody: Queen Live in Budapest.

O primeiro registra as duas noites no Rainbow, em Londres, no encerramento da leg britânica da Sheer Heart Attack Tour, em 1974. Em seguida a banda partiria para o continente e, no ano seguinte, para a sua segunda temporada nos EUA. Freddie Mercury ainda não tinha saído do armário (embora sua performance fosse mais afeminada do que a dos anos 80) e eles alcançavam seu primeiro big hit com Killer Queen.

Queen_-_Live_at_the_Rainbow_'74

No segundo, o Queen toca pela primeira vez do outro lado da Cortina de Ferro, em Budapeste, o que na época era um acontecimento. É o último registro de um concerto do Queen. O de Wembley foi filmado duas semanas antes. Ambos são parte da curta Magic Tour, iniciada em junho de 1986 e encerrada em início de agosto. Devido às críticas ao vídeo de I want to break free nos EUA, Freddie se recusou a tocar no país novamente. Por isso, a última apresentação do Queen na América do Norte foi em setembro de 1982 com a Hot Space Tour. Mas pode haver outros motivos para a curta temporada.

Oficialmente, Freddie foi diagnosticado com Aids em abril de 1987, mas os primeiros rumores surgiram em outubro de 86. E o cantor já vinha apresentando problemas de saúde e falhas na voz há um ou dois anos. É possível que ele já estivesse bolado.

No show de 74, os quatro já apresentam grande domínio de seus instrumentos e muita preocupação com o aspecto visual e teatral da performance. Os movimentos parecem milimetricamente ensaiados. Cabeludo, de rosto liso e mais falante com o público, Mercury já é um showman, mas é possível sentir ainda alguns movimentos ensaiados. O que mais chama a atenção é oi contraste entre o vozeirão roqueiro e rascante com a figura espalhafatosa e delgada do cantor.

Doze anos depois, vemos Freddie mais marombado, pulando e dançando pelo palco com a desenvoltura de quem entra em casa e chega ao quarto sem precisar acender a luz da casa. O visual é aquele que ficou pra história, o cabelo curto e o bigodão. A voz, porém, já não é a mesma. É possível perceber falhas, dificuldade em sustentar algumas notas e falsetes. Mas ele dribla bem as dificuldades com sua experiência.

Difícil dizer, na época, se era a saúde ou a falta de preparo de saracotear e ainda ter fôlego para cantar. Afinal, Freddie estava para completar 40 anos, e muitas cantoras jovens de hoje recorrem ao playback e backing vocals para não deixar a peteca cair.

O mais interessante foi assistir a dois excelentes shows com apenas três músicas repetidas: Seven Seas of Rhye, In the Lap of the Gods… Revisited e Now I’m here.

(Curioso que, se compararmos ambos os setlists com o Queen Rock Montreal, em 1981, da turnê do The Game, há três músicas do Rainbow e novo de Budapest, e apenas uma presente nos três: Now I’m here.)

Nos extras do DVD do Rainbow, há três faixas do show no mesmo palco e no mesmo ano, mas em 31 de março, antes do Queen partir pela primeira vez aos EUA pela Queen II Tour. A imagem está bem estourada.

Imperdível mesmo é o extra de Budapeste, o documentário A Magic Year, de 26 minutos, que mostra os doze meses da banda entre a apresentação no Live-Aid até o encerramento da turnê no Knebworth Park, em 9 de agosto. O documentário é uma delícia, mostrando cenas dos quatro, individualmente, passeando por Budapeste, e entrevistas com Freddie Mercury. Acho que eu nunca havia visto tanto o rosto do John Deacon… ou sequer ouvido a voz dele!

Queen Budapest

Bohemian Rhapsody, o filme

14/02/2019

Bohemian Rhapsody

AkiraReady Player One e V de Vingança são exemplos de obras cujas versões cinematográficas contam a mesma história, só que de uma forma completamente diferente (V se afasta menos do original que as duas primeiras). Esse é o caso do filme Bohemian Rhapsody em relação à história do Queen, ou de Freddie Mercury.

O filme é fiel à música e ao espírito do grupo, mas quem o assistir ficará sabendo muito pouco sobre a história da banda. Se for ficar falando tudo que está errado ou fora da ordem cronológica, esse texto vai ficar maior do que o roteiro do filme. Então, para ser breve, vou me limitar a listar os fatos mostrados no filme que realmente ocorreram mais ou menos da forma como ocorreram.

Freddie desenhou a logo da banda e criou o nome.

Mary Austin viveu com Freddie; eles se separam após ele revelar a ela sobre sua sexualidade; e eles continuaram amigos, sendo ela uma pessoa muito importante para ele.

Eles passaram três semanas em uma fazenda ensaiando as músicas de A night at the opera.

Bohemian Rhapsody foi tocada na rádio pela primeira vez no programa de um conhecido DJ amigo de Freddie.

Jim Beach era o advogado e se tornou o empresário da banda.

Freddie entrou numa onda de festas nababescas e de arromba, com muito sexo, drogas e álcool. Ao mesmo tempo, era bastante reservado sobre sua vida privada e nunca quis posar de ícone gay.

O show no Live Aid foi apoteótico, muito importante para a continuação e união da banda, e Freddie, no dia, enfrentava problemas de garganta. O volume da mesa de som foi aumentado por um membro da equipe.

Freddie começou a namorar um homem chamado Jim Hutton em 1985, que ele havia conhecido brevemente dois anos antes.

Pronto. Agora posso falar sobre o filme em si.

O filme é divertido, engraçado e emocionante. Os atores estão bem, particularmente os empresários e os intérpretes de Brian MayJohn Deacon e Mary Austin. Quando ele começa a tocar We are the champion no filme, praticamente fui às lágrimas. Pena que não tocaram o show todo. Faltaram Crazy little thing called love e We will rock you. Não entendi a ausência dessa última devido o destaque dado à composição dela no filme.

Os fatos que antecederam ao Live Aid são inteiramente ficcionais, mas, como roteiro, funcionam muito bem como preparação para o clímax.

Curiosamente, a biografia da banda escrita por Mark Blake começa da mesma forma que o filme: a apresentação no Live Aid. Não deve ser coincidência. Tive a impressão que o grupo que passa por Freddie ao subir ao palco é o U2. Eles não estariam ali, pois entre o U2 e o Queen teve a apresentação do Dire Straits (no final, quando retornam ao show, é possível ouvir o Dire Straits tocando). A furtiva homenagem não é casual: os irlandeses e o Queen foram considerados os dois maiores “vencedores” do evento. Além disso, reza a lenda que Mercury se chegou todo animado pra cima do Bono no backstage.

Geralmente esse tipo de filme dá bastante destaque ao surgimento da lenda: o início da banda, as dificuldades iniciais até o breakthrough. No caso do Queen, tudo é contado muito rápido. Afinal, há muito história ainda pela frente. A história do Queen e Freddie Mercury renderia fácil dois filmes: um até Bohemian Rhapsody explodir nas rádios; e outro até a morte de Freddie, com, o gran finale no tributo a sua homenagem. Ou mesmo 3, com o segundo abordando até o Live Aid. Como, em um único filme, não dá pra contar a história toda, fizeram muito bem em terminar no Live Aid, e, dramaticamente, ficou excelente antecipar a descoberta da doença. Freddie foi diagnosticado como HIV-positivo em 1987, embora já desconfiasse que as coisas não iam bem pelo menos desde o ano anterior, e enfrentasse problemas de saúde, creditados aos excessos, ainda antes disso.

Sobre o palco, Rami Malek está muito bem como Freddie Mercury. Fora dele, pareceu o tempo todo incomodado com os dentes, como se a boca lutasse contra eles, prestes a expeli-lo. Isso me desconcentrou bastante.

Madeleine in Rio

11/11/2017

20171106_193938_001

Madeleine Peyroux está longe de ser uma grande entertainer, mas conquista com sua simplicidade de quem entra para cantar como se estivesse no pub da esquina. Já os outros componentes do trio, o guitarrista Jon Herington e o baixista Barak Mori esbanjam carisma, além de garantir uma solidez sonora que transforma qualquer bobagem musical em um clássico do jazz.
O setlist também está longe de contemplar os grandes sucessos para agradar ao público. Madeleine canta o que quer, como todo bom artista deve fazer. Seu único erro, a meu ver, foi logo na segunda música desfiar uma série de alfinetadas musicais contra Donald Trump. Não que me incomode em fazê-lo, mas apenas uma canção é pouco para criar um clima de intimidade com a plateia para embarcar nesse tipo de brincadeira.
Assim, o show decolou lá para quinta ou sexta canção, quando manda uma inusitada versão de Getting Better, dos Beatles, e canções como I ain’t got nobody e You can’t catch me. O repertório incluiu uma bela canção argentina e duas brasileiras (Corcovado e Água de Beber), com o espanhol dela soando melhor que o português. Aliás, Madeleine fez questão de traduzir todas as suas falas para o português. Cantou melhor do que falou, naturalmente.
No meio da apresentação, um pequeno descanso para os músicos, e ela emenda um longo e cativante medley ao violão, que inclui uma canção em francês, J’ai deux amours, e Trampin’. Os músicos voltam com uma vibrante Shout, Sister Shout e o novo set termina com um tiro certo: sua versão para Dance me to end of love, de Leonard Cohen. A saída protocolar é seguida de um emocionante bis com, salvo engano, duas canções.
Já havia reparado no Youtube… Estranhamente, Madeleine Peyroux soa melhor para mim nos discos do que ao vivo. Nada a ver com a voz, excelente, ou os arranjos, igualmente excelentes. Há algo na sua presença de palco que parece querer negar o glamour das divas do jazz. Nesse ponto, o Teatro Municipal do Rio de Janeiro não poderia ser palco melhor para a sua apresentação. Uma casa que garante charme a qualquer espetáculo e que, ao mesmo tempo, permite que o público veja os músicos nos olhos, os escute como se não houvesse nenhum aparato eletrônico a intermediar o som entre artista e plateia. Enfim, uma noite absolutamente agradável.
20171106_213344

The Joshua Tree Tour 2017

08/11/2017

20171019_215331

Joshua Tree Tour sempre foi o show que eu quis ver. Acho que eu trocaria todos os shows que eu vi na vida (ok, menos o do Queen no Rock in Rio) para estar em um daqueles shows filmados em Rattle & Hum. Portanto, não preciso dizer o que significou pra mim saber que o U2 iria fazer uma tour especial de 30 anos do disco.

Tratei logo de garantir meu ingresso para um show em Barcelona. O problema é que meu segundo filho estaria recém-nascido. Mas, antes disso, foram anunciados os shows em São Paulo. Vendi o ingresso de Barcelona e comprei duas noites em São Paulo: dias 19 e 22 (primeira e terceira de quatro noites) no Morumbi.

Pela primeira vez, não quis saber de nada sobre a turnê. Não li sobre nenhum setlist, não assisti a nenhum vídeo. Mas, na última hora, deixei escorregar o mouse pro setlist do show em Santiago. Ele era quebrado em três atos: um com quatro músicas pré Joshua Tree, tocados no palco B sem telão. O segundo composto de todo o álbum, na ordem do disco. O terceiro com sucessos posteriores. Talvez tenha sido a turnê mais engessada dos irlandeses.

Costumo dizer que, para ver um show, é preciso vê-lo duas vezes. Na primeira vez, a adrenalina faz com que aquela experiência se dissipe rapidamente. É como back-up. Quem um, não tem nenhum. Por isso, a minha primeira noite, lá no alto da arquibancada em um fim de tarde escaldante, foi como um ensaio geral. A minha segunda noite, nas cadeiras inferiores do Morumbi, em uma noite chuvosa, é que seria a experiência real. Não sei se por isso ou se de fato, a segunda noite foi musicalmente espetacular. Tanto para o U2 quanto para o show de abertura com Noel Gallagher.

Dessa primeira noite guardo, como inesquecível, o snippet de Heroes em Bad e uma versão avassaladora de Vertigo, turbinada pela antecessora Elevation. Mas, acima de tudo, a capacidade de revitalizar uma canção já batida: Sunday Bloody Sunday. Há tempo que sua inclusão no setlist causava um certo enfado. Mas, ali, abrindo o show… ouvir a bateria de Larry como o primeiro “big sound” da noite… espetacular!

O lado negativo, pra variar, veio do público (devo dizer, aliás, que é o primeiro show no Brasil onde a organização estava melhor preparada que o público). Já em Running to stand still, pouco tocada nas últimas turnês, a galera começou a aproveitar pra conversar e consultar seus celulares. Foi assim até o fim do lado B de Joshua Tree: justamente o mais importante pra mim. Como eu tive o azar de NUNCA ter visto ao vivo Running to stand still ao vivo (logo uma das minhas favoritas). Foi uma sequência de sete músicas inéditas!!! Afinal, Red Hill Mining Town nunca havia sido tocada ao vivo. Exit e Trip through your wires, só na Joshua Tree original. As outras três foram tocadas bissextamente.

Fiquei hospedado com minha família em um condomínio ao lado do estádio, bem em frente justamente do portão de acesso à arquibancada daquela primeira noite. À tarde, pude ouvir da minha varanda a passagem de som (a base pré-gravada de Where the streets have no name). Parecia estar dentro de um filme. O som era forte e claro. Dava pra escutar tudo. Estava do lado certo do vento. E assim foi o som em todas as noites: alto e claro. Em menos de 10 minutos após o encerramento com One, já estava em casa com meu filho nos braços. No sábado, abri uma cervejinha e fiquei sentado na varanda só escutando… até o meu filho começar a chorar.

No domingo, lá estava eu de novo. Dessa vez pra valer. A chuva não cessava e chegou a cair durante parte do show do Noel. Mas, como o U2 nasceu virado pra lua, nem uma gota durante a apresentação dos irlandeses. Dessa vez consegui comprar o copão de cerveja e uma camiseta da turnê (não qualquer camiseta, mas a única que eu realmente queria). Coincidências da vida, sentei entre um casal carioca e uma família de Fortaleza, e bem na frente do camarote do São Paulo.

Já no sábado (da varanda) eu havia sentido a resposta do público mais intensa do que na quinta. O mesmo ocorreu no domingo. Se Sunday Bloody Sunday surgiu revitalizada, Pride, que encerra o primeiro ato, soou mais batida e cansada. Senti falta de algo do Boy, como I will follow (que seria tocada na quarta no final, como ocorrido em Santiago) ou Out of control . Um snippet que eu sempre quis ouvir Bono cantando era Rain, dos Beatles. Estimulado pela chuva do dia e o encontro com Paul McCartney no início da semana em São Paulo, lá vem ele com a música toda em Bad. Morri. Na passagem para o set de The Joshua Tree, pude, vendo mais de perto, perceber sutilezas que antes haviam me escapada. É arrepiante!

Por mais sensacionais que sejam, as quatro primeiras músicas eu já havia escutado nos shows anteriores e se tornaram comuns nos setlists da banda. O uso do telão, mais como uma moldura visual das canções do que um registro para quem está vendo de longe, é fantástico. Em I still haven’t found what I’m looking for, ele manda o cover de Stand by me, que toca no encerramento do show e sempre faz a galera cantar. Ele deve ter reparado isso, pois na quinta e no sábado ele não havia cantado. E ficou nítida a improvisação de momento. Durante o lado A, predomina a paisagem panorâmica. No lado B, as imagens são mais interativas.

Em Red Hill Mining Town, o arranjo é todo reformulado e aparece no telão um conjunto de sopros que acompanha a banda. A releitura do hard rock para o coreto da praça é magnífica. In God’d country talvez seja a canção com a versão mais fiel ao disco. Trip through your wires foi, para mim, a grande surpresa da turnê. Mesmo na turnê original, sua execução soava um tanto apagada. Nesta, foi uma das melhores canções da noite. Particularmente no domingo, onde ela começa com uma pegada meio funkeada. One Tree Hill, com sua batida atemporal e moderna, foi a que mais atraiu a atenção do público desinteressado em ouvir o que não conhecia. O vigor de Exit revela o quão equivocado foi o seu prolongado exílio dos palcos. Por fim, Mother of the disappeared foi pura poesia, com um belo solo do Edge.

Pequena pausa e a banda volta com um set matador: Beautiful day, Elevation e Vertigo. O estádio pula sem parar. O falso fim de Vertigo e seu retorno com Rebel Rebel é de lavar a alma. Em novo intervalo, eu comento com o casal do meu lado que eles costumavam tocar Mysterious Ways na turnê, mas que em São Paulo ela tinha ficado de fora. E qual são os acordes que eles tocam na volta? Pois é… na minha segunda noite ganhei uma música a mais.

You’re the best thing about me, música do até então novo single, foi ouvida com polida atenção, mas sem empolgar. O que empolga mesmo é a homenagem às mulheres no telão em Ultraviolet. Já se sabia que apareceria uma homenageada brasileira, só não sabia que apareceriam tantas. Enquanto do Chile aparece Michelle Bachelet, no Brasil eles prudentemente deixaram a política de lado (Tarsila do Amaral, Irmã Dulce, Taís Araújo, Maria da Penha), o que significa que estão bem informados sobre o que se passa por aqui. Por fim, o encerramento com One.

Um show redondo, sóbrio, perfeito. Como o disco celebrado.