Archive for the ‘David Bowie’ category

Bowie e Eu

11/01/2016

A primeira imagem que eu tenho de David Bowie não é musical, mas cinematográfica. Um filme esquisito, tenso, de produção inglesa e direção japonesa. Furyo, em Nome da Honra (Merry Christmas, Mr. Lawrence) ganhou notoriedade foi um filme badalado por seus dotes musicais, que não se resumiam ao cantor inglês. A trilha foi composta por Ryuichi Sakamoto, que também atua. O filme tem méritos próprios, mas passa léguas do popular.

Furyo

Furyo (1983), Soundtrack.

Naquela época, sabia apenas da existência de um cantor chamado David Bowie. As músicas que faziam sucesso na época não passavam de jeito nenhum pelo meu filtro anti-pop de adolescente radical. Canções como China Girl e Let’s Dance, do mesmo ano de Furyo (1983), não frequentam meu “toca-discos” até hoje, ainda que me soem agora mais agradáveis. Mesmo sendo fã de Queen, a sua performance ao lado de Freddie Mercury em Under Pressure não me impressionara. Sem conhecê-lo direito, por mim a música funcionaria igualmente bem sem ele. O fato da canção pertencer ao pior álbum da carreira da banda (e que, portanto, eu não comprei) não ajudava a me familiarizar com o cantor.

E então veio o Live-Aid. Quem estava cantando e pulando nos anos 80 sabe que a mediocridade dos shows transmitidos pela Globo vem de longa data, e o especial do Live-Aid certamente se encontra entre os exemplos mais grotescos da emissora. A edição, criminosa como sempre. A duração, pífia! Neste liquidificador (ou melhor, triturador, no caso global) de estilos musicais, certamente não foi o dueto de Bowie com Mick Jagger em Dancing in the Street, mas a animada performance em Modern Love (falha-me a memória ou a canção foi mesmo legendada como “More than love”?) que me chamou a atenção. Tivesse ouvido primeiro a versão em estúdio, a música não teria me empolgado tanto; mas aquela versão em Wembley tinha uma pegada soul-rock contagiante.

Agora devidamente interessado em conhecer um pouco mais de David Bowie, o destino resolveu ser cruel: lá fui eu ao cinema assistir Labirinto. Sim, todas as minhas amigas se derramam com o filme, mas pra mim foi uma tortura chinesa. Pra piorar a situação, Bowie resolve depois explorar com o Tin Machine as possibilidades da música eletrônica. “Eu e Bowie” parecia ser uma relação fadada ao fracasso.

Como se quisesse tentar consertar as coisas, Bowie veio ao Brasil na turnê Sound + Vision. Mas eu não fui. Poderia ter ido, minha irmã e as amigas tentaram me arrastar, mas eu não fui. O fato é que tanto elas quanto outros amigos ficaram um tanto decepcionados com o show. Mas ele acabou rendendo um importante fruto.

A essa altura da minha DR póstuma, vale ressaltar que não havia nenhum disco de David Bowie em casa, nem na casa dos meus primos, o que é particularmente estranho, uma vez que meu primo Sérgio tinha uma predileção pelos britânicos. Aliás, dou-me conta neste momento de outra bizarrice: também não havia NADA de Rolling Stones!!! Vai entender…

Pelo menos isso explica porque tanto Bowie quanto os Stones entraram tardiamente na minha vida. E foi justamente pelo Sérgio, que comprou a coletânea ChangesBowie, lançada na época de sua vinda ao Brasil (já no caso dos Stones eu tive de me virar sozinho mesmo). Fiquei completamente chapado com as 10 primeiras músicas, de Space Oddity (1969) a Rebel Rebel (1974). O Bowie Glitter entrou de vez na minha vida, e eu nem precisava escutar “os outros”.

ChangesBowie

Furyo (1983), Soundtrack.

Na sequência, o Sérgio comprou uma edição maravilhosa de The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, com cinco ótimas faixas bônus, incluindo uma versão ao piano de Lady Stardust muito melhor que a versão original. Infelizmente, nunca mais achei essa edição da Ryko, ou mesmo as caríssimas edições mais recentes.

Mesmo as boas relações acabam sofrendo com o afastamento, as demandas do cotidiano, novas pessoas entrando sem sua vida, novas vidas… Nem sempre temos a oportunidade de retomar aquela conversa que deixamos pra outro dia que acabou não chegando antes que, numa bela tarde, alguém comente “você soube o que aconteceu com fulano?”

No caso de Bowie, retomamos contato com seu surpreendentemente agradável álbum duplo ao vivo A Reality Tour, gravado em 2003 mas só lançado em 2010. Um pouco antes, o lançamento de um show de 72 em Santa Mônica, tão bom ou melhor que aquele imortalizado em Ziggy Stardust: a Motion Picture. Mas pra mostrar que nossa relação não ficaria apenas em reminiscências nostálgicas, eis que surge The Next Day, cheio de boas novas. A resenha de Sílvio Essinger a respeito de Blackstar me encheu de esperanças sobre o último presente de Bowie à vida na Terra. Mas esse papo eu deixo pra outro dia.

 

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David Bowie – Hunky Dory (1971)

19/09/2010
David Bowie - Hunky Dory (1971)

David Bowie – Hunky Dory (1971)

Depois de um longo tempo, volto a postar.

Hunky Dory é o quarto disco de David Bowie. Se o anterior, “The Man Who Sold The World”, foi uma paulada, este é mais leve, quase acústico, apenas com “Queen Bitch” distorcendo mais. E é nele que está a suprema “Life On Mars?”

Sensacional!