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Jeff, You and I

24/05/2016
You and I

You and I (2016, gravado em 1993), Jeff Buckley.

Considero Grace um álbum um pouco superestimado, talvez devido à morte prematura de Jeff Buckley aos 30 anos e apenas um álbum oficial lançado. Contudo, ao escutá-lo, é impossível não identificar ali um grande cantor. Seu alcance vocal e capacidade de improvisação superam o pai, Tim Buckley, que era chegado a uns arroubos vocais, mas sem a mesma eficiência nessa seara. Se estivesse vivo, certamente teria chegado ao auge nos anos 2000 e se tornado um dos maiores intérpretes de sua geração. Então, quando ouvimos Grace, na verdade tendemos a ouvi-lo projetando o cantor para um futuro que não ocorreu. Difícil separar as coisas.

Quando Jeff debutou em gravadora, já não era nenhum garoto, como foi com Eddie Vedder e Renato Russo. Portanto, estranho que, aos 28 anos, ao fazer uma sessão de apresentação à gravadora, tenha destilado uma coleção de covers de seu repertório nos cafés da vida. No disco, apenas duas canções são de sua autoria: You and I, que dá nome ao CD que resgata esse momento histórico, e Grace, que dá título ao CD efetivamente gravado e lançado em 1994. Ao mesmo tempo, a única faixa que extrapolou à própria carreira foi o genial cover de Hallelujah. Hoje, quando alguém canta Hallelujah, não o faz sobre a versão de Leonard Cohen, mas a de Jeff Buckley. E certamente ninguém irá lembrar que algum dia Bono a gravou também.

O som de You and I é limpo em quase todas as faixas, facilitado pelo formato guitarra e voz. Entretanto, é muito cru, o que implica dizer que a diferença entre as passagens mais suaves das canções para os momentos mais agudos ou intensos pode ser drástica em algumas faixas, fazendo parecer que o cantor está berrando. Fica difícil ajustar o som em um volume em que se possa ouvir toda a canção de forma satisfatória. Afinal, Jeff não cantava para o microfone, mas para os produtores da Columbia. Não é a toa que a faixa mais bem resolvida nesse sentido tenha sido gravada muitos meses depois, Just like a woman, cover de Bob Dylan. Mas entendo e respeito a opção por não ter deixado o som mais redondinho e deixar o álbum como registro histórico.

Há dois covers de The Smiths no álbum que devem ter deixado Morrissey muito bolado. Logo imagino Leonard dando-lhe um tapinha nas costas e dizendo: “sei como você se sente, filho”.

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