Archive for the ‘Zaz’ category

L’enfant n’est fait que de fêtes…

06/04/2016
Sans Tsu Tsou

Sans Tsu Tsou (2011), Zaz.

No melhor estilo Rádio Pirata, na sequência de seu primeiro e muito bem sucedido álbum, Zaz emendou um álbum ao vivo e DVD. Felizmente, a superexposição não levou às mesmas consequências e a cantora emendou mais dois bons álbuns, ainda que o segundo seja inferior ao primeiro e o terceiro siga uma linha distinta que não permite comparações.

O álbum ao vivo de um disco só é Sans Tsu Tsou, que eu havia comprado em Paris, mas que é bom mas não me impressionou particularmente. O vídeo eu tive de baixar, pois comprar DVD na Europa pra assistir no Brasil é investimento dos mais arriscados.

Revi recentemente o vídeo e não paro de tocar Zaz na minha cabeça, particularmente as músicas do primeiro álbum, claro. O vídeo é muito simpático, mostrando a cantora em ação em diversas ocasiões: Suíça, França, Alemanha, Bélgica… Com direito a um “clipe ao vivo” nas colinas verdejantes próximas ao que parece ser o Mont Blanc. Uma experiência muito mais interessante que o disco.

A abertura é igual ao álbum, com aqueles plins ploins que parecem sair de um xilofone ou de uma caixinha de música no início de Les Passants.

Quando meu filho tinha apenas alguns meses, minha esposa, desejosa de ouvir algo diferente da coletânea “baby blues” que eu havia feito, colocou Zaz pra tocar. Ao ouvir aquela introdução, Michel congelou. Abriu a boca e arregalou os olhos. Ficou apontando pro aparelho de som todo sorridente. Por um tempo foi um hit dos dos dois, até que a minha esposa parou de colocar o CD.

Às vésperas do primeiro aniversário, muitos meses depois, fui testar a minha coleção de músicas para a festinha. Abria com Les Passants. Michel paralisou e começou a dar gritinhos de alegria em direção ao som. Nitidamente reconheceu a música. Era quase como uma descoberta arqueológica, quando a gente acha um caderno da adolescência, um velho brinquedo perdido no armário. E quando coloquei o vídeo, ele parou de brincar e ficou escutando com atenção, sem sequer olhar pra TV.

Ah, Zaz, assim você me mata…

Les Passants ao vivo.

Sempre teremos Paris…

09/08/2015
Paris (2014), Zaz.

Paris (2014), Zaz.

O terceiro álbum de estúdio da cantora francesa Zaz é inteiramente dedicado a Paris. Trata-se de uma coleção de canções antigas, com a exceção de Paris, l’après-midi, que tem a cidade como tema central. A única canção não francesa é I Love Paris, de Cole Porter, em dueto com a cantora canadense Nikki Yanofsky, mas é cantada em francês e inglês.

Outra participação transatlântica é a de Quincy Jones, que produz três faixas do disco: Champs Elysée (que virou uma espécie de “a chanson vai ao Harlem”), o dueto com Nikki em I Love Paris/J’aime Paris, e o dueto com a lenda viva da canção francesa, Charles Aznavour, em J’aime Paris au mois de Mai, que o próprio Charles apelidou de “Zaznavour”. As três receberam o arranjo de uma Big Band conduzida por John Clayton. É curioso notar que, no encarte, as faixas produzidas por Quincy Jones vêm acompanhada de uma logomarca própria do responsável por Thriller.

Em La Romance de Paris, do ator, cantor e compositor Charles Trenet, Zaz divide os vocais com o jazzista francês Tomas Dutronc. E, claro, não podia faltar um pouco de Piaf em Sous Le ciel de Paris (sim, o nome da cidade aparece em 9 das 13 faixas, sendo que outra se chama La Parisienne – o título do álbum NÃO é propaganda enganosa).

À Paris, uma canção de 1949, é executada sem instrumentos, só com um precioso arranjo vocal. Paris canaille, de 1953, vira um blues rasgado no final. J’ai deux amours, uma canção feita para Joséphine Baker em 1930 que já ganhou versão de Madeleine Peyroux, ganha uma roupagem sessentista, com um início vocal estilo doo-wop, seguindo como balada rock italiana tipo Rita Pavone para desaguar num gospel.

Em seus dois primeiros álbuns, Zaz transita com sua voz rouca entre o pop e a canção tradicional francesa com bastante fluidez. Nessa homenagem, é natural que a tradição das composições e arranjos se sobressaiam. Mesmo assim, ela consegue imprimir modernidade e jovialidade em canções dos anos 30, 40 e 50 sem muito esforço. La Parisienne e Dans mon Paris, por exemplo, poderiam muito bem estar em outro álbum seu. Edith Piaf já é figurinha fácil em seus shows, assim como os scats, estilo no qual ela deita e rola no disco.

Em um álbum monotemático, há variedade suficiente para manter a atenção do ouvinte. Além do mais, é Paris, né?

Making of das gravações com Quincy Jones.

Zaz no Metrô… digo, no Circo.

22/03/2014
Zaz ao vivo no Circo Voador, Rio de Janeiro (20/3/2014).

Zaz ao vivo no Circo Voador, Rio de Janeiro (20/3/2014).

Na madrugada de domingo pra segunda, fui apresentado pelo meu amigo Bruno à nova promessa da nouvelle chanson, a cantora Zaz (nome artístico de Isabelle Geffroy), avisando aos amigos de seu show no Circo Voador na quinta, dia 20 de março. Não me lembro o que fiquei fazendo no computador naquela noite, mas fiz ouvindo a íntegra de seu 1º disco (ZAZ, de 2010).

O resultado é que no dia seguinte já tinha comprado os ingressos pro show e encomendado o seu 2º CD, Recto Verso. Chegando o dia 20, Zaz estampava sua foto no Segundo Caderno do Globo, e a fila que encontrei sob os Arcos da Lapa era bem maior do que estava acostumado. Pelo menos não choveu. E ainda deu pra ver o finalzinho da passagem de som enquanto retirava os ingressos na bilheteria, pagando o preço justo em troca da doação de 1kg de alimento.

Casa cheia (não precisa muito pra encher o Circo, que sempre põe mais gente pra dentro do que cabe no espaço efetivamente reservado pra assistir ao show), a banda sobe no palco passando de 23:30h, revelando aos gritos a presença ali de muitos e árduos fãs (o que a internet não fez com o mundo…).

A francesinha, com sua voz extremamente rouca, começou emendando canções pop agitadas pra animar a galera, com parcial sucesso. Algumas puxadas de corinho não deram muito resultado, mas ela ficou visivelmente satisfeita com os aplausos e urros no final de cada canção. Simpática, falava francês com a naturalidade com que outros artistas se dirigem a nós em inglês, lendo muitas passagens em português (com pronúncia bem melhor que a dos anglo-americanos). Mas quando chegou a hora de seu sucesso Je Veux, a casa veio abaixo. Até parecia a lendária apresentação do Franz Ferdinand na casa. Para minha surpresa (e para a dela), a galera cantou a música a plenos pulmões com a desenvoltura de um Love of my life no Rock in Rio (em francês? É isso mesmo?!). Dava pra ver os olhos dos músicos brilhando, e Zaz genuinamente emocionada e arrebatada.

A acústica do Circo funciona muito bem da platéia para o palco, numa onda sonora de fazer a alma descolar do corpo. Posso afirmar sem medo de errar que, em termos de show em terras cariocas, o Circo Voador é o nosso alçapão.

Assim, daí pra frente foi só partir pro abraço, com o público na mão, atendendo prontamente a qualquer aceno da musa. No momento “homenagem”, Zaz mandou uma versão moderna de La Vie en Rose e uma tocante interpretação, em português, de Samba em Prelúdio. Esta, aliás, foi a única música lenta que a galera respeitou. Sim, pois no Circo Voador parte da galera que fica na arquibancada e nos limites da tenda não vai pra assistir a um show, mas pra conversar como se estivesse numa boate. Assim, quando o volume da música diminui, é possível ouvir o zumzumzum das conversas tomar corpo. No show do Belle & Sebastian, por exemplo, deu pra saber (involuntariamente) toda a história de uma menina com o namorado. Portanto, se você for ao Circo querendo ouvir música, nunca, jamais fique nas beiradas da tenda, ainda que a visibilidade seja boa.

Creio que o público e Zaz saíram de lá tão ou mais satisfeitos do que eu. Zaz pulava e gritava u-la-lá o tempo todo, talvez querendo que aquele momento congelasse no tempo.

Dia seguinte, passei na Saraiva pra pegar meu Recto Verso. Como não tô ganhando nada com isso, aviso logo que a Cultura também tá vendendo, e pelo mesmo preço. O álbum, claro, é muito bom, alternando o pop-rock com canções mais puxadas pra música popular francesa.

Comme ci, comme ça ao vivo na Espanha e a apoteose de Ja Veux no Circo Voador.

Recto Verso (2013), Zaz.

Recto Verso (2013), Zaz.