Archive for the ‘Zeca Baleiro’ category

Zoró, o álbum dos trocadilhos

29/06/2016

Zoró

Zoró [Bichos Esquisitos], volume 1 (2014), Zeca Baleiro.

Com a Partimpim, Adriana Calcanhotto deu partida numa nova série de músicas para crianças. A moda passou a ser canções para adultos adaptadas para os ouvidos infantis, mas sem torná-las caixinhas de música. Os discos são muito bem produzidos, com o mesmo cuidado destinado aos álbuns para gente grande. O Pato Fu resolveu radicalizar no instrumental, tocando sucessos pop com instrumentos de brinquedo. Uma proposta um pouco diferente foi dar a clássicos infantis um formato de rock para gente grande.

Neste cenário, o álbum Zoró (Bichos esquisitos), de Zeca Baleiro, inova ao investir em repertório próprio. A ideia de um zoológico maluco de certa forma remete à Arca de Vinícius de Moraes, mas o resultado é bem diferente.

O álbum do Zeca é a maior coleção de trocadilhos infames por faixa da indústria musical. O ornitorrinco que vai ao otorrinolaringologista; a serpente que queria ser pente; a minhoca dorminhoca; a girafa rastafári; o tubarão que toca tuba. A minha preferida é o tigre de bengala que tem um bangalô em um triste trigal, que junta os trocadilhos às expressões populares, também exploradas nas composições. E lá vem o crocodilo que não chora, o elefante que não assobia, a baleia que ninguém vê mamar, a zebra que deu sorte, a coruja neném que tem um pai e uma mãe corujas.

Mas nem só de trocadilho vive o álbum. Zeca nos proporciona algumas imagens poéticas e divertidas, como o peixe-elétrico que vive no fundo do mar com geladeira e TV, tipo Bob Esponja; a pulga que deu sorte de morar em um camelo, brincando de montanha-russa o dia inteiro; a Joaninha Dark que toma banho de piche antes de sair pra balada, para disfarçar as bolinhas; o pardal solitário que acorda e dorme sobre o fio de eletricidade; o hipopótamo que, ao fim da tarde, no rio Nilo se banha nu. E ainda a hiena que ri, cantada como se fosse uma roda de maconha.

Depois que você se acostuma com a infâmia das letras, é possível começar a curtir o som, que é de ótima qualidade, desde os arranjos à execução. Zeca não trata Zoró como um disco menor da carreira, e ainda chama os amigos, como Fernanda Abreu, Tom Zé e Tetê Espíndola para participar da farra. E que farra!