Archive for the ‘Caetano Veloso’ category

Caetano 75

08/08/2017

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Lá em casa a gente escutava MPB desde criança por causa do meu pai, mas ele não curtia os baianos. Só Gal Costa teve vez por causa da minha irmã. Da Maria Bethania, creio que só um mísero disco. Bem, e aquele ao vivo com o Chico Buarque. Mas é porque lá era “Chico fã clube”. Chico e Elis Regina, acima de tudo, seguido de Vinícius de Moraes com Toquinho e Baden Powell. De Caetano Veloso, com Caetano, só conhecia Alegria, Alegria e Leãozinho.

Gilberto Gil também não entrava, embora conhecesse muito mais canções de Gil, que tocavam no rádio e na TV. E, claro, a épica Domingo no Parque, que tínhamos em um vinil com uma coletânea de canções da época dos festivais, a qual incluía Alegria, Alegria.

Meu irmão foi quem furou um pouco o “bloqueio” e comprou dois discos dele, Outras Palavras e Cores, Nomes, que eu não parei pra escutar até chegar à faculdade. Só fui parar mesmo pra ouvir Caetano na época do programa Chico & Caetano na Globo.

Na faculdade, houve a virada. Era um fã de Chico em meio a uma horda de fãs de Caetano. No final da faculdade, ouvi de um colega, Hugo Sukman, que eu era quem tinha razão: enquanto todo mundo falava do baiano, eu dizia que o bom era Chico. Frase com a qual ele passou a concordar. A ironia é que eu já havia passado completamente pro time de Caetano.

O bom do Chico dos anos 70 é que ele não tapava buraco. Nenhuma faixa estava ali por acaso. Assim como nenhuma frase em suas músicas estava ali só pra fechar a estrofe. Mas depois desandou. Diziam que o combustível de Chico era a rebeldia política. Finda a ditadura, Chico caiu na mesmice com alguns rompantes de inspiração.

Caetano, por sua vez, ainda que tenha sido atingido pela pasteurização dos anos 80, sempre foi inquieto, um experimentador. Assim, nunca envelheceu. De tempos em tempos encontrava um veio musical e o explorava até esgotar. Se os fracassos de Caetano fazem ranger os dentes e estourar a paciência do ouvinte, seus sucessos são revigorantes. Caetano é uma fênix que renasce antes mesmo de se tornar cinzas.

Hoje, tenho toda a discografia de Caetano (exceto um ou outro ao vivo), Mas, de Chico, só até o disco da samambaia (em CD, pois em vinil tinha ido um pouco mais longe, comprando “Vida” e “Almanaque”).

Ainda hoje, aos 75 anos, Caetano pode soar tão jovem quanto a última revelação da temporada.

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Top 20 – filmes e vídeos de música (parte 4)

05/02/2017

caetano

Quando Caetano Veloso fez 50 anos, em 1992, a finada TV Manchete levou ao ar um excelente documentário em 5 partes de uma hora cada, de segunda a sexta. A última parte, na verdade, foi um especial da turnê Circuladô ao Vivo, que virou fita de VHS. O documentário, até onde eu saiba, não foi lançado. O que é uma lástima.

Os quatro primeiros capítulos, que são o que importa aqui, seguem uma linha meio solta, abordando as origens em Santo Amaro, as influências musicais, o Tropicalismo, o exílio, literatura.

O documentário é baseado no seguinte tripé: viagem de Caetano e a família (Zeca recém-nascido) a Santo Amaro, com entrevistas e cenas em família; músicas do show Circuladô; e entrevista em uma sala só com banquinho e violão, onde ele desfia diversas músicas de lavra própria, canções antigas e de significado especial.

Pra quem gosta de caetanear de vez em quando, o especial da Manchete é imperdível. Caetano está solto, relaxado, e até simpático. Aos 50, está cantando o fino, demonstrando ter total controle de sua voz. Creio que a turnê do Circuladô marcou o seu auge como cantor e intérprete. E esse momento de vida transpiras nas versões cantadas só ao violão durante a entrevista. Destaque para a melhor versão de As Curvas da Estrada de Santos.

O show marcou a revelação da visita que Roberto Carlos lhe fez em Londres, que levou o Rei a compor para ele Debaixo dos caracóis de seus cabelos. Eu conhecia essa história desde a minha infância. Achei na época que meu pai estava me provocando, insinuando que Roberto Carlos era gay. Afinal, pra mim era uma canção de amor, e ele não entrou em detalhes sobre as razões. Depois, achei que, assim como eu sabia, todo mundo também soubesse. E foi com surpresa que vi meus colegas de faculdade e a imprensa tratando aquilo como uma novidade, uma grande revelação. Eu era detentor de um segredo e nem sabia. E lá se foi minha chance de tirar chinfra com os amigos.

É possível encontrar o especial no Youtube, mas a versão que eu encontrei estava incompleta. Talvez como documentário, dirigido por Walter Salles, o especial não seja nada marcante, mas foi graças a ele que Caetano deixou de ser para mim mais um cantor de MPB e passou a ser meu favorito.

Quando entrei na faculdade, a galera endeusava Caetano, e eu chamava a atenção para o valor de Chico Buarque. Já lá pro fim, eu estava babando por Caetano enquanto meus amigos me falavam “você tinha razão, Chico é foda!”. Sempre na contramão…

Aqui a parte 1 do documentário.

Top 20 – Álbuns ao Vivo (parte 10)

10/01/2016

Alguns álbuns ao vivo se destacam por registrar todo o esplendor criativo de um artista ou banda em um determinado momento carreira ou por sintetizar em um único momento toda a sua até então. Álbuns como Paris, Alchemy, Wings Over America e It’s too late to stop now certamente se encaixam em suas respectivas discografias dessa forma.

Em sentido oposto, alguns shows se destacam justamente por conter o registro de um momento singular de toda uma carreira. Alguns álbuns da série MTV Unplugged funcionam assim. Mas há outros exemplos de excepcionalidade, como o show de Chico Buarque e Maria Bethania no Canecão ou o encontro de Jimmy Page com os Black Crowes no The Greek.

Na sequência dos meus 20 álbuns ao vivo preferidos, listo um exemplo de cada um, onde os artistas conseguem, seja pela excepcionalidade, seja pela síntese artística, atingir resultados verdadeiramente brilhantes.

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Circuladô ao Vivo

Circuladô Vivo (1992), Caetano Veloso.

Curiosamente, o primeiro álbum solo ao vivo de Caetano Veloso surgiu após 20 anos de carreira, e foi em formato acústico, só voz e violão, chamado Totalmente Demais, gravado no Golden Room do Copacabana Palace. Até então, ao longo dos anos 70, só shows com outros artistas: Gil, Chico, Bethania, os Doces Bárbaros. Lembro-me de um show no Circo Voador, em meados dos anos 80, com formato também acústico, mas com banda completa, que desfiava um repertório muito semelhante ao dó álbum Caetano Veloso (1986), igualmente acústico, feito para o mercado norte-americano, que já renderia um excelente disco (ou fita VHS) ao vivo.

Mais foi apenas em 1992 que Caetano botou na rua um disco ao vivo que registrava todo o seu esplendor sobre o palco: Circuladô Vivo. Desde então, Caetano passou a lançar um disco ao vivo para cada álbum lançado, com exceção do A Foreign Sound.

Depois de passar os anos 80 com uma sequência de discos meia-bomba, foi com Circuladô que Caetano ressurgiu como um artista de álbuns, e não apenas compositor de grandes hits radiofônicos perdidos em meio a faixas inexpressivas, embora o álbum anterior, Estrangeiro, já apresentasse um processo de recuperação nesse sentido.

A turnê do Circuladô foi muito mais do que um show, ela marcou os 50 anos do artista, que rendeu um belíssimo especial na finada Rede Manchete, com cinco capítulos que foram ao ar de segunda a sexta, entremeando músicas de uma apresentação no Imperator com entrevistas, filmes antigos e cenas em família. Também havia música nas entrevistas, com versões emocionais de Cabelos Brancos, samba de Herivelto Martins, e Curvas da Estrada de Santos, de Roberto Carlos.

No material registrado em CD duplo está o que há de melhor em Caetano. Mano a Mano de Carlos Gardel, acompanhado apenas do violoncelo de Jaques Morelembaum, representa todos os tangos e boleros constantes de sua discografia desde Cambalache, em 1969.

O resgate de sambas antigos, outra constante na carreira, com Quando eu penso na Bahia, de Ary Barroso, e Disseram que eu voltei americanizada, feito para Carmen Miranda.

Homenagem à Bossa Nova em Chega de Saudade e ao frevo, com os seus Chuva, suor e cerveja e A Filha da Chiquita Bacana.

Lá está também a reinvenção de canções da MPB, elevando-as a novo patamar, dessa vez com Oceano, de Djavan, uma música que sempre considerei chatinha e clichê, mas que na interpretação de Caetano ganha contornos épicos.

Lá está também os covers dos ídolos estrangeiros como Bob Dylan, numa versão de Jokerman superior ao original (bem, quando se trata de cover de Bob Dylan, isso costuma mesmo acontecer), e Michael Jackson, já abrasileirado anteriormente em Billy Jean (no tal disco de 86 e também no já citado show no Circo), dessa vez com Black or White, que serve de introdução a Americanos. Sim, o show também tem aquelas composições novas inéditas e experimentais que nem sempre funcionam muito bem, mas nada tão constrangedor quanto As Camélias do Quilombo do Leblon, apresentada na recente turnê voz e violão junto com Gilberto Gil.

Alguns clássicos que antes não me encantavam (devido possivelmente aos insossos arranjos típicos dos anos 80) ganharam versões brilhantes, delicadas e repleta de nuances, como Queixa e Você é Linda, além de eternos clássicos do top de Índios e Sampa. A batida Leãozinho é renovada com um acompanhamento solo do baixo de Dadi, para quem a canção foi composta.

Das faixas do disco que deu origem à turnê presentes no show, só sobreviveram ao disco Circuladô de fulô, Itapuã e A Terceira Margem do Rio, menos da metade das apresentadas ao vivo.

E, claro, tem também o momento confessional, de conversa com o público, histórias emotivas e, para alguns, surpreendentes. No caso, a história por trás de Debaixo dos caracóis dos seus cabelos, que Roberto Carlos compôs sobre o exílio de Caetano em Londres.

A excelência do show não se limita apenas ao repertório, mas principalmente aos arranjos de Morelembaum. A sonoridade retrata toda a complexidade de Caetano, com guitarras roqueiras, batuques, distorções, cordas e o velho banquinho e violão. Tudo na medida certa. Talvez só tenha ficado de fora a fase londrina, que, de alguma forma, fez-se representar pela canção do Rei.

Queixa ao vivo.

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Live in Dublin

Live in Dublin (2006), Bruce Springsteen with The Sessions Band.

Em 2006, Bruce Springsteen decidiu gravar um álbum baseado no repertório de músicas tradicionais resgatadas por Pete Seeger. Entretanto, nas mãos de Bruce, as canções folk ganharam uma roupagem mais adequada ao seu habitual wall of sound, e banjos, acordeões, tubas e violinos mesclaram-se à guitarra elétrica. Tanto melhor! Disco-tributo costuma pecar por excesso de respeito ao material original. Se We Shall Overcome: The Seeger Sessions (2006) fosse um disco de folk tradicional como gravado por Seeger, provavelmente seria teria se tornado uma nota de rodapé na carreira de Bruce.

Com o pé na estrada com sua The Sessions Band Tour, aquelas versões foram turbinadas pela mitológica energia de Bruce ao vivo. Quando chegou a Dublin no final da terceira leg da turnê, a Sessions Band havia se tornado um todo compacto, uma máquina musical e coreográfica perfeita. Nada menos do que 18 músicos sobre o palco, com intensa movimentação, numa aparentemente descontraída confusão, sem ninguém se atropelar, sem nenhuma trombada. E com cada músico tendo pelo menos um momento de brilho sob os holofotes ao longo do espetáculo. Uma grande festa!

We Shall Overcome é o primeiro e único (até o momento) álbum de Bruce com músicas que não são de sua lavra. Compositor prolífico, nunca houve muito espaço para covers em seus álbuns, apenas nos shows. Então é no mínimo inusitado um show do The Boss em que metade (ou mais) das músicas apresentadas não sejam dele. Mas se por um lado Bruce aproximou musicas tradicionais ao seu estilo, por outro, fez o caminho inverso com suas composições próprias, adaptando-as à sonoridade do álbum e, consequentemente, da Sessions Band Tour. Assim, enquanto canções como Long time comin’ precisaram de poucas mexidas, If I should fall behind vira uma valsa, Further up (up the road) fica a um passo do gospel, Open all night se transforma numa apoteótica big band dos anos 20 e Growin’ up só é reconhecível pela letra.

Além da excepcionalidade do show em si em relação à carreira de Bruce (a turnê foi muito mais aceita na Europa, onde foi um estrondoso sucesso, do que nos EUA, com casas à meia-bomba), o CD do show não deixa de ser uma excepcionalidade em relação à própria turnê, deixando de fora algumas canções regulares dos shows e eternizando outras que não eram tão tocadas.

Live in Dublin já pertence a uma etapa da indústria fonográfica em que os DVDs são o carro-chefe e os CDs uma espécie de by-product. De fato, até pela magistral apresentação cênica da Sessions Band, o DVD é o produto principal, mas, musicalmente, o CD não deixa nada a dever. Por sorte, o repertório é o mesmo, incluindo os extras.

Uma repaginada Blinded by the light e a arrebatadora O Mary don’t you weep no The Point Theatre, Dublin, em novembro de 2006.

Top 20 – 1960/1969 (1ª parte)

04/02/2015

Retomando o Top of Tops, dou início ao meu Top 20 dos anos 60, o último por décadas. Sendo um Beatlemaníaco, tive que ser honesto comigo mesmo e estabelecer o seguinte critério: por que eu vou colocar esse disco e não qualquer outro dos Beatles que tenha ficado de fora? E assim a lista de álbuns do quarteto de Liverpool cresceu um pouquinho. Só um pouquinho…

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Odessa (1969), Bee Gees.

Odessa (1969), Bee Gees.

Há algumas coisas a explicar sobre Odessa, um álbum sobre o qual já comentei nesse blog há mais de quatro anos. Trata-se originalmente de um álbum duplo em vinil (CD simples), mas lá em casa só tinha o primeiro disco. Não porque o segundo havia se perdido, arranhado, quebrado ou algo parecido, mas porque ele havia sido lançado na época desse jeito. Muito tempo depois é que fui saber que era um álbum duplo. Considerando apenas o nosso vinil, Odessa ganha seu espaço nessa listagem com méritos musicais de sobra. É um disco robusto, criativo, excelente. Já considerando o álbum na íntegra, talvez as razões afetivas contem mais, pois o segundo disco, ainda que bom, soa mais irregular.

O mais incrível sobre o “nosso” Odessa é que ele foi comprado pelo meu pai, a segunda pessoa mais antirroquenrou que eu conheço (a primeira é meu cunhado). Ao longo da vida, vi meu pai fazer raras concessões ao gênero, como Rock around the clock, Simon & Garfunkel e esse disco dos Bee Gees.

Outra razão afetiva é que uma das faixas embalava um simpático filme inglês que vivia passando nas “sessões da tarde” da vida: Melody (Quando brota o amor, em português), de 1971, que narra um romance infantil. O filme tinha bastante ibope lá em casa, particularmente pro meu irmão, que tem o mesmo nome do protagonista. Outro dia consegui baixar com legendas em espanhol pra mostrar pra minha esposa. Continua simpático.

Sobre o disco em si, é mais um daqueles falsos discos conceituais, como Sgt. Pepper’s, Aqualung etc. Ambicioso, com três faixas instrumentais, algumas incursões no country, mas mantendo uma sonoridade perceptivelmente britânica, algo que desaparece por completo no decorrer dos anos 70. O disco marca também o fim de uma era para os Bee Gees, pois Robin Gibb sai da banda após atritos na escolha do primeiro single.

Apesar do disco contar com baladas típicas do grupo, como First of May (que acabou sendo o single escolhido, cantada por Barry Gibb),  Melody Fair, Lamplight, e corinhos mais típicos ainda, é possível encontrar algumas faixas pouco habituais, como as canções country (Marley Purt Drive e Give your best), Wishper Wishper, Suddenly e Odessa (City on the Black Sea), que beira o psicodelismo. Tinha o hábito de colocar a faixa título pros amigos adivinharem quem cantava. Não é tarefa fácil!

Curioso vídeo de Black Diamond.

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Caetano Veloso (1969).

Caetano Veloso (1969).

A primeira coisa que me vem à mente quando penso nesse disco não voador de Caetano Veloso são as primeiras frases de uma música que não está nele e só foi gravada anos depois: “Quando eu me encontrava preso, na cela de uma cadeia, foi que eu vi pela primeira vez as tais fotografias…” Não tá no disco, mas tem tudo a ver com a época em que foi composto e gravado, o último antes do exílio.

Se Transa, que conseguiu um espaço no disputadíssimo Top 30 dos anos 70, é o meu favorito, esse vem logo atrás. Nesse álbum, Caetano consegue mostrar um pouco de tudo do que virá a ser a sua carreira.

As doideiras de Acrilírico e Alfômega, que encerram (mal) o disco, remetem ao experimentalismo de Araçá Azul. As composições em inglês, Empty Boat e Lost in Paradise, prenunciam a fase londrina e a influência da psicodelia roqueira dos anos 60, também presente em Não Identificado. Marinheiro Só e Atrás do Trio Elétrico marcam o eterno diálogo do tradicional com o moderno em sua obra. No tango Cambalache, o constante namoro com a música dos hermanos. Em Carolina, temos Caetano o intérprete de outros grandes nomes da MPB. Em Os Argonautas, a veia tropicalista. Em Chuvas de Verão, o mergulho nas raízes do samba e da música brasileira. Por fim (mas abrindo o álbum), a simplicidade e despojamento do riso de Irene.

Não Identificado ao vivo, com cabelos brancos, mais de 30 anos depois.

Top 30 – 1970/1979 (8ª parte)

24/07/2013
Transa (1972), Caetano Veloso.

Transa (1972), Caetano Veloso.

A carreira de Caetano Veloso é multifacetada, mas acho que dá pra dizer que Transa é o meu álbum preferido dele. Até a presente fase junto à Banda Cê, era o mais rock’n’roll dele. E não só. A banda formada por Jards Macalé, Tutti Moreno, Moacyr Albuquerque e Áureo de Sousa traz uma sonoridade envolvente e diferente (no Brasil) para a época. Caetano diz que Nine out of ten traz o primeiro som de reggae da MPB. O samba de Monsueto Menezes, Mora na Filosofia, é transformado numa espécie de jazz-rock. Triste Bahia (sobre poema de Gregório de Matos) e  It’s a long way são canções épicas que misturam o regionalismo à estrutura progressiva/psicodélica tão em voga. quantas pessoas não se identificam ao cantar “woke up this morning singing an old Beatles song”? A linda You don’t know me faz hoje a ponte daqueles dias de exílio com os shows do álbum e seus sucessores. No final, a bela balada Nostalgia (That’s what Rock’n Roll is all about) resume com muita simplicidade o astral do disco. Só mesmo Neolithic Man coloco num nível mais abaixo. Encaixaria melhor, talvez, no experimentalismo do disco anterior.

You don’t know me ao vivo em show recente.

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Construção (1971), Chico Buarque.

Construção (1971), Chico Buarque.

Pela discografia e livros escritos nos últimos 30 anos, é difícil entender porque Chico Buarque se tornou uma celebridade além do bem e do mal, cujas declarações quase nunca são contestadas. Mas ouvindo tudo o que gravou nos anos 60 e 70, percebe-se o que está além dos olhos verdes que tanto fazem as mulheres suspirarem. E a tal fama se mostra mais do que merecida.

Voltando de seu autoexílio na Itália, com um pouco mais de ginga na voz, Chico gravou seu 5º e melhor disco da carreira. Mais tarde, ainda na década de 70, lançou grandes álbuns como Meus Caros Amigos e o “disco da samambaia”. Antes, nos anos 60, gravou verdadeiras pérolas da MPB. Mas é em Construção que atinge o ápice de sua poesia, tanto relacionada ao universo feminino quanto à crítica social e política. O malabarismo necessário para driblar a censura só fez crescer sua habilidade como compositor. Tudo isso embalado em arranjos arrojados e marcantes de Rogério Duprat, o maestro do tropicalismo.

A faixa-título, fruto do desafio de compor uma canção com rimas em proparoxítonas, já valeria toda uma carreira. Mas o álbum ainda reserva ao ouvinte canções como Cotidiano, Valsinha, Samba de Orly, Deus lhe pague

Desalento ao vivo.