Archive for the ‘Bob Dylan’ category

Top 20 – filmes e vídeos de música (parte 11)

02/04/2017

No Direction Home

O cinema e principalmente a TV são repletos de bons documentários sobre artistas, eventos e fases da música. Mas poucos são tão envolventes quanto No Direction Home, filme de Martin Scorsese sobre Bob Dylan, lançado em 2005.

O grande mérito de Scorsese é narrar, em longos 208 minutos, apenas 5 anos da vida do ganhar do Nobel de Literatura. Justamente os mais relevantes. Fazendo um breve apanhado das origens de Dylan, desde sua cidade natal até a chegada em Nova York em 1961, o filme esmiúça o entrosamento do artista com a cena folk em Greenwich Village, a ascensão ao lado da já conhecida Joan Baez, e a guinada do folk para o rock, até o acidente de motocicleta que o obrigou a fazer uma pausa em tudo.

A cereja do bolo, para mim, é a reação contrária dos antigos fãs ao novo som de Highway 61 Revisited, embora Bringing it all back home já apontasse para esse caminho. O auge é a imagem (virtual) de Pete Seeger empunhando um machado para cortar os fios das guitarras.

Com esse enredo, o documentário ganha uma narrativa digna de uma obra de ficção. Apesar da longa duração, não é cansativo, além de não se perder nada ao assistir em dois tempos, assim como o DVD.

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Street-Legal

15/09/2016
street-legal

Street-Legal (1978), Bob Dylan.

Há álbuns que todo mundo idolatra e você, por alguma razão, não acha tão grande coisa assim. Há outros que são massacrados pela crítica, e você simplesmente adora. Este é o meu caso com Street-Legal. Considerado mal produzido, chato, brega, desleixado, mas eu adoro o relaxamento e a virada gospel no som de Bob Dylan.

Talvez os críticos tenham virado o nariz pra onda religiosa de Dylan, mas eu gostei muito de ouvir uma sonoridade diferente da qual estava acostumado. Tudo bem que Señor  (Tales of Yankee Power) soa um tanto bizarra, mas a faixa de abertura, Changing of the Guards é uma das minha canções preferidas de Dylan, posteriormente merecedora de um belíssimo cover de Patti Smith.

Eu diria belo disco para quem quiser ouvir Bod Dylan mas, ao mesmo tempo, deseja ouvir algo diferente.

Top 20 – 1960/1969 (8ª parte)

01/04/2015
Highway 61 Revisited (1965), Bob Dylan.

Highway 61 Revisited (1965), Bob Dylan.

Numa bela tarde, Pete Seeger tentou partir os fios dos amplificadores de Bob Dylan a machadadas. Dylan, até então o queridinho do folk americano, havia se rendido ao rock and roll e turbinado seu som com guitarras elétricas distorcidas. Para muitos, imperdoável!

Dylan não era nada bobo e, ao contrário de muitos de seus companheiros da cena folk, nada ligado a ideologias. Ele queria mesmo é fazer sucesso. Influenciado indiretamente pelos Beatles, na mesma medida em que John Lennon era influenciado por suas letras, o jovem bardo do violão e gaita percebeu que a eletricidade era o caminho. Via The Byrds, que eletrificaram um de seus hits, Mr. Tambourine Man, fazendo mais sucesso do que a versão original, é possível que Dylan tenha percebido que corria o risco de ficar pra trás. A versão dos Byrds é considerada a pedra fundamental do folk rock.

Ele já tinha passado por algo assim antes. Em seu primeiro álbum, de 1962, Dylan pegou emprestado uma versão de House of The Risin Sun de Dave Van Ronk, sem pedir. A canção fez sucesso e Dave virou o cara que tocava a “música do Bob”. Logo depois, The Animals gravou uma versão eletrificada e Dylan a deletou de seu repertório pra não ser visto como o cara que tocava a versão dos Animals. Claro que isso não chegou a ocorrer com Mr. Tambourine Man, que era uma composição sua, mas certamente ele resolveu repensar as coisas.

No álbum anterior, Bringing It All Back Home, de onde saiu Mr. Tambourine Man, Dylan já flertava com o rock, mas é em Highway 61 Revisited que ele marca a sua conversão ao estilo, com muita influência do blues. Se a fase anterior ainda aquece os corações de velhos hippies e até mesmo senadores da república, é este salto que lhe abre os horizontes (não só para o rock, como é próprio do rock) e o coloca de vez entre os grandes da história da música.

A faixa de abertura é arrebatadora, um ícone, um mito: Like a Rolling Stone, produzida por Tom Wilson, o mesmo que havia recriado pouco antes a dupla Simon & Garfunkel com The Sound of Silence. Essa música serve de porta e de guia para tudo o que acontece na carreira de Dylan a partir de então. Incluindo o próprio álbum.

O disco chama atenção não só pela já conhecida habilidade de Dylan como compositor e letrista, mas também pelos arranjos e sonoridade. Outras faixas mereceram covers de grandes artistas. É um álbum pra se ouvir da primeira à última faixa sem perder o interesse, com pelo menos mais duas obras primas: Ballad of a Thin Man e Desolation Row.

Ballad of a Thin Man ao vivo em 1966.

*****

The Velvet Undeground & Nico (1967).

The Velvet Undeground & Nico (1967).

De um álbum icônico a outro. De um artista influente a outro. Sou da opinião que o Velvet Underground é uma das bandas mais influentes da História do Rock depois dos Beatles. Isso é 1967, gente! Gravado em 1966! Sgt. Pepper’s nem tinha saído forno (mas Revolver já!). E tem banda hoje em dia se achando moderna fazendo o que Lou Reed e companhia já faziam há 48 anos atrás!

Som sujo, guitarras distorcidas, atonalidade, letras pesadas, crônica underground, visual proto-punk… não foi a toa que o álbum foi muito mal recebido comercialmente na época. E quem foi o responsável por ele ter sido lançado por uma grande gravadora? Tom Wilson! O mesmo que produziu The Sound of Silence e Like a Rolling Stone (estou cada vez mais fã desse cara!).

Considerando que o Velvet fez dois ótimos discos depois de seu álbum de estreia, fica difícil imaginar como o famoso “Disco da Banana” soaria se Andy Warhol, o padrinho da banda, não tivesse empurrado a estranha Nico goela adentro. A estranhíssima modelo alemã canta apenas 3 músicas. É possível imaginar Lou Reed cantando All Tomorrow’s Parties e I’ll be a your mirror (nesta, até mesmo Maureen Tucker poderia se arriscar nos vocais) sem maiores alterações. Mas Femme Fatale é impensável sem ela. Quer dizer… até ouvir o cover arrepiante do Big Star.

Como passou a ser comum no universo do pop/rock, o Velvet Underground foi concebido pra ser não apenas um grupo musical, mas um happening, uma performance artística, um impacto cultural. Nesse ponto, Warhol estava realmente à frente de seu tempo.

Mesmo assim, musicalmente o álbum funciona que é uma beleza. A dupla Lou Reed e John Cale é responsável por clássicos do rock como I’m waiting for the man, Venus in Furs e a sensacional, fantástica, incomparável, inesquecível Heroin.

As baladas Sunday Morning e There she goes again apontam para o caminho trilhado por Reed, já sem Cale, no terceiro álbum da banda, também presente neste Top 20.

Mas nem tudo são flores. Aqui também estão presentes as doideiras atonais que ganham maior destaque no álbum seguinte, White Light/White Heat.

Femme Fatale ao vivo no Bataclan, em 1972, com Lou Reed, John Cale e Nico.