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O Rock e a Nova Canção Chilena (Rock Hispânico parte 4)

15/06/2015

O rock surgiu no Chile como nos demais países da região: grupos jovens influenciados pelo rock americano dos 50 e pelo rock britânico dos 60. Assim como na Argentina, não surgiu no Chile um fenômeno como Roberto Carlos. Mas, assim como no Brasil, surgiu um movimento forte de música popular. No final dos anos 60, surgiu a Nova Canção Chilena, visando resgatar a música tradicional do país. Uma geração inspirada pela obra de Violeta Parra, falecida em 1967. Entre os expoentes estavam Victor Jara, Isabel Parra e os conjuntos Inti-IllimaniQuilapayún, entre outros.

Minha introdução à música chilena, bem antes de me aproximar dos roqueiros argentinos, foi justamente pela NCC, particularmente por Inti-Illimani, um grupo de música popular que, entre vários ritmos do continente, exploravam também a música andina, que eu já conhecia e admirava a partir de um disco ao vivo de Paul Simon, Live Rhymin’.

Na intenção de conhecer mais sobre esse tipo de som, pedi para uma amiga chilena me enviar uma fita com mais músicas do país. Para minha surpresa, veio uma fita TDK 90 com uma banda de cada lado, Los Jaivas e Congreso, e justamente com o que calhou de ser meus dois discos chilenos preferidos dos anos 70: Canción del Sur e Terra Incógnita. A partir daí, ainda que sem perder de vista a NCC, o meu interesse musical mudou de foco.

O movimento da NCC provocou uma fusão com os roqueiros influenciados pelo rock psicodélico do final dos anos 60 e pelo rock progressivo dos 70. O resultado foi um som muito particular que eu costumo chamar de “progressivo andino”. Esse “rock” chileno setentista tem algum paralelo com a música mineira do período, tanto da galera do Clube da Esquina quanto de grupos como 14 Bis e Uakti, oscilando de forma indefinida entre o rock e o popular.

O gênero, chamado de fusión latinoamericana, mistura rock, folk e jazz. Os principais expoentes são as duas bandas já citadas, Los Jaivas e Congreso (e também as mais longevas e bem sucedidas), e Los Blops, que acabou junto com os anos 70.

Vale ressaltar que tanto Congreso quanto Los Jaivas têm sua formação baseada em núcleos familiares. Congreso é composto em torno dos irmãos González, Patrício, Sérgio e Fernando. Dos outros integrantes, destacam-se Francisco Sazo e Joe Vasconcellos. Los Jaivas é formado a partir dos três irmãos Parra (de família distinta de Violeta Parra), Claudio, Eduardo e Gabriel (os dois últimos já falecidos), tendo Gato Alquinta como vocalista e guitarrista (também falecido).

Canción del Sur (1977), Los Jaivas.

Canción del Sur (1977), Los Jaivas.

Com uma ou outra faixa puramente de música folclórica, a música de Los Jaivas possui estrutura muito calcada no rock progressivo, com longas passagens instrumentais e diferentes movimentos ao longo das faixas. O uso da guitarra tem DNA inconfundivelmente roqueiro. O meu álbum preferido é Canción del Sur, mas o mais famoso deles é Alturas de Macchu Picchu, no qual musicaram o poema de Pablo Neruda.

A banda se mudou primeiramente para a Argentina após o golpe militar. Lá lançou três discos, sendo o último justamente Canción del Sur, no ano do início do regime militar naquele país. Esse período deu bastante projeção à banda no continente. Faixas como En la Cumbre de un Cerro e a faixa-título misturam guitarra elétrica e sintetizadores com elementos do folclore do sul, enquanto Frescura Antigua é uma faixa instrumental puramente inspirada na música popular andina. E, de certa forma, Dum Dum Tambora, retirada do folclore uruguaio, me soa como uma versão folclórica de Hey Jude (viajando na maionese aqui).

Com o clima pesando na Argentino, o jeito foi radicar-se de vez em Paris. Com as sucessivas turnês europeias, acabou se tornando o grupo chileno mais popular fora do país junto com o Inti-Illimani, este na seara mais folclórica, que se instalou na Itália.

Alturas de Macchu Picchu (1981), Los Jaivas.

Alturas de Macchu Picchu (1981), Los Jaivas.

Alturas de Machu Picchu, o álbum seguinte, só saiu quatro anos depois, em 1981. A ideia de musicar o poema de mesmo nome de Pablo Neruda partiu de um produtor peruano. O grupo procurou manter-se fiel aos versos originais, mas tomou a liberdade de fazer uma colagem de trechos diferentes do poema, não o explorando na íntegra. Assim, enquanto La Poderosa Muerte foi composta utilizando-se trechos de quatro cantos distintos do poema, o último canto foi dividido em duas faixas, Sube a nascer conmigo Hermano e Final. A parte musical é considerada uma boa tradução do clima do texto.

Um especial para a TV foi gravado nas próprias ruínas de Macchu Picchu, apresentado por Mario Vargas Llosa (qualquer semelhança com Pink Floyd em Pompéia é mera inspiração). Na turnê do álbum, o grupo não teve problemas em se apresentar no Chile, Argentina e Uruguai.

Após um álbum-tributo a Violeta Parra, lançado em 1984, a banda diminuiu suas atividades. Em meados dos anos 90, volta a se instalar no Chile, retomando a produção musical com mais intensidade até 2001, quando gravou seu último álbum, apesar de ainda ser uma banda em atividade. Ao longo da carreira, a troca de integrantes foi constante, inclusive com a participação de filhos dos integrantes originais.

Terra Incógnita (1975), Congreso.

O Congreso teve uma trajetória um tanto distinta. Seu primeiro álbum, El Congreso (1971), tinha uma influência mais inequivocamente roqueira do que a de Los Jaivas, como fica evidente na faixa Vamos andando mi amigo. Enquanto elaborava o álbum seguinte, ocorreu o golpe militar, atrasando a realização do próximo álbum, que só foi lançado em 1975. Terra Incógnita mereceu estar no meu disputado Top 30 dos anos 70. O DNA roqueiro do primeiro álbum encontra-se praticamente imperceptível, com as composições mais voltadas para a música popular, e até mesmo com algumas faixas de música andina, como Quenita, Violín, ou numa vibe Secos & Molhados em Canción del Reposo. O disco seguinte, o bom Congreso (1977), mantém as mesmas características do anterior, com alguns arroubos do progressivo, no caso dos dez minutos de Arco Iris de Hollín e os oito e meio da “folk-progressiva” Los Elementos. Começa a surgir a influência do jazz, que mais tarde se torna a característica principal do grupo. Apesar da situação política, a banda consegue se manter baseado no Chile. Em 1978, a Igreja faz uma encomenda para musicar uma liturgia com arranjo de música andina. Misa de los Andes é um álbum conceitual e totalmente anticomercial.

Viaje por la cresta del mundo (1981), Congreso.

Viaje por la cresta del mundo (1981), Congreso.

Em seguida, há uma mudança considerável na composição do grupo e, consequentemente, no som da banda, que ganha uma roupagem mais no estilo “progressivo andino”. O álbum seguinte, Viaje por la Cresta del Mundo, de 1981, que pode ser considerada uma resposta latinoamericana ao Journey to the Center of the Earth de Rick Wakeman. O álbum abre com um hit, Hijo del Sol Luminoso, a única canção que subsiste independentemente do resto da obra. As outras sete faixas compõem um instigante álbum conceitual muito bem urdido em termos instrumentais.

A partir do álbum seguinte, Ha llegado carta (1983), o grupo incorpora de vez aspectos jazzísticos a sua sonoridade, mas sem abandonar ainda algumas peças mais chegadas ao progressivo, como em Sur e Ingreso a la hiperbórea del sur.

A banda segue em atividade, entre saídas e retorno de integrantes, oscilando entre o popular e o jazz fusion, até 1995. De lá pra cá, diminui de atividade, tendo lançados apenas três espaçados álbuns nos últimos vinte anos.

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