Archive for the ‘Foo Fighters’ category

Top 20 – filmes e vídeos de música (parte 10)

16/03/2017

Chegou a vez de falar dos documentários em série.

Sonic Highways

Sonic Highways, do Foo Fighters, já foi esmiuçado neste blog, onde comentei cada um de seus oito episódios. O documentário de 2015 registra o processo de composição e gravação de cada uma das oito músicas do álbum homônimo. Mas esta não é a melhor parte da história. Cada faixa é gravada numa cidade diferente dos EUA. As cidades não são escolhidas aleatoriamente, mas devido a sua importância musical. Em cada cidade, é escolhido um estúdio que serve como fio condutor da história narrada. Imperdível para os amantes da música.

Beatles Anthology

The Beatles Anthology foi televisionado em 1995 em três episódios de 2 horas (formato americano) ou seis de 1 hora cada (formato inglês, que foi o usado no Brasil). Mas bom mesmo foi o lançamento no ano seguinte da caixa em VHS (posteriormente em DVD) da versão estendida, com oito episódios que somam mais de 11 horas de entrevistas (novas e de arquivo), cenas de shows e programas de TV. O material é farto, mas, ainda assim, muita coisa é deixada de lado, e pergunta-se por que foram. A mais sentida foi o show completo sobre o telhado da Apple na Savile Row. O documentário teve sua versão em CD (três álbuns duplos) e livro (um tijolaço!). Ninguém pode se dizer Beatlemaníaco sem ter visto Anthology. Um épico!

Sonic Highways, o documentário

23/04/2016
Sonic Highways

Sonic Highways (2014), Foo Fighters.

A série Sonic Highways, produzida e conduzida por Dave Grohl, é composta por 8 episódios de uma hora cada. Em cada um ele visita com o Foo Fighters um estúdio em uma cidade diferente nos EUA. A cidade é escolhida por sua importância na história da música americana, por ser polo de atração de músicos para gravação ou mesmo por motivos pessoais. O estúdio escolhido pode ter tido ou não importância nestes contextos, ser novo ou antigo, mas sempre tem uma história interessante para contar. A ideia surgiu com o aniversário de 20 anos da banda. Foi uma forma que eles encontraram de mudar um pouco a dinâmica do processo de composição e gravação.

Para quem não gosta de Foo Fighters, ou não é tão fã da banda assim como eu, não pense que a série não vai lhe interessar. Se você gosta de música, gosta de ler e saber sobre música, a série é obrigatória. Trata-se na verdade de um documentário sobre música, a indústria musical, estúdios míticos, e um pouco sobre a história de cada cidade visitada. O resultado final é um delicioso painel sobre a música americana como um todo, não só o rock, ainda que ele seja o centro gravitacional de tudo. Apenas no final dos episódios você ouvirá Foo Fighters, quando é apresentada uma música do álbum homônimo, em tese composta naquele estúdio durante as entrevistas, impregnada das histórias contadas e da atmosfera local.

Dá pra perceber uma estrutura narrativa na série como um todo, ainda que não seguida à risca. Começa com um descortino sobre a música na cidade, a sua importância, os estúdios, os artistas que lá gravaram, os produtores, os estilos que marcaram época. Depois, um pouco da história pessoal de Dave Grohl ou de algum membro da banda, o presente da cidade e da cena musical, reflexões sobre o passado e algumas considerações sobre o futuro. E, claro, o clipe com a música do novo álbum.

Chicago

O primeiro episódio da série se divide em duas narrativas paralelas: o blues e o punk. Há, portanto, um recorte bastante pessoal ao falar de uma cidade tão plural musicalmente como Chicago. Portanto, nada da rivalidade entre New Orleans e Chicago no jazz. Algo sobre assunto pode ser visto no simpático filme New Orleans (1947), de Arthur Lubin, com a participação de Louis Armstrong e Billie Holiday. Muito dessa história diz respeito à migração de negros do sul para a região. E é assim que Muddy Waters, considerado a pedra fundamental do Blues em Chicago, entra na história. E de Muddy, a história passa direto para Buddy Guy, um dos entrevistados, chegando à Chess Records.

Em algum momento do episódio, a banda fala sobre a diferença de gravar um disco regular e o desafio de compor uma música por semana como todos enfiados em um estúdio.

O outro lado do programa diz respeito a uma história familiar de Dave Grohl. Sua prima, que vive no subúrbio, foi a primeira punk que ele conheceu ao vivo e a cores, e o levou a seu primeiro show de rock: os punks do Naked Raygun. A prima, inclusive, tocava numa banda punk mirim. A Naked Raygun também foi essencial na vida de Steve Albini, dono do Electrical Audio, o estúdio escolhido pelo Foo Fighters. Steve “só” produziu de PJ Harvey, Pixies, Nirvana (In Utero), Jimmy Page e Robert Plant, entre outros. A loja de disco Wax Trax é apontada como essencial para a consolidação de uma cena musical na cidade em torno do punk, da new wave e da música eletrônica.

Deslocando-se um pouco dessas histórias paralelas está o Cheap Trick, do genial guitarrista presepeiro Rick Nielsen (se você acha uma guitarra de dois braços presepada, você não viu uma de cinco!). Rick dá uma canja na primeira faixa do álbum, a boa Something from Nothing, que é também a música tema do documentário, que toca nos créditos iniciais. No fim das contas, o episódio chega a um denominador comum: pessoas que constroem seu caminho do nada.

Washington D.C.

Não tivesse sido o primeiro episódio que vi da série, ainda na TV, sem saber direito do que se tratava, teria estranhado a escolha de Washington D.C. Mas aos cinco minutos tudo se explica: Dave Grohl cresceu em Virginia, e foi lá que começou a tocar profissionalmente como baterista. Então o episódio revela-se como um episódio pessoal do líder do Foo Fighters.

Apesar de ter saído de lá músicos conhecidos como Marvin Gaye e Duke Ellington, a cidade não possuía uma cena musical marcante até os anos 70. Não é a toa que a narrativa começa com o assassinato de Martin Luther King e as revoltas ocorridas em decorrência disso. A música que tomou conta da cena local foi o funk, tendo seu principal expoente o Trouble Funk. Ian McCkaye, vocalista do Minor Threat e guitarrista do Fugazi, sentia-se discriminado por ser branco em D.C. A virada veio com o punk na virada pros anos 80, graças ao surfista e ativista nerd Don Zientara, que abriu o Inner Ear Studios em Arlington e investiu no punk. Foi esse o estúdio que a banda escolheu para gravar a faixa da vez, The Feast and the Famine. Neste episódio, o produtor do álbum Butch Vig, discorre sobre as dificuldades de gravar cada semana em uma cidade diferente, num estúdio diferente, com equipamentos e acústica distintos.

Nessa primeira fase, onde os grupos surgiam, tocavam, mas não eram escutadas nas rádios, destacou-se o Bad Brain, um dos pioneiros do hardcore, uma banda punk de negros, ou, como fazem questão de dizer, de jovens punks. Foi então que Ian McCkaye e o amigo Jeff Nelson resolveram radicalizar o discurso “faça você mesmo” e fundaram a Dischord Records. As bandas produzidas podem não ser as mais famosas, mas influenciaram artistas como Red Hot Chili Peppers e Beastie Boys. Nesse meio tempo, Dave foi descoberto como baterista adolescente de uma banda chamada Mission Impossible e convidado a substituir o baterista do Scream, sua favorita na época, onde ficou por quatro anos. O ciclo se fecha com um show juntando o punk com o funk da capital norte-americana.

Apesar de associarmos Dave Grohl ao Nirvana e à cena grunge de Seattle, ele define a si mesmo musicalmente como um produto da cena punk de Virginia/Washington D.C.

Nashville

Nashville é parada obrigada numa empreitada desse tipo. Muitos artistas vão pra lá pra buscar uma nova ambiência que inspire seu próximo álbum, sem que necessariamente isso se transforme em um disco de country.

A cidade é reconhecida como a capital mundial do country, uma indústria de hits, onde a canção é o mais importante. Nisso, muitas questões autorais são pormenorizas. Um compositor pode pegar seu violão e ir tocar e cantar suas músicas no bar Bluebird, mas na indústria a coisa é diferente. Nashville não acredita em compositores que cantam. A fórmula de sucesso é reunir dentro de um estúdio o melhor cantor e os melhores músicos pra executarem a melhor canção, composta pelo melhor compositor. Por essas e outras que Willie Nelson acabou desistindo da cidade e se reencontrou em Austin.

Nashville se tornou o que é devido a um programa de rádio, Grand Ole Opry, iniciado em 1925. Os músicos e compositores de country eram atraídos para o programa e aos poucos foi se formando a indústria musical. Parte do programa também realça a influência gospel na música country, muito devido à formação religiosa dos artistas e do próprio público.

Hoje em dia, o pragmatismo comercial tem transformado o country numa vertente pop, música para festas, com seus sugar shakers a caminho do mar. Nada muito diferente do que acontece no Brasil com o sertanejo. Produtores como Tony Brown, ex-tecladista de Elvis Presley e Emmylou Harris, mantém-se como focos de resistência. Afinal, se o country é basicamente contar histórias, se essas histórias não soarem como verdade na voz de seus intérpretes, qual o sentido?

Assim, o programa acaba se desenvolvendo em torno dos outsiders de Nashville, aqueles que conseguiram fazer o seu caminho sem curvar-se aos padrões estabelecidos, como Dolly Parton (que disse não a Colonel Parker, empresário de Elvis), Tony Joe White (compositor de Polk Salad Annie), Emmylou Harris e Willie Nelson, além do contemporâneo Zac Brown, que toca com o Foo Fighters na faixa Congregation, e não se prende ao rótulo country. Para Zac, compor não é sobre country, é sobre fazer música.

O estúdio escolhido para o programa é o de Zac, onde antes funcionava o Monument Studios, que por sua vez foi estabelecido onde era antes uma igreja, com instalações bastante rústicas. Grohl reconhece a importância do local na elaboração da música. Tendo no grupo um fã de country, foi difícil evitar que o estilo contaminasse o riff de guitarra. A banda teve de fazer um esforço pra “descountrizar” o arranjo. Parece ter tido sucesso nisso, embora eu tenha preferido a versão original. Congregation tem um arranjo tão legal que é uma pena a parte instrumental não ser mais longa.

Austin

Austin é uma espécie de cena alternativa à indústria de Nashville. Cidade universitária, a cena cultural parece ter sido sempre mais ousada por lá. Mas, musicalmente, a coisa começou a bombar quando Willie Nelson, após não conseguir se encaixar no formato quadradão de Nashville, retornou a Austin e lançou o estilo hippie country.

O episódio começa falando que Austin marcou a música americana com o country e o movimento punk, mas a primeira metade do programa é inteiramente dedicada ao primeiro e ao estúdio escolhido: o palco original do programa de TV Austin City Limits, inaugurado por Willie Nelson em 1976. Ao contrário de Nashville, onde o Grand Ole Opry fez da cidade uma cena musical, foi a cena musical de Austin que tornou o ACL possível. O programa se tornou bastante popular entre os artistas por prover um som de qualidade, algo raro para as apresentações ao vivo da época. Só não entendi por que fizeram tanta onda em torno de um piano encostado, que havia servido há vários monstros da música, que acabou não sendo usado na gravação final.

Esta parte inicial também enche a bola da banda 13th Floor Elevators, considerada o pai do rock psicodélico. Sem desprezar a sua influência na cena californiana, para onde migrou, essa história de onde começou determinado estilo é sempre polêmica.

Aproveitando o gancho do ACL, passam para o blues de Stevie Ray Vaughan, e, finalmente, dedicam menos de dez minutos ao movimento punk dos anos 80, para voltar novamente ao blues de Gary Clark (que participa da faixa gravada em Austin). Parece-me que o punk só foi importante para a própria cena local.

A principal importância de Austin para a música americana revela-se ser o seu papel de polo de atração, seja na abertura para carreiras alternativas, seja pelo ACL e o festival ao qual deu origem, assim como o South by Southwest, evento multicultural surgido em 1987, mas pouquíssimo abordado no programa. Só que o futuro se torna um pouco incerto na medida em que o mainstream ameaça engolir a espontaneidade alternativa que deu fama à cidade, assim como a nova vizinhança avessa a som alto, que fez com que o ACL mudasse de endereço.

É curioso notar que, na abertura do programa, Pat Smear brinca com a guitarra tocando alguns acordes de Bohemian Rhapsody. E não é que God as my Witness/What did I do?, a música que encerra o episódio, não lembra Queen?

Los Angeles

O episódio de Los Angeles talvez seja o mais mal resolvido da série. O problema de se ter um tema com tantas narrativas possíveis, e impossíveis de serem reunidas em uma só, é que a probabilidade de se enrolar é alta. A primeira coisa é que o episódio não é sobre Los Angeles. Começa como se fosse, mas logo deixa de ser. O episódio gira em torno de dois núcleos que eventualmente se confundem.

Um é o estúdio escolhido, o Rancho de La Luna. Um estúdio que tinha tudo para dar errado, mas virou um templo de peregrinação roqueira. Ele fica em Joshua Tree, no meio do deserto californiano, pra lá de Palm Springs. Ele simboliza a crença de que o ambiente faz a música e reflete muito da metodologia de trabalho de Daniel Lanois, que ajudou seus idealizadores a o tornarem realidade (Lanois, Joshua Tree… tudo a ver!).

O outro núcleo é o ambiente musical no qual cresceu Pat Smear, guitarrista do Foo Fighters, que tocava na banda punk The Germs. Fala da “amadrinhagem” de Joan Jett e de um DJ (sósia de Serginho Groisman) que tocou o disco deles pela primeira vez na rádio (só para que parassem de ligar pedindo). Assim, a narrativa salta do Runnways pro The Germs e, paralelamente, para a cena punk do deserto, ancorada por Josh Homme, que, via Kyuss, faz a ponte com o Rancho.

A história do Rancho é ótima, e realmente merecia um episódio só pra ele, mas o problema é que o roteiro não assume isso. Então fica estranho falar dos Germs, que não faziam parte da turma do deserto, ou de Los Angeles sem falar mais nada de Los Angeles além de uma vinheta introdutória. O destaque vai pros urros do baterista Taylor Hawkins durante a gravação da participação especial de Joe Walsh.

New Orleans

O sexto episódio desembarca em New Orleans. Assim como Nashville, a cidade é um atrativo comum para músicos que buscam imersão numa determinada cena musical em busca de inspiração. Particularmente após o Katrina. Só que o som de New Orleans não é relacionado a nenhum estúdio, mas às ruas. Por isso o Foo Fighters escolheu o salão do Preservation Hall, o primeiro lugar onde brancos e negros puderam tocar e ouvir jazz juntos. Inaugurado em 1961 por um branco tocador de tuba vindo de outra cidade, na época as pessoas iam a New Orleans para ouvir jazz e não encontravam um lugar que tocasse.

Dessa vez não há passado, presente e futuro, tudo se funde numa tradição passada de geração a geração. Não só o jazz é abordado, mas também o grupo funk The Meters. O episódio apresenta entrevistas de Dr. John (que todos chamam pelo nome real, Mac) e Allen Toussaint, falecido em 2015. Parece ter sido a etapa onde o pessoal da banda mais se divertiu, com jams caseiras, show pra galera na rua e a dificuldade de tirar Dave do bar.

A música final, In the clear, é uma das melhores do álbum. Caso ainda não tenha ouvido, não espere que a banda tenha tocado jazz em New Orleans ou country no Texas. As inspirações afetam as letras, não o som da banda, que é o mesmo de sempre.

Seattle

É natural que a passagem por Seattle tenha uma vibe diferente. A narrativa se torna muito mais pessoal, baseada nas experiências de Grohl e a história do Nirvana, do Grunge e da Sub Pop. A parte histórica começa direto no The Sonics, dos anos 60, pulando pro Heart e daí direto para o movimento punk que descambou no grunge. O destaque, contudo, fica pro bizarro estúdio escolhido, o Robert Lang Studios, onde ocorreu a última gravação do Nirvana e onde foi gravado o primeiro álbum do Foo Fighters. E também o ex-companheiro de quarto de Dave “entregando” as gravações caseiras que ele fazia na época do Nirvana.

Provavelmente havia uma certa expectativa dos fãs por este episódio. Então foi uma decisão esperta ser o penúltimo. Se fosse o último, soaria como uma egotrip. Se fosse o 1°, daria uma impressão errada do que seria a série. Colocá-lo perdido no meio, talvez fosse um pouco anticlímax.

New York

O último episódio sobre New York é bastante emocional, com entrevistas com a filha de Woody Guthrie, Rick Rubin e Steve Rosenthal, dono do Magic Shop, o estúdio escolhido. Ficaria difícil, por excessivamente extensa, traçar um histórico detalhado sobre a música na cidade. Há reflexões interessantes sobre a mudança da cidade ao longo das décadas, pra pior e pra melhor. O episódio (e a série) se encerra com uma boa participação de Obama.

Pra quem só ouviu o álbum até agora, depois de assistir ao documentário, ele não soará mais o mesmo.

Extras do DVD

Infelizmente, e criminosamente, os extras não estão legendados, algo infelizmente comum em DVDs nacionais, tanto de música como de filmes, mas principalmente nos de música. E não se trata daquele item no cantinho do menu, mas de um DVD inteiro de extras!

A primeira parte é a versão estendida de dez entrevistas, entre elas a de Barack Obama. A segunda mostra o processo de gravação de cada uma das oito músicas do álbum. Algo em torno de 15 minutos para cada faixa.