Archive for the ‘Roberto Carlos’ category

Em ritmo de aventura

23/06/2016
Roberto Carlos em ritmo de aventura

Roberto Carlos em Ritmo de Aventura (1967).

Roberto Carlos em Ritmo de Aventura é um dos discos mais importantes da minha infância. É impossível para mim dizer o que veio primeiro na minha vida: o filme ou o álbum (para o resto do mundo, foi o disco, lançado antes do filme, que só chegou à telas em 1968) . O vinil estava lá em casa desde o início dos tempos, provavelmente desde a época da Jovem Guarda e das botinhas calhambeque (ou algo parecido) da minha irmã. Quase certo também que meu irmão já havia o feito girar diversas vezes na velha eletrola (anos depois perdida em um pequeno incêndio) antes que eu colocasse minhas pequenas mãos nele. Certo mesmo é que escutamos muito até furar. Literalmente. Chegou ao ponto de ser impraticável escutá-lo nem que fossem algumas faixas. Um belo dia, pedi um novo de presente de aniversário.

O filme era uma brasa, mora? Muita correria, muito colorido, e as músicas que eu amava. Roberto Carlos era como um super-herói, ombro a ombro com Hulk, Capitão América, Batman, Capitão Kirk… Anos mais tarde, assistindo ao DVD emprestado do meu irmão, fiquei emocionado com aquele passeio de helicóptero mostrando em cores um Rio que não existe mais. Outro dia li alguém falando que uma cidade também pode ser definida por aquilo que ela deixou de ser. Já na faculdade, calhou de ter aula de cinema com o compositor de uma das faixas, Pedro Camargo, que contou em sala como transformou uma guarânia na balada É tempo de amar.

Apesar do disco, por muitos e muitos anos, ter sido o meu favorito do Rei (pobres amigos que me aturavam cantando Quando aos berros), o meu filme favorito era mesmo O Diamante Cor de Rosa. Sempre fui vidrado em montanhas, aos oitos anos subindo com a família e amigos os picos da Tijuca e do Bico do Papagaio, e aquela história das cavernas nos olhos do gigante da Pedra da Gávea… Uau! O fascínio era tanto que, numa era pré-videocassete, toda vez que o filme passava na TV, lá esta eu diante da telinha.

Numa dessas vezes, talvez a terceira, coincidiu de ser no mesmo horário da despedida de Pelé do Santos. Ele jogaria um tempo do lado do Santos e o segundo com o Cosmos. Meu pai e meu irmão se revezavam no quarto tentando me demover da ideia de ver o filme. Devo ter sido mesmo indigesto e determinado, pois a solução foi eles irem para casa do meu tio, que na época também morava em Jacarepaguá, para assistir ao jogo. Meu tio nunca ligou muito para futebol, mas meus primos devem ter adorado o programa.

Diamante cor de rosa

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Roberto Carlos em Detalhes

02/12/2013
Roberto Carlos em Detalhes (2006), Paulo César de Araújo.

Roberto Carlos em Detalhes (2006), Paulo César de Araújo.

Li recentemente as biografias de Bruce Springsteen e Paul McCartney, ambas escritas pelo mesmo autor, Peter Ames Carlin. Com o tema da censura bombando na imprensa, e eu nessa vibe de biografias, resolvi finalmente encarar o meu Roberto Carlos em Detalhes.

Até então, só havia lido a introdução, uma verdadeira carta de amor de um fã, que conta uma história que o próprio biografado (e futuro censor) definiu como “bonita e triste”. Parece que a história de Paulo César de Araújo com Roberto Carlos está fadada a ser envolta em tristeza.

Conheci PC na faculdade, vendendo óculos pelos pilotis da PUC pra ajudar a pagar os estudos. Mais velho do que a média, exibia uma cabeleira encaracolada a la Roberto Carlos, e era reconhecido justamente por ser o único fã assumido do Rei, numa época em que, tão certo como um disco de Roberto no final do ano, era uma crítica no jornal espinafrando o disco. Lembro do susto que ele levou quando concordei com ele que Roberto era um gênio subestimado e perseguido pela intelectualidade tupiniquim.

O livro, como muitos já disseram (críticos, jornalistas, músicos, escritores), é uma obra em louvor ao artista. É lamentável que seja tomada como se fosse uma coletânea de fofocas da revista Amiga. Mais do que uma biografia do cantor e compositor mais importante da nossa história, é também rica análise de um pedaço da música popular brasileira.

Vale ressaltar que muitas entrevistas utilizadas no livro não foram realizadas especialmente para o livro. O autor já fazia entrevistas com diversos personagens da música brasileira desde o final dos anos 80. O objeto, salvo engano, era criar um acervo de depoimentos e histórias de pessoas importantes, e não só aquelas ligadas à música. Lembro que PC tinha agendado uma reunião com Luís Carlos Prestes na semana em que ele faleceu. A entrevista com Caetano Veloso, registrada em vídeo (como todas as entrevistas que fazia na época, incluindo a esquecida entrevista com Chico Buarque), foi exibida em auditória da PUC no início dos anos 90.

A parte cronológica, que esperamos encontrar numa biografia, resume-se aos primeiros cinco capítulos. O autor parte dos primeiros contatos do pequeno Roberto com a música até chegar a sua consagração, ao se tornar maior do que a onda que o tornou célebre e sobreviver ao desgaste do programa Jovem Guarda. O momento simbólico é a conquista do prêmio no Festival de San Remo, com sua chegada triunfal em São Paulo, igual a de uma seleção campeã do mundo.

A partir da trajetória de Roberto Carlos, PC constrói um painel da Era do Rádio e narra sua transição para a Era da TV. Mostra o surgimento da Bossa Nova e como o rock foi conseguindo se inserir no meio musical brasileiro, vencendo preconceitos sociais e até mesmo da elite musical da época. Mostra também o surgimento dos festivais de música na segunda metade dos anos 60.

Ao contar a história de Roberto, PC conta também pequena biografias, como a história de Heloísa dos Santos, a empregada doméstica que, no desespero, tentou ganhar a vida como compositora. Edy Silva, a divulgadora que ajudou Roberto Carlos a acontecer em São Paulo. Por meio de entrevista inédita, revela a história de Evandro Ribeiro, o chefão da CBS que consolidou a carreira de Roberto Carlos. São tantos personagens, tantas pequenas histórias deliciosas, fruto não de fuxicos, mas de entrevistas diretas com seus personagens. Ronnie Von revelando como foi contratado pela Record para anulá-lo como concorrente (confirmado pelo próprio manda-chuva da emissora). Isolda contando a gênese de Outra Vez, que deveria ser uma música alegre. Histórias que, sozinhas, não teriam força pra ver a luz do dia, mas que, atreladas à carreira de Roberto Carlos, transformam-se num belo mosaico artístico, não só da música mas também da cultura nacional. Histórias que merecem ser contadas e lidas.

A história de San Remo é um capítulo à parte. O leitor fica por dentro das regras do festival, que premiava dois intérpretes da mesma canção, um deles necessariamente italiano. E fica sabendo que Roberto Carlos não foi o único nem sequer o primeiro intérprete internacional a ganhar o prêmio. Esse tipo de patriotada é bastante comum no Brasil.

Após interromper o relato cronológico, PC parte para capítulos temáticos. O primeiro, o sexto, é baseado principalmente em relato de Caetano Veloso, e mostra a resistência da MPB a Roberto Carlos e de como ela, a partir de Sylvinha Teles, Maria Bethania e, por fim, o próprio Caetano, o abraça posteriormente. É um dos melhores capítulos do livro, apresentando os bastidores da marcha contra a guitarra elétrica, da qual participaram Elis Regina, Gilberto Gil, Geraldo Vandré e muitos outros.

Depois é a vez de destrinchar a parceria entre Roberto e Erasmo Carlos, guiado pelo próprio Tremendão. No oitavo capítulo, dessa vez conduzido pelo maestro Chiquinho de Moraes, então diretor musical de Elis, conta o surgimento dos shows de Roberto Carlos no Canecão, e como Chiquinho transformou o show de Roberto com a banta RC-7 naquilo que conhecemos hoje, com orquestra, maestro, rosas etc. De quebra ficamos sabendo como César Camargo Mariano entrou na vida de Elis Regina. Não tem como ler este capítulo sem querer voltar no tempo e estar naqueles primeiros anos do Rei no Canecão.

Esses capítulos temáticos nem sempre são muito precisos. Muitos deles são aproveitados para contar causos curiosos e perde-se um pouco o foco. No capítulo sobre transgressão, fala-se sobre músicas que Roberto gravou e compôs que escapam um pouco da imagem de careta, carola e bom moço que se tem dele. Fala também das roupas, da cabeleira (com um curioso depoimento de Caetano) e outros assuntos. Até mesmo Caminhoneiro e as canções para mulheres pequenas, de óculos e gordinhas entram aqui.

O capítulo sobre sexo pode sugerir algo mais picante. E é. Mas baseado em histórias conhecidas, contadas fartamente em jornais (e inquéritos policiais) ou por seus próprios protagonistas. Uma falha do livro do PC é que muitas vezes não fica claro quando uma declaração foi feita a uma revista, num programa de TV ou diretamente ao autor. Ele diz que quis deixar a leitura fluida, pois não havia gostado de como ficou a distribuição das notas em seu livro anterior, Eu não sou cachorro não. Creio que ele pecou pelo excesso, listando todas as referências no final, mas sem ligar uma coisa a outra.

No capítulo sobre política, a principal fonte é o próprio Roberto, através de diversas declarações dele à imprensa. Há também o relato de Caetano sobre a origem Debaixo dos caracóis de seus cabelos. Curioso que, quando Caetano tocou a música e contou a história por trás dela em seu show de 1992, todos ficaram surpresos com a revelação. Eu conhecia a história desde criança, mas não tinha ideia de que não era uma história conhecida, e fiquei pra lá de surpreso com a surpresa das pessoas. Fato é que este momento marcou o início da recuperação da imagem de Roberto Carlos junto à intelectualidade e à elite musical.

Um curto capítulo fotográfico mostra um jovem Zé Ramalho, numa roupa brilhante, posando junto com sua banda de rock ao lado de Roberto ainda nos anos 60. Na sequência, as histórias de vários colaboradores de Roberto Carlos, contadas pelos próprios, mostrando o desafio que era ter uma música gravada pelo Rei, e como isso era quase igual a ganhar na Loteria.

Depois vem capítulos sobre as esposas e a fé do artista. Esses temas são sempre guiados pelas próprias composições de Roberto, que, de acordo com o autor, escreve sua biografia em forma de canções. Por fim, a relação do Rei com o próprio sucesso (ou deveria dizer majestade?).

Enfim, é uma obra que demonstra imenso respeito pela figura biografada, e tem como principal objetivo a análise de sua obra musical e como ela se insere na história da própria música popular brasileira. Fazer este livro mofar num galpão qualquer por meio de artigos indecorosos do Código Civil é certamente um crime conta a cultura nacional.

Roberto Carlos (1981)

25/04/2010
Roberto Carlos (1981)

Roberto Carlos (1981)

Bem, este eu comprei por causa da música “As Baleias”, que eu adoro, mas há outras boas músicas. Estão nele “Tudo Pára”, a big band “Emoções” e “Quando O Sol Nascer”. Tem também “Cama E Mesa”, mas esta já não acho tão boa. Bom disco.

Roberto Carlos (1971)

25/04/2010
Roberto Carlos (1971)

Roberto Carlos (1971)

Parece que este é o grande disco de Roberto Carlos. E, realmente, é uma obra-prima. Aqui estão “Detalhes”, sua interpretação para “Como Dois E Dois”, “Todos Estão Surdos”, “Debaixo Dos Caracóis Dos Seus Cabelos” e outras. Fundamental.

Metendo o bedelho: a capa é uma ilustração feita por Carlos Lacerda, que o entrevistou e ficou impressionado com sua educação e “bom mocismo”. (Flávio)