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Rock do Peru e México (Rock Hispânico parte 8)

25/07/2015

Meu conhecimento do rock mexicano e peruano é mais esgarço do que do rock espanhol, mas é possível dar algumas pinceladas. Em comum, ambos os países foram os principais centros de dominação colonial da Espanha. Portanto, tornaram-se o principal ponto de irradiação cultural em língua espanhola de suas respectivas áreas de influência. Outro ponto em comum é a forte produção musical popular nacional, similar ao Brasil.

No Peru dos anos 60, o rock produzido no país era um pouco mais arrojado do que aquele produzido por seus vizinhos, a ponto de haver uma banda proto-punk em 1964, Los Saicos. Dos pioneiros de Los Incas Modernos a surf music de The Ventures, os peruanos conseguiram criar uma cena musical bastante agitada.

O regime militar de 1968 pôs fim à farra. Nos cinzentos anos 70, destacou-se a banda Traffic Sound, que fazia um hard rock psicodélico, com influência de ritmo afro e andino. Foi a primeira banda peruana a excursionar fora do país, chegando ao Brasil e Argentina.

O ambiente político e econômico dos anos 80 era bastante explosivo, sobressaindo a influência do boom do pop/rock argentino e as estrelas da música espanhola. O cenário dá uma aquecida nos anos 90, com influência de estilos mais pesados. Coincidência ou não, é no século XXI, após a queda de Fujimori, que a produção nacional decola. Pelo ocorridos nos demais países do continente, regimes fechados fazem muito bem a músicas românticas e de protesto, mas muito mal ao “alienado” rock and roll. O mercado peruano ainda está em desenvolvimento, com o país vivendo um recente boom de artistas independentes.

Concierto (2005), Uchpa.

Concierto (2005), Uchpa.

Achar uma loja de discos originais em Lima não é tarefa fácil (no resto do país, é impossível), mas no bairro de Miraflores é possível encontrar algumas. Diante do meu total desconhecimento de rock peruano, resolvi alugar o vendedor para encontrar algo que soasse suficientemente original aos meus ouvidos, mas tudo me parecia muito igual ao que eu já conhecia. Foi então ele veio com um disco ao vivo do Uchpa, Concierto (2005), uma banda estilo zeppeliano que canta em quéchua. Apesar da voz um pouco anasalada de Fredy Ortiz, o instrumental da banda é impecável, com faixas longas e extensos solos típicos dos anos 70. E poder ouvir rock em quéchua é um charme irresistível.

Já no México, o rock chegou já nos anos 50 e seguiu forte nos anos 60. É bom ressaltar que o guitarrista Carlos Santana, o principal expoente mexicano do rock, surgiu na cena californiana, para onde se mudou com a família em 1961, com menos de 15 anos. Assim como em muitos países hispânicos, e como no Brasil, os anos 70 foi uma época de baixa. Entretanto, não devido ao estabelecimento de um regime ditatorial (o PRI se encontrava no poder desde 1929), mas à repressão cultural/policial na virada da década.

Durante todo esse tempo e no processo de abertura cultural ocorrida nos 80, a grande questão dos roqueiros nacional era compor ou não em espanhol. A balança começou a pender para o lado da língua pátria a partir do sucesso de bandas hispânicas estrangeiras. As influências eram diversas, do punk ao progressivo, passando pelo pop eletrônico e, principalmente, pelo rock pesado. Na segunda metade da década, estouram bandas como Fobia, El Tri (derivada do grupo setentista de blues rock Three Souls In My Mind), Caifanes (segunda banda latinoamericana a gravar um MTV Unplugged, em 1994) e o Maldita Vencidad y los Hijos del Quinto Patio, um grupo eclético na mesma linha do Mano Negra.

Sueños Líquidos (1997), Maná.

Sueños Líquidos (1997), Maná.

Os anos 90 são de consolidação e expansão do rock nacional. É nesta década que o grupo Maná atinge projeção nacional e internacional. A banda é um desdobramento do oitentista Sombrero Verde, com um hard rock de influências progressivas e latinas, que ressurge em 87 com o novo nome e uma tendência a baladas. Maná conquista seu espaço após o segundo álbum Falta Amor (1990), quando lança o single Rayando el sol. A partir do álbum seguinte ¿Dónde jugarán los niños? (1992), o grupo vira um fenômeno internacional, conquistando inclusive o mercado latino dos Estados Unidos. Depois do sucesso internacional de Sueños Líquidos (1997) e da turnê subseqüente, o vocalista Fher Olvera faz uma parceria com Carlos Santana e em 1999 a banda grava seu MTV Unplugged, conquistando o mercado europeu.

Cafe Tacvba (1992).

Cafe Tacvba (1992).

Entre os destaques da nova geração de roqueiros está o quarteto do Café Tacvba, que trocou o “u” pelo “v” devido a um processo movido pelo Café Tacuba, o restaurante. Apesar das fortes influências roqueiras, a sonoridade da banda, particularmente no álbum de estréia, é um pop eletrônico alternativo. Os vocais de Rubén Albarrán, que muda de nome artístico a cada álbum, são bem afetados, o que me deixou com o pé atrás com a banda por um bom tempo.

Insatisfeito com o álbum de estreia de 1992, resolvi ir pro outro extremo, o Cuatro Caminos, de 2003, primeiro álbum da banda com bateria de verdade, vencedor de um Grammy e dois Grammy Latinos, muito exageradamente comparado na época ao Álbum Branco dos Beatles.

Ainda assim, não estava satisfeito e procurei por uma coletânea, Tiempo Transcurrido, que faz uma boa síntese dos quatro primeiros álbuns do grupo, incluindo aí o aclamado Re, o álbum duplo Revés/Sou yo e o disco de covers Alavancha de Éxitos. Consegui finalmente ter um deslumbre do que era o Café Tacvba: um grupo bem inventivo, com forte personalidade musical, mas que não me encantava, apesar de algumas ótimas faixas.

Então, quando eu já tinha meio que desistido dos mexicanos, em 2005 foi lançado em CD o MTV Unplugged, gravado dez anos antes. Nesse show, todos os arroubos vocais de Rubén que me desagradavam parecem ter sido aparados. Sem as eletronices dos álbuns, pela primeira vez fiquei inteiramente satisfeito.

El Objeto Antes Llamado Disco (2012), Café Tacvba.

El Objeto Antes Llamado Disco (2012), Café Tacvba.

Mas o meu álbum preferido é o mais recente, El Objeto Antes Lllamado Disco (2012), que é tudo o que sempre esperei do Café Tacvba. Infelizmente, não pude ir ao show dessa turnê no Circo Voador. O álbum foi gravado em quatro países (Chile, México, Argentina e EUA) com um pequeno público de fãs e deu origem a um documentário.

Além do performático e carismático vocalista de vários nomes, o grupo é composto pelo multi-instrumentista Emmanuel del Real e os irmãos Joselo (guitarra) e Quique Rangel (baixo). Del Real e Joselo são responsáveis pelo maior parte das composições, embora Rubén também contribua bastante com material próprio.

MTV Unplugged (2008), Julieta Venegas.

MTV Unplugged (2008), Julieta Venegas.

A cantora Julieta Venegas, apesar de ser mais conhecida por sua faceta pop, tem raízes roqueiras e surgiu como vocalista do grupo de ska Tijuana No, na primeira metade da década. Em carreira solo, alcançou sucesso internacional neste século. Em 2008 gravou seu bem sucedido MTV Unplugged, que contou com a participação de Marisa Monte em Ilusión.

É claro que esse breve relato não dá conta da complexidade da produção musical mexicana a partir dos anos 90 e, principalmente, a partir dos anos 2000, que se caracterizou por uma pluralidade de bandas e estilos.