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Minha fama de mau

12/04/2019

Minha fama de mau

Depois que assisti ao filme Minha fama de mau, saí do cinema me coçando pra descobrir o quanto dali era verdade e o quanto não era. Afinal, já estava vacinado com o Bohemian Rhapsody. A diferença é que a biografia do Queen eu já conhecia.

Dito e feito. Boa parte do filme é ficção. Na parte de “origem”, o filme é suficientemente fiel. Faz algumas adaptações aceitáveis, como o fato do Erasmo não estar no escritório quando a esposa do advogado deu o flagra, ou eles terem fugido da polícia quando roubavam o encanamento da casa em ruínas. Por outro lado, alguns eventos abordados no filme estão mais engraçados e “cinematográficos” no livro. Vai entender…

Outras mudanças acabam provocando distorção. Erasmo de fato substitua Carlos Imperial na rádio, se fazendo passar por ele. Mas isso era rotineiro e apoiado por Imperial. Erasmo Carlos já era cantor na época, mas Imperial queria que ele fosse produtor. Esse detalhe é importante porque o afastamento se deu por fato completamente distinto.

Erasmo entrou nos Snakes, que por sua vez surgiu após a implosão dos Sputniks (após a briga entre Roberto Carlos e Tim Maia), e não aquele que teve a ideia do conjunto.

A briga entre Roberto e Erasmo não provocou o fim da Jovem Guarda e nem levou Erasmo àquela depressão profunda. Eles continuaram gravando o programa, mas sem se falarem nos bastidores. Durante a Jovem Guarda, Erasmo morava em São Paulo, e ficou de fato um período perdido após o seu fim. O reboot do astral se deu quando decidiu voltar pro Rio, quando conheceu Narinha em um baile de carnaval, acompanhada por Taiguara.

E não preciso dizer que “Amigo” foi composta quase dez asnos depois do que foi mostrado no filme, né?

Bem, dito isso, ao livro.

O filme retrata muito bem o clima do livro. É a mesma linguagem narrativa. Lances rápidos, episódicos. A autobiografia lembra muito a estrutura da autobiografia de Rita Lee (lançada depois), com capítulos curtos dedicados a temas ou eventos específicos. Com isso, o livro não segue uma cronologia linear. Se ele fala de futebol, ela vai falar tudo sobre a relação dele com o Vasco. Se ele narra um encontro com Chico Buarque, ele fala de todos os causos envolvendo os dois. Há um avanço no tempo, mas cheio dessas idas e vindas.

O livro bem poderia se chamar “Festa de Arromba”, pois ele fala de muita gente: Rita Lee, Ronnie Von, Chico, Gal Costa, Simonal, Jorge Ben (com quem dividiu casa no primeiro ano em São Paulo), Julio Iglesias e muitos outros.

Sobre Roberto Carlos, dedica um enorme espaço, mas de forma bastante superficial e discreta, centrando apenas na formação da amizade e da forma como compõem juntos. Ele sabe o amigo que tem.

Discrição também é a tônica do livro no que se refere aos amigos, pois quanto a ele próprio, não se constrange em fazer revelações bem pessoais. É bem cuidadoso ao falar de Wanderléa e, curiosamente, fala de Maria Bethania sem contar o início da amizade deles. Detalhe que é a única pessoa com quem ele faz isso.

O livro ganha mais linearidade quando ele chega aos 40. Fala do Rock in Rio, das turnês, mudança da cena musical e muito da ex-esposa. Aliás, quase nada acrescenta após a morte dela, por suicídio.

Erasmo não se preocupa em fazer literatura. A linguagem é simples, como quem conta um caso na sala de estar ou compartilha lembranças com os filhos. Algumas podem ser interessantes ou divertidas apenas para os envolvidos. Ainda assim, o saldo é pra lá de positivo.

Um “bônus” do livro é o retrato do cotidiano de cada período, com ruas, armazéns, lojas, produtos e tipos urbanos. Ainda que sem ênfase, Erasmo dá boas pinceladas de crônica urbana.

Um dado curioso, pra mim, é a voz narrativa na minha cabeça. Na fase coberta pelo filme, a imagem que vinha era a do ator, não do Erasmo real. Este só aparece nos anos 70, e quando começa a destrinchar os encontros proporcionados pelo show buisness. Mais maduro, me vinha à mente o saudoso Zeno, pai do meu amigo Carlos Klimick. Sei lá por que cargas d’água eu sempre fiz essa associação: o jeito de olhar, de mexer a boca, o corpanzil. Vai entender…

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Minha fama de mau

26/02/2019

Minha fama de mau

Na preguiça de me deslocar até um bom restaurante para celebrar meu aniversário a dois, decidi na última hora ver Minha fama de mau, baseado na autobiografia do Erasmo Carlos. Ênfase no baseado, por favor.

Depois de Bohemian Rhapsody, parece que virou moda de vez tratar biografia como obra de ficção, haja vista Marighella. Com o Tremendão não é diferente.

Dito isso, assim como o filme do Queen, Minha fama de mau funciona muito bem como filme. Parafraseando o nosso guia em visita a Windhoek, é tão bom que nem parece cinema brasileiro.

O estilo faz lembrar aqueles filmes britânicos ousados dos anos 90. A direção é muito boa e com uma linguagem pop de altíssimo nível, misturando quadrinhos, imaginação, realismo.

Dizer que Chay Suede convence como Erasmo é pouco. Ele brilha, reinventa e toma posse de um personagem real e célebre. Não se trata aqui da transfiguração de Val Kilmer e Rami Malek, mas de um Christopher Reeve ou de um Morgan Freeman.

Gabriel Leone também não se acovardou ao vestir a pele do Rei. E Bruno de Lucca surpreende no papel do escorregadio Carlos Imperial. O elenco como um todo emoldura bem o o universo do protagonista, sem desequilíbrios. Quem aparece dá o seu recado a altura.

Pra não dizer que só falei de flores, a última cena destoa do resto. Típica cinema nacional ou especial da Globo. O recorte do filme, tendo em vista a longa vida do biografado, é bastante curto. Então não há um final propriamente dito. Ao contrário de Bohemian Rhapsody, o roteirista não conseguiu encaixar um bom gancho para fechar a história, optando por uma cena desgarrada e narrativamente forçada e frouxa.

Mas o deslize é rapidamente varrido pra debaixo do tapete pelos créditos finais com filmes caseiros do Tremendão em família.

Por falar em créditos, filme brasileiro tem tantos produtores e patrocinadores, que a apresentação deles no início do filme faz lembrar a época em que toda a ficha técnica vinha no início. E nada do filme começar…