Archive for the ‘Marisa Monte’ category

Top 20 – filmes e vídeos de música (parte 3)

28/01/2017
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Mais (1991), Marisa Monte.

Como praticamente todo mundo da minha geração e um pouco acima, descobri Marisa Monte com aquele show que virou disco e especial de TV. Não fui ao show, mas vi o especial (da Manchete, salvo engano). A postura no palco era o de uma cantora que não parecia saber muito bem o que fazer com as mãos, mas tinha total domínio do queria fazer com sua voz. O público parecia se dividir entre aqueles que babavam pela jovem aspirante ao estrelato e quem via naquele repertório que misturava samba enredo, jazz, rock, soul e música romântica uma artista que atirava para todos os lados e carecia de identidade. Difícil era conhecer Marisa Monte e permanecer indiferente.

Olhando hoje para trás, é praticamente unanimidade considerar o álbum Verde, Anil, Amarelo, Cor-de-Rosa e Carvão como o ápice da carreira da cantora, o álbum que influenciou definitivamente o futuro da MPB e até mesmo o seu renascimento como música jovem.

Entretanto, há coisas que só o coração explica. O que definiu Marisa Monte para mim, aquilo que superou o seu debut e não foi igualado por qualquer coisa que ela fez posteriormente, foi o especial pra TV (da Manchete, novamente) Mais (mesmo título do álbum da época, mas que musicalmente vai muito além do repertório do disco). O DVD foi lançado em 2004, com bastante material extra, mas o especial é de 1991.

O especial mistura entrevistas, vídeos caseiros, cenas de bastidores, shows e um pequeno show de bolso em Nova York com Arto Lindsey, revelando (ou construindo) a persona da artista para o público. O especial definiu a forma como Marisa passou a ser vista a partir de então. Creio que isso continua verdadeiro até hoje.

Até mesmo o show, mostrado de forma torturantemente econômica, é superior à turnê do Cor-de-Rosa e Carvão. Tive a oportunidade de assistir aos dois no Canecão, e posso afirmar que no no show do Mais Marisa tinha um brilho especial nos olhos e cantava com a facilidade e exuberância de quem foi possuída pelos deuses.

Em uma era pré-internet, pré-Youtube, a grande atratividade do especial era ver Marisa cantando covers que só poderiam ser vistos ali, pois não estavam em disco algum: Não quero dinheiro, Dig a pony, Você não serve pra mim, I can see clearly now, além de algumas faixas de Caetano na apresentação com Arto.

Creio que foi o primeiro trabalho da Conspiração Filmes, salvo os videoclipes feitos pra MTV, dirigido por Lula Buarque de Holanda e Arthur Fontes.

 

Top 20 – 1990/1999 (5ª parte)

08/01/2012

Stoned and Dethroned (1994), The Jesus & Mary Chain.

Não sei o que fez eu me desligar de The Jesus and Mary Chain no início dos anos 90. O fato é que eu segui fielmente a banda desde Darklands até o show da turnê do Automatic no Canecão, em 1991. Depois disso, limbo. Se tivessem me dito que a banda havia terminado, não duvidaria. Talvez o fato de só ter comprado meu 1º cd em 1993 (Zooropa) tenha algo a ver com isso, pois os dois discos posteriores da banda não chegaram ao Brasil em vinil.

Reencontrei a banda no carnaval de 1995, num shopping em Recife, quando minha namorada na época chamou minha atenção pra um disco da banda numa filial da Aki Discos. Era o Stoned & Dethroned. Fiquei surpreso comigo mesmo com o quanto estava por fora do que a banda vinha fazendo. Pouco depois, ganhei dela aquele cd de presente de aniversário. A volta da paixão pela banda foi imediata, ainda que o som do álbum fosse bem diferente de tudo que o JMC havia lançado antes, mesmo dos discos que eu então desconhecia (Honey’s Dead e The Sound of Speed).

O som do álbum é um espécie de country pós-punk estradeiro. Serve um pouco pra tudo: pra ouvir quando se está alegre, quando se está triste, zangado, apaixonado, de coração partido, na hora do “vamuvê”, ou na hora de dormir. Garanto que é melhor do que Bombril!

Sometimes Always, a canção que mais se assemelha com um hit no disco, conta com a participação da estranhíssima Hope Sandoval, na época vocalista do Mazzy Star. Em God help me, sempre achei que um dos irmãos Reid estivesse de porre, mas é apenas uma participação de Shane McGowan, do The Pogues.

Não só esse é um dos meus discos preferidos, como o é também da minha esposa, de forma que é figurinha fácil no nosso cd player.

Sometimes Always ao vivo na MTV.

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Severino (1994), Paralamas do Sucesso.

Apesar de Selvagem? ser um ótimo álbum, a guinada para a música latina dada pelo Paralamas do Sucesso na mesma época em que me deslumbrava com o pós-punk britânico fez com que me afastasse da banda e não acompanhasse a sua mudança sonora nos 90.

Em Os Grãos, de 1991, o grupo já buscava novos rumos, num disco um tanto impreciso, mas extremamente bem produzido. Em Severino, os Paralamas incorporaram também diversos ritmos brasileiros, e produziram um disco simplesmente magnífico. No álbum seguinte, Nove Luas (também ótimo), eles retomam a latinidade para, logo em seguida, fazer a fusão total em Hey-Na-Na!

Não me estrague o dia, que abre o álbum, traz um som de cordel sofisticado num ótimo trabalho vocal. Navegar impreciso, com participação de Tom Zé, carrega no experimentalismo. Varal traz o lirismo regional com um trabalho de guitarra lindo. Requiém do Pequeno é Paralamas em sua melhor forma. Vamo batê lata traz a sonoridade funk’n’lata carioca com alma rock.

Assim como em Grãos, Herbert Vianna recorre mais uma vez à música de Fito Paez, El Vampiro bajo el sol. Dessa vez, com a inusitada participação de Brian May na guitarra (não faço idéia de como isso ocorreu!). Depois desssa, fica até sem graça dizer que Fito Paez toca piana na faixa.

Em Música, a banda apresenta um de seus melhores arranjos para a letra espermatozóica de Tom Zé. Em Dos Margueritas, eles voltam à sonoridade do final dos 80, como se disessem “nós ainda sabemos fazer”. Mas mesmo assim não soa igual.

Em Rio Severino, Herbert ataca com um riff pesado de guitarra embalado por uma batida de baião e, como na faixa de abertura, um esperto uso de duas vozes. Seria um fecho com chave de ouro, mas o disco continua…

As últimas duas músicas destoam do resto. Cagaço é uma faixa cheia de pretensões mas que soa apenas ok. O Amor Dorme tenta ser aquela balada paralâmica que há em todos os discos (com participação na guitarra do produtor do disco, Phil Manzanera), mas nada sobrevive a uma frase do tipo “como Deneuve entre os pombos”.

O cd ainda possui 2 boas faixas bônus (duas versões em espanhol), uma delas com participação de Egberto Gismonti, mas bonus track não conta nesse top top.

Máxima vergonha só ter descoberto a melhor fase dos Paralamas após o Acústico MTV. Mas antes tarde do que nunca!

Uma versão hardcore de Rio Severino.

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Verde, Anil, Amarelo, Cor de Rosa e Carvão (1994), Marisa Monte.

Depois de se lançar e brilhar como intérprete em um disco ao vivo, atirando pra todos os lados, Marisa Monte surpreendeu como compositora e definiu melhor o seu som na excelente turnê de Mais. Com o disco seguinte, Verde, Anil, Amarelo, Cor de Rosa e Carvão, mais conhecido como Cor de Rosa e Carvão, a cantora carioca atingiu seu auge, e nada do que fez depois disso chegou aos pés.

Aos parceiros do disco anterior, os titãs Arnaldo Antunes e Nando Reis (seu namorado na época) e o produtor Arto Lindsay, Marisa adiciona Carlinhos Brown (sempre melhor ao contribuir em discos alheios do que em sua carreira solo). Participam ainda a Velha Guarda da Portela, Gilberto Gil, Laurie Anderson, Paulinho da Viola, Philip Glass, Arthur Maia, Marcos Suzano e o conjunto Época de Ouro.

Tenho pra mim que Marisa é uma dos responsáveis por resgatar o samba como música jovem, feita por jovens e para jovens. Os meus amigos (bem) mais novos em meados dos 90 tinham Marisa Monte como um ídolo pop, como a geração de meus irmãos tiveram Elis e Gal. O apreço da cantora/compositora por samba tradicional, presente em todos os seus discos até então, ajudou muito nesse processo de recuperação, não só do samba, mas da própria MPB. E dá pra incluir aí a Jovem Guarda.

As faixas que mais saltam aos olhos de início são Segue o Seco, de Carlinhos Brown, e Dança da Solidão, de Paulinho da Viola, com participação de Gilberto Gil. Mas é Arnaldo Antunes o responsável por momentos brilhantes em De Mais Ninguém, Alta Noite e Bem Leve.

Acredito que o romance entre os dois ainda não havia começado, mas é curioso que Laurie Anderson declame a letra em inglês de Enquanto Isso no mesmo álbum que tem uma bela e criativa cover de Lou Reed (seu futuro marido), Pale Blue Eyes, da época do Velvet Underground.

E o disco ainda tem cover de Jorge Ben (Balança Pema) e um fecho com a Velha Guarda da Portela e Paulinho da Viola, Esta Melodia.

Quando consegui ver a turnê desse disco, já era época do Barulhinho Bom, e o (bom) show, que vi também no Canecão, não passou o mesmo frescor e brilho do Mais. Talvez fosse mesmo hora de ir pra casa e sonhar tudo de novo.

Segue o Seco no VMB de 1995.