Archive for the ‘The Jesus & Mary Chain’ category

Top 10 – Coletâneas (parte 8)

08/09/2016
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The Power of Negative Thinking (2008), The Jesus and Mary Chain

Na discografia de The Jesus and Mary Chain, há duas coletâneas de B-sides e demos: Barbed Wire Kisses e The Sound of Speed. Este último, eu demorei anos pra saber que era uma coletânea. O primeiro se entregava ao apresentar demos e versões de faixas dos álbuns Psycho Candy e Darklands, pra não falar no “B-sides and More” escrito na capa. Se tivesse que escolher entre os dois, escolheria Barbed Wire Kisses. Só que não é necessário!

Eis que surge o box com quatro CDs The Power of Negative Thinking, com B-sides e raridades. Além de ter todo o material dos dois álbuns citados, traz todo o material de singles e algumas demos e outtakes inéditos.

Em tese, uma coletânea dessa natureza tende a perder a coesão sonora. Mas a banda possui um clima sombrio único, que vai do primeiro ao último álbum promovendo mudanças apenas para continuarem os mesmos.

Top 20 – 1980/1989 (3ª parte)

25/02/2012

Darklands (1987), The Jesus and Mary Chain.

Há poucos anos, quando o Orkut era “a” rede social no Brasil, recebi a mensagem de um amigo da faculdade, Luís Eduardo de Almeida Leal, que, então, morava em São Paulo (e ainda deve morar): “você é o Flávio Andrade da PUC, fã de The Jesus & Mary Chain?”

Acho que foi o maior elogio que alguém me fez. Ok, já me fizeram outros elogios antes (e depois), que sempre recebo com estranha timidez e desajeitamento. Mas ser identificado como um fã de JMC, ou melhor, ser destacado do resto da multidão por isso, pareceu-me ser o melhor que poderia esperar da vida. Vai entender…

E o álbum Darklands, o 2º da banda, e minha paixão por ele, tem muito a ver com isso. Não há um acorde desse disco que não me cause arrepios. Na época eu tinha ojeriza a qualquer coisa parecida com bateria eletrônica, e talvez por isso tenha demorado anos pra eu perceber que eles usaram o aparelho na gravação. As letras são extremamente “dark”, tudo a ver comigo entre 89 e 91. Sem as microfonias do álbum de estréia, Psychocandy, Darklands realçava toda a beleza melódica da banda escocesa.

Eu podia recitar Darklands, a música, de trás pra frente. Dançar Happy when it rains como um rato de laboratório condicionado toda vez que ela tocava. Hoje, About you e Deep one perfect morning são minhas favoritas. E On the Wall e April Skies continuam sendo hits atemporais.

Vídeo de Happy when it rains.

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The Joshua Tree (1987), U2.

Há tantas coisas a falar sobre The Joshua Tree… Por onde começar?

Conheci a banda em 1985, mas só fui me apaixonar por U2 em 1986, assistindo ao VHS de Under a Blood Red Sky na casa do meu primo Sérgio. Portanto, meu 1º lançamento do U2 foi o Joshua Tree.

O primeiro contato foi na academia Ortocenter, em Jacarepaguá. Estava tocando With or without you, que foi a música de trabalho por aqui. O Bono nunca tinha usado a voz grave antes, e eu podia jurar que era Echo & the Bunnymen. Mas não era possível estar tocando Echo na rádio. Então perguntei: que música é essa? Resposta: “não conhece? É a nova do U2!” Mas hein?!

Casa-pai-dinheiro-loja-disco do U2- casa. Botei o vinil pra tocar e achei tudo muito estranho. Gostei de cara de Where the streets have no name, I still haven’t found what I’m lookin for e, claro, With or without you. Mas não achei aquilo com muita cara de U2. Bullet the Blue Sky achei horrorosa, mas Running to stand still voltou a me acalmar. Não desgostei de nenhuma música do lado B, mas, no geral, só In God’s Country tinha me alçado às alturas. Mas U2 é assim, a banda não faz música chiclete, que gruda no ouvido em 1ª audição. Depois de 2 semanas em contato com aquele vinil, eu estava completamente abduzido e viciado (exceto por Bullet, que continuei não gostando – pra isso foi necessário vir o Rattle & Hum).

Where the streets have no name, Running to stand still e One Trill Hill são minhas favoritas, assim como as versões ao vivo do filme Rattle & Hum de With or without you e  Exit. O mergulho dos irlandeses do U2 nas raízes da América deu origem a um dos mais belos álbuns de todos os tempos. Mas ainda acho que eles perderam a oportunidade de fazer uma belíssima capa, só com a foto da árvore-título.

Minha amiga Kalu costuma dizer que meus olham brilham ao ouvir essa música. Outro grande elogio, com certeza! Assim como Darklands, The Joshua Tree é um daqueles disco que me definem.

Where the streets have no name ao vivo no show de ano novo, em 1989/1990, no Point Depot, Dublin.

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Appetite for Destruction (1987), Guns’n’Roses.

É muito estranho escrever sobre Appetite for Destruction como um disco do mesmo ano de Darklands e Joshua Tree, uma vez que demorou um pouco pra Sweet Child O’Mine estourar no Brasil. Antes disso, um show do Guns’n’Roses costumava passar na TV. Cheguei na sala e vi meu irmão assistindo àquela banda de tatuados. “O que é isso?”, perguntei. “Não sei, mas é legal”, respondeu.

Gostei da cover de Knockin’ on Heaven’s Door, mas achei estranho o vocalista estar sem voz no meio do show. O meu 2º contato com os caras foi a participação de Axl Rose e Izzy Stradlin num show dos Rolling Stones na Filadélfia, na turnê do Steel Wheels (“esses caras deve ser mesmo importantes”, pensei). Pouco tempo depois, estaria na 1ª noite do Rock in Rio II pulando enlouquecidamente.

Qualquer um que tinha entre 12 e 22 anos na virada dos anos 80 pros 90 sabe do que estou falando. Era impossível ficar impassível ao fenômeno Guns’n’Roses.

A banda foi abraçada pelos metaleiros da época, que reconheceram na banda qualidade além do rock farofa ao qual havia se reduzido o hard rock no final dos 80. Mas não serviu pra garantir o futuro do rock, por ser considerado um som retrô, com referências aos Stones e ao Aerosmith (pra isso seria necessário o Nirvana).

O disco é um marco, ainda que prefira a versão de You’re Crazy do Lies e lamente a ausência de You could be mine (sim, a música já existia!), minha preferida da banda junto com a canção abaixo.

Sweet Child O’Mine ao vivo no Rock in Rio 2.

Top 20 – 1980/1989 (1ª parte)

10/02/2012

Ao contrário dos anos 90, fazer uma lista dos meus discos preferido dos anos 80 foi relativamente fácil e rápido, embora ainda esteja incerto quanto aos álbuns do BRock. Talvez essa facilidade se deva ao fato dessa década ser a qual estou mais ligado afetivamente. Então, eu tinha certeza do que eu queria aqui.

Mesmo assim, tive dificuldades em separar discos que eu gosto bastante hoje em dia de discos que foram muito importantes pra mim na época, mas que já não tem a mesma relevância.

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Automatic (1989), The Jesus & Mary Chain.

Na 1ª vez que ouvi Automatic, tive uma reação conflitante. Havia grandes canções, mas era muito diferente do Darklands, que eu adorava. Fiquei ainda mais ressabiado quando soube que era com bateria eletrônica (mal sabia eu que Darklands também era). Mas, enquanto no disco anterior a bateria se limitava a soar como uma bateria, em Automatic ela é usada pra criar uma tensão com as guitarras, que parecem querer explodir, expandir, mas ficam contidas pelo tempo rígido da bateria. Sensacional!

Mesmo assim, quando assisti ao show deles na turnê do Automatic no Canecão, fiquei decepcionado quando tocaram apenas uma música do Darklands: April Skies. O que não me impediu de dançar bastante olhando pro chão, como o protocolo alternativo da época exigia (ou minha timidez, vá lá…).

Automatic e Darklands são, pra mim, uma espécie de Achtung Baby e Joshua Tree do Jesus & Mary Chain: duas obras primas em sequência e com propostas distintas (ok, não tão distintas quanto os álbuns do U2).

A versão em CD possui 2 faixas a mais, mas isso pouco altera a percepção da obra, pois são pouco mais de 3 minutos extras. Entre as 10 faixas originais, há pelo menos 6 excelentes músicas. A mais conhecida talvez seja Head on, que ganhou cover do Pixies (e, posteriormente, da Legião Urbana, mas sobre a versão do Pixies).

Vídeo de Head on.

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Disintegraton (1989), The Cure.

Confesso que o The Cure passou um pouco batido por mim nos anos 80. Eu gostava da banda, assim como gostava (menos) de Smiths, mas estava longe da adoração que dedicava a U2, Echo & The Bunnymen e The Jesus & Mary Chain. O lançamento do álbum duplo Kiss me, Kiss me, Kiss me, um tanto over, ajudou a empurrar meu mergulho no som da banda um pouco mais frente.

Após assistir o vídeo de Show (vídeo do CD duplo ao vivo da turnê do Wish, de 1992) no Estação Botafogo, é que me deu o click. Apelei pro meu primo Sérgio, que, na época, tinha toda a coleção da banda, exceto o The Top, incluindo o recém lançado Wild Mood Swings (1996). Dei uma geral em todos os CDs, fiz uma lista extensa que ele resumiu em 3 fitas TDK 60, muito bem gravadas e fora de ordem cronológica, de forma que me apeguei muito às canções, sem me ligar muito de quais álbuns elas vieram.

Gostei tanto que parti pra gravação de fitas ao vivo: uma com o Show, outra com o Paris (da mesma turnê) e uma 3ª com o Entreat, da turnê do Disintegration (The Prayer Tour), em 1991 – praticamente um bootleg. O CD tinha apenas 8 músicas: todas do Disintegration. E foi aí que eu senti pela primeira vez a força do disco. Talvez, por isso, seja meu álbum favorito do The Cure.

Lembrei de uma amiga, em 89, comentando como o disco era lindo e cortava o coração. De fato, o disco foi um retorno à atmosfera depressiva do Pornography (1982), e é belíssimo. Enquanto o álbum de 82 me chama a atenção pela bateria, Disintegration é levado pelos teclados. Fora a empolgante Fascination Street, que mantém a sonoridade dos dois álbuns anteriores, no disco predomina a cama de teclados e a voz lamentosa de Robert Smith.

Entretanto, fazendo um contraponto a esse possível convite a cortar os pulsos, Lovesong surge como uma verdadeira música de amor, merecendo cover tanto de Adele (no álbum 21) quanto de Tori Amos (apenas ao vivo).

A linda Pictures of You ao vivo em Wembley, 1991.

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The Stone Roses (1989).

Quando ouvi Stone Roses pela primeira vez (e foi logo quando saiu o vinil), nunca imaginei que a banda viraria cult para as gerações futuras. Ainda mais levando 5 anos para lançar o 2º (e último) disco, que muitos criticam, mas eu gosto.

Stone Roses me parece uma banda dos anos 60 que demorou a fechar contrato com a gravadora. Talvez fizesse muito mais sucesso disputando espaço com The Who, Kinks e que tais. E isso pode ser considerado um elogio, ok?

Sempre me intrigou as rodelas de limão na capa do LP de estréia… Não deveria ter rosas?

She bangs the drums, ao vivo, em 1989.

Top 20 – 1990/1999 (5ª parte)

08/01/2012

Stoned and Dethroned (1994), The Jesus & Mary Chain.

Não sei o que fez eu me desligar de The Jesus and Mary Chain no início dos anos 90. O fato é que eu segui fielmente a banda desde Darklands até o show da turnê do Automatic no Canecão, em 1991. Depois disso, limbo. Se tivessem me dito que a banda havia terminado, não duvidaria. Talvez o fato de só ter comprado meu 1º cd em 1993 (Zooropa) tenha algo a ver com isso, pois os dois discos posteriores da banda não chegaram ao Brasil em vinil.

Reencontrei a banda no carnaval de 1995, num shopping em Recife, quando minha namorada na época chamou minha atenção pra um disco da banda numa filial da Aki Discos. Era o Stoned & Dethroned. Fiquei surpreso comigo mesmo com o quanto estava por fora do que a banda vinha fazendo. Pouco depois, ganhei dela aquele cd de presente de aniversário. A volta da paixão pela banda foi imediata, ainda que o som do álbum fosse bem diferente de tudo que o JMC havia lançado antes, mesmo dos discos que eu então desconhecia (Honey’s Dead e The Sound of Speed).

O som do álbum é um espécie de country pós-punk estradeiro. Serve um pouco pra tudo: pra ouvir quando se está alegre, quando se está triste, zangado, apaixonado, de coração partido, na hora do “vamuvê”, ou na hora de dormir. Garanto que é melhor do que Bombril!

Sometimes Always, a canção que mais se assemelha com um hit no disco, conta com a participação da estranhíssima Hope Sandoval, na época vocalista do Mazzy Star. Em God help me, sempre achei que um dos irmãos Reid estivesse de porre, mas é apenas uma participação de Shane McGowan, do The Pogues.

Não só esse é um dos meus discos preferidos, como o é também da minha esposa, de forma que é figurinha fácil no nosso cd player.

Sometimes Always ao vivo na MTV.

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Severino (1994), Paralamas do Sucesso.

Apesar de Selvagem? ser um ótimo álbum, a guinada para a música latina dada pelo Paralamas do Sucesso na mesma época em que me deslumbrava com o pós-punk britânico fez com que me afastasse da banda e não acompanhasse a sua mudança sonora nos 90.

Em Os Grãos, de 1991, o grupo já buscava novos rumos, num disco um tanto impreciso, mas extremamente bem produzido. Em Severino, os Paralamas incorporaram também diversos ritmos brasileiros, e produziram um disco simplesmente magnífico. No álbum seguinte, Nove Luas (também ótimo), eles retomam a latinidade para, logo em seguida, fazer a fusão total em Hey-Na-Na!

Não me estrague o dia, que abre o álbum, traz um som de cordel sofisticado num ótimo trabalho vocal. Navegar impreciso, com participação de Tom Zé, carrega no experimentalismo. Varal traz o lirismo regional com um trabalho de guitarra lindo. Requiém do Pequeno é Paralamas em sua melhor forma. Vamo batê lata traz a sonoridade funk’n’lata carioca com alma rock.

Assim como em Grãos, Herbert Vianna recorre mais uma vez à música de Fito Paez, El Vampiro bajo el sol. Dessa vez, com a inusitada participação de Brian May na guitarra (não faço idéia de como isso ocorreu!). Depois desssa, fica até sem graça dizer que Fito Paez toca piana na faixa.

Em Música, a banda apresenta um de seus melhores arranjos para a letra espermatozóica de Tom Zé. Em Dos Margueritas, eles voltam à sonoridade do final dos 80, como se disessem “nós ainda sabemos fazer”. Mas mesmo assim não soa igual.

Em Rio Severino, Herbert ataca com um riff pesado de guitarra embalado por uma batida de baião e, como na faixa de abertura, um esperto uso de duas vozes. Seria um fecho com chave de ouro, mas o disco continua…

As últimas duas músicas destoam do resto. Cagaço é uma faixa cheia de pretensões mas que soa apenas ok. O Amor Dorme tenta ser aquela balada paralâmica que há em todos os discos (com participação na guitarra do produtor do disco, Phil Manzanera), mas nada sobrevive a uma frase do tipo “como Deneuve entre os pombos”.

O cd ainda possui 2 boas faixas bônus (duas versões em espanhol), uma delas com participação de Egberto Gismonti, mas bonus track não conta nesse top top.

Máxima vergonha só ter descoberto a melhor fase dos Paralamas após o Acústico MTV. Mas antes tarde do que nunca!

Uma versão hardcore de Rio Severino.

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Verde, Anil, Amarelo, Cor de Rosa e Carvão (1994), Marisa Monte.

Depois de se lançar e brilhar como intérprete em um disco ao vivo, atirando pra todos os lados, Marisa Monte surpreendeu como compositora e definiu melhor o seu som na excelente turnê de Mais. Com o disco seguinte, Verde, Anil, Amarelo, Cor de Rosa e Carvão, mais conhecido como Cor de Rosa e Carvão, a cantora carioca atingiu seu auge, e nada do que fez depois disso chegou aos pés.

Aos parceiros do disco anterior, os titãs Arnaldo Antunes e Nando Reis (seu namorado na época) e o produtor Arto Lindsay, Marisa adiciona Carlinhos Brown (sempre melhor ao contribuir em discos alheios do que em sua carreira solo). Participam ainda a Velha Guarda da Portela, Gilberto Gil, Laurie Anderson, Paulinho da Viola, Philip Glass, Arthur Maia, Marcos Suzano e o conjunto Época de Ouro.

Tenho pra mim que Marisa é uma dos responsáveis por resgatar o samba como música jovem, feita por jovens e para jovens. Os meus amigos (bem) mais novos em meados dos 90 tinham Marisa Monte como um ídolo pop, como a geração de meus irmãos tiveram Elis e Gal. O apreço da cantora/compositora por samba tradicional, presente em todos os seus discos até então, ajudou muito nesse processo de recuperação, não só do samba, mas da própria MPB. E dá pra incluir aí a Jovem Guarda.

As faixas que mais saltam aos olhos de início são Segue o Seco, de Carlinhos Brown, e Dança da Solidão, de Paulinho da Viola, com participação de Gilberto Gil. Mas é Arnaldo Antunes o responsável por momentos brilhantes em De Mais Ninguém, Alta Noite e Bem Leve.

Acredito que o romance entre os dois ainda não havia começado, mas é curioso que Laurie Anderson declame a letra em inglês de Enquanto Isso no mesmo álbum que tem uma bela e criativa cover de Lou Reed (seu futuro marido), Pale Blue Eyes, da época do Velvet Underground.

E o disco ainda tem cover de Jorge Ben (Balança Pema) e um fecho com a Velha Guarda da Portela e Paulinho da Viola, Esta Melodia.

Quando consegui ver a turnê desse disco, já era época do Barulhinho Bom, e o (bom) show, que vi também no Canecão, não passou o mesmo frescor e brilho do Mais. Talvez fosse mesmo hora de ir pra casa e sonhar tudo de novo.

Segue o Seco no VMB de 1995.