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Charly Garcia e o Rock Argentino dos Anos 70 (Rock Hispânico parte 2)

23/05/2015

Poucos anos antes do regime militar, a cena musical argentina foi tomada pelo folk rock estilo America, James Taylor, Simon & Garfunkel ou os primeiros anos de Bob Dylan. Seus principais expoentes foram León Gieco e o duo Sui Generis.

León Gieco incorporou o folclore argentino em suas canções e se especializou na crítica social e política. Já em seu terceiro disco, em 1976, teve sérios problemas com a censura, o que o levou a um breve auto-exílio nos Estados Unidos. Tive a infeliz ideia de ouvir Gieco mais adiante no álbum Orozco, de 1997, bem fraquinho. Esse seria um caso de explorar primeiro uma coletânea, haja vista a extensa carreira desse bardo argentino.

Confesiones de Invierno (1973), Sui Generis.

Confesiones de Invierno (1973), Sui Generis.

Sui Generis já foi objeto de um post aqui no blog. Partindo do folk para um soft rock em seus dois primeiros álbuns, Vida e Confesiones de Invierno (o meu favorito), até chegar, em seu terceiro álbum, Pequeñas anécdotas sobre las instituciones, a elementos psicodélicos e progressivos, constituindo-se não mais no duo formado por Charly Garcia e Nito Mestre, mas em banda completa, a qual fazia parte David Lebón, ex-Pescado Rabioso.

Charly estava cada vez mais encantado por complexos arranjos instrumentais, o que deixava meio de lado seu companheiro Nito Mestre. Além disso, complicações com a censura ainda durante o governo peronista e confusões na turnê acabaram levando à dissolução da banda.

PorSuiGieco (1976).

PorSuiGieco (1976).

Nada disso impediu o surgimento de uma superbanda, a PorSuiGieco, iniciada por uma turnê em 1975 com uma proposta de fazer uma reunião de globetrotters semelhante ao Crosby Still Nash & Young. O grupo era formado pela dupla do Sui Generis, León Gieco, Raúl Porchetto  e Maria Rosa Yorio, então esposa de Charly Garcia.

Raúl Porchetto era um músico oriundo do rock progressivo, autor do álbum Cristo Rock, que contou com a participação de Charly, Oscar Moro (ex-Los Gatos), Claudio Gabis e Alejandro Medina (ambos ex-Manal), entre outros

Maria Rosa Yorio até então só havia participado como backing vocal do último disco do Sui Generis, de Cristo Rock e de um álbum solo de David Lebón. Em evidência após o breve sucesso do grupo, deu início a sua carreira de cantora, sendo um equivalente para o rock argentino o que Rita Lee foi para o rock brasileiro, mas sem a mesma longevidade.

O PorSuiGieco tem uma trajetória semelhante aos Doces Bárbaros: artistas independentes, amigos e participantes do mesmo movimento musical que se juntam para uma turnê e acabam gravando um disco.

A banda se separa logo depois, com Charly Garcia iniciando seu novo projeto, La Máquina de Hacer Pájaros, e León Gieco partindo pros EUA.

20/19 (1981), Nito Mestre.

20/10 (1981), Nito Mestre.

Nito Mestre montou a banda  Los Desconocidos de Siempre, que contou com a participação, entre outros, de Alfredo Toth (ex-Los Gatos) e Maria Rosa Yorio, que acabou se separando de Charly e se tornando companheira de Mestre. A banda durou três anos e rendeu três álbuns. O primeiro disco solo de Mestre, 20/10, gravado com uma pequena ajuda dos amigos, foi muito bem recebido, já com uma abordagem mais pop/jazz. As parcerias caracterizaram seu trabalho ao longo da década.

Peliculas (1976), La Máquina de Hacer Pájaros.

Peliculas (1976), La Máquina de Hacer Pájaros.

La Máquina de Hacer Pájaros foi o mergulho de Charly Garcia no rock progressivo, com muito Rick Wakeman e Procol Harum na cabeça, que experimentava um boom na Argentina. A banda contava com a participação de Oscar Moro. O primeiro álbum homônimo foi muito bem recebido, contando ainda com algumas sobras de composições da época do Sui Generis  Escutei apenas o segundo (e último) disco, Películas, que achei com muitas firulas baseadas em dois teclados.

Com crise no matrimônio, com dificuldade de se adaptar às exigências da paternidade como um Lennon portenho, e a chegada dos militares ao poder, em 1977 Charly Garcia decidiu passar uma temporada no Brasil. Passou um ano em Búzios, onde morou com sua segunda esposa, uma bailarina brasileira chamada Zoca, e mergulhou na música local (particularmente Milton Nascimento). Retornou a Buenos Aires decidido a formar uma nova banda, o Serú Girán, que também já mereceu um post aqui.

Bicicleta (1980), Serú Girán.

Bicicleta (1980), Serú Girán.

A Charly García se juntaram David Lebón, Ocar Moro e um jovem baixista chamado Pedro Aznar. O Serú Girán foi o auge do rock progressivo argentino depois deste ter desaparecido como movimento. Mas o grupo só vingou em seu segundo álbum, La Grasa de las Capitales, de 1979. O álbum apresenta proposta conceitual e traz o sucesso Viernes 3am, que mereceu uma versão sensacional dos Paralamas do Sucesso (na minha opinião, uma das melhores faixas já gravadas por Herbert e Cia.).

O álbum seguinte, Bicicleta, é sua obra master, cujas composições se mostram mais diversificadas em termos de estilo.

O último álbum, Peperina, menos inspirado, sai em 1981, e a curtíssima turnê do ano seguinte marca o final do Serú Girán, uma das mais importantes bandas do rock argentino.

Após o fim do grupo, David Lebón teve uma intensa carreira solo nos anos 80, diminuindo drasticamente suas atividades nas décadas seguintes.

A carreira de Pedro Aznar merece atenção. O fim do Serú Girán foi marcado pela ida de Aznar para Berklee. O baixista acaba integrando o Pat Metheny Group até 1984, quando começa a sua carreira solo. Músico virtuoso, dedicou-se a trilhas sonoras e participações com vários artistas, como Soda Stereo e Shakira, mas principalmente com os ex-companheiros Charly Garcia e David Lebón.

Charly Garcia partiu logo pra sua estreia como artista solo, num álbum 2 em 1: o seu álbum de fato e uma trilha sonora. O que mais impressiona no início da bem sucedida carreira solo de Charly é como um roqueiro vindo do soft rock e do progressivo se adequou à cena pop dos 80 como se pertencesse àquela geração. Mas isso será abordado no próximo capítulo.

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As confissões de inverno de Charly Garcia

09/11/2012

Charly Garcia é um dos mais importantes personagens do pop/rock argentino. Entretanto, tudo que ouvia dele não me chamava tanto a atenção, até ficar apaixonado por uma versão do Paralamas do Sucesso de Viernes 3am, no álbum Hey-na-na!, composta por ele. Fiquei de dar-lhe uma segunda chance.

Hello! MTV Unplugged (1995), Charly Garcia.

Então, certo dia, num café-sebo ao lado do IFCS, dei de cara com um CD usado, meio sujo mas em bom estado, de Hello! MTV Unplugged, pela bagatela de 10 reais. Comprei-o. E não é que o acústico de Charly Garcia era danado de bom? E estava lá ele tocando Viernes 3am. Mas a música era precedida por uma outra num tal de “medley Serú Girán”. Que diabos é isso? Nada como o Google…

Aí descobri que minha amada música não era da carreira solo (que, fora o acústico, ainda não me encantou), mas da época de uma banda chamada Serú Girán (?!). E lá fui eu atrás dos discos.

O Serú Girán reunia músicos argentinos de peso. Além de Garcia, David Lebón, Pedro Aznar e Oscar Moro. Entre 1978 e 1982 fizeram história no rock hispânico fazendo um rock progressivo de boa qualidade. Bem setentista, diga-se de passagem, o que o torna, apesar de bom, um pouco datado. E a versão original de Viernes 3am era também maravilhosa.

La Grasa de las Capitales (1979), Serú Girán.

Mas Charly Garcia não surgira ali, mas sim em 1972, num duo com o amigo de escola Nito Mestre, chamado Sui Generis. E foi nessa hora que descobri a sua melhor obra.

O Sui Generis durou apenas 3 álbuns e um ao vivo (em 2 volumes), entre 72 e 75. Em todos os discos, o duo é acompanhado por músicos, sendo um deles David Lebón, que mais tarde acompanharia Garcia no Serú Girán.

Vida (1972), Sui Generis.

O som da banda me evoca muitas coisas: rock progressivo, psicodelia, folk, rock mineiro dos anos 70, assim como o pessoal do Clube da Esquina. Mas a primeira coisa que me chamou a atenção foi o trabalho vocal de Nito e Charly, tão orgânico quanto Simon & Garfunkel. Além do acento folk, o fato da voz de Nito ser mais limpa e Charly ser o responsável pelas composições também reforça a comparação.

O álbum de estréia, Vida, com seu folk psicodélico, é bom, mas trata-se apenas um ensaio do que viria a ser Confesiones de Invierno. Neste, a dupla realiza sua obra-prima (e a melhor coisa que já ouvi com Charly Garcia até hoje). Um canto inspirado e afinadíssimo, belos arranjos e canções vigorosas, com uma pegada mais roqueira que o anterior.

Confesiones de Invierno (1973), Sui Generis.

Ainda que o som encarne o espírito dos anos 70, como podemos encontrá-lo nos discos de um 14 Bis, que possua um clima “eu acredito em fadas” de Jon Anderson, o disco, surpreendentemente, não me soa datado. Deve ser a idade…

No álbum seguinte, Pequeñas anécdotas sobre las instituciones, a banda se torna mais eletrificada e parte pro progressivo psicodélico. Há um estranhamento por parte do público, mas pior foi a reação do governo militar. Tiveram que cortar músicas, mudar letras. Desconheço se foi por isso, ou o mergulho cada vez mais profundo no progressivo e nos teclados, que Charly quis gravar um álbum todo instrumental, o que provocou o desânimo de Nito. O disco nunca saiu e eles decidiram fazer um show de despedida e lançá-lo em disco: Adiós Sui Generis.

Pequeñas Anécdotas de las Instituciones (1974), Sui Generis.

Nito Mestre se juntou a uma banda batizada de Los Desconocidos de Siempre, formada pela então namorada de seu ex-companheiro, seguindo o som mais folk do início do Sui Generis. Depois, teve uma carreira solo bem sucedida nos anos 80. Já Charly Garcia se bandeou de vez para o rock progressivo formando outra banda, La Máquina de Hacer Pájaros (que ainda não ouvi), da qual participava Oscar Moro e que não durou muito, antes de criar o Serú Girán. Sua carreira solo (um pouco pop demais nos anos 80) é marcada pela inquietude. Por isso, explorá-la pode ser como caminhar num campo minado.

Filosofia Barata y Zapatos de Goma (1990), Charly Garcia.

Rasguña las Piedras, do álbum Confesiones de Invierno, ao vivo no show Adiós Sui Generis.