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John Lennon

03/06/2017

John Lennon, a vida

Não costumo ler biografias de artistas que viraram símbolos, pois geralmente a narrativa é capturada pelo mito. Seja para exaltá-lo, seja para contestá-lo. Por essas e outras, nunca me interessei em ler sobre John Lennon.

Entretanto, após ler duas biografias sobre Paul McCartney e pesquisar sobre George Harrison, fiquei interessado em conhecer mais sobre aquele lado da história. Coincidentemente, ganhei de aniversário justamente uma biografia do líder dos Beatles: John Lennon, a vida, escrita pelo jornalista londrino Philip Norman, também autor de Shout!, livro sobre os Beatles execrado por Paul McCartney.

A leitura exigiu fôlego. São 800 páginas sobre 40 anos de vida. São, então, 200 páginas para cada 10 anos. A expectativa é, de saída, uma obra bem detalhada, o que não é frustrada pela leitura. Paul McCartney só aparece depois de 100 páginas. O primeiro capítulo é inusitadamente dedicado a contar a história de Alfred Lennon, filho de John Lennon e pai de John Lennon, o Beatle. Se o livro de Norman tem uma particularidade é justamente o fato de resgatar a figura do pai de John, tido como aquele que abandonou o filho. Lendo o livro, você fica com pena do cara: chifrado incansavelmente pela mulher, execrado pela família dela, ele bem que tentou criar John, a quem amava (assim como um tio, irmão de Alfred, que quis adotá-lo), mas acabou deixando que ele ficasse com a mãe. Não sabemos qual teria sido sua decisão se soubesse que, no fim das contas, o filho seria criado pela tia, e não por Julia. Uma coisa que nunca soube é que, quando ainda era casado com Cynthia, John e o pai se reconciliaram; e só lá pelo final da década John, totalmente surtado, chegou a ameaçar o pai de morte e não mais se falaram.

A mãe, por outro lado, era pintada como a tresloucada incapaz de criar uma criança. Na verdade, Julia queria criar John, assim como o novo namorado. Tanto que, com este, teve mais duas filhas. Trata-se no caso de uma alienação parental por parte da irmã Mimi, que, cooptando o pai (avô materno de John), aproveitou-se da personalidade instável de Julia e conseguiu para si um filho sem ter de passar por situações como sexo, gestação e parto. Extremamente rigorosa e preconceituosa, a Tia Mimi achava terrível que John fosse criado sob um lar “ilegítimo”. Há muita coisa aí que o livro não fala, mas que permite supor que ninguém nessa história era normal. A vítima, claro, foi o menino, que não podia jamais ser alguém normal.

A separação dos pais se deu aos 6 anos. John cresceu com sérios problemas de afeto e sofreu sucessivas perdas nesse sentido em um espaço relativamente curto de tempo. Depois da separação, veio a morte do Tio George, figura paternal e afetuosa que aceitava protagonizar um casamento virgem. Em seguida, a morta da mãe, atropelada. Pouco depois, a súbita morte do melhor amigo, Stu. Mais tarde, a de Brian Epstein. Pra piorar o enredo, logo no início do sucesso, sentiu-se obrigado a se casar ao engravidar a namorada, quando já a chifrava frequentemente com outra, por quem se dizia apaixonado. Nos anos seguintes, repetiu impotente a sina da família: mesmo sem desaparecer como Alfred, foi um pai (e marido) extremamente ausente.

John era uma alma conturbada, bipolar. Uma pessoa bastante insegura, mas que sustentava uma persona confiante e arrogante. Escondia de (quase) todos sua sensibilidade e interesses intelectuais. Tinha rompantes explosivos no qual se tornava uma pessoa fisicamente violenta, além de possuir uma ética um tanto duvidosa. Muitos amigos foram alvo de sua fúria, a quem espancava selvagemente. Algumas vezes sem motivo aparente. Numa delas, quase à morte. Fraco pra bebida, duas cervejas já eram o suficiente pra transformá-lo num ogro. E era praticamente incapaz de pedir desculpas. As drogas, por outro lado, poderiam torná-lo divertido e pacífico, mas também mais paranoico e emocionalmente mais instável que o normal. Ninguém se via livre de sua língua ferina, nem seu filho Julian. Só Ringo nunca foi alvo de seus ataques verbais. Se, com Sean, John foi a vanguarda do pai participativo, com Cynthia foi a caricatura do macho abusivo. E, por fim, tinha um enorme apetite sexual.

Dos aspectos positivos, me surpreendeu a crítica positiva de seus livros e os elogios a suas caricaturas, o Lennon artístico, mas não desenvolvido. Sua língua ferina seria inofensiva não tivesse ele um olhar bem perspicaz sobre as pessoas (pena que tal olhar falhou ante a bajulação de Allen Klein). O talento como compositor, desnecessário comentar. Como amigo, deveria ter mesmo um lado bastante cativante, capaz de compensar sua agressividade.

Até os Beatles assinarem com uma gravadora, Norman teve o mérito de entrevistar qualquer um que tenha esbarrado em John pelas ruas de Liverpool e Hamburgo. Da fase dos Beatles, como ocorre em qualquer biografia ou história do Rock, é impossível escapar da força gravitacional da banda, que passa a ser o foco da narrativa. Já não dá pra falar só de John. Fala-se de George, Paul, Ringo, Brian, Martin, os álbuns, as músicas etc. Depois, a base é, principalmente a versão de Yoko Ono, o que pode gerar alguma distorção. Mas o que importa que a sua visão sobre o casal faz sentido.

Aquela simbiose entre John e Yoko na fase final dos Beatles, que sempre me pareceu ser coisa dela, na verdade foi ideia de John. Com drogas na cabeça, paranoico com a Beatlemania, sufocado com o 1° casamento, órfão de Epstein e sentindo-se aquém de Paul, John quis construir para si um mundo próprio, no qual não tivesse que dar satisfações a e não dependesse de mais ninguém. Entretanto, era incapaz de fazer isso sozinho. Quando surgiu Yoko, pôde abrir mão da banda. Mas levou um tempo para sentir-se seguro para tanto. Na verdade, foi Yoko quem teve de abdicar boa parte de sua vida para viver essa fantasia de John. Algo um tanto inusitado para uma feminista. Coisas que eu não sabia sobre o romance: desde o 1° encontro na exposição de arte, demorou muito pro caso engrenar; Yoko engravidou duas vezes de John e perdeu a criança nas duas vezes de forma traumática.

Após o “lost weekend”, período em que ficou separado de Yoko (por iniciativa dela) em meados dos anos 70, a relação dos dois atingiu outro patamar, Logo de início, Yoko finalmente pôde ter um filho com John. O livro traz um generoso relato desses anos em que ele passou longe da mídia, evitando os amigos que pudessem levá-lo de volta ao álcool, às noitadas e à bebida. O jejum não anunciado de produção artística acabou sendo imposto também a Yoko, que não ficou muito satisfeita com isso. Enquanto se dedicava ao lar, ao filho (na tentativa de compensar o fracasso anterior dele como pai e o do próprio pai) e até à gastronomia, Yoko assumiu o papel de mulher de negócios (a contragosto, apesar de mostrar-se bastante talentosa na função). O John que emerge dessa limpeza física (Yoko, por sua vez, teve uma recaída às escondidas) é um ser solar, ainda temperamental e de língua ferina, mas bem mais tranquilo.

Quando tudo parecia ir bem, quando finalmente parecia estar satisfeito consigo mesmo e com sua família, cheio de planos para o ano seguinte, John é assassinado. Se a volta à ribalta o levaria de volta a velhos hábitos é algo que infelizmente nunca saberemos. Um “p.s.” com uma entrevista com Sean Lennon quase me levou às lágrimas. Creio que isso só não ocorreu porque estava em um restaurante. As páginas finais, com a morte iminente, e justamente quando eu começava sinceramente a amar o personagem (e não só a sua arte), já haviam me deixado com um nó na garganta.

Enfim, dificilmente haverá uma biografia tão completa e honesta sobre John (tão honesta que Yoko acabou por não endossá-la). Nas partes mais polêmicas, como a viagem de John e Brian à Espanha, o autor se limita a fornecer as versões, sem tomar partido ou tirar conclusões. Talvez um livro sobre fases delimitadas (como o livro sobre os anos 70 de Paul) possam servir de complemento, mas só.

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Top 30 – 1970/1979 (12ª parte – final)

05/04/2014

Fechando meu Top 30 dos anos 70, nada mais simbólico do que uma passada de bastão: o último álbum dos Beatles e dois álbuns solo de ex-Beatles.

Let It Be (1970), The Beatles.

Let It Be (1970), The Beatles.

Pra quem estiver estranhando a inclusão de Let It Be, cabe mesmo uma explicação. Apesar das músicas terem sido gravadas no início de 1969, em 1970 rolou uma nada irrelevante pós-produção. Basta dizer que a inclusão de orquestra e coro nas músicas de Paul McCartney por Phil Spector foi a gota d’água para o fim dos Beatles. Além disso, o solo de George Harrison na faixa-título foi gravado em janeiro de 1970.

Geralmente Abbey Road, o verdadeiro “último álbum”, é muito mais elogiado, mas sempre tive predileção por Let It Be, até mesmo comparado ao mítico Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Por muito anos (até porque eu demorei a adquirir o Álbum Branco) este foi o meu favorito da chamada segunda fase da banda.

O clima despojado do álbum, com as conversas e as jams entre as músicas, e canções antológicas como Let it be, The long and winding road, Across the Universe e Get back, lado a lado com pequenas gemas como Two of Us, Dig a pony, I’ve got a feeling, One after 909, I me mine e For you blue, talvez só não atinjam a perfeição devido à mão pesada de Spector.

Portanto, não deixa de fazer parte do “pacote” a versão stripped de 2003, Let It Be… Naked. Mesmo sem as charmosas falas e as jams, mas reforçada pela poderosa Don’t let me down, as músicas dos Beatles nunca soaram tão magníficas. Creio que Paul conseguiu dar o seu recado: “eu tinha razão”.

Gravação de For you blue.

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All Things Must Pass (1970), George Harrison.

All Things Must Pass (1970), George Harrison.

All Things Must Pass foi o primeiro álbum solo de George Harrison, e considerado por muitos como o melhor solo de um ex-Beatle. Originalmente foi um vinil triplo, mas considerei na minha análise apenas o duplo, pois o 3º disco é uma jam session que funciona separadamente do restante do disco.

A força com que Harrison estreou a carreira solo (e que não manteve ao longo da carreira) não deveria surpreender. Enquanto John e Paul conseguiam despejar quase toda sua produção nos álbuns e singles dos Beatles, George tinha muito material represado, a começar pela faixa-título, que teria caído muito bem no Let It Be, mas acabou ficando de fora.

A face mais conhecida do álbum é My Sweet Lord, mas nem de longe é a que melhor o representa. E lá estão What is life e Beware of Darkness que não me deixam mentir. Até mesmo I live for you, um outtake incluído apenas 30 anos depois, é lindíssima.

O disco contou com zilhões de participações, desde Ringo Starr, Billy Preston e Eric Clapton ao pessoal do Badfinger, Bobby Keys e Phil Collins, entre (muitos) outros.

All things must pass em talk show.

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Plastic Ono Band (1970), John Lennon.

Plastic Ono Band (1970), John Lennon.

John Lennon já não queria saber muito dos Beatles e parece que passou 1969 ensaiando pra sua estreia solo. Cansado das ideias mirabolantes de Paul, juntou os amigos – Ringo, Klauss Voorman, Billy Preston, Phil Spector – e fez um disco cru, direto, rascante e sensível ao mesmo tempo. Imagine, o disco seguinte, é sensacional, mas Plastic Ono Band é um álbum que te pega de jeito, no contrapé. Isolation e God são desconcertantemente belas. Em Remember, John se antecipa a Alan Moore em quase 15 anos ao recitar “remember, remember, the Fifth of November”. Mother, apesar de um pouco gritada demais, é marcante. Working Class Hero, presença obrigatória nas coletâneas. Não há uma faixa que permita a indiferença.

O CD inclui mais duas músicas que saíram em singles, Power to the People e Do the Oz, mas que não pertencem ao original, e não costuma haver ressalva a respeito. Vale ressaltar que a primeira foge completamente ao espírito do álbum.

Se, numa realidade alternativa, um novo disco dos Beatles tivesse saído dos primeiros álbuns solos de seus integrantes, Paul só conseguiria emplacar umas duas faixas. Tudo bem que uma delas certamente seria Maybe I’m amazed, e quem compõe uma canção como esta não precisaria fazer mais nada na vida. E Paul já tinha feito “quase nada” antes e fez “pouca coisa” depois. Um luxo!

Mother ao vivo no Madison Square Garden.

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Gostaria de agradecer a AC/DC, Big Star, Black Sabbath, Bob Dylan, Carole King, Cat Stevens, David Bowie, Dire Straits, Elis Regina, Elton John, Eric Clapton, Gilberto Gil, Grand Funk Railroad, Grateful Dead, Los Jaivas, Janis Joplin, The Kinks, Leonard Cohen, Lou Reed, Milton Nascimento e o Clube da Esquina, Mutantes, Nick Drake, Novos Baianos, Patti Smith, Paul McCartney e os Wings, Paul Simon, Ramones, Raul Seixas, Roberto Carlos, Rod Stewart, Sui Generis, Television, Velvet Underground, The Who, Yes e ZZ Top por terem feito esta década discograficamente memorável e tão difícil pra montar essa lista.

Até os anos 60!