Archive for the ‘Patti Smith’ category

Linha M

23/08/2016
Linha M

Linha M (2015), Patti Smith.

“Não é tão fácil escrever sobre nada.”

E assim, de forma franca, Patti Smith abre o seu Linha M (M Train), um novo livro de memórias estimulado pelo sucesso de Só Garotos. A frase lembra muito o “a melhor série sobre o nada”, o sensacional slogan de Seinfeld.

Diferentemente de Só Garotos, que tinha tema e cronologia definidos, Linha M é uma narrativa à deriva, solta no tempo, atemática e sem objetivo aparente. Enfim, um livro sobre o nada. Não posso afirmar que seja o melhor livro sobre o nada, pois não li todos os livros sobre o nada. Mas, daqueles que eu li, foi o melhor. Não que seja, por isso, um grande livro.

Linha M fala sobre todas as paixões de Patti Smith, menos sobre música. Fala de literatura, cafés, séries policiais, artes, ciência, misticismo. Mas, música, no máximo um comentário sobre uma música ou outra que escutou enquanto estava em algum lugar.

A estrutura narrativa é fluida, mas perfeitamente identificável. Patti vai narrando o que está acontecendo com ela no presente. Os eventos importantes, os excêntricos e os totalmente banais. Ela vai compondo um mosaico de uma existência sofrida, tediosa, isolada, com alguns rompantes de socialização, como alguém que vem à tona em busca de ar, de vida.

O mais curioso nessas “memórias em tempo real” é que nitidamente ela não sabe sobre o que escrever. E vai tateando as coisas ao redor ou dentro de si em busca de um lampejo, uma faísca, até que, de repente, vem uma história, uma lembrança, um insight realmente interessante. Mas, ao invés de compor o livro com esses momentos de inspiração, ela faz questão de registrar todo o processo de busca, de branco, de um escritor à procura de assunto.

E, nessas idas e vindas, temos a insólita viagem de Patti e Fred, seu falecido marido, à Guiana Francesa, a maratona de série policial em um hotel de Londres (a paixão dela por séries policiais talvez seja a maior revelação do livro) ou a incursão em uma distribuidora de café no México disfarçada de jornalista. Aliás, um viés jornalístico involuntário fornece uma visão humana da passagem do furacão Sandy por Rockaway Beach e do último tsunami no Japão.

A narrativa é entrecortada por seus sonhos, cujo lado místico da autora procura colorir de significados. Tais sonhos rivalizam com a realidade improvável de sua viagem a Tanger ou sua palestra no reservado Continental Drift Club, em Berlim, e chegam até mesmo a provocar uma viagem até o outro lado do mundo.

Outra presença constante é a memória dos que se foram, a dor da perda, a angústia do presente e a dificuldade de seguir em frente. À medida que o livro vai chegando ao final, tal fardo vai se tornando mais pesado, e a necessidade de confrontá-lo, como se todo o livro servisse secretamente a este fim, inevitável.

Se não é fácil escrever sobre o nada, tampouco é fácil ler sobre o nada. A experiência de ler Linha M me levou a uma necessidade de fazê-lo em momentos de introspecção, isolamento existencial. Pra não falar na urgência em beber um café. Se, em Só Garotos, há algo de alegria e esperança na morte final, em Linha M há dor e resignação no prosseguimento da vida.

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Só Garotos

29/04/2016
Só Garotos 2

Só Garotos (2010), Patti Smith.

A primeira vez que ouvi falar (ou parei pra prestar atenção) no nome de Robert Mapplethorpe foi quando li a resenha de Só Garotos no jornal. Claro que tinha de saber sobre o que havia escrito Patti Smith. Calhou de, quando estive em Paris, estarem rolando duas exposições dele: uma completa, mas paga (e cara), e outra no Museu Rodin, que abordava semelhanças entre as fotografia de Mapplethorpe e as esculturas de Rodin. Foi essa que vimos. Boa, mas breve. Havia uma foto com Patti. Gostamos.

Achava que o livro seria uma biografia de Robert Mapplethorpe. Não costumo ler muito sobre um livro/filme antes de ler/ver, apenas o necessário para me convencer (positivamente ou negativamente). No momento em que decido que o assunto me interessa, perco imediatamente o interesse em qualquer informação adicional. Com Só Garotos não foi diferente, de forma que fui surpreendido ao perceber tratar-se de uma biografia da própria Patti Smith.

Ao contar sua história, Patti revela a história de Robert, como ele afetou a vida dela e ela a dele. Ao vermos Robert pelos olhos de Patti, conseguimos ter um vislumbre de Patti pelas reações de Robert. Ao falar de si, a autora traça um retrato fiel e sensível sobre o outro. A frase que sintetiza essa dinâmica aparece lá pelo final, dita por Fred ‘Sonic’ Smith à esposa: “Não sei como ele faz isso, mas, em todas as fotos que ele fez de você, você está se parecendo com ele”.

Patti começa lá de trás, de seu nascimento (e do dele). Poderia ter começado a partir do momento em que conheceu Robert, ou que chegou a New York com uma mão na frente e outra atrás. Mas se não soubéssemos quem era Patti Smith naquele momento, sua história, seus dramas, suas motivações, não saberíamos o real impacto de Robert Mapplethorpe entrar em sua vida. Tampouco saberíamos, sem conhecer direito Patti, o que significava ela para Robert. Assim, a autora escapa da banalidade de escrever a história de um relacionamento.

É a história de um relacionamento. Mas é também, a história de uma amizade inquebrantável. A história de sobreviventes da pobreza e da fome, resgatados de um destino miserável por seus sonhos e sua arte. A história do underground cultural de New York no auge da contracultura. A história do desabrochar de dois grandes artistas. Muitas histórias em uma.

Às vezes me via perdido por um turbilhão de nomes, alguns muitos conhecidos, outros menos, e aqueles que não venceram o anonimato. Por um breve período, no fim dos anos 80, vivenciei um pouco disso no Rio de Janeiro, observando, como que pelo buraco da fechadura, aspirantes ao estrelato, à ribalta, batalhando por uma chance, voando ao redor dos artistas, procurando aquela festa, aquela peça, aquele bar. Poucos chegam lá.

A narrativa é tão rica em detalhes, tão precisa nos diálogos, que cheguei a suspeitar de liberdade poética em relação às próprias memórias, até dar-me conta que Patti mantinha um diário, certamente a principal fonte de todo o livro. Na medida em que o sucesso os leva a caminhos separados, a história prossegue aos saltos, aos reencontros, muito devido à doença de Robert e a proximidade do fim.

Boa parte da história seria, na verdade, muito dramática, barra-pesada, depressiva. Talvez por sabermos o seu final (em termos artísticos), mas muito pelo tom casual da narrativa de Patti, que descreve os maiores perrengues com a mesma naturalidade com que descreve a capa de um de seus achados pelos sebos nova-iorquinos, nada soa como tal. É tudo vida. Pulsante, intensa, brilhante. E nada mais comovente do que a última polaroide.

Top 20 – 2000/2009 (6ª parte)

15/11/2011

Os dois álbuns abaixo pertencem às duas bandas nascidas nesta década que mais me empolgaram e impressionaram positivamente: Arcade Fire e Franz Ferdinand. As duas lançaram seu primeiro álbum em 2004, e calhou de conhecê-las também no mesmo ano, em 2006. De lá pra cá, ambas lançaram mais dois álbuns.

Funeral (2004), Arcade Fire.

A estréia discográfica da banda canadense foi, na verdade, em 2002, com um EP homônimo. Mas o grande début foi mesmo com Funeral, que antigamente seria chamado de LP.

De cara, o grupo me lembrou Belle & Sebastian: banda numerosa, indie, criada em torno de um casal, e com um texto no encarte muito parecido com o de Tigermilk, primeiro álbum da banda escocesa. Mas as semelhanças param por aí.

Meu primeiro contato foi com a canção Wake Up, que abria os shows do U2 na Vertigo Tour. De tanto ouvir aquilo nos bootlegs, foi natural querer ouvir a música toda e mais coisas da banda. E assim cheguei a Funeral, um disco pouco comum, de sonoridade dramática e complexa, nada radiofônico. O vocal feminino lembra muito Bjork.

O crescimento musical desde o EP e as sutis, mas significativas, mudanças de um disco pro outro representam uma maturidade musical animadora.

Da primeira vez que a banda veio ao Brasil, não a conhecia. Depois, fiquei torcendo que sua possível vinda ao Rock in Rio 2011 se concretizasse. Não foi dessa vez…

Vídeo de Wake up.

Franz Ferdinand (2004).

Conheci os escoceses do Franz Ferdinand também via U2. Sem ter ouvido um acorde sequer da banda, vi com prazer os rapazes abrindo para o U2 no Morumbi em fevereiro de 2006. Vi uma banda empolgada, tocando com garra e habilidade, e um som contagiante. Voltando ao Rio, o antológico show deles no Circo Voador já estava esgotado. Ficamos pegando restos de som na cerca do lado de fora. Minha esposa, após o show, ainda conseguiu autógrafos de Alex Kapranos e Bob Hardy nas fotos tiradas dias antes em São Paulo. Conseguimos vê-los meses depois na Fundição Progresso, cuja acústica é deplorável.

O disco de estréia eu conheci após o segundo CD, You could have it so much better, e me causou ainda mais impacto pela inventividade e vibração das composições.

Nesses dois primeiros trabalhos, a banda apresentou diversos caminhos possíveis, mas preferiu, no terceiro, Tonight, seguir na área de conforto do rock dançante. Fico na expectativa de que a inquietação que percebi em Joss Stone e Arcade Fire venha a arrebatar esse simpático grupo.

Take me out ao vivo aqui.

*****

Enquanto Franz Ferdinand e Funeral representam o novo, os outros dois álbuns de 2004 são de velhos conhecidos. Coincidentemente, as duas escolhas mais pessoais desse Top 20.

Trampin’ (2004), Patti Smith.

O primeiro disco de Patti Smith a gente nunca esquece. Ela foi uma daquelas artistas de que eu sempre ouvi falar e demorei a conhecer. Mais um empurrãozinho do U2, com o cover de Dancing Barefoot.

Não há um disco de Patti que eu ache ruim, mas este possui um encanto especial aqui em casa. Quando minha esposa me pedia pra ouvir Patti Smith, eu botava qualquer um, apenas para perceber que, na verdade, ela sempre queria ouvir Trampin’.

A razão disso continua um mistério. Tento, racionalmente, explicar pra mim mesmo que é porque o disco é mais equilibrado que os anteriores, mais regular. Mas, no fundo, creio que seja o vínculo afetivo da descoberta.

Pouco tempo depois, tivemos a oportunidade, junto com o Alexandre, de marcar presença em seu show no Tim Festival.

Jubilee ao vivo na França.

How to dismantle an atomic bomb (2004), U2.

Se alguém disser que eu incluí esse disco só porque é do U2… estará certo. No dia em que fechei a lista, me fiz uma pergunta: eu trocaria algum desses discos por aqueles do U2 que ficaram de fora? Bem, foi com esta pergunta que No line on the horizon tirou American Idiot (Green Day) da lista.

Então, dando a lista como encerrada, resolvi botar How to dismantle an atomic bomb pra tocar enquanto passava um caderno a limpo. Me peguei cantando todas as músicas, mesmo aquelas das quais já tinha enjoado, como Miracle Drug. Então me dei conta que não tinha como deixar um disco com Vertigo, City of Blinding Lights, One step closer e Original of the species de fora; não seria honesto. Além disso, foi devido à turnê desse disco que me interessei por Arcade Fire e Franz Ferdinand. E foi assim que Sea Change (Beck), saiu da lista. Sorry, coisas do coração…

One step closer em um vídeo caseiro, utilizando imagens de shows.