Archive for the ‘U2’ category

The Joshua Tree Tour 2017

08/11/2017

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Joshua Tree Tour sempre foi o show que eu quis ver. Acho que eu trocaria todos os shows que eu vi na vida (ok, menos o do Queen no Rock in Rio) para estar em um daqueles shows filmados em Rattle & Hum. Portanto, não preciso dizer o que significou pra mim saber que o U2 iria fazer uma tour especial de 30 anos do disco.

Tratei logo de garantir meu ingresso para um show em Barcelona. O problema é que meu segundo filho estaria recém-nascido. Mas, antes disso, foram anunciados os shows em São Paulo. Vendi o ingresso de Barcelona e comprei duas noites em São Paulo: dias 19 e 22 (primeira e terceira de quatro noites) no Morumbi.

Pela primeira vez, não quis saber de nada sobre a turnê. Não li sobre nenhum setlist, não assisti a nenhum vídeo. Mas, na última hora, deixei escorregar o mouse pro setlist do show em Santiago. Ele era quebrado em três atos: um com quatro músicas pré Joshua Tree, tocados no palco B sem telão. O segundo composto de todo o álbum, na ordem do disco. O terceiro com sucessos posteriores. Talvez tenha sido a turnê mais engessada dos irlandeses.

Costumo dizer que, para ver um show, é preciso vê-lo duas vezes. Na primeira vez, a adrenalina faz com que aquela experiência se dissipe rapidamente. É como back-up. Quem um, não tem nenhum. Por isso, a minha primeira noite, lá no alto da arquibancada em um fim de tarde escaldante, foi como um ensaio geral. A minha segunda noite, nas cadeiras inferiores do Morumbi, em uma noite chuvosa, é que seria a experiência real. Não sei se por isso ou se de fato, a segunda noite foi musicalmente espetacular. Tanto para o U2 quanto para o show de abertura com Noel Gallagher.

Dessa primeira noite guardo, como inesquecível, o snippet de Heroes em Bad e uma versão avassaladora de Vertigo, turbinada pela antecessora Elevation. Mas, acima de tudo, a capacidade de revitalizar uma canção já batida: Sunday Bloody Sunday. Há tempo que sua inclusão no setlist causava um certo enfado. Mas, ali, abrindo o show… ouvir a bateria de Larry como o primeiro “big sound” da noite… espetacular!

O lado negativo, pra variar, veio do público (devo dizer, aliás, que é o primeiro show no Brasil onde a organização estava melhor preparada que o público). Já em Running to stand still, pouco tocada nas últimas turnês, a galera começou a aproveitar pra conversar e consultar seus celulares. Foi assim até o fim do lado B de Joshua Tree: justamente o mais importante pra mim. Como eu tive o azar de NUNCA ter visto ao vivo Running to stand still ao vivo (logo uma das minhas favoritas). Foi uma sequência de sete músicas inéditas!!! Afinal, Red Hill Mining Town nunca havia sido tocada ao vivo. Exit e Trip through your wires, só na Joshua Tree original. As outras três foram tocadas bissextamente.

Fiquei hospedado com minha família em um condomínio ao lado do estádio, bem em frente justamente do portão de acesso à arquibancada daquela primeira noite. À tarde, pude ouvir da minha varanda a passagem de som (a base pré-gravada de Where the streets have no name). Parecia estar dentro de um filme. O som era forte e claro. Dava pra escutar tudo. Estava do lado certo do vento. E assim foi o som em todas as noites: alto e claro. Em menos de 10 minutos após o encerramento com One, já estava em casa com meu filho nos braços. No sábado, abri uma cervejinha e fiquei sentado na varanda só escutando… até o meu filho começar a chorar.

No domingo, lá estava eu de novo. Dessa vez pra valer. A chuva não cessava e chegou a cair durante parte do show do Noel. Mas, como o U2 nasceu virado pra lua, nem uma gota durante a apresentação dos irlandeses. Dessa vez consegui comprar o copão de cerveja e uma camiseta da turnê (não qualquer camiseta, mas a única que eu realmente queria). Coincidências da vida, sentei entre um casal carioca e uma família de Fortaleza, e bem na frente do camarote do São Paulo.

Já no sábado (da varanda) eu havia sentido a resposta do público mais intensa do que na quinta. O mesmo ocorreu no domingo. Se Sunday Bloody Sunday surgiu revitalizada, Pride, que encerra o primeiro ato, soou mais batida e cansada. Senti falta de algo do Boy, como I will follow (que seria tocada na quarta no final, como ocorrido em Santiago) ou Out of control . Um snippet que eu sempre quis ouvir Bono cantando era Rain, dos Beatles. Estimulado pela chuva do dia e o encontro com Paul McCartney no início da semana em São Paulo, lá vem ele com a música toda em Bad. Morri. Na passagem para o set de The Joshua Tree, pude, vendo mais de perto, perceber sutilezas que antes haviam me escapada. É arrepiante!

Por mais sensacionais que sejam, as quatro primeiras músicas eu já havia escutado nos shows anteriores e se tornaram comuns nos setlists da banda. O uso do telão, mais como uma moldura visual das canções do que um registro para quem está vendo de longe, é fantástico. Em I still haven’t found what I’m looking for, ele manda o cover de Stand by me, que toca no encerramento do show e sempre faz a galera cantar. Ele deve ter reparado isso, pois na quinta e no sábado ele não havia cantado. E ficou nítida a improvisação de momento. Durante o lado A, predomina a paisagem panorâmica. No lado B, as imagens são mais interativas.

Em Red Hill Mining Town, o arranjo é todo reformulado e aparece no telão um conjunto de sopros que acompanha a banda. A releitura do hard rock para o coreto da praça é magnífica. In God’d country talvez seja a canção com a versão mais fiel ao disco. Trip through your wires foi, para mim, a grande surpresa da turnê. Mesmo na turnê original, sua execução soava um tanto apagada. Nesta, foi uma das melhores canções da noite. Particularmente no domingo, onde ela começa com uma pegada meio funkeada. One Tree Hill, com sua batida atemporal e moderna, foi a que mais atraiu a atenção do público desinteressado em ouvir o que não conhecia. O vigor de Exit revela o quão equivocado foi o seu prolongado exílio dos palcos. Por fim, Mother of the disappeared foi pura poesia, com um belo solo do Edge.

Pequena pausa e a banda volta com um set matador: Beautiful day, Elevation e Vertigo. O estádio pula sem parar. O falso fim de Vertigo e seu retorno com Rebel Rebel é de lavar a alma. Em novo intervalo, eu comento com o casal do meu lado que eles costumavam tocar Mysterious Ways na turnê, mas que em São Paulo ela tinha ficado de fora. E qual são os acordes que eles tocam na volta? Pois é… na minha segunda noite ganhei uma música a mais.

You’re the best thing about me, música do até então novo single, foi ouvida com polida atenção, mas sem empolgar. O que empolga mesmo é a homenagem às mulheres no telão em Ultraviolet. Já se sabia que apareceria uma homenageada brasileira, só não sabia que apareceriam tantas. Enquanto do Chile aparece Michelle Bachelet, no Brasil eles prudentemente deixaram a política de lado (Tarsila do Amaral, Irmã Dulce, Taís Araújo, Maria da Penha), o que significa que estão bem informados sobre o que se passa por aqui. Por fim, o encerramento com One.

Um show redondo, sóbrio, perfeito. Como o disco celebrado.

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Top 20 – filmes e vídeos de música (final)

16/10/2017

Finalizando o Top 20 de filmes e vídeos, acabo como tudo começou: com o U2.

Under a Blood Red Sky

Quando estava na escola, todo mundo andava debaixo do braço com o EP ao vivo do Under a Blood Red Sky, cuja maioria das faixas foi gravada na verdade em um festival de verão na Alemanha (há um DVD pirata dessa apresentação, e vale bastante a pena), e Pride (in the name of love) bombava nas rádios. Eu não gostava de Pride e New Year’s Day não me encantava. Até então, a única música do U2 que me agradara era Sunday Bloody Sunday.

Então eu estava na casa do meu primo Sérgio quando um amigo nosso, Rogério, pediu pra ver o vídeo de um show do U2: justamente Under a Blood Red Sky, cujo conteúdo é bem diverso (e mais extenso) que o disco. Simplesmente não consegui desgrudar o olho da tela. Fiquei chapado, deslumbrado, apaixonado! Toda a minha paixão pelo U2 deriva dessa tarde em um apartamento de fundos no Flamengo.

A banda tinha consciência de sua força ao vivo e investiu tudo o que tinha na gravação do vídeo. Já é lendário o caso do cancelamento do show em Red Rocks por causa das chuvas, precisando a banda ir à rádio e garantir que eles iam tocar.

Como acontece em toda lenda, a chuva parou miraculosamente pouco antes do show. Os poucos que se aventuraram a subir até o anfiteatro participaram de uma espécie de “seleção natural”: só os verdadeiros fãs passarão pelas portas do Paraíso. Todo este contexto quase bíblico garantiu uma plateia apaixonada e uma noite mágica.

Infelizmente, o vídeo ficou pouco conhecido no Brasil, longe das lojas e da TV (por aqui era mais fácil ver um especial de uma hora da TV alemã de um show da Unforgettable Fire Tour), de forma que o VHS do meu primo foi o único no qual eu pus as mãos (e copiei, claro). Uma versão em DVD só foi lançada 24 anos depois, e dessa vez completa! O vídeo original começava com Surrender, que era quarta música do setlist.

U2 Go Home

Depois da experiência com o do Under a Blood Red Sky, o U2 demorou a fazer um grande vídeo ao vivo. A tour de Unforgettable Fire ficou sem um registro oficial (de fato, na época, não havia essa facilidade de fazer álbuns ou vídeos de cada turnê) e Rattle & Hum escapa totalmente ao modelo tradicional. Nos anos 90, tanto o show da ZooTv em Sidney quanto o da Popmart no México são bastante mornos. O especial da MTV da ZooTv é bem melhor que o vídeo oficial, lançado até em Laser Disc. Só na na Elevation Tour a banda voltou a fazer um DVD tão mágico quanto aquele lançado em 1984. O de Boston talvez já merecesse ser incluído nessa seleção, mas acabou sendo superado pelo gravado em Slane Castle, U2 Go Home, uma semana após a morte do pai do Bono, e no mesmo dia da classificação da Irlanda para a Copa do Mundo de 2002. A eletricidade do momento foi tão intensa que muitos que assistiram à transmissão pela TV pediram que ele fosse lançado em DVD. O que acabou ocorrendo. A interação da banda com o público é sintetizada em Out of Control, quando Bono grita “essa é a nossa tribo!”. Kite soa tão emocionante quanto em Boston, mas você nunca verá uma corrida em Where the streets have no name como aquela. Não, não verá…

The Joshua Tree Tour

25/06/2017

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Quando John Lennon morreu, eu não era ainda um adolescente, de forma que a reunião dos Beatles nunca chegou a ser um sonho real. O show que de fato povoou meus sonhos, fez palpitar meu coração como nenhum outro, e que sempre carreguei a amargura de jamais ter chegado perto de assistir, absorvendo com avidez qualquer migalha dele que chegasse a meus olhos e ouvidos, foi o da The Joshua Tree Tour, ou ainda a Lovetown Tour (algo como a Zooropa Tour para a ZooTv Tour).

Não de cara o U2 se tornou minha banda preferida em vida (antes o lugar havia sido ocupado por Dire Straits), graças ao vídeo de Under a blood red sky. Embora já conhecesse todos os discos anteriores (inclusive um excelente disco pirata da turnê do Boy), o Joshua Tree foi meu primeiro lançamento da banda.

Como costuma ocorrer com o U2, não foi paixão à primeira audição. Talvez na terceira. A coisa explodiu quando veio o filme Rattle & Hum. O U2 tem a curiosa característica de continuar a trabalhar suas músicas ao vivo. O disco é apenas o registro de um momento. Ao vivo, a banda parte para outro plano de existência. Não necessariamente as músicas serão melhores, mas muitas o são. Não é como Bruce Springsteen, em que tudo ao vivo soa melhor. No caso do U2, existe uma química entre banda e público que até hoje escapa à razão.

Assim, Joshua Tree se tornou meu álbum favorito, e a turnê catapultou o grupo irlandês para a constelação do rock. Os fãs mais jovens possuem essa relação com a ZooTv Tour, mas acredito que a maioria dos fãs da minha idade sonham com um show da Joshua Tree Tour como os adolescentes dos anos 50 sonhavam com Brigitte Bardot. Qualquer disco, show, vídeo, entrevista ou matéria de jornal, depois disso, não deixava de ser uma tentativa de compensar o rombo existencial de não poder ter visto Joshua Tree ao vivo.

Portanto, quando a banda anunciou uma turnê nostálgica do disco, comemorando seus trinta anos, e ainda garantindo tocar todo o álbum (o que inclui obrigatoriamente músicas jamais tocadas ao vivo), foi como um portal se abrindo para que eu voltasse ao passado para realizar um sonho. Será o mesmo show? Claro que não. Mesmo que eles tentassem reproduzi-lo, a voz do Bono está muito aquém do que foi no passado.

Ouvi o show do Jethro Tull tocando Aqualung na íntegra. Burocrático e sem alma. Em tese, este tipo de resgate costuma apresentar problemas do tipo, exceto quando se trata de artistas que colocam a alma em tudo que fazem, como Bruce e U2. No Rock in Rio, Bruce Springsteen tocou Born in the USA na íntegra, e pouca diferença fizeram os quase 30 anos que separavam a apresentação da turnê original.

Não perdi nenhuma vinda da banda ao Brasil (assim como as de Bruce), e nem esperava que viessem dessa vez, por isso já havia comprado ingresso pra Barcelona. Mas eles vêm! E eu estarei lá, mais uma vez (ou melhor, duas vezes!). Não é sempre que temos a chance de realizar um sonho.

Top 20 – filmes e vídeos de música (parte 1)

11/01/2017
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Rattle and Hum (1988), U2 + Phil Joanou.

Lá estava eu na fila de pré-estreia do Leblon 1, para uma sessão de meia-noite durante a semana. Por sorte, era janeiro de 1989, em plenas férias, sem ter de me preocupar com aula no dia seguinte. Posso afirmar que nunca assisti a um filme no cinema tantas vezes na minha vida (oito, no total, ao longo de seis meses). Incluindo os filmes vistos no conforto do lar, Star Wars e Noviça Rebelde certamente pulam pra ponta da lista (se você achou o estranho o destaque do musical com Julie Andrews, espera só eu contar que a versão de Star Wars mais assistida foi uma dublada em espanhol). Aproveitava a deixa de qualquer amigo que ainda não havia visto Rattle and Hum pra me oferecer como companhia. Até chegar o dia em que tive de assumir o vício e passar a ir sozinho. Que falta não fazia a internet e a possibilidade de se conectar com outros fãs de U2 espalhados pelo país…

A fotografia deslumbrante em preto e branco, entrecortada por entrevistas com a banda e a nonsense visita a Graceland, seguida da explosão colorida de Where the streets have no name, logo após uma épica versão de Bad, e o retorno às luzes e sombras com uma emocional Sunday Bloody Sunday e uma apoteótica Pride, em sequência à eletrizante performance em Bullet the blue sky e Running to stand still, tudo isso colou na minha retina por anos.

Ah… a quem estou tentando enganar? Ainda está lá, agora, enquanto escrevo, no dia em que passei a tarde vendo os amigos postando fotos de seus ingressos para turnê comemorativa dos 30 anos do Joshua Tree, meu álbum preferido da banda, a turnê com a qual eu sonhei por 30 anos e à qual não poderei ir. Meu sonho de ir a Machu Picchu levou 30 anos para ser realizado, mas este nunca será.

Rattle and Hum, devido a sua natureza ambígua de show e estúdio, escapou de constar das listas de top álbum dos anos 80 e ao vivo, mas não poderia ficar de fora da lista de melhores filmes/vídeos de música. Exceto pelos filmes dos Beatles assistidos nos anos 70, Help e A Hard Day’s Night, nenhum vídeo ou musical (incluindo aí a cantoria da família Trapp) causou tanto impacto. A direção de Phil Joanou, particularmente nas filmagens em P&B, colaborou muito para isso.

O cartaz da época trazia a mesma imagem da capa do disco, diferentemente do DVD. Bono na penumbra segurando o canhão de luz na direção de Edge é tão emblemática pra mim quanto a capa de London Calling. Com o filme seguido do álbum duplo, a banda foi acusada de superexposição. Nos EUA, começaram a dizer que os irlandeses queriam mostrar pros americanos como se fazia música americana. Enfim, uma polêmica que não dizia respeito aos fãs. Para nós, a única coisa que importava era quando sairia o próximo álbum. E nada no mundo nos prepararia para Achtung Baby.

Por duas décadas ouvi falar das sobras de material que circulavam entre os fãs. Parte finalmente foi disponibilizada na caixa comemorativa de 20 anos de The Joshua Tree. O material completo pude finalmente baixar da internet (ah, como eu pude viver sem ela?), mas acabou que só vi a primeira (de 9) parte. Muito desse material não tem sequer som. Mas um dia…

U2 em Paris

17/01/2016

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Finalmente pude ver o especial da HBO com o show do U2 em Paris. Infelizmente, não foi graças à Globo, naquela patética transmissão dilacerada com Pedro Bial dublando o Bono. Mas amigos e Youtube estão aí pra isso mesmo!

A história é conhecida: o U2 já havia tocado duas noites em Paris e havia dado um pequeno break para os shows do fim de semana. Neste ínterim, numa sexta-feira 13, ocorrem os ataques terroristas na Cidade Luz. Os shows são cancelados devido às diversas medidas de segurança adotadas pela polícia francesa.

Em dezembro, a banda irlandesa retorna para dar esses shows e, no fim do concerto, chama ao palco a banda americana Eagles of Death Metal, que teve a sua apresentação no Bataclan violentamente interrompida naquela noite sangrenta. Juntos cantam People have the Power, composição de Patti Smith, que havia tocado com o U2 esta mesma música na noite anterior (show também transmitido pela HBO). Mas não ficou só aí: os irlandeses deixaram o palco e permitiram que os americanos fechassem a noite com seu I love you all the time, momento que o vocalista Jesse Hughes jura que jamais esquecerá.

Tal encerramento (não só do show, mas também da turnê em 2015), assim como o já tradicional painel com os nomes das vítimas dos ataques com a bandeira francesa ao fundo no final de City of Blinding Lights, com Bono cantando trecho de Ne me quitte pas, certamente é o que torna esta noite de segunda, dia 7 de dezembro, inesquecível, mas tem também o resto do show e o que torna esta turnê inesquecível.

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Quando vi o vídeo da ZooTv, não imaginei que um dia alguém pudesse igualar a ousadia no uso de telões em um show. Na Popmart, a banda ousou no tamanho e na tecnologia, mas o palco me parecia apenas uma versão incrementada do palco dos Rolling Stones na tour do Voodoo Lounge. Apesar de toda a parafernália, no final das contas funcionava apenas como um telão. Em termos de interatividade, o telão da Vertigo Tour tinha sacadas mais espertas. Nesta turnê, por sua vez, o palco nos ginásios era uma versão turbinada da humilde Elevation Tour. Já o palco na versão pros estádios se aproximava mais da Popmart, sem o “McDonald” e o limão.

Eis que a banda inova mais uma vez com o alucinante palco da 360° Tour, com um telão circular que descia até o palco, suas passarelas móveis, mais parecendo uma nave espacial. “Pronto”, pensei, “agora só resta à banda voltar ao básico da Elevation Tour, pois nada vai poder superar isso”.

Bem, devido às limitações da paternidade recém adquirida, ainda não tive a oportunidade de checar in loco a Innocence + Experience Tour, mas o que vi em vídeo parece alcançar a grandiosidade da 360° e levar a interatividade da ZooTv a outro patamar.

O show tem vários atos, como em uma ópera. No primeiro, centrado principalmente nas músicas novas, tem como tema as reminiscências nostálgicas de Bono. Assistindo ao show na íntegra, esse caráter conceitual é mais amarrado do que havia me parecido até então. Até mesmo a nova versão para Sunday Bloody Sunday, que antes só havia escutado na transmissão em stream da eterna Sil Rigote, passou a ter sentido. O melhor de tudo é que, ao contrário do ocorrido na 360°, onde as músicas do No Line on the Horizon foram minguando de uma leg pra outra, na I+E são a coluna vertebral de todo o espetáculo.

A sequência, ao menos nos últimos shows de 2015, que vai de Iris a Raised by Wolves, passando por Cedarwood Road, Song for Someone e Sunday Bloody Sunday (a única antiga), funciona como uma peça única a qual é dada um tratamento visual sem precedentes. Lágrimas rolam em Iris e queixos caem no esplendor visual interativo de Cedarwood Road. O “vídeo em quadrinhos” de Song for Someone emociona e prepara para a temática política de Sunday Bloody Sunday e uma ótima Raised by Wolves, que soa melhor e mais urgente do que no disco.

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E quando você acha que valeu o ingresso e já pode ir pra casa, se dá conta de que este é apenas o início. O set fecha com uma estonteante versão de Until the end of the World, onde o telão-passarela é usado para encenar o já tradicional embate entre Edge e Bono, reinventando o que poderia correr o risco de ficar batido.

Semelhante à 360°, o telão desce até a passarela, mas em escala monumental. A banda toda fica dentro pra tocar Invisible, numa teatralidade capaz de deixar Peter Gabriel orgulhoso. Seguida de Even better than the real thing, trata-se de um curto (e belo) ato de transição para o momento seguinte do espetáculo: o E Stage.

O palco E nada mais é do que o antigo palco B já usado na ZooTv, Popmart e dividido na Vertigo. Ali são tocados os números acústicos, a filmagem em webcam (agora com celular), e o momento “suba no palco”, que a cada noite parece crescer o número de convidados. Bono já se deu conta que o público do gargarejo meio que se repete, a ponto de mais de uma pessoa já ter sido agraciada pelo menos duas vezes na mesma turnê. Foi o caso da Trish (se entendi certo o nome da menina), responsável pelo celular e pela dança em Mysteryous Ways (mandou muito bem, aliás).

Na volta ao palco principal, com uma reedição da versão de Bullet the Blue Sky da ZooTv, é dado início à sequência de hits até o final. Nas músicas do falso bis, as estripulias visuais ficam em segundo plano, parecendo-se mais com um show convencional.

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A voz do Bono, como sabemos, não é mais a mesma, mas isso só é relevante quando você está assistindo ao show do conforto de sua poltrona. Pra quem tá lá pulando, cantando, decidindo pra onde olhar (no caso de shows do U2, um detalhe importante), falhas na voz passam despercebidas. O que importa é a percepção holística do concerto. Shows de arena nunca foram só pra ouvir música.

O que me deixa apreensivo é que o espetáculo é todo pensado para ginásios, e não sei se há ginásio no Brasil que comporte esta estrutura ou se, havendo, daria vazão a um show dessa magnitude. Aguardemos.

Final do show com o Eagles of Death Metal, aqui.

Songs of Innocence?

22/01/2015
Songs of Innocence (2014), U2.

Songs of Innocence (2014), U2.

Estou enrolando há algum tempo para falar sobre o novo álbum do U2, Songs of Innocence. Pensei em fazer uma daquelas resenhas básicas, falando de cada faixa, mas isso me pareceu ser apenas arranhar a superfície (e arranhar discos nunca foi uma boa coisa) do que significa o álbum para mim.

Para falar de Songs of Innocence é preciso voltar lá em 2009, quando No Line on the Horizon foi lançado. Na época, a banda anunciava ter material para mais um disco, que se chamaria Songs of Ascent, de perfil mais experimental e etéreo. Só que No Line on the Horizon foi considerado um fracasso e o projeto, primeiramente anunciado para ser lançado durante a turnê 360º (da mesma forma que o Zooropa em 1993), foi engavetado.

Mas o que é fracasso comercial para Bono e Cia? Muito simples e objetivo: não ter um grande hit/single bombando nas rádios. Por isso, POP, de 1997, havia sido considerado (injustamente) o maior fracasso da banda até então. Quando assisti ao show em Dublin, em 2009, as músicas do novo álbum giravam em torno de 7 por noite. Quando chegaram a São Paulo no final da 360º Tour, já em 2011, não passavam de 4. Em vez de insistir nas músicas novas ao vivo, pra fazê-las “acontecer”, tirando proveito do sucesso retumbante da tour já no 1º minuto de vendas, preferiram emendar 5 músicas do Achtung Baby. Se a própria banda não acredita em suas canções, quem irá acreditar?

Aí eu pergunto: com 30 anos de carreira, com mais sucessos do que seria capaz de tocar em uma noite, por que os irlandeses anseiam tanto por sucesso comercial? Esse é o termômetro que eles elegeram para medir se a banda se mantém relevante. Mas precisa ser hit em rádio? Críticos podem ficar acomodados e elogiar por hábito, é bem verdade. Mas com 30 anos de sucesso nas costas, qualquer artista poderia relaxar um pouco e fazer o que der na telha, sem se preocupar em “acertar”, e assim poder surpreender a todos. Talvez seja menos arriscado do que tentar adivinhar o sucesso da vez. Nem todo mundo tem vocação pra Madonna. E o U2 sempre se deu melhor nadando contra a corrente.

Ao partir pro pop no álbum seguinte, almejando o sucesso “perdido” do álbum anterior, o U2 às vezes soa como uma cópia de si mesmo. Edge já pegava emprestado riffs de outrora em 2009. Larry Mullen Jr se mantém tecnicamente impecável na bateria, mas sem muita inspiração. A voz de Bono se esgarça a cada ano. Só Adam Clayton garante frescor musical com seu baixo em constante evolução.

Como o U2 tem uma sonoridade tão única, tornou-se inimitável. Sem poder imitar sem soar como cópia barata, os outros artistas resolveram tentar aprender os truques de performance do seu frontman. E de repente criou-se uma espécie de curso “U2 pra Rock de Arena”, com vocalistas tentando ser comunicativos e fazendo “oooos”. Em Songs of Innocence, parece que Bono entrou sem querer num desses cursos. Com tantos negócios por aí, como hotel, restaurante, confecção etc, não se tocou que aquele curso também lhe pertencia, e acabou fazendo um disco cheio de “oooos”. “Isso vai bombar! Genial! Como não pensei nisso antes?”, deve ter pensado.

Assim falando, parece até que eu não gostei do disco, né? Pior que gostei. Afinal, um U2 meia boca ainda é melhor do que muita coisa nova por aí, que no fundo se inspira num som já manjado, só que menos conhecido. Every Breaking Wave é a minha preferida no momento, e Edge se revela com um pouco mais de inspiração em Sleep like a baby tonight. Algumas faixas dançantes teriam encaixado muito bem em POP (aquele que foi sem nunca ter sido). Iris (Hold me close), com seu autoplágio de Where the streets have no name, é cativante. A homenagem aos Beach Boys em California (There is no end to love) foi uma boa sacada. Se fosse o primeiro álbum de uma banda iniciante, seria antológico. Sendo apenas mais um “by U2″, fica aquém do que eles podem produzir. A única crítica real que faço ao disco é o encarte espartano, até mesmo na versão deluxe.

E finalmente chego aonde queria. No lançamento de Songs of Innocence, Bono anuncia que vem por aí Songs of Experience, também a ser lançado durante a nova turnê. Só espero que o possível fracasso do novo álbum (para os padrões u2nianos, é claro) não devolva o projeto pra gaveta.

Every Breaking Wave ao vivo no Later… with Jools Holland.

Top 20 – 1980/1989 (10ª parte – final)

04/09/2012

Boy (1980), U2.

Quando os irlandeses do U2 estouraram por essas bandas, já estavam no 4º álbum. O sucesso era Pride (in the name of love), que eu não curti muito. Mas logo vieram a reboque Sunday Bloody Sunday e New Year’s Day, com seu vídeo clip. A primeira, em particular, gostei bastante. Com o EP ao vivo, Under a blood red sky, algumas músicas do álbum de estreia ficaram conhecidas e fizeram sucesso, especialmente I will follow.

Boy foi recebido como um grande debut. Se lembrarmos que os integrantes da banda oscilavam entre 18 e 20 anos, mal dominavam seus instrumentos, incluindo aí a voz, e vinham de um país marginal da Europa, o feito se torna impressionante. Conseguiram fazer um disco cuja sonoridade é originalíssima, particularmente bateria e guitarra; tanto letra quanto música conseguem compor um todo homogêneo, intuitivamente conceitual, construindo um painel sobre as incertezas adolescentes. Absolutamente todas as faixas têm qualidade.

Boy não tem a pegada de War, a experimentação de The Unforgettable Fire, a grandeza de The Joshua Tree e sequer a ousadia de Achtung Baby ou a pretensão de POP, Rattle & Hum e Zooropa. Até mesmo o quase esquecido October consegue ser instrumentalmente superior. Mesmo assim, Boy é referência obrigatória para qualquer fã da banda, assim como a capa inusitadamente polêmica.

O álbum possui um forte magnetismo que perpassa todas as turnês. Suas faixas podiam ser facilmente esquecidas pela banda, sem nenhum sucesso radiofônico que impusesse a sua execução, mas isso jamais ocorreu. O garoto entrou em crise, foi à guerra, atravessou os Estados Unidos, colocou óculos escuros, vestiu roupas coloridas e passou a frequentar as pistas de dança. Tornou-se, enfim, um homem maduro, pai de família. Mas, como cantou Bono quase 15 anos depois, “time won’t take the boy out of this man”.

Boy é U2 de raiz.

Out of Control, o primeiro single da banda, ao vivo no Morumbi, em 10 de abril de 2011.

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Gostaria de agradecer, mais uma vez, a Cowboy Junkies, Loreena McKennitPeter Gabriel por terem feito esta década discograficamente memorável. E, ainda, às inestimáveis contribuições de Dire Straits, Faith no more, Ira, Iron Maiden, Lou Reed, Pixies, RPM, Suzanne Vega, Titãs, Traveling Wilburys (valeu, rapazes!) e Whitesnake.

Já a próxima década vai dar um trabalho danado… Por isso, talvez demore um pouco para iniciá-la.

Até os anos 70!