Archive for the ‘Tori Amos’ category

Top 20 – filmes e vídeos de música (parte 8)

07/03/2017

Live at Montreux 1991-1992

Live at Montreux 1991/1992 é uma das ideias mais felizes para um DVD que já vi. Também lançado em CD, aqui o visual conta e muito. O vídeo registra duas apresentações consecutivas de Tori Amos no famoso Montreux Jazz Festival, que, assim como o nosso finado Free Jazz, tinha pouco a ver com o gênero de Louis Armstrong e Miles Davis. Só que, em 3 de julho de 1991, Tori era apenas uma cantora americana que fazia algum sucesso pela noite londrina. Participava, por assim dizer, da matinê do festival. Mas em 7 de julho de 1992 ela já havia estourado com Little Earthquakes.

É interessante perceber a diferença no visual e na postura entre uma artista que não tinha nada a perder e a outra que saboreava, enfim, o estrelato. Em ambas as apresentações, vemos apenas Tori e seu piano.

No geral, prefiro o frescor e espontaneidade do show de 1991, mas o de 1992 tem momentos de tirar o fôlego, particularmente Me and a Gun e o cover de Smells like a teen spirit.

Christmas Album

27/12/2015

O mais famoso tipo de seasonal album é o famigerado álbum natalino, que mereceu a atenção de artistas variados que vão de Elvis Presley a Jethro Tull, passando por Barbra Streisand, Air Supply e, recentemente, Bob Dylan. As razões que fazem artistas e bandas gravarem um disco de Natal varia do puramente financeiro ao verdadeiro espírito natalino. Talvez o maior desafio numa empreitada dessa natureza seja escapar do lugar comum, tipo White Christmas, Silent Night, Holy Night e canções do gênero.

A Very Special Christmas

A Very Special Christmas (1987).

Se hoje em dia é raro um astro do pop/rock lançar um Christmas Album, é comum nos shows de dezembro eles tirarem da cartola uma dessas canções para presentear o público e desejar um feliz Natal. Talvez daí tenha surgido a interessante ideia de fazer uma coletânea natalina pop. O produtor Jimmy Iovine não teve dificuldade de reunir em 1987 artistas do naipe de Madonna, U2, Bruce Springsteen, Sting, Pretenders, Bon Jovi, Run-MDC e Whitney Houston para o projeto A Very Special Christmas.

U2 estava no auge com sua Joshua Tree Tour, e gravou o clipe de Christmas (Baby please come home) durante a passagem de som em Glasgow, sendo cantada em alguns shows da turnê. A versão de Bruce Springsteen para Merry Christmas Baby foi gravada ao vivo, sendo uma performance natalina habitual de Bruce com a E Street Band junto com Santa Claus is coming to town.

O projeto rendeu outras oito edições espalhadas no tempo, sendo a quarta toda ao vivo, gravada em 1998, em Washington DC, num concerto beneficente do governo Clinton. Em 2003 saiu um formato acústico. A última edição é de 2012. O maior hiato foi de 6 anos e o menor de 2 anos. Toda a série é destinada a auxiliar a organização esportiva Special Olympics.

Madonna canta Santa Baby.

*****

Midwinter Graces

A Very Special Christmas (1987).

Quem resolveu encarar um seasonal álbum de Natal todo seu foi Tori Amos, em 2009. Provocada por um amigo e desafiada a fazer um álbum que agradasse tanto a ela quanto ao pai pastor, Tori elaborou Midwinter Graces com sete canções tradicionais (uma delas, a indefectível Silent Night, Holy Night entre as faixas bônus da Deluxe Edition), seis composições próprias e uma composição do século XIX, Star of Wonder. Entre as composições próprias está Winter’s Carol, uma prévia do musical The Light Princess, cuja versão musical foi composta por Tori para a montagem de 2013 no Royal National Theatre em Londres.

Neste álbum, a artista antecipa de certa forma os arranjos com sopros e cordas que seriam a essência dos seus dois álbuns seguintes pela Deutsche Grammophon: Night of Hunters e Gold Dust. O álbum também marca a estreia fonográfica da filha de Tori, Natashya Hawley, que canta em Holly, Ivy and Rose. A sobrinha Kelsey Dobyns, com voz mais madura, canta em Candle: Coventry Carol. Ambas aparecem novamente em Night of Hunters. O resultado, como tudo em que Tori toca, soa muito pessoal. Só a capa que…

Star of Wonder ao vivo em Bruxelas, 2012.

Night of Hunters

12/12/2015

Em outubro de 2012, fui convidado para escrever um artigo sobre o álbum Night of Hunters para a série Flavors, no blog ToriBr. O texto foi publicado em 6 de novembro de 2012, e minha ideia era republicá-lo aqui depois que todos os artigos da Flavors (um para cada álbum da Tori Amos) fossem ao ar. Eu podia jurar que havia publicado, mas esta semana descobri que não. Minha dívida de textos sobre a Tori era maior do que eu imaginava…

Night of Hunters

Night of Hunters (2011), Tori Amos.

Quando li que Tori Amos havia assinado com a Deutsche Grammophon, levei um susto. E fiquei curioso ao tomar conhecimento do projeto de usar composições clássicas. Apesar de reconhecer a música de Bach nos primeiros acordes de Edge of the Moon, e relembrar com satisfação de Pictures at na Exhibition via Emerson, Lake & Palmer em The Chase, música erudita está há léguas de ser minha especialidade. Então, não tenho como opinar a respeito de como a compositora revisitou esses velhos clássicos. Portanto, encaro Night of Hunters humildemente como mais um disco da Tori. De qualquer forma, não deixa de ser charmoso ver aquele selo classudo da gravadora alemã na contracapa do álbum.

Seria natural que a primeira coisa a chamar a atenção fosse a estrutura clássica e a orquestração das músicas, certo? Mas nada é óbvio quando se trata de Tori Amos. O que acabou chamando a minha atenção na primeira audição foram aquelas vozes diferentes.

Não sou muito de fuxicar sobre um álbum antes de ouvi-lo. Gosto de ser pego de surpresa sempre que possível. A participação da sobrinha de Tori, Kelsey Dobyns, com uma voz lírica, segura, em Night of Hunters, me fez vislumbrar um duo entre Tori Amos e Loreena McKenitt. A própria música ajuda bastante nesta efêmera viagem particular.

E, claro, a filha, Natashya Hawley, com uma voz ainda com traços infantis, mas mostrando enorme potencial. Em Job’s Coffin, um momento praticamente solo de Tash, ela tem a oportunidade de desenvolver mais sua interpretação e desvelar o seu talento, surpreendendo com um acento mais jazzy do que a mãe. Enfim, dá um show!

Nas obras de ficção, particularmente as de heróis, quando um personagem central tem um filho é natural a imensa curiosidade em saber o que o destino reserva àquela criança. Essa curiosidade afeta não apenas os fãs, mas também os criadores. E dá-lhe dela ser raptada pra outra dimensão onde o tempo passa de forma diferente; ou o filho já crescido que viaja no tempo para encontrar os pais no nosso presente. E, ainda, a apelação de ter seu crescimento acelerado por alguma traquitana tecnológica ou magia arcana. Uma das saídas menos comprometedoras é quando o narrador resolve dar uma pequena espiada no que poderia ser o futuro.

Ok, isso tudo foi para dar uma ideia da minha curiosidade sobre o futuro de Tash (bem menor, imagino, que a curiosidade de seus pais). Se tornará ela uma cantora melhor que a mãe? Ou preferirá tocar bateria numa banda de rock? Será uma pintora bem sucedida, cantando apenas no chuveiro e em reuniões de amigos? Ou uma grande médica, a célebre Doutora Hawley, que descobrirá a cura para a obsessão de muitos por cantoras ruivas, particularmente as que tocam piano?

[Nota atualizada: Tash volta a participar do álbum Unrepentant Geraldines, dessa vez com mais protagonismo na canção Promise, com direito a videoclipe]

Passada essa primeira impressão, entram em cena as violas, baixos, flautas, violoncelos, oboés, violinos e clarinetas. Bem… Do pouco que adentrei no mundo da música erudita, deu pra perceber uma certa predileção minha pelos quartetos (obrigado, Tori), assim como prefiro os sextetos que acompanhavam Billie Holiday às big bands de Ella Fitzgerald. Os arranjos são belíssimos e revelam o acerto da proposta de construir uma ponte entre o erudito e nosso pop/rock. Tori nos leva com seu piano e os músicos que a acompanham àquelas clássicas paragens sonoras. Mas, quando começa a cantar, não resta dúvida de que estamos diante de mais uma Tori Song. Isso se torna significativamente nítido para mim logo na primeira faixa, Shattering Sea. Por outro lado, o desenvolvimento musical da música clássica nos presenteia com viradas inesperadas em Edge of the Moon e Star Whisperer (nas primeiras audições displicentes, pensei serem duas músicas). No fim dessa experiência musical, posso dizer que a tal ponte me pareceu bem sólida.

Por último, o conceito. Desde Scarlet’s Walk, Tori tem investido em um conceito que permeie todo o álbum para servir-lhe de inspiração. Álbuns conceituais podem ser legais, mas também possuem suas armadilhas. Se musicalmente o disco é muito bem resolvido, no texto às vezes ele fica um pouco amarrado. E, convenhamos, “I’d like to induct you into the drink of the cactus practice” não é exatamente um dos momentos mais brilhantes da ruiva. Gostaria de ver músicas mais soltas e menos referências mitológicas e medievais para aumentar o contraste do universo pop com a base erudita. Ok, também gostaria que ela se apresentasse com seu piano lá em casa.

Mas, enfim, lá está ela cantando “he’ll play a Beatle tune, me more a Bach fugue”. E ainda referências a Lucy in the Sky with Diamonds (se estiver equivocado, por favor, não me avisem, prefiro viver nessa ilusão) e Neil Gaiman (ou só para mim The Chase pareceu a cara do autor de Sandman?). Então não tenho do que reclamar.

De qualquer forma, ao sair em turnê, ou ela optaria por apresentar o disco inteiro como uma opereta, ou por misturar novas e velhas canções (como de habitual). Neste caso, algumas canções do álbum, descoladas de seu contexto, acabariam certamente de fora. Sabemos bem qual foi a opção dela.

Não posso encerrar essa atropelada resenha sem traçar um paralelo de Night of Hunters com a experiência sinfônica de Peter Gabriel. Há várias diferenças, claro. Em Scratch my back, Gabriel faz uma releitura de clássicos do rock, dando a eles um arranjo erudito. Em comum, a opção em misturar no setlist canções antigas de seus repertórios, dando a elas a mesma roupagem sonora do álbum da turnê. E ambos, também, não resistiram à tentação de, no álbum seguinte, gravar justamente essas músicas com os novos arranjos. E assim nasceram New Blood, de Gabriel, e Gold Dust, de Tori. Isso me faz crer que um artista não sai incólume dessas experiências musicais, o que faz aumentar a minha expectativa quanto aos novos trabalhos de Tori Amos. Só espero que ela, assim como o sósia de Paulo Coelho, também lance o seu DVD ao vivo. [Nota atualizada: não lançou.]

Unrepentant Tour

08/12/2015

Ao escrever minha resenha sobre o show do Pearl Jam no Maracanã, dei-me conta de que nunca escrevi minha resenha dos shows da Tori Amos. Chegou a hora de consertar isso.

1653 Cirque Royal 28-05-2014

Em maio de 2014, parti com minha esposa para assistir (pela primeira vez) a dois shows da Tori na Europa. O primeiro em Londres, no Royal Albert Hall, e o segundo em Bruxelas, no Cirque Royale. Nas duas semanas que separaram um show do outro, uma fértil passagem por Paris (sem Tori). A ideia era escrever uma resenha assim que chegasse de viagem, mas logo de cara recebemos a notícia da gravidez e a vinda do primeiro filho. E foi assim que deixei o blog de lado por longos oito meses.

A Unrepentant Tour iniciou na Irlanda antes mesmo do lançamento oficial do álbum Unrepentant Geraldines. O show em Londres era a oitava noite da tour. Verdes em termos de concertos da Tori, não tínhamos conhecimento dos seus Meet & Greet, costumeiramente na tarde das apresentações no próprio teatro. Informados sobre o assunto por um casal de brasileiros que a acompanhava desde o norte da Inglaterra, prometemos não repetir o vacilo em Bruxelas.

Animado por conhecer o famoso Royal Albert Hall, resolvemos fazer um tour pelo teatro antes do espetáculo (nada como lugar marcado!). Belíssimo por fora, por dentro o teatro é apenas funcional. Classudo, mas espartano. A diferença se fez mostrar quando soaram os primeiros acordes do piano de Tori: som limpo, cristalino, na altura certa.

0386 Royal Albert Hall 15-05-2014

Aos (ainda) 50 anos, a voz de Tori parece seguir intocável pelo tempo. Bastante animada (o oposto do humor apresentado em Bruxelas), esbanjou simpatia, comunicando-se todo o tempo com o público, transformando o concerto num sarau para amigos.

Entre as 18 músicas tocadas em Londres e as 19 de Bruxelas, apenas 4 canções foram repetidas: a abertura com Parasol, o “final” antes do bis com Cornflake Girl, a curta Mr. Zebra e a empolgante Take to the sky, que depois trocaram de posição no setlist. Em Londres, Mr Zebra foi na primeira parte e Take to the sky no bis. Em Bruxelas, as posições foram invertidas. Com isso, assistimos a um total de 33 canções diferentes. Portanto, acompanhar uma tour de Tori Amos noite após noite é um grande negócio.

1728 Cirque Royal 28-05-2014

Assim como ocorre com o Pearl Jam, tamanha flexibilidade e mais de 20 anos de repertório fazem com que os novos álbuns sejam pouco contemplados. Não que sejam ignorados, mas podem ser mais ou menos tocados como um player randômico com cerca de três centenas de canções.

As mudanças não se limitam ao setlist. A mesma música é vivenciada de forma diferente a cada noite, pois Tori a carrega com diferentes matizes emocionais cada vez que a interpreta. Isso só não ocorreu nessa tour em Cornflake Girl, que vem acompanhada de playback e um convite pra galera se levantar e dançar (e invadir a frente do palco). Achei esse playback desnecessário, e até mesmo quebra um pouco o clima do show.

0393 Royal Albert Hall 15-05-2014

Royal Albert Hall, 15 de maio de 2014.

A estrutura do show, no entanto, não mudou (aí já é demais, né?). O show é dividido em duas partes. A primeira abria com Parasol e fechava com Cornflake Girl, apresentando sempre um set com dois covers chamado de Lizard Lounge. Depois um “bis” para mais três músicas no mínimo.

Até Londres, Tori vinha tocando covers bastante inusitados. Já na capital inglesa e em Bruxelas, três das quatro músicas ela havia gravado oficialmente: Rattlesnakes, Smells like teen  spirit e Famous blue raincoat. A outra, Sorry seems to be the hardest word, uma composição de Elton John que eu desconhecia. Mas nada a reclamar.

Em Bruxelas, dedicamos a tarde ao Meet & Greet, que acabou sendo corrido devido a um atraso da cantora. No tempo de espera encarando a fome e o frio (choveu quase toda nossa estada na cidade), acabamos conhecendo um punhado de fãs, entre eles dois brasileiros (um quase vizinho carioca e uma paulista que morava em Zurique). Acabamos virando o “grupo de brasileiros”, momento devidamente registrado em foto tirado pela assistente pessoal de Tori.

1712 Cirque Royal 28-05-2014

Ao retornarmos para o teatro no início da noite, ficamos satisfeitíssimo com nossos assentos, que possibilitava uma vista muito mais próxima do palco. O Cirque Royale é de dimensões bem mais humildes que o Royal Albert Hall. Eis que, no intervalo entre o show de abertura e a apresentação da Tori, ficamos sabendo que “os brasileiros da foto” ganharam lugar na primeira fila… e bem no meio!

1727 Cirque Royal 28-05-2014

Cirque Royale (Koninklijk Circus), 28 de maio de 2014.

O humor de Tori não estava dos melhores, o que se refletia num setlist mais pesado. O meu vizinho conseguiu emplacar um pedido, Take me with you, um lado B do B. Se não tinha sido um dos melhores dias na vida da cantora, certamente foi um dos melhores nas nossas.

Father Lucifer ao vivo em Bruxelas.

GOLD DUST

28/12/2012
Gold Dust

Gold Dust (2012), Tori Amos.

Depois da experiência na releitura de composições eruditas em Night of Hunters, Tori Amos resolveu mergulhar ainda mais fundo nos arranjos com sopros e cordas, fazendo uma releitura de seus próprios clássicos. Algo similar do ocorrido com Peter Gabriel em New Blood. Por essas e outras, é covardia avaliar este disco como um álbum de inéditas. E tampouco pode ser tratado como uma coletânea.

Antes da “era dos álbuns”, era comum um artista regravar várias vezes, ao longo de sua discografia, uma mesma canção. E ela nunca era vista como a mesma – cada versão era encarada como uma obra distinta, provocando debate entre os fãs. Hoje é comum ouvirmos falar de remixagens, mas pouco sobre regravações, como Paul McCartney fez em Give my regards to Broad Street.

Tais aventuras talvez fossem saudáveis, principalmente quando a banda já não é a mesma daquela do início, ou mesmo quando a voz do cantor já não consegue ter a mesma potência de outrora (não é Bono?). Essas releituras ajudariam à banda a encontrar a forma ideal de tocar as velhas canções de forma atual. Alguns fazem isso em shows, e nem sempre são bem recebidos.

Neste Gold Dust, Tori faz um apanhado de toda carreira (“esquecendo” apenas de To Venus and Back e de Beekeeper – mas tudo bem, a gente consegue viver com isso), alternando faixas pouco óbvias e outras inescapáveis. Como perder a oportunidade de gravar com violinos, violas, violoncelos, contrabaixos, flautas, oboés, clarinetas, harpas etc,  uma música como Precious Things?

Como já provado no disco anterior e em seus vários covers ao longo da carreira, Tori tem o poder de transformar em algo intrinsecamente pessoal qualquer nota na qual coloque a sua voz. Da mesma forma, ela transforma Silent all these years, Cloud on my tongue e Winter, entre outras, em novos clássicos. Ao mesmo tempo que o ouvinte se deleita com a nostalgia de uma canção conhecida, se surpreende e se emociona com uma beleza recém descoberta.

E o encarte… ah, o encarte!

Precious Thing ao vivo em Rotterdam.

Top 20 – 1990/1999 (6ª parte)

11/01/2012

Little Earthquakes (1992), Tori Amos.

A primeira Tori a gente nunca esquece… Tori Amos é do tipo “ame ou odeie”, impossível ficar indiferente. Também impossível de classificar: é uma mulher ao piano, e a partir daí tudo pode acontecer.

Conheci Tori por meio de uma ex-namorada. Ela já tinha lançado seu 2º disco, mas a música que eu ouvi foi de Little Earthquakes, seu 1º álbum. A canção era Silent all these years. E achei muito bom! Logo em seguida ouvi o resto da fita (naquela época era fita) e continuei gostando.

Nem sempre o 1º disco de um artista é o seu melhor (na verdade, o 1º disco da Tori é Y Kant Tori Read, que ela diz ser o nome de uma banda, não um disco solo – exceto por 3 faixas, melhor que continue assim), mas esse é o caso aqui. Talvez pelo fato do disco ter sido engendrado em uma longa temporada nos bares ingleses, para onde ela migrou após o fracasso da tal banda. Mas há outras razões.

Esse é um disco raiz: nele é possível vislumbrar (quase) tudo o que ela veio a fazer depois. Em termos sonoros, é uma síntese de sua carreira, uma mostra perfeita de seu potencial. A forma mais recomendada para conhecer essa compositora/pianista/cantora pouco convencional.

Quando finalmente vi a capa do disco (então, um vinil), veio à lembrança uma resenha do finado Jornal do Brasil tecendo comentários elogiosos. E também uma festa na casa de uma amiga em Laranjeiras onde alguém também falou bem. Enfim, estava fadado a conhecê-lo.

O mais impressionante de Tori, nesse disco, percebi na volta de carro da casa de um amigo no Frade para o Rio, onde coloquei a fita pra ouvir. Quem não a conhecia comentou ser uma música calma, tranqüila. Num carro, à noite, com pessoas falando, o barulho da estrada, uma bela lua cheia, não dava mesmo pra prestar atenção nas letras espinhentas, provocativas, nada tranqüilas. Tori é um poço de inquietude.

Leather, uma daquelas pequenas grandes músicas, ao vivo em Montreux antes do álbum ser lançado, em 1991.

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El amor después del amor (1992), Fito Páez.

Acredite se quiser: não conheci Fito Páez por meio da versão do Paralamas do Sucesso para Track Track (a melô da piada pronta). A primeira vez que vi/ouvi o cantor argentino foi numa ponta no ótimo filme de Fernando Solanas, Sur, onde ele aparece como um roqueiro chamado Marcelo. Acho que é o único não-tango da trilha sonora encabeçada por Ástor Piazzolla.

Mesmo ouvindo muito falar de Fito via Paralamas e de alguns amigos mais chegados ao que rolava em Buenos Aires, e da ótima versão de Caetano Veloso para Un vestido y un amor no álbum Fina Estampa, só fui conhecer melhor o artista em 2005, após, finalmente, ir a Buenos Aires. Voltei de lá com uma Antología dupla. Satisfeito com o pacote genérico, passei a pesquisar a discografia via Soulseek, baixando álbuns inteiros, pois Fito é bom, mas muito irregular. Nessa pesquisa, logo me chamou a atenção o álbum El amor después del amor.

Apesar da capa de fenômeno brega-romântico, o disco impressiona por sua vitalidade musical. É o momento em que o compositor se afasta um pouco do rock e arrisca mais no pop, fazendo um disco diversificado e mostrando tudo o que é capaz de fazer.

Un vestido y un amor é um clássico; a faixa título é um rock soul contagiante; Pétalos de sal, uma linda balada ao piano. La Rueda Mágica, que conta com a participação de Charly García e Andrés Calamaro (o disco tem ainda a participação de Mercedes Sosa e Ariel Rot, entre outros), Brillante sobre el mic, Tumbas de la Gloria e Dos dias en la vida são outros grandes momentos. Quanto à estranha Sasha, Sissí y El Círculo de Baba, até hoje não cheguei à conclusão se gostei ou não.

Assim como Litte Earthquakes, de Tori Amos, este é um disco que recomendo para quem quer conhecer Fito Páez.

Faixa-título ao vivo aqui.

Top 20 – 2000/2009 (3ª parte)

04/11/2011

Raising Sand (2007), Robert Plant e Alison Krauss.

Há pouco a acrescentar ao que já comentei aqui no blog. Apenas que, com este disco e o inteiramente solo, Band of Joy, lançado em 2010, Robert Plant mostrou que tinha mais o que fazer do que sair por aí numa turnê-museu ao lado de Jimmy Page e John Paul Jones. Após o show histórico no O2 Arena, Plant foi culpado pelo fracasso de uma tour com o Led Zeppelin. Escutando esses discos, só tenho a dizer que o mundo da música agradece.

Aqui o link para Killing the blues, no Later with Jools Holland, em 2008.

American Doll Posse (2007), Tori Amos.

Talvez uma das piores capas da história da indústria do disco. Mais quem vê capa não vê coração. Após o début oficial com Little Earthquakes, Tori Amos enfileirou ótimos discos, mas nenhum a ponto de rivalizar com ele. Após alguns discos bons, mas que já soavam mais do mesmo, quando não esperava mais nada excepcional desta irrequieta pianista e cantora norte-americana, ela me aparece com o melhor disco desde a estreia.

Apesar de um pouco longo demais, como os dois discos anteriores, American Doll Posse é bom do início ao fim. Se há músicas que soam medianas, é pelo simples fato que, aqui, o nível é elevado. Bouncing off clouds, Digital Ghost, Devils and Gods, Father’s Son e Smokey Joe estão entre minhas favoritas.

Para forçar a inspiração para este disco, Tori imaginou uma banda só de mulheres, a personalidade e a história de cada uma, e compôs cada música incorporando estes personagens. O resultado é arrebatador!

Aqui, versão ao vivo de Digital Ghost na Antuérpia em 2008.

Neon Bible (2007), Arcade Fire.

Após o bem sucedido long play inicial, os canadenses do Arcade Fire tinham tudo para seguir a fórmula que havia dado certo. Em vez disso, seguiram novos caminhos, com o mérito de inovar sem perder a identidade sonora.

Neon Bible chega a ser melhor que Funeral, mostrando maturidade e criatividade, impressão reafirmada em seu álbum de 2010, The Suburbs. Pra mim, a banda mais instigante nascida nesta década.

Vídeo de No cars go.