Archive for the ‘Pescado Rabioso’ category

Spinetta e as origens do rock argentino (Rock Hispânico parte 1)

18/05/2015

É comum considerar o surgimento do rock argentino como gênero próprio a partir de 1967. Não que antes não houvesse rock na Argentina, mas ele era totalmente influenciado pela música estrangeira, haja vista o som e o visual dos Beat Boys, banda argentina que acompanhou Caetano Veloso na gravação e apresentação de Alegria, Alegria. Talvez tenha faltado aos argentinos uma figura como Roberto Carlos para alavancar a primeira onda do rock nacional.

Nesse período, o rock argentino não sofria influência apenas do rock americano dos anos 50 e do rock britânico dos 60, mas também do que era produzido no México, na cola de Ritchie Valens, e no Uruguay, puxada pelos Los Shakers, a ponte de se falar de uma invasão britânica e uruguaia. Como atualmente a produção cultural de Montevideo orbita em torno do que de faz em Buenos Aires, é de se admirar essa influências nos anos 60. Há quem ainda defenda que o Tango, assim como Carlos Gardel, nasceu no Uruguay, mas aí já é outra história.

O tripé fundador é constituído pelas bandas Manal, Los Gatos e Almendra. Interessante notar que nenhuma delas durou muito tempo. Haveria ainda um quarto grupo, Los Abuelos de la Nada, que gravou dois singles e se separou, com seu líder Miguel Abuelo partindo pra França e só voltando dez anos depois para integrar a cena musical dos anos 80.

Inolvidables (2003), Los Gatos.

Inolvidables (2003), Los Gatos.

O som de Los Gatos é o que mais se adéqua aos sucessos comerciais da época, com forte influência melódica dos Beatles, Beach Boys e quetais, além do mesmo cacoete romântico (e órgão) da Jovem Guarda.

Seu primeiro single, La Balsa, em junho de 1967, é considerado a pedra fundamental do rock argentino, uma espécie de Quero que vá tudo pro inferno portenho. O grupo durou somente até 1971, com cinco álbuns lançados, formado por Lito Nebbia (voz e gaita), Oscar Moro (baterista), Alfredo Toth (baixo), Ciro Fogliatta (teclados), e a guitarra alternando entre Kay Galifi, Norberto Aníbal Napolitano e Alfredo Toth.

Oscar Moro, já falecido, se tornou um importante músico do rock argentino, tocando com vários artistas e bandas, integrando um dos mais importantes grupos de rock do país, Serú Girán.

Norberto Aníbal Napolitano se torna Pappo, do Pappo’s Blues, que se tornou um dos pioneiros do heavy metal no país

Lito Nebbia é considerado pela geração roqueira dos anos 70/80 uma influência essencial em suas carreiras. Nebbia já estava na estrada desde o início da década até estourar com La Balsa. Após o término da banda, seguiu importante carreira solo, sendo nos anos 70 influenciado pelo jazz e pelo rock progressivo. Da carreira solo, contudo, não conheço nada, exceto o álbum que gravou junto com Andres Calamaro em 2006, El Palacio de las Flores (por sinal, o mais fraco disco de Calamaro pós-Los Rodriguez).

Conheci Los Gatos pela coletânea Inolvidables, que possui algumas boas faixas, mas nada realmente imperdível.

El León (1971), Manal.

El León (1971), Manal.

Manal é um trio de hard rock blues formado por Alejandro Medina (baixo, teclados e voz), Claudio Gabis (Guitarra, piano, gaita e órgão) e Javier Martínez (bateria e voz). A influência forte do blues e o vocal gutural me remetem a um The Doors encontra Motorhead. A banda foi formada em 1968, mas só conseguiu gravar dois álbuns entre 1970 e 1971, acabando logo em seguida. Para merecer tamanha reverência em tão curta vida, deve ter causado muito furor na época, pois é difícil pra mim perceber uma influência do grupo no desenvolvimento do rock nacional. O principal feito do trio parece ter sido gravar com sucesso blues em espanhol. Pappo, ex-guitarrista de Los Gatos, parece ter ocupado papel mais efetivo nesse sentido.

Claudio Gabis teve intensa participação em discos de artistas e bandas argentinas, e até mesmo no Brasil, tocando no primeiro disco solo de Ney Matogrosso.

Conheço o álbum de 1971, El León, cuja produção deixa muito a desejar. É curioso imaginar que na Argentina, por essa época, tinha gente fazendo esse tipo de blues mais pesadão, como é possível conferir em Paula, mas fica só nisso mesmo.

Almendra (1970).

Almendra (1970).

Almendra, a minha banda favorita desse tripé, é um quarteto de rock psicodélico com toques de blues. Durou apenas de 1967 a 1970, com alguns singles gravados antes do álbum de estreia em janeiro de 70. Um retorno entre 1979/1981 acabou rendendo mais um disco.

Conhecido como Almendra I, o álbum de estreia é reconhecido como um dos melhores do rock argentino. O grupo ainda apresentava resquícios do rock melódico dos 60, mas já dava o pontapé inicial no rock psicodélico/progressivo argentino dos anos 70. O CD atual, assim como o Are you experienced?, abre com os singles da época, e fecha com alguns singles posteriores e outtakes.

Dos singles, destacam-se o Tema de Pototo (para saber como és la soledad) e Final. Do álbum inicial, o grande sucesso da banda foi Muchacha (Ojos de Papel). Na sequência, uma faixa de 9 minutos, a viajante Color Humano. Não há faixa ruim ou letra banal, além de apresentar estilos musicais variados.

O álbum seguinte, Almendra II, duplo, é melhor produzido. O lado psicodélico se torna mais evidente e os solos de guitarra mais frequentes. Como a maioria dos álbuns duplos, se mostra mais irregular que o Almendra I. Se o álbum possui muitas faixas curtas, com menos de 3 ou 2 minutos, Agnus Dei, com seus mais de 14 minutos, ocupa praticamente todo o antigo lado B.

A banda era formada por Luís Alberto Spinetta (guitarra e voz), Edelmiro Molinari (guitarra), Emilio del Guercio (baixo) y Rodolfo García (bateria). Mas é o nome de Spinetta que deve ser gravado na memória por quem quer conhecer o rock argentino. Entrando e saindo de bandas ao longo dos anos 70, com eventuais álbuns solos, ele foi o principal nome dos anos 70, influenciando toda uma geração.

Pescado 2 (1973), Pescado Rabioso.

Pescado 2 (1973), Pescado Rabioso.

Compositor extremamente criativo, infelizmente sua voz frágil nem sempre dava conta das necessidades de suas canções. Depois de um confuso disco experimental chamado Spinettalandia, o jovem ídolo argentino Luis Alberto Spinetta fundou a banda Pescado Rabioso com Black Amaya (bateria), Carlos Cutaia (teclados) e um jovem David Lebón (baixo, guitarra e voz), que mais tarde se tornaria um importante nome da música argentina e integraria, junto com Oscar Moro de Los Gatos, a banda Serú Girán.

A banda puxa mais pra uma mistura do psicodelismo com o rhythm & blues. O primeiro álbum, Desatormentándonos, ainda não ouvi. O segundo e último (pois é, o peixe hidrofóbico durou apenas de 71 a 73), Pescado 2, outro álbum duplo na discografia de Spinetta, tem o arrojo de um álbum branco, alternando, assim como em Almendra II, faixas curtíssimas com outras de 7 ou 8 minutos, num total de 18 faixas. Uma viagem musical que vale muito a pena, apesar das limitações vocais de Spinetta, como se pode notar em Amame Peteribi.

Artaud (1973), Pescado Rabioso/Luís Alberto Spinetta.

Artaud (1973), Pescado Rabioso/Luís Alberto Spinetta.

Enquanto Spinetta se inclinava cada vez mais ao experimentalismo e composições mais complexas, o resto da banda preferia o rhythm & blues. Assim, a banda se desintegrou. Só que Spinetta queria mostrar que a banda era ele. Chamou, então, antigos companheiros do Almendra e o seu irmão para gravar um terceiro disco do Pescado Rabioso, mas que se trata na verdade de um álbum solo. Artaud é considerado o maior disco do rock argentino, uma espécie de The Dark Side of the Moon nacional. Tem uma pegada mais acústica e experimental. A bela Todas las hojas son del viento,  Cementerio Club (ótimo riff!) e a curiosa Cantata de Puentes Amarillos, que com seus nove minutos parece uma demo acústica de um rock progressivo clássico, são muito boas, mas não é minha obra preferida de Spinetta. Pelo conjunto, ainda prefiro o Pescado 2, ou mesmo o primeiro Almendra, embora Artaud seja realmente uma obra mais bem acabada.

Durazno Sangrando (1975), Invisible.

Durazno Sangrando (1975), Invisible.

Ainda em 1973, Spinetta fundou uma nova banda, Invisible, que durou até 1976 e lançou três discos. Calhou de eu conhecer a banda pelo seu disco menos badalado, o segundo, mas que contém a sua música mais famosa, Durazno Sangrando, que mereceu muitos covers e dá nome ao álbum de 75. Trata-se de uma obra conceitual típica do rock progressivo, inspirado no taoismo. Encadenado al anima, primeira faixa, tem 15 minutos de letra e música bem viajandona, num estilo meio Yes de ser (e até de cantar). O disco mais bem cotado do grupo é El Jardín de los Presentes, de 1976.

A 18' del Sol (1977), Luís Alberto Spinetta.

A 18′ del Sol (1977), Luís Alberto Spinetta.

Antes mesmo do fim oficial do Invisible, Spinetta partiu para o seu primeiro disco assumidamente solo, A 18’ del Sol, lançado em 1977. O artista agrega a suas influências roqueiras o jazz moderno, o que dá ao álbum uma certa sonolência para quem não curte muito o gênero como eu. Mas certamente angariou fãs fervorosos. O efeito em mim foi desistir de seguir a discografia de Spinetta a esmo. Resolvi partir direto pro Estrelicia MTV Unplugged, de 1997, show com ares compilatórios, para ver se estava perdendo alguma coisa.

Estrelicia MTV Unplugged (1997), Luís Alberto Spinetta y Los Socios del Desierto.

Estrelicia MTV Unplugged (1997), Luís Alberto Spinetta y Los Socios del Desierto.

Entre o A 18’ del Sol e o Estrelicia, Spinetta retornou brevemente com o Almendra, fundou uma nova banda, o Spinetta Jade, retornou à carreira solo e, à época do show, tocava acompanhado de Los Socios del Desierto. A impressão que tive ao ouvir o álbum é que pouco ou nada havia mudado em seu som nesses 20 anos. Neste hiato, Kamikaze, álbum solo de 1982, é bastante elogiado. Do Spinetta Jade, destaca-se Bajo Belgrano, do ano seguinte. Mas só me animei a investir no disco gravado junto com um ainda iniciante Fito Paez, o La la la, em 1986. Outro álbum duplo, por sinal. Das vinte faixas, Fito compôs sete e Spinetta dez; e uma única foi composta em conjunto, Hay otra canción. O resultado final é mais orgânico do que a experiência posterior de Fito Paez com o espanhol Joaquín Sabina.

La La La (1986), Luís Alberto Spinetta + Fito Paez.

La La La (1986), Luís Alberto Spinetta + Fito Paez.

Luís Alberto Spinetta faleceu em 2012.

Anúncios