Archive for the ‘U2’ category

The Joshua Tree Tour 2017

08/11/2017

20171019_215331

Joshua Tree Tour sempre foi o show que eu quis ver. Acho que eu trocaria todos os shows que eu vi na vida (ok, menos o do Queen no Rock in Rio) para estar em um daqueles shows filmados em Rattle & Hum. Portanto, não preciso dizer o que significou pra mim saber que o U2 iria fazer uma tour especial de 30 anos do disco.

Tratei logo de garantir meu ingresso para um show em Barcelona. O problema é que meu segundo filho estaria recém-nascido. Mas, antes disso, foram anunciados os shows em São Paulo. Vendi o ingresso de Barcelona e comprei duas noites em São Paulo: dias 19 e 22 (primeira e terceira de quatro noites) no Morumbi.

Pela primeira vez, não quis saber de nada sobre a turnê. Não li sobre nenhum setlist, não assisti a nenhum vídeo. Mas, na última hora, deixei escorregar o mouse pro setlist do show em Santiago. Ele era quebrado em três atos: um com quatro músicas pré Joshua Tree, tocados no palco B sem telão. O segundo composto de todo o álbum, na ordem do disco. O terceiro com sucessos posteriores. Talvez tenha sido a turnê mais engessada dos irlandeses.

Costumo dizer que, para ver um show, é preciso vê-lo duas vezes. Na primeira vez, a adrenalina faz com que aquela experiência se dissipe rapidamente. É como back-up. Quem um, não tem nenhum. Por isso, a minha primeira noite, lá no alto da arquibancada em um fim de tarde escaldante, foi como um ensaio geral. A minha segunda noite, nas cadeiras inferiores do Morumbi, em uma noite chuvosa, é que seria a experiência real. Não sei se por isso ou se de fato, a segunda noite foi musicalmente espetacular. Tanto para o U2 quanto para o show de abertura com Noel Gallagher.

Dessa primeira noite guardo, como inesquecível, o snippet de Heroes em Bad e uma versão avassaladora de Vertigo, turbinada pela antecessora Elevation. Mas, acima de tudo, a capacidade de revitalizar uma canção já batida: Sunday Bloody Sunday. Há tempo que sua inclusão no setlist causava um certo enfado. Mas, ali, abrindo o show… ouvir a bateria de Larry como o primeiro “big sound” da noite… espetacular!

O lado negativo, pra variar, veio do público (devo dizer, aliás, que é o primeiro show no Brasil onde a organização estava melhor preparada que o público). Já em Running to stand still, pouco tocada nas últimas turnês, a galera começou a aproveitar pra conversar e consultar seus celulares. Foi assim até o fim do lado B de Joshua Tree: justamente o mais importante pra mim. Como eu tive o azar de NUNCA ter visto ao vivo Running to stand still ao vivo (logo uma das minhas favoritas). Foi uma sequência de sete músicas inéditas!!! Afinal, Red Hill Mining Town nunca havia sido tocada ao vivo. Exit e Trip through your wires, só na Joshua Tree original. As outras três foram tocadas bissextamente.

Fiquei hospedado com minha família em um condomínio ao lado do estádio, bem em frente justamente do portão de acesso à arquibancada daquela primeira noite. À tarde, pude ouvir da minha varanda a passagem de som (a base pré-gravada de Where the streets have no name). Parecia estar dentro de um filme. O som era forte e claro. Dava pra escutar tudo. Estava do lado certo do vento. E assim foi o som em todas as noites: alto e claro. Em menos de 10 minutos após o encerramento com One, já estava em casa com meu filho nos braços. No sábado, abri uma cervejinha e fiquei sentado na varanda só escutando… até o meu filho começar a chorar.

No domingo, lá estava eu de novo. Dessa vez pra valer. A chuva não cessava e chegou a cair durante parte do show do Noel. Mas, como o U2 nasceu virado pra lua, nem uma gota durante a apresentação dos irlandeses. Dessa vez consegui comprar o copão de cerveja e uma camiseta da turnê (não qualquer camiseta, mas a única que eu realmente queria). Coincidências da vida, sentei entre um casal carioca e uma família de Fortaleza, e bem na frente do camarote do São Paulo.

Já no sábado (da varanda) eu havia sentido a resposta do público mais intensa do que na quinta. O mesmo ocorreu no domingo. Se Sunday Bloody Sunday surgiu revitalizada, Pride, que encerra o primeiro ato, soou mais batida e cansada. Senti falta de algo do Boy, como I will follow (que seria tocada na quarta no final, como ocorrido em Santiago) ou Out of control . Um snippet que eu sempre quis ouvir Bono cantando era Rain, dos Beatles. Estimulado pela chuva do dia e o encontro com Paul McCartney no início da semana em São Paulo, lá vem ele com a música toda em Bad. Morri. Na passagem para o set de The Joshua Tree, pude, vendo mais de perto, perceber sutilezas que antes haviam me escapada. É arrepiante!

Por mais sensacionais que sejam, as quatro primeiras músicas eu já havia escutado nos shows anteriores e se tornaram comuns nos setlists da banda. O uso do telão, mais como uma moldura visual das canções do que um registro para quem está vendo de longe, é fantástico. Em I still haven’t found what I’m looking for, ele manda o cover de Stand by me, que toca no encerramento do show e sempre faz a galera cantar. Ele deve ter reparado isso, pois na quinta e no sábado ele não havia cantado. E ficou nítida a improvisação de momento. Durante o lado A, predomina a paisagem panorâmica. No lado B, as imagens são mais interativas.

Em Red Hill Mining Town, o arranjo é todo reformulado e aparece no telão um conjunto de sopros que acompanha a banda. A releitura do hard rock para o coreto da praça é magnífica. In God’d country talvez seja a canção com a versão mais fiel ao disco. Trip through your wires foi, para mim, a grande surpresa da turnê. Mesmo na turnê original, sua execução soava um tanto apagada. Nesta, foi uma das melhores canções da noite. Particularmente no domingo, onde ela começa com uma pegada meio funkeada. One Tree Hill, com sua batida atemporal e moderna, foi a que mais atraiu a atenção do público desinteressado em ouvir o que não conhecia. O vigor de Exit revela o quão equivocado foi o seu prolongado exílio dos palcos. Por fim, Mother of the disappeared foi pura poesia, com um belo solo do Edge.

Pequena pausa e a banda volta com um set matador: Beautiful day, Elevation e Vertigo. O estádio pula sem parar. O falso fim de Vertigo e seu retorno com Rebel Rebel é de lavar a alma. Em novo intervalo, eu comento com o casal do meu lado que eles costumavam tocar Mysterious Ways na turnê, mas que em São Paulo ela tinha ficado de fora. E qual são os acordes que eles tocam na volta? Pois é… na minha segunda noite ganhei uma música a mais.

You’re the best thing about me, música do até então novo single, foi ouvida com polida atenção, mas sem empolgar. O que empolga mesmo é a homenagem às mulheres no telão em Ultraviolet. Já se sabia que apareceria uma homenageada brasileira, só não sabia que apareceriam tantas. Enquanto do Chile aparece Michelle Bachelet, no Brasil eles prudentemente deixaram a política de lado (Tarsila do Amaral, Irmã Dulce, Taís Araújo, Maria da Penha), o que significa que estão bem informados sobre o que se passa por aqui. Por fim, o encerramento com One.

Um show redondo, sóbrio, perfeito. Como o disco celebrado.

Top 20 – filmes e vídeos de música (final)

16/10/2017

Finalizando o Top 20 de filmes e vídeos, acabo como tudo começou: com o U2.

Under a Blood Red Sky

Quando estava na escola, todo mundo andava debaixo do braço com o EP ao vivo do Under a Blood Red Sky, cuja maioria das faixas foi gravada na verdade em um festival de verão na Alemanha (há um DVD pirata dessa apresentação, e vale bastante a pena), e Pride (in the name of love) bombava nas rádios. Eu não gostava de Pride e New Year’s Day não me encantava. Até então, a única música do U2 que me agradara era Sunday Bloody Sunday.

Então eu estava na casa do meu primo Sérgio quando um amigo nosso, Rogério, pediu pra ver o vídeo de um show do U2: justamente Under a Blood Red Sky, cujo conteúdo é bem diverso (e mais extenso) que o disco. Simplesmente não consegui desgrudar o olho da tela. Fiquei chapado, deslumbrado, apaixonado! Toda a minha paixão pelo U2 deriva dessa tarde em um apartamento de fundos no Flamengo.

A banda tinha consciência de sua força ao vivo e investiu tudo o que tinha na gravação do vídeo. Já é lendário o caso do cancelamento do show em Red Rocks por causa das chuvas, precisando a banda ir à rádio e garantir que eles iam tocar.

Como acontece em toda lenda, a chuva parou miraculosamente pouco antes do show. Os poucos que se aventuraram a subir até o anfiteatro participaram de uma espécie de “seleção natural”: só os verdadeiros fãs passarão pelas portas do Paraíso. Todo este contexto quase bíblico garantiu uma plateia apaixonada e uma noite mágica.

Infelizmente, o vídeo ficou pouco conhecido no Brasil, longe das lojas e da TV (por aqui era mais fácil ver um especial de uma hora da TV alemã de um show da Unforgettable Fire Tour), de forma que o VHS do meu primo foi o único no qual eu pus as mãos (e copiei, claro). Uma versão em DVD só foi lançada 24 anos depois, e dessa vez completa! O vídeo original começava com Surrender, que era quarta música do setlist.

U2 Go Home

Depois da experiência com o do Under a Blood Red Sky, o U2 demorou a fazer um grande vídeo ao vivo. A tour de Unforgettable Fire ficou sem um registro oficial (de fato, na época, não havia essa facilidade de fazer álbuns ou vídeos de cada turnê) e Rattle & Hum escapa totalmente ao modelo tradicional. Nos anos 90, tanto o show da ZooTv em Sidney quanto o da Popmart no México são bastante mornos. O especial da MTV da ZooTv é bem melhor que o vídeo oficial, lançado até em Laser Disc. Só na na Elevation Tour a banda voltou a fazer um DVD tão mágico quanto aquele lançado em 1984. O de Boston talvez já merecesse ser incluído nessa seleção, mas acabou sendo superado pelo gravado em Slane Castle, U2 Go Home, uma semana após a morte do pai do Bono, e no mesmo dia da classificação da Irlanda para a Copa do Mundo de 2002. A eletricidade do momento foi tão intensa que muitos que assistiram à transmissão pela TV pediram que ele fosse lançado em DVD. O que acabou ocorrendo. A interação da banda com o público é sintetizada em Out of Control, quando Bono grita “essa é a nossa tribo!”. Kite soa tão emocionante quanto em Boston, mas você nunca verá uma corrida em Where the streets have no name como aquela. Não, não verá…

The Joshua Tree Tour

25/06/2017

166622-show-145973

Quando John Lennon morreu, eu não era ainda um adolescente, de forma que a reunião dos Beatles nunca chegou a ser um sonho real. O show que de fato povoou meus sonhos, fez palpitar meu coração como nenhum outro, e que sempre carreguei a amargura de jamais ter chegado perto de assistir, absorvendo com avidez qualquer migalha dele que chegasse a meus olhos e ouvidos, foi o da The Joshua Tree Tour, ou ainda a Lovetown Tour (algo como a Zooropa Tour para a ZooTv Tour).

Não de cara o U2 se tornou minha banda preferida em vida (antes o lugar havia sido ocupado por Dire Straits), graças ao vídeo de Under a blood red sky. Embora já conhecesse todos os discos anteriores (inclusive um excelente disco pirata da turnê do Boy), o Joshua Tree foi meu primeiro lançamento da banda.

Como costuma ocorrer com o U2, não foi paixão à primeira audição. Talvez na terceira. A coisa explodiu quando veio o filme Rattle & Hum. O U2 tem a curiosa característica de continuar a trabalhar suas músicas ao vivo. O disco é apenas o registro de um momento. Ao vivo, a banda parte para outro plano de existência. Não necessariamente as músicas serão melhores, mas muitas o são. Não é como Bruce Springsteen, em que tudo ao vivo soa melhor. No caso do U2, existe uma química entre banda e público que até hoje escapa à razão.

Assim, Joshua Tree se tornou meu álbum favorito, e a turnê catapultou o grupo irlandês para a constelação do rock. Os fãs mais jovens possuem essa relação com a ZooTv Tour, mas acredito que a maioria dos fãs da minha idade sonham com um show da Joshua Tree Tour como os adolescentes dos anos 50 sonhavam com Brigitte Bardot. Qualquer disco, show, vídeo, entrevista ou matéria de jornal, depois disso, não deixava de ser uma tentativa de compensar o rombo existencial de não poder ter visto Joshua Tree ao vivo.

Portanto, quando a banda anunciou uma turnê nostálgica do disco, comemorando seus trinta anos, e ainda garantindo tocar todo o álbum (o que inclui obrigatoriamente músicas jamais tocadas ao vivo), foi como um portal se abrindo para que eu voltasse ao passado para realizar um sonho. Será o mesmo show? Claro que não. Mesmo que eles tentassem reproduzi-lo, a voz do Bono está muito aquém do que foi no passado.

Ouvi o show do Jethro Tull tocando Aqualung na íntegra. Burocrático e sem alma. Em tese, este tipo de resgate costuma apresentar problemas do tipo, exceto quando se trata de artistas que colocam a alma em tudo que fazem, como Bruce e U2. No Rock in Rio, Bruce Springsteen tocou Born in the USA na íntegra, e pouca diferença fizeram os quase 30 anos que separavam a apresentação da turnê original.

Não perdi nenhuma vinda da banda ao Brasil (assim como as de Bruce), e nem esperava que viessem dessa vez, por isso já havia comprado ingresso pra Barcelona. Mas eles vêm! E eu estarei lá, mais uma vez (ou melhor, duas vezes!). Não é sempre que temos a chance de realizar um sonho.

Top 20 – filmes e vídeos de música (parte 1)

11/01/2017
rattle-hum

Rattle and Hum (1988), U2 + Phil Joanou.

Lá estava eu na fila de pré-estreia do Leblon 1, para uma sessão de meia-noite durante a semana. Por sorte, era janeiro de 1989, em plenas férias, sem ter de me preocupar com aula no dia seguinte. Posso afirmar que nunca assisti a um filme no cinema tantas vezes na minha vida (oito, no total, ao longo de seis meses). Incluindo os filmes vistos no conforto do lar, Star Wars e Noviça Rebelde certamente pulam pra ponta da lista (se você achou o estranho o destaque do musical com Julie Andrews, espera só eu contar que a versão de Star Wars mais assistida foi uma dublada em espanhol). Aproveitava a deixa de qualquer amigo que ainda não havia visto Rattle and Hum pra me oferecer como companhia. Até chegar o dia em que tive de assumir o vício e passar a ir sozinho. Que falta não fazia a internet e a possibilidade de se conectar com outros fãs de U2 espalhados pelo país…

A fotografia deslumbrante em preto e branco, entrecortada por entrevistas com a banda e a nonsense visita a Graceland, seguida da explosão colorida de Where the streets have no name, logo após uma épica versão de Bad, e o retorno às luzes e sombras com uma emocional Sunday Bloody Sunday e uma apoteótica Pride, em sequência à eletrizante performance em Bullet the blue sky e Running to stand still, tudo isso colou na minha retina por anos.

Ah… a quem estou tentando enganar? Ainda está lá, agora, enquanto escrevo, no dia em que passei a tarde vendo os amigos postando fotos de seus ingressos para turnê comemorativa dos 30 anos do Joshua Tree, meu álbum preferido da banda, a turnê com a qual eu sonhei por 30 anos e à qual não poderei ir. Meu sonho de ir a Machu Picchu levou 30 anos para ser realizado, mas este nunca será.

Rattle and Hum, devido a sua natureza ambígua de show e estúdio, escapou de constar das listas de top álbum dos anos 80 e ao vivo, mas não poderia ficar de fora da lista de melhores filmes/vídeos de música. Exceto pelos filmes dos Beatles assistidos nos anos 70, Help e A Hard Day’s Night, nenhum vídeo ou musical (incluindo aí a cantoria da família Trapp) causou tanto impacto. A direção de Phil Joanou, particularmente nas filmagens em P&B, colaborou muito para isso.

O cartaz da época trazia a mesma imagem da capa do disco, diferentemente do DVD. Bono na penumbra segurando o canhão de luz na direção de Edge é tão emblemática pra mim quanto a capa de London Calling. Com o filme seguido do álbum duplo, a banda foi acusada de superexposição. Nos EUA, começaram a dizer que os irlandeses queriam mostrar pros americanos como se fazia música americana. Enfim, uma polêmica que não dizia respeito aos fãs. Para nós, a única coisa que importava era quando sairia o próximo álbum. E nada no mundo nos prepararia para Achtung Baby.

Por duas décadas ouvi falar das sobras de material que circulavam entre os fãs. Parte finalmente foi disponibilizada na caixa comemorativa de 20 anos de The Joshua Tree. O material completo pude finalmente baixar da internet (ah, como eu pude viver sem ela?), mas acabou que só vi a primeira (de 9) parte. Muito desse material não tem sequer som. Mas um dia…

U2 em Paris

17/01/2016

Paris 2

Finalmente pude ver o especial da HBO com o show do U2 em Paris. Infelizmente, não foi graças à Globo, naquela patética transmissão dilacerada com Pedro Bial dublando o Bono. Mas amigos e Youtube estão aí pra isso mesmo!

A história é conhecida: o U2 já havia tocado duas noites em Paris e havia dado um pequeno break para os shows do fim de semana. Neste ínterim, numa sexta-feira 13, ocorrem os ataques terroristas na Cidade Luz. Os shows são cancelados devido às diversas medidas de segurança adotadas pela polícia francesa.

Em dezembro, a banda irlandesa retorna para dar esses shows e, no fim do concerto, chama ao palco a banda americana Eagles of Death Metal, que teve a sua apresentação no Bataclan violentamente interrompida naquela noite sangrenta. Juntos cantam People have the Power, composição de Patti Smith, que havia tocado com o U2 esta mesma música na noite anterior (show também transmitido pela HBO). Mas não ficou só aí: os irlandeses deixaram o palco e permitiram que os americanos fechassem a noite com seu I love you all the time, momento que o vocalista Jesse Hughes jura que jamais esquecerá.

Tal encerramento (não só do show, mas também da turnê em 2015), assim como o já tradicional painel com os nomes das vítimas dos ataques com a bandeira francesa ao fundo no final de City of Blinding Lights, com Bono cantando trecho de Ne me quitte pas, certamente é o que torna esta noite de segunda, dia 7 de dezembro, inesquecível, mas tem também o resto do show e o que torna esta turnê inesquecível.

Paris 1

Quando vi o vídeo da ZooTv, não imaginei que um dia alguém pudesse igualar a ousadia no uso de telões em um show. Na Popmart, a banda ousou no tamanho e na tecnologia, mas o palco me parecia apenas uma versão incrementada do palco dos Rolling Stones na tour do Voodoo Lounge. Apesar de toda a parafernália, no final das contas funcionava apenas como um telão. Em termos de interatividade, o telão da Vertigo Tour tinha sacadas mais espertas. Nesta turnê, por sua vez, o palco nos ginásios era uma versão turbinada da humilde Elevation Tour. Já o palco na versão pros estádios se aproximava mais da Popmart, sem o “McDonald” e o limão.

Eis que a banda inova mais uma vez com o alucinante palco da 360° Tour, com um telão circular que descia até o palco, suas passarelas móveis, mais parecendo uma nave espacial. “Pronto”, pensei, “agora só resta à banda voltar ao básico da Elevation Tour, pois nada vai poder superar isso”.

Bem, devido às limitações da paternidade recém adquirida, ainda não tive a oportunidade de checar in loco a Innocence + Experience Tour, mas o que vi em vídeo parece alcançar a grandiosidade da 360° e levar a interatividade da ZooTv a outro patamar.

O show tem vários atos, como em uma ópera. No primeiro, centrado principalmente nas músicas novas, tem como tema as reminiscências nostálgicas de Bono. Assistindo ao show na íntegra, esse caráter conceitual é mais amarrado do que havia me parecido até então. Até mesmo a nova versão para Sunday Bloody Sunday, que antes só havia escutado na transmissão em stream da eterna Sil Rigote, passou a ter sentido. O melhor de tudo é que, ao contrário do ocorrido na 360°, onde as músicas do No Line on the Horizon foram minguando de uma leg pra outra, na I+E são a coluna vertebral de todo o espetáculo.

A sequência, ao menos nos últimos shows de 2015, que vai de Iris a Raised by Wolves, passando por Cedarwood Road, Song for Someone e Sunday Bloody Sunday (a única antiga), funciona como uma peça única a qual é dada um tratamento visual sem precedentes. Lágrimas rolam em Iris e queixos caem no esplendor visual interativo de Cedarwood Road. O “vídeo em quadrinhos” de Song for Someone emociona e prepara para a temática política de Sunday Bloody Sunday e uma ótima Raised by Wolves, que soa melhor e mais urgente do que no disco.

Paris 3

E quando você acha que valeu o ingresso e já pode ir pra casa, se dá conta de que este é apenas o início. O set fecha com uma estonteante versão de Until the end of the World, onde o telão-passarela é usado para encenar o já tradicional embate entre Edge e Bono, reinventando o que poderia correr o risco de ficar batido.

Semelhante à 360°, o telão desce até a passarela, mas em escala monumental. A banda toda fica dentro pra tocar Invisible, numa teatralidade capaz de deixar Peter Gabriel orgulhoso. Seguida de Even better than the real thing, trata-se de um curto (e belo) ato de transição para o momento seguinte do espetáculo: o E Stage.

O palco E nada mais é do que o antigo palco B já usado na ZooTv, Popmart e dividido na Vertigo. Ali são tocados os números acústicos, a filmagem em webcam (agora com celular), e o momento “suba no palco”, que a cada noite parece crescer o número de convidados. Bono já se deu conta que o público do gargarejo meio que se repete, a ponto de mais de uma pessoa já ter sido agraciada pelo menos duas vezes na mesma turnê. Foi o caso da Trish (se entendi certo o nome da menina), responsável pelo celular e pela dança em Mysteryous Ways (mandou muito bem, aliás).

Na volta ao palco principal, com uma reedição da versão de Bullet the Blue Sky da ZooTv, é dado início à sequência de hits até o final. Nas músicas do falso bis, as estripulias visuais ficam em segundo plano, parecendo-se mais com um show convencional.

Paris 4

A voz do Bono, como sabemos, não é mais a mesma, mas isso só é relevante quando você está assistindo ao show do conforto de sua poltrona. Pra quem tá lá pulando, cantando, decidindo pra onde olhar (no caso de shows do U2, um detalhe importante), falhas na voz passam despercebidas. O que importa é a percepção holística do concerto. Shows de arena nunca foram só pra ouvir música.

O que me deixa apreensivo é que o espetáculo é todo pensado para ginásios, e não sei se há ginásio no Brasil que comporte esta estrutura ou se, havendo, daria vazão a um show dessa magnitude. Aguardemos.

Final do show com o Eagles of Death Metal, aqui.

Songs of Innocence?

22/01/2015
Songs of Innocence (2014), U2.

Songs of Innocence (2014), U2.

Estou enrolando há algum tempo para falar sobre o novo álbum do U2, Songs of Innocence. Pensei em fazer uma daquelas resenhas básicas, falando de cada faixa, mas isso me pareceu ser apenas arranhar a superfície (e arranhar discos nunca foi uma boa coisa) do que significa o álbum para mim.

Para falar de Songs of Innocence é preciso voltar lá em 2009, quando No Line on the Horizon foi lançado. Na época, a banda anunciava ter material para mais um disco, que se chamaria Songs of Ascent, de perfil mais experimental e etéreo. Só que No Line on the Horizon foi considerado um fracasso e o projeto, primeiramente anunciado para ser lançado durante a turnê 360º (da mesma forma que o Zooropa em 1993), foi engavetado.

Mas o que é fracasso comercial para Bono e Cia? Muito simples e objetivo: não ter um grande hit/single bombando nas rádios. Por isso, POP, de 1997, havia sido considerado (injustamente) o maior fracasso da banda até então. Quando assisti ao show em Dublin, em 2009, as músicas do novo álbum giravam em torno de 7 por noite. Quando chegaram a São Paulo no final da 360º Tour, já em 2011, não passavam de 4. Em vez de insistir nas músicas novas ao vivo, pra fazê-las “acontecer”, tirando proveito do sucesso retumbante da tour já no 1º minuto de vendas, preferiram emendar 5 músicas do Achtung Baby. Se a própria banda não acredita em suas canções, quem irá acreditar?

Aí eu pergunto: com 30 anos de carreira, com mais sucessos do que seria capaz de tocar em uma noite, por que os irlandeses anseiam tanto por sucesso comercial? Esse é o termômetro que eles elegeram para medir se a banda se mantém relevante. Mas precisa ser hit em rádio? Críticos podem ficar acomodados e elogiar por hábito, é bem verdade. Mas com 30 anos de sucesso nas costas, qualquer artista poderia relaxar um pouco e fazer o que der na telha, sem se preocupar em “acertar”, e assim poder surpreender a todos. Talvez seja menos arriscado do que tentar adivinhar o sucesso da vez. Nem todo mundo tem vocação pra Madonna. E o U2 sempre se deu melhor nadando contra a corrente.

Ao partir pro pop no álbum seguinte, almejando o sucesso “perdido” do álbum anterior, o U2 às vezes soa como uma cópia de si mesmo. Edge já pegava emprestado riffs de outrora em 2009. Larry Mullen Jr se mantém tecnicamente impecável na bateria, mas sem muita inspiração. A voz de Bono se esgarça a cada ano. Só Adam Clayton garante frescor musical com seu baixo em constante evolução.

Como o U2 tem uma sonoridade tão única, tornou-se inimitável. Sem poder imitar sem soar como cópia barata, os outros artistas resolveram tentar aprender os truques de performance do seu frontman. E de repente criou-se uma espécie de curso “U2 pra Rock de Arena”, com vocalistas tentando ser comunicativos e fazendo “oooos”. Em Songs of Innocence, parece que Bono entrou sem querer num desses cursos. Com tantos negócios por aí, como hotel, restaurante, confecção etc, não se tocou que aquele curso também lhe pertencia, e acabou fazendo um disco cheio de “oooos”. “Isso vai bombar! Genial! Como não pensei nisso antes?”, deve ter pensado.

Assim falando, parece até que eu não gostei do disco, né? Pior que gostei. Afinal, um U2 meia boca ainda é melhor do que muita coisa nova por aí, que no fundo se inspira num som já manjado, só que menos conhecido. Every Breaking Wave é a minha preferida no momento, e Edge se revela com um pouco mais de inspiração em Sleep like a baby tonight. Algumas faixas dançantes teriam encaixado muito bem em POP (aquele que foi sem nunca ter sido). Iris (Hold me close), com seu autoplágio de Where the streets have no name, é cativante. A homenagem aos Beach Boys em California (There is no end to love) foi uma boa sacada. Se fosse o primeiro álbum de uma banda iniciante, seria antológico. Sendo apenas mais um “by U2″, fica aquém do que eles podem produzir. A única crítica real que faço ao disco é o encarte espartano, até mesmo na versão deluxe.

E finalmente chego aonde queria. No lançamento de Songs of Innocence, Bono anuncia que vem por aí Songs of Experience, também a ser lançado durante a nova turnê. Só espero que o possível fracasso do novo álbum (para os padrões u2nianos, é claro) não devolva o projeto pra gaveta.

Every Breaking Wave ao vivo no Later… with Jools Holland.

Top 20 – 1980/1989 (10ª parte – final)

04/09/2012

Boy (1980), U2.

Quando os irlandeses do U2 estouraram por essas bandas, já estavam no 4º álbum. O sucesso era Pride (in the name of love), que eu não curti muito. Mas logo vieram a reboque Sunday Bloody Sunday e New Year’s Day, com seu vídeo clip. A primeira, em particular, gostei bastante. Com o EP ao vivo, Under a blood red sky, algumas músicas do álbum de estreia ficaram conhecidas e fizeram sucesso, especialmente I will follow.

Boy foi recebido como um grande debut. Se lembrarmos que os integrantes da banda oscilavam entre 18 e 20 anos, mal dominavam seus instrumentos, incluindo aí a voz, e vinham de um país marginal da Europa, o feito se torna impressionante. Conseguiram fazer um disco cuja sonoridade é originalíssima, particularmente bateria e guitarra; tanto letra quanto música conseguem compor um todo homogêneo, intuitivamente conceitual, construindo um painel sobre as incertezas adolescentes. Absolutamente todas as faixas têm qualidade.

Boy não tem a pegada de War, a experimentação de The Unforgettable Fire, a grandeza de The Joshua Tree e sequer a ousadia de Achtung Baby ou a pretensão de POP, Rattle & Hum e Zooropa. Até mesmo o quase esquecido October consegue ser instrumentalmente superior. Mesmo assim, Boy é referência obrigatória para qualquer fã da banda, assim como a capa inusitadamente polêmica.

O álbum possui um forte magnetismo que perpassa todas as turnês. Suas faixas podiam ser facilmente esquecidas pela banda, sem nenhum sucesso radiofônico que impusesse a sua execução, mas isso jamais ocorreu. O garoto entrou em crise, foi à guerra, atravessou os Estados Unidos, colocou óculos escuros, vestiu roupas coloridas e passou a frequentar as pistas de dança. Tornou-se, enfim, um homem maduro, pai de família. Mas, como cantou Bono quase 15 anos depois, “time won’t take the boy out of this man”.

Boy é U2 de raiz.

Out of Control, o primeiro single da banda, ao vivo no Morumbi, em 10 de abril de 2011.

*****

Gostaria de agradecer, mais uma vez, a Cowboy Junkies, Loreena McKennitPeter Gabriel por terem feito esta década discograficamente memorável. E, ainda, às inestimáveis contribuições de Dire Straits, Faith no more, Ira, Iron Maiden, Lou Reed, Pixies, RPM, Suzanne Vega, Titãs, Traveling Wilburys (valeu, rapazes!) e Whitesnake.

Já a próxima década vai dar um trabalho danado… Por isso, talvez demore um pouco para iniciá-la.

Até os anos 70!

E uma garrafa de rum…

15/07/2012

Nesses meses monográficos não tive tempo para escrever por aqui ou mesmo para colocar um CD calmamente para escutar. Como não curto muito earphones, headphones etc., só me restou meu street midibox pra continuar a ouvir música, pois assim a música poderia me acompanhar do banho ao café da manhã sem problemas. Aproveitei pra tirar do limbo vários bootlegs em mp3 que havia baixado há tempos de um bom site, do qual não me lembro mais.

Entre eles, algumas boas surpresas que listo aqui:

♦ Bruce Springsteen live in Cleveland, 9 de agosto de 1978.

Espetacular! Ótima gravação, excelente show, no nível do Hammersmith Odeon em 75. Repertório do Darkness on the edge of town, antecipando Sherry Darling do album seguinte, The River.

Esse show tem versões antológicas de Prove it all night e Backstreets, que ganhou novo significado pra mim após ouvir este bootleg. Desde a abertura, com Summertime Blues, até o encerramento, com a dupla matadora Raise your hand e Twist and Shout, é pura adrenalina.

Setlist: Summertime Blues; Badlands; Spirit in the night; Darkness on the edge of town; Factory; The Promise Land; Prove it all night; Racing in the street; Thunder Road; Jungleland; Paradise by the C; Fire; Sherry Darling; Not fade away/Gloria/She’s the one; Growin’ up; Backstreets; Rosalita; 4th of July, Asbury Park; Born to run; Because the night; Raise your hand; Twist & Shout.

♦Bruce Springsteen live in Stockholm, 30 de outubro de 2006.

Show com a Sessions Band, na turnê que culminou no DVD Live in Dublin, e repertório relevantemente distinto. As músicas do Seeger Sessions são basicamente as mesmas do show na Irlanda, mas há muitas diferenças no repertório próprio adaptado para a musicalidade folk, como The Ghost of Tom Joad, uma transmutada The River, uma irreconhecível You can look but better not touch, e Fire, raridade também presente no show de 78.

Além de tudo, da empolgação do público sueco, o som tá impecável!

Setlist: Atlantic City; John Henry; Old Dan Tucker; Further on up the road; Jesse James; O Mary don’t you weep; Growin’ up; Jesus was an only son; Eire Canal; My Oklahoma Home; Love of the common people; The Ghost of Tom Joad; Mrs. McGrath; How can a poor man stand such times and live; Jacob’s Ladder; Long time comin’; Open all night; Pay me my money down; The River; You can look but better not touch; When the Saints go marching in; This little light of mine; American Land; Fire; Land of hope and dreams.

♦ Eric Clapton – Bottom Dollar: Santa Monica, 11 de fevereiro de 1978.

Um conhecido bootleg de Eric Clapton no Civic Auditorium. E não é por menos: o som é ótimo e o repertório impecável, com ótimas performances.

Setlist: Peaches and Diesel; Wonderful tonight; Lay Down Sally; Next time tou see her; The Core; We’re all the way; Rodeo Man; Fool’s Paradise; Cocaine; Badge; Double Trouble; Nobody knows you when you’re down and out; Let it rain; Knockin’ on Heaven’s Door; Last Night; Goin’ down slow; Layla; Bottle of red wine; You’ll never walk alone.

♦ Travis in Hamburg, 16 de novembro de 2003.

Tenho os dois discos básicos da banda, mas após esse simpático show na Alemanha devo voltar a investir neles.

Setlist: Happy to hang around; Re-offender; Writing to reach you; Pipe Dreams; Quicksand; Sing; Love will come through; Side; As you are; Driftwood; Somewhere else; Turn; The Humpty Dumpty Love Song; Why does it always rain on me.

Não fazem parte do mesmo pacote, mas também me fizeram boa companhia nesses tempos difíceis:

♦ Pearl Jam na Apoteose, Rio de Janeiro, 4 de dezembro de 2005.

Não é porque o show foi no Rio e eu estava lá… Havia de fato magia no ar. Esse show é antológico, como o do Franz Ferdinand no Circo Voador e do Echo & the Bunnymen no Canecão.

Setlist: Last Exit; Do the evolution; Save you; Animal; Insignificance; Corduroy; Dissident; Even flow; Leatherman; Given to fly; Daughter; Don’t gimme no lip; Not for you; Small Town; Down, Once; Go; Soon forget; Better man; I believe in miracles; Blood; Kick out the Jams; Alive; Last Kiss; Black; Jeremy; Yellow Ledbetter; Baba O’Riley.

♦ Peal Jam em Paris, 11 de setembro de 2006.

Os parisienses devem ter sentido algo parecido com os cariocas, pois só de escutar esse bootleg é possível sentir uma vibração especial, aquele dia em que tudo parece dar certo sobre o palco. Em 2006 eles já engrenavam a turnê do disco do abacate.

Setlist: Corduroy; Animal; Last Exit; Save you; World wide suicide; Dissident; Unemployable; Marker in the sand; Daughter; Half full; Thumbing my way; Even flow; You are; Love Boat Captain; Lukin; Not for you; Black; Life wasted; You’ve got to hide your love away; Parachutes; Better man; Rearviewmirror; Go; Do the evolution; Alive; Rockin’ in the free world; Yellow Ledbetter.

♦ U2, Chicago, Rosemont Horizon, 29 de abril de 1987.

Um dos mais eletrizantes bootlegs do U2. Cada turnê tem seu boot especial. Da Joshua Tree provavelmente é esse, ainda que os de Wembley, Denver e outro em Chicago (em outubro) mereçam toda a atenção.

Setlist: Where the streets have no name; I will follow; Trip through your wires; I still haven’t found what I’m looking for; MLK; The Unforgettable Fire; Bullet the Blue Sky; Running to stand still; Exit; In God’s Country; Sunday Bloody Sunday; Bad; October; Springhill mining disaster; New Year’s Day; Pride; Mothers of the Dissappeared; With or without you; Gloria; ’40.

Top 20 – 1980/1989 (3ª parte)

25/02/2012

Darklands (1987), The Jesus and Mary Chain.

Há poucos anos, quando o Orkut era “a” rede social no Brasil, recebi a mensagem de um amigo da faculdade, Luís Eduardo de Almeida Leal, que, então, morava em São Paulo (e ainda deve morar): “você é o Flávio Andrade da PUC, fã de The Jesus & Mary Chain?”

Acho que foi o maior elogio que alguém me fez. Ok, já me fizeram outros elogios antes (e depois), que sempre recebo com estranha timidez e desajeitamento. Mas ser identificado como um fã de JMC, ou melhor, ser destacado do resto da multidão por isso, pareceu-me ser o melhor que poderia esperar da vida. Vai entender…

E o álbum Darklands, o 2º da banda, e minha paixão por ele, tem muito a ver com isso. Não há um acorde desse disco que não me cause arrepios. Na época eu tinha ojeriza a qualquer coisa parecida com bateria eletrônica, e talvez por isso tenha demorado anos pra eu perceber que eles usaram o aparelho na gravação. As letras são extremamente “dark”, tudo a ver comigo entre 89 e 91. Sem as microfonias do álbum de estréia, Psychocandy, Darklands realçava toda a beleza melódica da banda escocesa.

Eu podia recitar Darklands, a música, de trás pra frente. Dançar Happy when it rains como um rato de laboratório condicionado toda vez que ela tocava. Hoje, About you e Deep one perfect morning são minhas favoritas. E On the Wall e April Skies continuam sendo hits atemporais.

Vídeo de Happy when it rains.

*****

The Joshua Tree (1987), U2.

Há tantas coisas a falar sobre The Joshua Tree… Por onde começar?

Conheci a banda em 1985, mas só fui me apaixonar por U2 em 1986, assistindo ao VHS de Under a Blood Red Sky na casa do meu primo Sérgio. Portanto, meu 1º lançamento do U2 foi o Joshua Tree.

O primeiro contato foi na academia Ortocenter, em Jacarepaguá. Estava tocando With or without you, que foi a música de trabalho por aqui. O Bono nunca tinha usado a voz grave antes, e eu podia jurar que era Echo & the Bunnymen. Mas não era possível estar tocando Echo na rádio. Então perguntei: que música é essa? Resposta: “não conhece? É a nova do U2!” Mas hein?!

Casa-pai-dinheiro-loja-disco do U2- casa. Botei o vinil pra tocar e achei tudo muito estranho. Gostei de cara de Where the streets have no name, I still haven’t found what I’m lookin for e, claro, With or without you. Mas não achei aquilo com muita cara de U2. Bullet the Blue Sky achei horrorosa, mas Running to stand still voltou a me acalmar. Não desgostei de nenhuma música do lado B, mas, no geral, só In God’s Country tinha me alçado às alturas. Mas U2 é assim, a banda não faz música chiclete, que gruda no ouvido em 1ª audição. Depois de 2 semanas em contato com aquele vinil, eu estava completamente abduzido e viciado (exceto por Bullet, que continuei não gostando – pra isso foi necessário vir o Rattle & Hum).

Where the streets have no name, Running to stand still e One Trill Hill são minhas favoritas, assim como as versões ao vivo do filme Rattle & Hum de With or without you e  Exit. O mergulho dos irlandeses do U2 nas raízes da América deu origem a um dos mais belos álbuns de todos os tempos. Mas ainda acho que eles perderam a oportunidade de fazer uma belíssima capa, só com a foto da árvore-título.

Minha amiga Kalu costuma dizer que meus olham brilham ao ouvir essa música. Outro grande elogio, com certeza! Assim como Darklands, The Joshua Tree é um daqueles disco que me definem.

Where the streets have no name ao vivo no show de ano novo, em 1989/1990, no Point Depot, Dublin.

*****

Appetite for Destruction (1987), Guns’n’Roses.

É muito estranho escrever sobre Appetite for Destruction como um disco do mesmo ano de Darklands e Joshua Tree, uma vez que demorou um pouco pra Sweet Child O’Mine estourar no Brasil. Antes disso, um show do Guns’n’Roses costumava passar na TV. Cheguei na sala e vi meu irmão assistindo àquela banda de tatuados. “O que é isso?”, perguntei. “Não sei, mas é legal”, respondeu.

Gostei da cover de Knockin’ on Heaven’s Door, mas achei estranho o vocalista estar sem voz no meio do show. O meu 2º contato com os caras foi a participação de Axl Rose e Izzy Stradlin num show dos Rolling Stones na Filadélfia, na turnê do Steel Wheels (“esses caras deve ser mesmo importantes”, pensei). Pouco tempo depois, estaria na 1ª noite do Rock in Rio II pulando enlouquecidamente.

Qualquer um que tinha entre 12 e 22 anos na virada dos anos 80 pros 90 sabe do que estou falando. Era impossível ficar impassível ao fenômeno Guns’n’Roses.

A banda foi abraçada pelos metaleiros da época, que reconheceram na banda qualidade além do rock farofa ao qual havia se reduzido o hard rock no final dos 80. Mas não serviu pra garantir o futuro do rock, por ser considerado um som retrô, com referências aos Stones e ao Aerosmith (pra isso seria necessário o Nirvana).

O disco é um marco, ainda que prefira a versão de You’re Crazy do Lies e lamente a ausência de You could be mine (sim, a música já existia!), minha preferida da banda junto com a canção abaixo.

Sweet Child O’Mine ao vivo no Rock in Rio 2.

Top 20 1990-1999 (8ª parte)

29/01/2012

Achtung Baby (1991), U2.

O que dizer sobre Achtung Baby que ainda não foi dito? Um dos discos mais celebrados dos anos 90? O álbum que livrou o U2 da rejeição e narizes torcidos que os modernos dirigem àqueles que alcançam o topo do estrelato e chafurdam nele? Essa transformação o DVD From the Sky down já retrata satisfatoriamente.

A guinada do U2 em direção à música industrial alemã, à eletrônica, ao pop e ao cinismo foi recebido por muitos como a confirmação que os dias do rock como estilo mainstream estavam acabados.

Mas nem o rock havia acabado, nem o U2 deixou de ser o U2. As letras ásperas, existenciais, políticas e religiosas ainda estavam lá, só que disfarçadas com casacos de couro, óculos de mosca e calças de vinil.

Depois do arrasador sucesso de Joshua Tree e de ter visto o filme Rattle & Hum 8 vezes no cinema, era natural que a expectativa do próximo disco estivesse nas alturas. O vídeo de The Fly já circulava na MTV e causava uma sensação estranha nos fãs. Já o vídeo de Mysterious Ways, apesar de muito distante do som dos anos 80, parecia mais assimilável. E que diabos é esse negócio de “achtung”?!

Quando a Rádio Cidade anunciou que José Roberto Mahr faria uma prévia do disco em seu programa dominical, não desgrudei da minha cama, ao lado do rádio (a Cidade era a única FM que pegava decentemente em casa). Estarei mentindo se disser que foi uma experiência transcendental (aliás, ouvir Joshua Tree também não foi – U2 não é do tipo que faz música para colar no ouvido). Até hoje não entendi o que Mahr quis dizer ao descrever One como uma versão psicodélica de Stairway to Heaven (alguém tomou chá de cogumelo naquela noite, e não fui eu!). A minha primeira paixão no disco foi Acrobat.

Comprei o álbum assim que saiu, ainda em vinil. Aliás, quando ouvi a versão em CD do meu primo, decidi nunca mais comprar vinil. O som era bem melhor! Àquela altura, os vinis já não eram prensados com o mesmo cuidado. Comprei Zooropa em 1993 em CD, meses antes de ter o aparelho para tocá-lo. Por falar em Zooropa, não há como desvinculá-lo de Achtung Baby, assim como não é possível separar o Rattle & Hum do Joshua Tree. Até a versão resmaterizada do CD foi incluída na caixa super deluxe da edição comemorativa dos 20 anos do Achtung.

Continuei achando The Fly esquisito (hoje, adoro!), preferindo bem mais Zoo Station. Assim como preferi Ultraviolet a Even better than the real thing. E Who’s gonna ride your wild horses logo tomou o lugar de Acrobat, assim como One tornou-se logo minha preferida, principalmente depois deles a terem terminado ao vivo. Até hoje não curto muito os arranjos para So Cruel e Tryin’ to throw your arms around the world (que ficou bonitinha ao vivo).

Confesso que minha 1ª reação a Until the end of the world foi a pior possível. Só comecei a cogitar a hipótese de gostar da música quando assisti ao Live in Sidney, num laser disc. Aos poucos a ficha do disco foi caindo e pude agradecer àqueles irlandeses loucos por fazerem dois grandes discos em sequência, um completamente diferente do outro.

Tryin’ to throw your arms around the world na Zoo TV Tour.

*****

Out of Time (1991), REM.

Out of Time é um disco que me surpreendeu. Não na época, mas hoje! Sei lá por que, achei que o álbum fosse dos anos 80. Já tinha fechado o Top 20 quando me dei conta do erro. E, pra meu espanto, o disco ultrapassou os outros 5 tão sofridamente cortados e desalojou o Buena Vista Social Club, que tinha conseguido sobreviver à árdua seleção.

Conheci REM por meio de um amigo de faculdade, que tinha uma fita K7, possivelmente do Document, que achava o máximo uma banda com o nome de Rapid Eye Movement e uma música intitulada It’s the end of the world (as you know it). Mesmo assim, uma rápida checada em seus fones do walkman foi tudo o que eu ouvi. Tempos depois, assistindo na MTV o making of de um estranho vídeo de uma música chamada Losing my religion, me deparei novamente com a banda. Achei as entrevistas legais e gostei da música. Na Kitschnet (boate que sucedeu ao Crepúsculo de Cubatão) dançava Stand, mas tudo o que tive da banda foi uma coletânea da época da IRS, a gravadora deles nos anos 80.

Na verdade, o que jogou de vez a banda na minha vida foi o excelente MTV Unplugged (por que não lançam o DVD disso?), com repertório baseado no Out of Time e nas músicas que constam no The Best of REM.

Por um acaso da vida, até vê-los ao vivo no Rock in Rio de 2001, nunca tinha me relacionado com o REM em termos de álbuns, apenas de músicas. Sempre foi muito fácil pra mim ouvir os sucessos da banda. Era só pensar em uma, esticar os ouvidos, e ela estava lá, tocando em algum lugar, de forma que os álbuns nunca chegaram a ter uma identidade pra mim. Sempre foram uma fonte amorfa de grandes canções. Consegui, a partir de 2001, ir recuperando essa história discográfica de trás pra frente, até chegar ao Automatic for the People (que sobreviveu até o Top 25).

Então, se essa aventura solitária desbravando minha própria coleção valeu a pena, foi por ter recolocado Out of Time no seu merecido lugar de destaque. Tudo bem que o disco tem Shiny happy people, mas tem também Low, Me in honey, Half a world away, Radio Song… Tudo bem que sempre haverá uma loura histérica nos shows gritando pra tocar Shiny happy people, mas a gente sempre poderá jogá-la da arquibancada, não é mesmo, Alexandre?

Half a world away no MTV Unplugged.