Archive for the ‘U2’ category

E uma garrafa de rum…

15/07/2012

Nesses meses monográficos não tive tempo para escrever por aqui ou mesmo para colocar um CD calmamente para escutar. Como não curto muito earphones, headphones etc., só me restou meu street midibox pra continuar a ouvir música, pois assim a música poderia me acompanhar do banho ao café da manhã sem problemas. Aproveitei pra tirar do limbo vários bootlegs em mp3 que havia baixado há tempos de um bom site, do qual não me lembro mais.

Entre eles, algumas boas surpresas que listo aqui:

♦ Bruce Springsteen live in Cleveland, 9 de agosto de 1978.

Espetacular! Ótima gravação, excelente show, no nível do Hammersmith Odeon em 75. Repertório do Darkness on the edge of town, antecipando Sherry Darling do album seguinte, The River.

Esse show tem versões antológicas de Prove it all night e Backstreets, que ganhou novo significado pra mim após ouvir este bootleg. Desde a abertura, com Summertime Blues, até o encerramento, com a dupla matadora Raise your hand e Twist and Shout, é pura adrenalina.

Setlist: Summertime Blues; Badlands; Spirit in the night; Darkness on the edge of town; Factory; The Promise Land; Prove it all night; Racing in the street; Thunder Road; Jungleland; Paradise by the C; Fire; Sherry Darling; Not fade away/Gloria/She’s the one; Growin’ up; Backstreets; Rosalita; 4th of July, Asbury Park; Born to run; Because the night; Raise your hand; Twist & Shout.

♦Bruce Springsteen live in Stockholm, 30 de outubro de 2006.

Show com a Sessions Band, na turnê que culminou no DVD Live in Dublin, e repertório relevantemente distinto. As músicas do Seeger Sessions são basicamente as mesmas do show na Irlanda, mas há muitas diferenças no repertório próprio adaptado para a musicalidade folk, como The Ghost of Tom Joad, uma transmutada The River, uma irreconhecível You can look but better not touch, e Fire, raridade também presente no show de 78.

Além de tudo, da empolgação do público sueco, o som tá impecável!

Setlist: Atlantic City; John Henry; Old Dan Tucker; Further on up the road; Jesse James; O Mary don’t you weep; Growin’ up; Jesus was an only son; Eire Canal; My Oklahoma Home; Love of the common people; The Ghost of Tom Joad; Mrs. McGrath; How can a poor man stand such times and live; Jacob’s Ladder; Long time comin’; Open all night; Pay me my money down; The River; You can look but better not touch; When the Saints go marching in; This little light of mine; American Land; Fire; Land of hope and dreams.

♦ Eric Clapton – Bottom Dollar: Santa Monica, 11 de fevereiro de 1978.

Um conhecido bootleg de Eric Clapton no Civic Auditorium. E não é por menos: o som é ótimo e o repertório impecável, com ótimas performances.

Setlist: Peaches and Diesel; Wonderful tonight; Lay Down Sally; Next time tou see her; The Core; We’re all the way; Rodeo Man; Fool’s Paradise; Cocaine; Badge; Double Trouble; Nobody knows you when you’re down and out; Let it rain; Knockin’ on Heaven’s Door; Last Night; Goin’ down slow; Layla; Bottle of red wine; You’ll never walk alone.

♦ Travis in Hamburg, 16 de novembro de 2003.

Tenho os dois discos básicos da banda, mas após esse simpático show na Alemanha devo voltar a investir neles.

Setlist: Happy to hang around; Re-offender; Writing to reach you; Pipe Dreams; Quicksand; Sing; Love will come through; Side; As you are; Driftwood; Somewhere else; Turn; The Humpty Dumpty Love Song; Why does it always rain on me.

Não fazem parte do mesmo pacote, mas também me fizeram boa companhia nesses tempos difíceis:

♦ Pearl Jam na Apoteose, Rio de Janeiro, 4 de dezembro de 2005.

Não é porque o show foi no Rio e eu estava lá… Havia de fato magia no ar. Esse show é antológico, como o do Franz Ferdinand no Circo Voador e do Echo & the Bunnymen no Canecão.

Setlist: Last Exit; Do the evolution; Save you; Animal; Insignificance; Corduroy; Dissident; Even flow; Leatherman; Given to fly; Daughter; Don’t gimme no lip; Not for you; Small Town; Down, Once; Go; Soon forget; Better man; I believe in miracles; Blood; Kick out the Jams; Alive; Last Kiss; Black; Jeremy; Yellow Ledbetter; Baba O’Riley.

♦ Peal Jam em Paris, 11 de setembro de 2006.

Os parisienses devem ter sentido algo parecido com os cariocas, pois só de escutar esse bootleg é possível sentir uma vibração especial, aquele dia em que tudo parece dar certo sobre o palco. Em 2006 eles já engrenavam a turnê do disco do abacate.

Setlist: Corduroy; Animal; Last Exit; Save you; World wide suicide; Dissident; Unemployable; Marker in the sand; Daughter; Half full; Thumbing my way; Even flow; You are; Love Boat Captain; Lukin; Not for you; Black; Life wasted; You’ve got to hide your love away; Parachutes; Better man; Rearviewmirror; Go; Do the evolution; Alive; Rockin’ in the free world; Yellow Ledbetter.

♦ U2, Chicago, Rosemont Horizon, 29 de abril de 1987.

Um dos mais eletrizantes bootlegs do U2. Cada turnê tem seu boot especial. Da Joshua Tree provavelmente é esse, ainda que os de Wembley, Denver e outro em Chicago (em outubro) mereçam toda a atenção.

Setlist: Where the streets have no name; I will follow; Trip through your wires; I still haven’t found what I’m looking for; MLK; The Unforgettable Fire; Bullet the Blue Sky; Running to stand still; Exit; In God’s Country; Sunday Bloody Sunday; Bad; October; Springhill mining disaster; New Year’s Day; Pride; Mothers of the Dissappeared; With or without you; Gloria; ’40.

Anúncios

Top 20 – 1980/1989 (3ª parte)

25/02/2012

Darklands (1987), The Jesus and Mary Chain.

Há poucos anos, quando o Orkut era “a” rede social no Brasil, recebi a mensagem de um amigo da faculdade, Luís Eduardo de Almeida Leal, que, então, morava em São Paulo (e ainda deve morar): “você é o Flávio Andrade da PUC, fã de The Jesus & Mary Chain?”

Acho que foi o maior elogio que alguém me fez. Ok, já me fizeram outros elogios antes (e depois), que sempre recebo com estranha timidez e desajeitamento. Mas ser identificado como um fã de JMC, ou melhor, ser destacado do resto da multidão por isso, pareceu-me ser o melhor que poderia esperar da vida. Vai entender…

E o álbum Darklands, o 2º da banda, e minha paixão por ele, tem muito a ver com isso. Não há um acorde desse disco que não me cause arrepios. Na época eu tinha ojeriza a qualquer coisa parecida com bateria eletrônica, e talvez por isso tenha demorado anos pra eu perceber que eles usaram o aparelho na gravação. As letras são extremamente “dark”, tudo a ver comigo entre 89 e 91. Sem as microfonias do álbum de estréia, Psychocandy, Darklands realçava toda a beleza melódica da banda escocesa.

Eu podia recitar Darklands, a música, de trás pra frente. Dançar Happy when it rains como um rato de laboratório condicionado toda vez que ela tocava. Hoje, About you e Deep one perfect morning são minhas favoritas. E On the Wall e April Skies continuam sendo hits atemporais.

Vídeo de Happy when it rains.

*****

The Joshua Tree (1987), U2.

Há tantas coisas a falar sobre The Joshua Tree… Por onde começar?

Conheci a banda em 1985, mas só fui me apaixonar por U2 em 1986, assistindo ao VHS de Under a Blood Red Sky na casa do meu primo Sérgio. Portanto, meu 1º lançamento do U2 foi o Joshua Tree.

O primeiro contato foi na academia Ortocenter, em Jacarepaguá. Estava tocando With or without you, que foi a música de trabalho por aqui. O Bono nunca tinha usado a voz grave antes, e eu podia jurar que era Echo & the Bunnymen. Mas não era possível estar tocando Echo na rádio. Então perguntei: que música é essa? Resposta: “não conhece? É a nova do U2!” Mas hein?!

Casa-pai-dinheiro-loja-disco do U2- casa. Botei o vinil pra tocar e achei tudo muito estranho. Gostei de cara de Where the streets have no name, I still haven’t found what I’m lookin for e, claro, With or without you. Mas não achei aquilo com muita cara de U2. Bullet the Blue Sky achei horrorosa, mas Running to stand still voltou a me acalmar. Não desgostei de nenhuma música do lado B, mas, no geral, só In God’s Country tinha me alçado às alturas. Mas U2 é assim, a banda não faz música chiclete, que gruda no ouvido em 1ª audição. Depois de 2 semanas em contato com aquele vinil, eu estava completamente abduzido e viciado (exceto por Bullet, que continuei não gostando – pra isso foi necessário vir o Rattle & Hum).

Where the streets have no name, Running to stand still e One Trill Hill são minhas favoritas, assim como as versões ao vivo do filme Rattle & Hum de With or without you e  Exit. O mergulho dos irlandeses do U2 nas raízes da América deu origem a um dos mais belos álbuns de todos os tempos. Mas ainda acho que eles perderam a oportunidade de fazer uma belíssima capa, só com a foto da árvore-título.

Minha amiga Kalu costuma dizer que meus olham brilham ao ouvir essa música. Outro grande elogio, com certeza! Assim como Darklands, The Joshua Tree é um daqueles disco que me definem.

Where the streets have no name ao vivo no show de ano novo, em 1989/1990, no Point Depot, Dublin.

*****

Appetite for Destruction (1987), Guns’n’Roses.

É muito estranho escrever sobre Appetite for Destruction como um disco do mesmo ano de Darklands e Joshua Tree, uma vez que demorou um pouco pra Sweet Child O’Mine estourar no Brasil. Antes disso, um show do Guns’n’Roses costumava passar na TV. Cheguei na sala e vi meu irmão assistindo àquela banda de tatuados. “O que é isso?”, perguntei. “Não sei, mas é legal”, respondeu.

Gostei da cover de Knockin’ on Heaven’s Door, mas achei estranho o vocalista estar sem voz no meio do show. O meu 2º contato com os caras foi a participação de Axl Rose e Izzy Stradlin num show dos Rolling Stones na Filadélfia, na turnê do Steel Wheels (“esses caras deve ser mesmo importantes”, pensei). Pouco tempo depois, estaria na 1ª noite do Rock in Rio II pulando enlouquecidamente.

Qualquer um que tinha entre 12 e 22 anos na virada dos anos 80 pros 90 sabe do que estou falando. Era impossível ficar impassível ao fenômeno Guns’n’Roses.

A banda foi abraçada pelos metaleiros da época, que reconheceram na banda qualidade além do rock farofa ao qual havia se reduzido o hard rock no final dos 80. Mas não serviu pra garantir o futuro do rock, por ser considerado um som retrô, com referências aos Stones e ao Aerosmith (pra isso seria necessário o Nirvana).

O disco é um marco, ainda que prefira a versão de You’re Crazy do Lies e lamente a ausência de You could be mine (sim, a música já existia!), minha preferida da banda junto com a canção abaixo.

Sweet Child O’Mine ao vivo no Rock in Rio 2.

Top 20 1990-1999 (8ª parte)

29/01/2012

Achtung Baby (1991), U2.

O que dizer sobre Achtung Baby que ainda não foi dito? Um dos discos mais celebrados dos anos 90? O álbum que livrou o U2 da rejeição e narizes torcidos que os modernos dirigem àqueles que alcançam o topo do estrelato e chafurdam nele? Essa transformação o DVD From the Sky down já retrata satisfatoriamente.

A guinada do U2 em direção à música industrial alemã, à eletrônica, ao pop e ao cinismo foi recebido por muitos como a confirmação que os dias do rock como estilo mainstream estavam acabados.

Mas nem o rock havia acabado, nem o U2 deixou de ser o U2. As letras ásperas, existenciais, políticas e religiosas ainda estavam lá, só que disfarçadas com casacos de couro, óculos de mosca e calças de vinil.

Depois do arrasador sucesso de Joshua Tree e de ter visto o filme Rattle & Hum 8 vezes no cinema, era natural que a expectativa do próximo disco estivesse nas alturas. O vídeo de The Fly já circulava na MTV e causava uma sensação estranha nos fãs. Já o vídeo de Mysterious Ways, apesar de muito distante do som dos anos 80, parecia mais assimilável. E que diabos é esse negócio de “achtung”?!

Quando a Rádio Cidade anunciou que José Roberto Mahr faria uma prévia do disco em seu programa dominical, não desgrudei da minha cama, ao lado do rádio (a Cidade era a única FM que pegava decentemente em casa). Estarei mentindo se disser que foi uma experiência transcendental (aliás, ouvir Joshua Tree também não foi – U2 não é do tipo que faz música para colar no ouvido). Até hoje não entendi o que Mahr quis dizer ao descrever One como uma versão psicodélica de Stairway to Heaven (alguém tomou chá de cogumelo naquela noite, e não fui eu!). A minha primeira paixão no disco foi Acrobat.

Comprei o álbum assim que saiu, ainda em vinil. Aliás, quando ouvi a versão em CD do meu primo, decidi nunca mais comprar vinil. O som era bem melhor! Àquela altura, os vinis já não eram prensados com o mesmo cuidado. Comprei Zooropa em 1993 em CD, meses antes de ter o aparelho para tocá-lo. Por falar em Zooropa, não há como desvinculá-lo de Achtung Baby, assim como não é possível separar o Rattle & Hum do Joshua Tree. Até a versão resmaterizada do CD foi incluída na caixa super deluxe da edição comemorativa dos 20 anos do Achtung.

Continuei achando The Fly esquisito (hoje, adoro!), preferindo bem mais Zoo Station. Assim como preferi Ultraviolet a Even better than the real thing. E Who’s gonna ride your wild horses logo tomou o lugar de Acrobat, assim como One tornou-se logo minha preferida, principalmente depois deles a terem terminado ao vivo. Até hoje não curto muito os arranjos para So Cruel e Tryin’ to throw your arms around the world (que ficou bonitinha ao vivo).

Confesso que minha 1ª reação a Until the end of the world foi a pior possível. Só comecei a cogitar a hipótese de gostar da música quando assisti ao Live in Sidney, num laser disc. Aos poucos a ficha do disco foi caindo e pude agradecer àqueles irlandeses loucos por fazerem dois grandes discos em sequência, um completamente diferente do outro.

Tryin’ to throw your arms around the world na Zoo TV Tour.

*****

Out of Time (1991), REM.

Out of Time é um disco que me surpreendeu. Não na época, mas hoje! Sei lá por que, achei que o álbum fosse dos anos 80. Já tinha fechado o Top 20 quando me dei conta do erro. E, pra meu espanto, o disco ultrapassou os outros 5 tão sofridamente cortados e desalojou o Buena Vista Social Club, que tinha conseguido sobreviver à árdua seleção.

Conheci REM por meio de um amigo de faculdade, que tinha uma fita K7, possivelmente do Document, que achava o máximo uma banda com o nome de Rapid Eye Movement e uma música intitulada It’s the end of the world (as you know it). Mesmo assim, uma rápida checada em seus fones do walkman foi tudo o que eu ouvi. Tempos depois, assistindo na MTV o making of de um estranho vídeo de uma música chamada Losing my religion, me deparei novamente com a banda. Achei as entrevistas legais e gostei da música. Na Kitschnet (boate que sucedeu ao Crepúsculo de Cubatão) dançava Stand, mas tudo o que tive da banda foi uma coletânea da época da IRS, a gravadora deles nos anos 80.

Na verdade, o que jogou de vez a banda na minha vida foi o excelente MTV Unplugged (por que não lançam o DVD disso?), com repertório baseado no Out of Time e nas músicas que constam no The Best of REM.

Por um acaso da vida, até vê-los ao vivo no Rock in Rio de 2001, nunca tinha me relacionado com o REM em termos de álbuns, apenas de músicas. Sempre foi muito fácil pra mim ouvir os sucessos da banda. Era só pensar em uma, esticar os ouvidos, e ela estava lá, tocando em algum lugar, de forma que os álbuns nunca chegaram a ter uma identidade pra mim. Sempre foram uma fonte amorfa de grandes canções. Consegui, a partir de 2001, ir recuperando essa história discográfica de trás pra frente, até chegar ao Automatic for the People (que sobreviveu até o Top 25).

Então, se essa aventura solitária desbravando minha própria coleção valeu a pena, foi por ter recolocado Out of Time no seu merecido lugar de destaque. Tudo bem que o disco tem Shiny happy people, mas tem também Low, Me in honey, Half a world away, Radio Song… Tudo bem que sempre haverá uma loura histérica nos shows gritando pra tocar Shiny happy people, mas a gente sempre poderá jogá-la da arquibancada, não é mesmo, Alexandre?

Half a world away no MTV Unplugged.

Top 20 – 1990/1999 (2ª parte)

23/12/2011

POP (1997), U2.

Muitos problemas estão relacionados ao nono disco em estúdio do U2. O maior deles talvez seja o agendamento da turnê Popmart antes mesmo do disco estar terminado. E, assim, POP foi concebido em parto prematuro. Talvez a faixa Miami seja a que mais evidencie isso.

O disco dá prosseguimento ao experimentalismo de Zooropa e na virada do som na banda com o aclamado Achtung Baby. Após a experiência de Passengers com Brian Eno, é possível que a banda tenha esticado demais a corda nessa direção.

Outro problema foi o marketing equivocado. Bono descreveu a sonoridade do álbum como um “rock com sapatos de dança”. Mas apenas as três primeiras faixas correspondem a essa descrição. As demais são o mesmo U2 de antes com um pouco mais de efeitos eletrônicos, com letras nada suaves. Para as rádios americanas, ficou impossível classificar as canções e encaixá-las na programação normal.

Pra piorar a coisa, o início da Popmart em Las Vegas foi um desastre, com a banda mal ensaiada e Bono enfrentando sérios problemas alérgicos nas cordas vocais.

A falta de um single de sucesso só piorou a coisa, dando ao disco uma imagem de fracasso não só para a indústria em geral como para a própria banda. Na última turnê, 360°, nenhuma canção do álbum foi tocada.

A faixa de abertura, Discothèque, deu origem a um divertidíssimo vídeo, mas a versão do álbum soa como um remix, cujo instrumental final é uma piada musical que, repetida muitas vezes, acaba perdendo a graça. Prefiro a versão do The Best of 1990-2000, mais enxuta.

Em seguida, a excelente Do you feel loved? entrega tudo o que foi prometido por Bono nas entrevistas de lançamento, mas fica perdida entre a 1ª faixa e a 3ª, Mofo, que foge aos padrões da banda. Tudo bem que Larry faz na mão o que muitos fazem na bateria eletrônica, mas mesmo assim soa como música eletrônica. Ficaria melhor num single.

Depois dessas 3 faixas, o disco segue outros caminhos. Durante as gravações, Adam Clayton comentou com um repórter que a banda estava indecisa entre continuar a trilhar o caminho de Zooropa ou fazer algo no estilo Oasis. E o resto do álbum reflete bastante esse dilema.

Last Night on Earth apresenta alguns problemas. Uma bela levada bluesy com um refrão um pouco acima do tom ideal, muito gritado.

If God will send His angels, que poderia muito bem ser uma faixa de Zooropa, é uma balada inquieta, com muitas variações de clima em que a eletrônica joga a favor. Staring at the Sun já aponta para o rock clássico, que não emplacou como deveria provavelmente devido ao marketing equivocado do disco. Curiosamente, mesmo na Popmart, a banda só executou a música ao vivo no formato acústico. Gone é uma das melhores do álbum, puro U2, que não faria feio em Achtung Baby, muito pelo contrário. Foi presença garantida na Elevation Tour de 2001.

Please é a faixa que tinha tudo para ser “a” música do disco, mas não emplacou. Assim como Where the streets have no name, ganhou mais consistência ao longo dos shows, mas parece ter sido esquecida pela banda após o encerramento da turnê. Resultado, talvez, da frustração da banda com o disco e a expectativa quanto ao single.

Wake up dead man, que encerra brilhantemente o álbum, ainda foi revisitada mais vezes nas turnês seguintes, ainda que em parte. Um belo momento de desencanto e dúvidas quanto ao nosso futuro.

If you wear that velvet dress e The Playboy Mansion completam o disco. A primeira, uma música bem lenta, tem como defeito um início inaudível, assim como Exit no Joshua Tree. A segunda não é das mais queridas pelos fãs, mas eu adoro (e não entendo a implicância).

Enfim, o álbum ficou marcado como um patinho feio na discografia da banda (e, acredite, não foi pela capa). Mas, mesmo tendo uma da raras músicas do U2 que eu não gosto (Mofo), não hesito em colocá-lo no meu top 20 da década e afirmar que, apesar de Achtung Baby, como álbum, ser superior, a maior concentração de músicas preferidas do período estão aqui.

Please ao vivo num pequeno documentário sobre a Popmart.

*****

Alta Suciedad (1997), Andres Calamaro.

Andres Calamaro teve um início de carreira quase inexpressivo, e seu primeiro bom álbum, Nadie sale vivo de aqui, saiu justamente no auge de uma grave crise econômica na Argentina. Partiu com um amigo, o guitarrista Ariel Rot, para a Espanha em busca de tempos melhores. Lá foramaram a banda Los Rodríguez, que fez grande sucesso no rock hispânico entre 1990 e 1996. A banda acabou e Calamaro retornou a Buenos Aires e retomou a carreira solo.

Sua reestréia, Alta Suciedad, é um concentrado de ótimas composições. Com visual e voz de um Bob Dylan portenho, Calamaro transita por vários gêneros sem perder sua identidade musical: rock, soul, blues, diferentes ritmos regionais, reggae, flamenco, new age e ótimas baladas.

E as letras são um espetáculo a parte, seja no lirismo adolescente de Media Veronica, na irreverência de Loco, na crítica social da faixa título, na dramaticidade de Crímenes Perfectos ou na divertida Elvis está vivo.

Se tivesse segurado um pouco a onda criativa, que transformou Honestidad Brutal em álbum duplo e El Salmón em álbum quíntuplo (!!), certamente outros discos dele emplacariam neste Top 20 e no anterior.

Flaca ao vivo.

Top 20 – 2000/2009 (10ª parte – Final)

10/12/2011

Binaural (2000), Pearl Jam.

Depois de Yield, todos os discos lançados pelo Pearl Jam foram de lenta digestão pra mim. Acho que levou um par de anos pra começar a dar o devido valor ao Binaural, já após o lançamento de Riot Act, quando fui gravar um CD da banda pra um amigo.

Parte disso se deve a mudanças bruscas de climas ao longo do álbum. Ele se inicia com 3 músicas pesadas, sendo Breakerfall, a faixa de abertura, a minha favorita da série. Depois eles vão se aprofundando cada vez mais em sons viajantes e heterogêneos, o que não torna a audição do disco das mais fáceis.

Se Light Years e Thin Air são mais palatáveis, Nothing as it seems e Parting Ways exigem mais atenção do ouvinte. Na belíssima Soon Forget, Eddie Vedder surpreende com seu novo brinquedinho, o ukelele. E Of the girl, de Stone Gossard, é uma das minhas preferidas, mas fica um pouco perdida no meio do disco. É uma canção que renderia melhor abrindo o disco, como ficou provado no CD ao vivo Benaroya Hall.

Alguns take out foram incluídos na coletânea Lost Dogs, entre eles, Fatal, uma bela música que, inexplicavelmente, ficou de fora. Até porque a sonoridade e o clima sombrio combinam com o álbum.

Binaural marcou a estréia de Matt Cameron, ex-Soundgarden. O baterista se encaixou tão bem no grupo que, hoje, é como se ele estivesse estado lá desde Ten.

O título, por sua vez, refere-se a uma técnica de gravação utilizada em 5 faixas, que cria uma espécie de som 3-D. Parece que a melhor forma de aproveitar esse efeito é por meio de headphone (mas não com mp3), o que, curiosamente, nunca experimentei.

A tour do disco foi registrada no excelente DVD Touring Band 2000, que mostra a banda em ação em diversas cidades americanas. Foi nessa mesma oportunidade que o Pearl Jam lançou a idéia dos bootlegs oficiais pra combater a pirataria mercenária, irrigando o mercado com mais de 70 álbuns ao vivo, dos quais tenho apenas o Live at Wembley, fácil de encontrar no Brasil.

Of the Girl abrindo o show de 15/7/2006, em San Francisco.

*****

American Recordings III – Solitary Man (2000), Johnny Cash.

Fazer uma lista de quem Rick Rubin produziu nos últimos 30 anos é quase um resumo da história do rock. Mas o produtor já garantiria sua relevância apenas por ser responsável pela série American Recordings com Johnny Cash. O encontro rendeu 6 álbuns, sendo dois deles póstumos.

As gravações misturam composições de Cash com diversos covers, nem todos de country e folk. Em The Man Comes Around, IV volume, a faixa título talvez seja a melhor canção inédita do compositor na série. E Hurt, do Nine Inch Nails, o melhor cover. As versões de I Hung my head (Sting) e Personal Jesus (Depeche Mode) também estão excelentes, mas nas versões de Desperado (Eagles), In my life (Beatles) e Bridge over troubled water (Simon & Garfunkel), esta com participação de Fiona Apple, não conseguem ir além de simples covers, sem agregar valor à música original ou imprimir identidade própria à canção, como fez em Hurt e Further on (up the road), de Bruce Springsteen, no V volume.

Assim, acabei optando pelo III volume, Solitary Man, para marcar os discos da coleção lançados nessa década. O álbum conta com um cover de One, do U2, que, se não chega a ser inesquecível, impressiona por dar identidade própria a uma canção mais do que badalada (e quem fala isso é um fã de U2!), e de The Mercy Seat, do Nick Cave. Há também participação da esposa, June Carter, Tom Petty e Sheryl Crow.

Os três álbuns lançados no período 2000/2009 são excelentes, mas creio que o III volume mantém o mesmo alto padrão da primeira à última faixa.

Versão de One, aqui.

*****

All that you can’t leave behind (2000), U2.

Lançado no final de 2000, All that you can’t leave behind marca o retorno do U2 ao topo do pop/rock internacional, depois de esticar demais a corda do experimentalismo nos anos 90. Àquela altura, muitos não acreditavam na volta por cima dos irlandeses, após o péssimo início da Popmart Tour, com estádios pela metade, o relativo fracasso do Pop, e a ausência de um single de sucesso, além de sérios problemas de voz enfrentados por Bono e o início de seu ativismo político.

De fato, quem, em sã consciência, iria dizer que uma banda, aos 20 anos de carreira, seria capaz de lançar uma obra-prima, ficando atrás “apenas” de Joshua Tree e Achtung Baby, dois dos melhores álbuns de rock de todos os tempos?

O segredo da banda foi aplicar o experimentalismo dos anos 90 na riqueza melódica dos anos 80. O resultado foi uma música de alta qualidade, extremamente radiofônica, com letras muito bem trabalhadas por um determinado Bono disposto a recuperar o posto de “melhor banda do mundo”.

O início do disco, que ganhou 7 Grammy Awards, emplacou 4 singles de imenso sucesso: Beautiful Day, Stuck in a moment you can’t get out of (dedicada a Michael Hutchence, do INXS, que havia se suicidado), Elevation (cuja versão na trilha sonora de Lara Croft: Tomb Raider é a melhor de todas) e Walk on (dedicada à birmanesa Aung San Suu Kyi), que dá o título ao disco e sempre me remete ao clássico de Frank Capra, Do mundo nada se leva (You can’t take it with you).

Qualquer disco que emende quatro sucessos desse calibre já garantiria seu lugar no Olimpo fonográfico, mas não para por o U2. A 5ª faixa, Kite, é uma das melhores letras já escritas por Bono (com auxílio de The Edge), sobre relação pai e filho. Em seguida, In a little while, com a voz de ressaca de Bono (literalmente), é uma irresistível balada de amor que Joey Ramone pediu pra escutar antes de morrer.

Qualquer artista ficaria feliz em poder ter 6 músicas dessas em um Greatest Hits. O U2 consegui tê-las em um único disco, o décimo da carreira.

All that you can’t leave behind sofre um pouco da síndrome Lado A/Lado B. A sua sequência fica bem aquém da 1ª metade. A comparação realmente prejudica. Wild Honey é uma balada gostosa e despretensiosa, mas nada marcante. Peace on Earth tem uma ironia interessante, mas parece atingir o clímax muitos antes de terminar. When I look at the world atinge ótimos momentos, mas não possui o mesmo acabamento das anteriores. New York não passa de uma faixa interessante que não empolga. Encerrando, Grace, uma faixa desprezada pela maioria dos fãs, mas cuja delicadeza da letra e do riff muito me agrada.

E pensar que a banda queria ter incluído no álbum a ótima The Ground Beneath Her Feet, do filme Million Dollar Hotel, mas os produtores acharam que a proximidade com o lançamento da trilha sonora seria prejudicial, e acabou saindo apenas como bonus track no Japão, Austrália e Reino Unido.

A Elevation Tour, que não veio ao Brasil (infelizmente), marcou um recuo cenográfico da banda em relação à grandiosidade da Zoo TV Tour e da Popmart, retomada recentemente na 360° Tour. E ganhou dois excelentes registros em DVD: Live in Boston e Go Home: Live from Slane Castle, o meu DVD preferido do U2, gravado uma semana após o falecimento de Bob Hewson, pai do Bono.

Kite ao vivo em Slane Castle.

*****

Gostaria de agradecer a Amy Winehouse, Andres Calamaro, Beck, Belle & Sebastian, Ben Harper, Bob Dylan, Dave Mathews, Diana Krall, Green Day, Madeleine Peyroux, Morrissey, PJ Harvey, Regina Spektor, ao casal John Ulhoa e Fernanda Takai (com ou sem o Pato Fu) e a Anneke van Giersbergen (seja em qual banda for) por terem feito esta década discograficamente mais interessante.

Agora terei de me virar pra fechar a lista de 1990/1999.

Top 20 – 2000/2009 (6ª parte)

15/11/2011

Os dois álbuns abaixo pertencem às duas bandas nascidas nesta década que mais me empolgaram e impressionaram positivamente: Arcade Fire e Franz Ferdinand. As duas lançaram seu primeiro álbum em 2004, e calhou de conhecê-las também no mesmo ano, em 2006. De lá pra cá, ambas lançaram mais dois álbuns.

Funeral (2004), Arcade Fire.

A estréia discográfica da banda canadense foi, na verdade, em 2002, com um EP homônimo. Mas o grande début foi mesmo com Funeral, que antigamente seria chamado de LP.

De cara, o grupo me lembrou Belle & Sebastian: banda numerosa, indie, criada em torno de um casal, e com um texto no encarte muito parecido com o de Tigermilk, primeiro álbum da banda escocesa. Mas as semelhanças param por aí.

Meu primeiro contato foi com a canção Wake Up, que abria os shows do U2 na Vertigo Tour. De tanto ouvir aquilo nos bootlegs, foi natural querer ouvir a música toda e mais coisas da banda. E assim cheguei a Funeral, um disco pouco comum, de sonoridade dramática e complexa, nada radiofônico. O vocal feminino lembra muito Bjork.

O crescimento musical desde o EP e as sutis, mas significativas, mudanças de um disco pro outro representam uma maturidade musical animadora.

Da primeira vez que a banda veio ao Brasil, não a conhecia. Depois, fiquei torcendo que sua possível vinda ao Rock in Rio 2011 se concretizasse. Não foi dessa vez…

Vídeo de Wake up.

Franz Ferdinand (2004).

Conheci os escoceses do Franz Ferdinand também via U2. Sem ter ouvido um acorde sequer da banda, vi com prazer os rapazes abrindo para o U2 no Morumbi em fevereiro de 2006. Vi uma banda empolgada, tocando com garra e habilidade, e um som contagiante. Voltando ao Rio, o antológico show deles no Circo Voador já estava esgotado. Ficamos pegando restos de som na cerca do lado de fora. Minha esposa, após o show, ainda conseguiu autógrafos de Alex Kapranos e Bob Hardy nas fotos tiradas dias antes em São Paulo. Conseguimos vê-los meses depois na Fundição Progresso, cuja acústica é deplorável.

O disco de estréia eu conheci após o segundo CD, You could have it so much better, e me causou ainda mais impacto pela inventividade e vibração das composições.

Nesses dois primeiros trabalhos, a banda apresentou diversos caminhos possíveis, mas preferiu, no terceiro, Tonight, seguir na área de conforto do rock dançante. Fico na expectativa de que a inquietação que percebi em Joss Stone e Arcade Fire venha a arrebatar esse simpático grupo.

Take me out ao vivo aqui.

*****

Enquanto Franz Ferdinand e Funeral representam o novo, os outros dois álbuns de 2004 são de velhos conhecidos. Coincidentemente, as duas escolhas mais pessoais desse Top 20.

Trampin’ (2004), Patti Smith.

O primeiro disco de Patti Smith a gente nunca esquece. Ela foi uma daquelas artistas de que eu sempre ouvi falar e demorei a conhecer. Mais um empurrãozinho do U2, com o cover de Dancing Barefoot.

Não há um disco de Patti que eu ache ruim, mas este possui um encanto especial aqui em casa. Quando minha esposa me pedia pra ouvir Patti Smith, eu botava qualquer um, apenas para perceber que, na verdade, ela sempre queria ouvir Trampin’.

A razão disso continua um mistério. Tento, racionalmente, explicar pra mim mesmo que é porque o disco é mais equilibrado que os anteriores, mais regular. Mas, no fundo, creio que seja o vínculo afetivo da descoberta.

Pouco tempo depois, tivemos a oportunidade, junto com o Alexandre, de marcar presença em seu show no Tim Festival.

Jubilee ao vivo na França.

How to dismantle an atomic bomb (2004), U2.

Se alguém disser que eu incluí esse disco só porque é do U2… estará certo. No dia em que fechei a lista, me fiz uma pergunta: eu trocaria algum desses discos por aqueles do U2 que ficaram de fora? Bem, foi com esta pergunta que No line on the horizon tirou American Idiot (Green Day) da lista.

Então, dando a lista como encerrada, resolvi botar How to dismantle an atomic bomb pra tocar enquanto passava um caderno a limpo. Me peguei cantando todas as músicas, mesmo aquelas das quais já tinha enjoado, como Miracle Drug. Então me dei conta que não tinha como deixar um disco com Vertigo, City of Blinding Lights, One step closer e Original of the species de fora; não seria honesto. Além disso, foi devido à turnê desse disco que me interessei por Arcade Fire e Franz Ferdinand. E foi assim que Sea Change (Beck), saiu da lista. Sorry, coisas do coração…

One step closer em um vídeo caseiro, utilizando imagens de shows.

Top 20 – 2000/2009 (1ª parte)

29/10/2011

Colour me free! (2009), Joss Stone.

Quando Joss Stone surgiu em 2003, com o ótimo The Soul Sessions, ninguém poderia imaginar que uma menina de 16 pudesse ter aquele vozeirão. E mais: se ela manteria aquela qualidade ao longo da carreira ou se seria apenas um talento bem aproveitado por produtores. Com seu 4º disco, Colour me free!, Joss chega à maturidade em termos de voz, interpretação e música.

Vê-la ao vivo, tanto no SWU de 2010 quanto no Rock in Rio de 2011, é um prazer (também) pra quem gosta de música. Ela tem total domínio do que acontece no palco, o que cada um está tocando, a qualidade do som etc. Ela fala com os técnicos de som em forma de canto improvisado enquanto passeia descalça. Transpira simpatia e musicalidade por todos os poros.

Os títulos de seus álbuns recentes (Introducing Joss Stone, Colour me free! e LP1) mostra uma artista ainda em busca de uma identidade e em luta por maior liberdade artística. Tal inquietude é animadora, pois revela uma artista pouco deslumbrada e não conformada.

O link abaixo é da faixa de abertura do disco, Free me, em versão ao vivo no Palco Sunset do Rock in Rio 2011.

http://www.youtube.com/watch?v=LBK83NGKxeQ

No line on the horizon (2009), U2.

Eu já comentei sobre esse disco no blog aqui. A razão dele ser incluído neste Top 20 vai além do simples fato de ser um álbum do U2. Em si, não é muito regular e bastante heterogêneo, mas possui ótimos momentos. A verdadeira razão é bastante pessoal: foi a turnê desse álbum que me levou a Dublin. A versão de Breathe abrindo o show no Croke Park foi arrepiante, e a faixa-título, que até então pouco me agradava, foi eletrizante. E ainda teve o trauma de ter sido o único show da 1ª leg onde eles não tocaram Unknown Caller, que atualmente só perde no favoritismo pra Moment of Surrender. Enfim, o disco me traz grandes lembranças, além de ótimas músicas.

O link é de Unknown Caller ao vivo no Rose Bowl, em 2009.

http://www.youtube.com/watch?v=X2v4OH39UgM