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Rock Cisplatino (Rock Hispânico parte 6)

05/07/2015

O Uruguai gerou um movimento roqueiro tão exitoso quanto a nossa Jovem Guarda, a ponto de influenciar o mercado argentino. Os grupos Los Shakers e Los Iracundos obtiveram sucesso internacional, incluindo o Brasil.

Los Shakers, banda formada pelos irmãos Fattoruso, tinham forte influência da Beatlemania. A maiorias das músicas eram cantadas em inglês, mas com composições próprias. No final, a banda já começava a incorporar ritmos populares. Após o término em 69, Hugo e Osvaldo Fattoruso partem pros EUA e ressurgem com a banda Opa, uma mistura de rock, jazz e candombe, principal ritmo uruguaio, de origem africana. Lançam três discos no mercado americano entre 1975 e 1977. Ressurge no Uruguai em 1981 com um novo álbum, realizando alguns shows esporádicos na década de 80.

Los Iracundos, dos irmãos Eduardo e Leonardo Franco, fizeram, sem precisar terminar a banda, toda a migração do rock ao popular romântico, como fez Roberto Carlos. Nos anos 60, o grupo foi influenciado principalmente pela música italiana. Seu maior sucesso da época foi Puerto Montt. Nos anos 70, tiveram intensa produção, lançando disco todo ano, incluindo um disco de tango, e ampliando o leque de composições próprias. O grupo manteve sua fama internacional ao longo dos anos 80, mas em 1989, morre Eduardo Franco, vocalista e principal compositor do grupo, vítima da doença de Hodgkin. No ano seguinte, seu irmão Leonardo retoma as atividades da banda, que continua ativa.

Entre os solistas da década, destaca-se Eduardo Mateo, oriundo da música popular, que incorpora elementos do pop/rock a sua música, assim como a bossa nova. Em 1966, une-se ao cantor e percussionista Rubén Rada, de background musical semelhante, e formam El Kinto, que mistura o candombe, o rock e música brasileira, uma salada que passou a ser conhecida como Candombe Beat. Rada deixa a banda em 68 e o grupo se dissolve em 1971.

O regime militar uruguaio se inicia em 1973, quatro anos antes que o argentino e no mesmo ano que o chileno. Apesar do rock ser associado à alienação, é justamente o movimento mais prejudicado tanto no Uruguai quanto no Brasil e Chile. O inconformismo jovem é canalizado justamente para a música popular, no qual se destaca o candombe fusion de Rubén Rada. Após sair de El Kinto, Rada integrou a banda Totem (1970 a 1973), participou de gravações do Opa, mas se destacou mesmo como solista, com muitas incursões na música argentina, incluindo um álbum com o argentino Litto Nebbia.

Concierto Aniversario (1999, gravado em 1997), Jaime Roos.

Concierto Aniversario (1999, gravado em 1997), Jaime Roos.

O mais importante cantautor surgido nos anos 70, seguindo a linha musical de Mateo e Rada, foi Jaime Roos, com influências dos Beatles ao candombe. Após breves passagens por grupos uruguaios, Roos inicia sua carreira solo em Paris, depois se mudando para Amsterdam. Retorna ao Uruguai apenas em 1984, quando grava um de seus maiores sucessos, Durazno y Convención, do álbum Mediocampo. Manteve projetos paralelos com conjuntos de música popular, particularmente de murga, a música do carnaval uruguaio. Fissurado por futebol, dedicou a canção Cometa de La Farola ao primeiro título nacional conquistado pelo Defensor, em 1976, e Cuando juega Uruguay para a Celeste.

Ao completar vinte anos de carreira, fez um show comemorativo no Teatro Solís (o equivalente uruguaio ao nosso Teatro Municipal – carioca ou paulistano), eternizado no CD/DVD Concierto Aniversario, que abre com a bela Si me voy antes que vos, cuja versão original foi gravada em duo com Mercedes Sosa (posteriormente, em 2010, foi realizada nova versão em duo com o argentino León Gieco). Esse show talvez seja a forma mais indicada para iniciar-se na obra de Jaime Roos.

Como era de se esperar, o fim do regime militar marcou o retorno do rock (rock mesmo!) à cena musical. Entretanto, o protagonismo dessa vez ficou por conta dos grupos e artistas argentinos, ficando as novas bandas uruguaias relegadas a segundo plano, em situação inversa ao ocorrido nos anos 60. Os grupos surgidos nessa fase, em sua maioria, perderam força nos anos 90. Tanto que o primeiro artista uruguaio da nova geração bem sucedido internacionalmente foi Jorge Drexler, oriundo da música popular com elementos modernos, no estilo da nossa MPB. Ainda assim, em 1995, após abrir shows em Montevideo para Caetano Veloso e Joaquín Sabina, seguiu conselho deste último e foi tentar a vida em Madrid, onde vive até hoje.

Rantifusa (1998), Buitres después de la una.

Rantifusa (1998), Buitres después de la una.

Das poucas bandas sobreviventes dos 80, que obtiveram reconhecimento nacional nos anos 90, destaco Buitres Después de la Una, ou simplesmente Buitres (ufa!), grupo formado a partida da banda punk oitocentista Los Estómagos. Portanto, oficialmente a estréia da banda ocorre nos anos 90, deixando o passado punk para trás e seguindo um caminho mais parecido com o nosso Barão Vermelho com alguns toques de Titãs. Atingem o mercado argentino em 1995 e estouram em 1998 com seu sexto álbum, Rantifusa, produzido por Jaime Roos. A primeira metade dos anos 2000 é o auge de popularidade dos Buitres. Em 2009 lançaram uma coletânea dupla sobre os 20 anos de carreira que serve como bom ponto de partida, assim como os álbuns ao vivo dos shows de 10 e 17 anos de carreira.

Uma vertente que ficou popular no Uruguay foi o rock com influências de ritmos latinos como o ska e reggae, num estilo Paralamas ou Mano Negra, como La Vela Puerca, La Abuela Coca e No Te Va Gustar, todas surgidas na segunda metade dos anos 90.

El Ritmo del Barrio (2001), Abuela Coca.

El Ritmo del Barrio (2001), Abuela Coca.

La Abuela Coca é a mais antiga, lançando seu primeiro álbum em 1996, com participação de Rubén Rada, e possui poucos discos ao longo da carreira, sendo o último e sexto álbum lançado em 2010. A coletânea 20 Años é uma boa opção para conhecer o som do grupo, abrindo com Y la abuela también, do álbum Vos, de 2010. A coletânea vem como disco bônus o álbum El Ritmo del Barrio, de 2001. A faixa-título e Cría Cuervos mostra bem o estilo do grupo e suas influências.

Normalmente Anormal (2009, gravado entre 2007-2008), La Vela Puerca.

Normalmente Anormal (2009, gravado entre 2007-2008), La Vela Puerca.

Mais populares, mais pesados e mais roqueiros são os rapazes de La Vela Puerca. Lançaram seu primeiro disco em 1998, mas é no segundo, De Bichos y Flores (2001), que a banda ganha reconhecimento na cena nacional. Tiveram a ousadia de desaparecer por dois anos do país, Investindo em shows pela América Latina e Europa. Os álbuns mais bem sucedidos comercialmente são Piel y Hueso, duplo de 2011, e os ao vivo Normalmente Anormal (duplo, 2009) e Uno Para Todos (2014), ambos gravados em Buenos Aires, sendo que o primeiro contém também apresentações em Montevideo.

Este fuerte viento que sopla (2002), No Te Va Gustar.

Este fuerte viento que sopla (2002), No Te Va Gustar.

O No Te Va Gustar, liderado por Emiliano Brancciari e formado em 1994, ainda na escola, mas com o primeiro álbum lançado apenas em 1999, é o mais bem sucedido na retomada do rock uruguaio no século XXI. Além do ska, reggae e candombe, o grupo pode ser enquadrado também no estilo indie folk que se tornou popular na cena pop internacional.

A banda ganha distinção com seu segundo (e, na minha opinião, o melhor) álbum, Este furte viento que sopla, de 2002, gravado no Chile. Na sequência foram conquistando importante público na Argentina, chegando ao ápice em 2006, quando lançam seu quarto álbum, Todo es tan infamable. Este disco contém os maiores sucessos da banda, entre os quais se destaca comercialmente Pensar. Na mesma época, o grupo perde seus baixista e baterista do trio original (antes de lançar seu 1º disco, a banda já havia se tornado uma tropa de 8 músicos – atualmente são 9). O álbum de 2010, Por lo menos hoy, já apresenta um som mais diluído.

Calhou de eu conhecer também a banda Trotsky Vengarán, de punk hardcore, por meio de uma coletânea lançada em 2012. O primeiro álbum da banda é de 1994, mas eles começam a ficar mais conhecidos e ampliar seu público a partir de Durmiendo Afuera (2001), também produzido por Jaime Roos. Seu maior sucesso comercial é Pogo, disco ao vivo de 2003. Na coletâneo é possível notar a mudança de um punk tipo Ramones (dá quase pra ouvir um “1, 2, 3, 4″ antes de cada faixa), passando por um Clash inicial, at´r chegar a um punk mais comercial tipo Green Day, mas sem deixar totalmente as raízes hardcore.