Archive for the ‘Johnny Cash’ category

Country Boys

14/01/2015
VH1 Storytellers (gravado em 1997), Johnny Cash + Willie Nelson.

VH1 Storytellers (gravado em 1997), Johnny Cash + Willie Nelson.

Há alguns álbuns que não essenciais ou propriamente imperdíveis, mas que são tão simpáticos… E certamente é este o caso do encontro de Johnny Cash com Willie Nelson para o programa Storytellers do canal VH1, onde os artistas vai apresentando as canções e falando sobre elas.

O show foi gravado após Unchained, o segundo disco de Cash da série American Recordings, ambos produzidos por Rick Rubin. O clima é leve, alegre, no qual se ouve uma dupla afiada e guitarras deliciosamente bem tocadas.

Este programa, junto com o Spectacle do Elvis Costello, está entre os meus programas musicais favoritos, Infelizmente, como não tenho VH1, são raras as oportunidades de assisti-lo. Lembro quando vi Storytellers pela primeira, numa apresentação cativante de Dave Matthews, revelando-se um excelente contador de histórias.

Aqui, Flesh & Blood e Crazy.

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Top 20 – 1990/1999 (3ª parte)

24/12/2011

Set the Twilight Reeling (1996), Lou Reed.

Conheci Velvet Underground por meio do bootleg V.U. que um amigo havia comprado no Museu do Disco, em São Paulo, ainda na era do vinil. Mas tirando Walk on the wild side, mesmo assim via U2 ou Marky Mark; Dirty Boulevard, do álbum New York (que havia dado de presente a um primo, mas sem tê-lo escutado); Vicious, de um Free Nelson Mandela da vida; e o cover de Satellite of Love pelo U2, não conhecia nada da carreira solo de Lou Reed.

Portanto, estranhei quando a minha então namorada resolveu me dar, como primeiro CD de presente em nossa relação, o Set the Twilight Reeling. Estranheza porque tampouco ela era muito familiarizada com Lou Reed ou Velvet Underground. Se foi dica de algum amigo que trabalhava em loja (o que é bem possível), nunca revelou. Seja lá como for, acertou em cheio!

Não há faixa ruim no disco. A qualidade do som e o refinamento instrumental talvez fossem até então inéditos num disco dele. Fazia tempo que não o escutava, mas, ao ouvi-lo novamente, não tive dúvidas de que seria presença garantida nesse Top 20. Todas as emoções provocadas lá pelos idos de 97, 98, estavam ainda presentes.

Egg Cream me lembra inevitavelmente de Roberto Benigni no filme Down by Law, de Jim Jarmusch. Roy Bittan, da E Street Band, participa de Finish Line, música composta em homenagem a Sterling Morrison, do Velvet, recém-falecido. A então futura esposa, Laurie Anderson, participa de Hang on to your emotions. E a faixa-título, que encerra o álbum, sempre me remete a Rock’n’Roll Suicide, de David Bowie, mas nem vou tentar explicar isso.

Lou Reed e Laurie Anderson tocam Hang on to your emotions ao vivo na TV5.

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Unchained (1996), Johnny Cash.

Não fosse o U2 a banda que é, só o fato de ter tirado Johnny Cash do limbo ao convidá-lo pra cantar a última canção do álbum Zooropa, The Wanderer, já justificaria a existência do grupo irlandês.

Coincidência ou não, quando estive em Dublin, pude constatar como é fácil ouvir Johnny Cash sendo tocado nas ruas e pubs da cidade. Um turista mal informado poderia voltar pra casa com a certeza de que Cash era irlandês, assim como Van Morrison.

O ótimo desempenho de Cash na faixa fez uma luz se acender na cabeça do produtor Rick Rubin, que convidou o artista para o projerto American Recordings. O 1º volume é acústico, apenas Cash e seu violão. Já o seguinte, Unchained, conta com vários músicos e uma pequena constelação.

Lindsey Buckingham e Mick Fleetwood, ambos do Fleetwood Mac, participam do country Sea of Heartbreak.

Flea, do Red Hot Chili Peppers, toca em Spiritual, cujo título é auto-explicativo. Junto com Hurt, do 4º volume, é a gravação emocionalmente mais impactante da série. Se nos últimos álbuns Cash já soava como um velho e cansado bardo cantando sua alma, em Unchained isso não ocorre. Sua voz consegue soar jovial em alguns momentos, ou como nos álbuns posteriores quando assim a interpretação da música exige. É o que acontece nessa faixa.

O que Cash faz com a voz no cover do Soundgarden, Rusty Cage, é deslumbrante, atingindo seus impressionantes graves. Outro cover inusitado é a faixa de abertura, Rowboat, do Beck.

Um convidado que participa de todo o disco é Tom Petty, que também mereceu um cover, Southern Accents. Petty também participa, em menor escala, de Solitary Man, o disco seguinte.

Vídeo de Rusty Cage.

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Crash (1996), Dave Matthews Band.

Quando conheci Dave Matthews Band, Before these crowded street era o disco do momento. Mas foi um caminho tortuoso até chegar à banda.

Como acontece muitas vezes, o encontro foi antecedido de pequenos e sutis movimentos. O primeiro, foi um anúncio no Multishow enquanto assistia a um show de uma banda pouco relevante, The Presidents of the United States of America (alguém lembra deles?). Achei o nome Dave Matthews Band meio bobo, e achei que devia ser algo tão desinteressante quanto ao que estava assistindo naquela tarde tediosa de sei lá quando.

O segundo momento foi no terraço do apartamento do meu amigo Pedro. Percebi alguns CDs daquela banda com o tal nome “bobo”. Disse a ele que não conhecia e perguntei se era bom. Ele me respondeu: “você, que gosta de música, faça um favor a si mesmo: escute Dave Matthews Band”. A ênfase me impressionou, e fiquei com aquilo na cabeça.

O terceiro momento foi quando a mãe da minha futura esposa encontrou num banco do Baixo Gávea, em frente a Tracks (uma loja de CDs), uma sacola com CDs recém comprados. Salvo engano, era um do Seal (não gosto), Massive Attack (não gosto), alguma coisa da qual não lembro, e Before these crowded streets, da DMB. Depois de uma semana no quiosque de plantas em frente, aguardando alguém perguntar pela sacola, ela acabou levando os CDs pra casa. Assim, enquanto passava uma tarde na casa deles em Petrópolis, jogando um buraco, botamos os discos pra escutar. Não só gostei do que ouvi da DMB, como achei algo na voz de Dave Matthews muito semelhante ao Eddie Vedder.

Acabou que não foi esse o meu primeiro CD da banda, pois fiquei na expectativa de acabar “herdando o CD”. Mas a casa foi assaltada umas duas vezes, e, em uma delas, levaram os CDs.

Antes de comprar, resolvi pedir emprestado ao Pedro, que gentilmente me emprestou o EP Recently e Crash, que foi por onde comecei. Ao ouvir os primeiros acordes de So munch to say enlouqueci. E a sequência com Two Step, minha música preferida até hoje, foi demais para este pobre coração. Demorou dias para que eu pudesse avançar no disco, pois botava as duas primeiras e repetia tudo de novo. Tudo que vinha depois soava esmaecido, distante.

Claro que depois ouvi o disco inteiro, e outra dupla me encantou: #41 e Say Goodbye. Talvez Proudest Monkey não precisasse de 9 minutos, mas mesmo assim o disco é um prazer aos ouvidos.

Minha primeira providência, claro, foi copiar os CDs e pedir mais emprestado ao Pedro. Mas não demorou muito pra comprar o meu Crash. O Pedro, coitado, acabou emprestando o dele a uma ex-namorada e ficou a ver navios. Retribuí dando-lhe a minha cópia.

Muitos não curtem o pop/jazz da banda, tampouco as longas improvisações que fazem nos shows, mas os discos são bem mais econômicos nesse aspecto, conseguindo maior capilaridade comercial.

Two Step em Woodstock, 1999.

Top 20 – 2000/2009 (10ª parte – Final)

10/12/2011

Binaural (2000), Pearl Jam.

Depois de Yield, todos os discos lançados pelo Pearl Jam foram de lenta digestão pra mim. Acho que levou um par de anos pra começar a dar o devido valor ao Binaural, já após o lançamento de Riot Act, quando fui gravar um CD da banda pra um amigo.

Parte disso se deve a mudanças bruscas de climas ao longo do álbum. Ele se inicia com 3 músicas pesadas, sendo Breakerfall, a faixa de abertura, a minha favorita da série. Depois eles vão se aprofundando cada vez mais em sons viajantes e heterogêneos, o que não torna a audição do disco das mais fáceis.

Se Light Years e Thin Air são mais palatáveis, Nothing as it seems e Parting Ways exigem mais atenção do ouvinte. Na belíssima Soon Forget, Eddie Vedder surpreende com seu novo brinquedinho, o ukelele. E Of the girl, de Stone Gossard, é uma das minhas preferidas, mas fica um pouco perdida no meio do disco. É uma canção que renderia melhor abrindo o disco, como ficou provado no CD ao vivo Benaroya Hall.

Alguns take out foram incluídos na coletânea Lost Dogs, entre eles, Fatal, uma bela música que, inexplicavelmente, ficou de fora. Até porque a sonoridade e o clima sombrio combinam com o álbum.

Binaural marcou a estréia de Matt Cameron, ex-Soundgarden. O baterista se encaixou tão bem no grupo que, hoje, é como se ele estivesse estado lá desde Ten.

O título, por sua vez, refere-se a uma técnica de gravação utilizada em 5 faixas, que cria uma espécie de som 3-D. Parece que a melhor forma de aproveitar esse efeito é por meio de headphone (mas não com mp3), o que, curiosamente, nunca experimentei.

A tour do disco foi registrada no excelente DVD Touring Band 2000, que mostra a banda em ação em diversas cidades americanas. Foi nessa mesma oportunidade que o Pearl Jam lançou a idéia dos bootlegs oficiais pra combater a pirataria mercenária, irrigando o mercado com mais de 70 álbuns ao vivo, dos quais tenho apenas o Live at Wembley, fácil de encontrar no Brasil.

Of the Girl abrindo o show de 15/7/2006, em San Francisco.

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American Recordings III – Solitary Man (2000), Johnny Cash.

Fazer uma lista de quem Rick Rubin produziu nos últimos 30 anos é quase um resumo da história do rock. Mas o produtor já garantiria sua relevância apenas por ser responsável pela série American Recordings com Johnny Cash. O encontro rendeu 6 álbuns, sendo dois deles póstumos.

As gravações misturam composições de Cash com diversos covers, nem todos de country e folk. Em The Man Comes Around, IV volume, a faixa título talvez seja a melhor canção inédita do compositor na série. E Hurt, do Nine Inch Nails, o melhor cover. As versões de I Hung my head (Sting) e Personal Jesus (Depeche Mode) também estão excelentes, mas nas versões de Desperado (Eagles), In my life (Beatles) e Bridge over troubled water (Simon & Garfunkel), esta com participação de Fiona Apple, não conseguem ir além de simples covers, sem agregar valor à música original ou imprimir identidade própria à canção, como fez em Hurt e Further on (up the road), de Bruce Springsteen, no V volume.

Assim, acabei optando pelo III volume, Solitary Man, para marcar os discos da coleção lançados nessa década. O álbum conta com um cover de One, do U2, que, se não chega a ser inesquecível, impressiona por dar identidade própria a uma canção mais do que badalada (e quem fala isso é um fã de U2!), e de The Mercy Seat, do Nick Cave. Há também participação da esposa, June Carter, Tom Petty e Sheryl Crow.

Os três álbuns lançados no período 2000/2009 são excelentes, mas creio que o III volume mantém o mesmo alto padrão da primeira à última faixa.

Versão de One, aqui.

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All that you can’t leave behind (2000), U2.

Lançado no final de 2000, All that you can’t leave behind marca o retorno do U2 ao topo do pop/rock internacional, depois de esticar demais a corda do experimentalismo nos anos 90. Àquela altura, muitos não acreditavam na volta por cima dos irlandeses, após o péssimo início da Popmart Tour, com estádios pela metade, o relativo fracasso do Pop, e a ausência de um single de sucesso, além de sérios problemas de voz enfrentados por Bono e o início de seu ativismo político.

De fato, quem, em sã consciência, iria dizer que uma banda, aos 20 anos de carreira, seria capaz de lançar uma obra-prima, ficando atrás “apenas” de Joshua Tree e Achtung Baby, dois dos melhores álbuns de rock de todos os tempos?

O segredo da banda foi aplicar o experimentalismo dos anos 90 na riqueza melódica dos anos 80. O resultado foi uma música de alta qualidade, extremamente radiofônica, com letras muito bem trabalhadas por um determinado Bono disposto a recuperar o posto de “melhor banda do mundo”.

O início do disco, que ganhou 7 Grammy Awards, emplacou 4 singles de imenso sucesso: Beautiful Day, Stuck in a moment you can’t get out of (dedicada a Michael Hutchence, do INXS, que havia se suicidado), Elevation (cuja versão na trilha sonora de Lara Croft: Tomb Raider é a melhor de todas) e Walk on (dedicada à birmanesa Aung San Suu Kyi), que dá o título ao disco e sempre me remete ao clássico de Frank Capra, Do mundo nada se leva (You can’t take it with you).

Qualquer disco que emende quatro sucessos desse calibre já garantiria seu lugar no Olimpo fonográfico, mas não para por o U2. A 5ª faixa, Kite, é uma das melhores letras já escritas por Bono (com auxílio de The Edge), sobre relação pai e filho. Em seguida, In a little while, com a voz de ressaca de Bono (literalmente), é uma irresistível balada de amor que Joey Ramone pediu pra escutar antes de morrer.

Qualquer artista ficaria feliz em poder ter 6 músicas dessas em um Greatest Hits. O U2 consegui tê-las em um único disco, o décimo da carreira.

All that you can’t leave behind sofre um pouco da síndrome Lado A/Lado B. A sua sequência fica bem aquém da 1ª metade. A comparação realmente prejudica. Wild Honey é uma balada gostosa e despretensiosa, mas nada marcante. Peace on Earth tem uma ironia interessante, mas parece atingir o clímax muitos antes de terminar. When I look at the world atinge ótimos momentos, mas não possui o mesmo acabamento das anteriores. New York não passa de uma faixa interessante que não empolga. Encerrando, Grace, uma faixa desprezada pela maioria dos fãs, mas cuja delicadeza da letra e do riff muito me agrada.

E pensar que a banda queria ter incluído no álbum a ótima The Ground Beneath Her Feet, do filme Million Dollar Hotel, mas os produtores acharam que a proximidade com o lançamento da trilha sonora seria prejudicial, e acabou saindo apenas como bonus track no Japão, Austrália e Reino Unido.

A Elevation Tour, que não veio ao Brasil (infelizmente), marcou um recuo cenográfico da banda em relação à grandiosidade da Zoo TV Tour e da Popmart, retomada recentemente na 360° Tour. E ganhou dois excelentes registros em DVD: Live in Boston e Go Home: Live from Slane Castle, o meu DVD preferido do U2, gravado uma semana após o falecimento de Bob Hewson, pai do Bono.

Kite ao vivo em Slane Castle.

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Gostaria de agradecer a Amy Winehouse, Andres Calamaro, Beck, Belle & Sebastian, Ben Harper, Bob Dylan, Dave Mathews, Diana Krall, Green Day, Madeleine Peyroux, Morrissey, PJ Harvey, Regina Spektor, ao casal John Ulhoa e Fernanda Takai (com ou sem o Pato Fu) e a Anneke van Giersbergen (seja em qual banda for) por terem feito esta década discograficamente mais interessante.

Agora terei de me virar pra fechar a lista de 1990/1999.

Ain’t No Grave

10/12/2011

Ain’t no grave (2010), Johnny Cash.

Ain’t no grave é VI volume da série American Recordings, que Rick Rubin produziu com Johnny Cash, e o 2º póstumo. É a rapa do tacho, rendendo cerca de 30 minutos de música. Mas ouvir a voz além túmulo de Cash cantando “ain’t no grave can hold my body down“, acompanhado por uma percussão de correntes, é de arrepiar em todos os sentidos possíveis.