Archive for the ‘Documentários’ category

Top 20 – filmes e vídeos de música (parte 13)

19/06/2017
Buena Vista Social Club DVD

Buena Vista Social Club (1999), Wim Wenders.

Foi na casa de um amigo que descobri Buena Vista Social Club. Ele havia sido contaminado por um colega de trabalho que escutava o CD o dia inteiro. Quem não viveu a época pode nem desconfiar, mas o álbum foi um furor, trazendo a música cubana de volta às paradas. O sucesso, claro, foi internacional, levando o diretor alemão Wim Wenders, que já havia apresentado Madredeus ao mundo, a fazer um documentário sobre o álbum.

As entrevistas e cenas em Cuba são um espetáculo, numa época em que o acesso à ilha não era tão fácil. Felizmente, Fidel resolveu dar uma força aos velhinhos da música pré-revolucionária. Ry Cooder, o cérebro por trás do álbum, está sempre presente, mas pouco se fala da sua importância para a roupagem atraente dada à música até então considerada brega e ultrapassada.

O toque especial do filme está na forma simples e sincera com que os artistas são retratados. É possível senti-los nas rugas e porosidade da pele, na parede descascada, na ferrugem do refrigerador. O fim, na verdade, é o início de tudo: a apresentação do grupo em Nova York. O clímax se encontra nos olhos esbugalhados daqueles que jamais sonharam vislumbrar as vitrines da Broadway. Perplexos, paralisados, como se surpreendidos acordados em pleno sonho proibido.

Poucos filmes, mas pouco mesmos, são capazes de captar a alma da música como Buena Vista.

Eight Days a Week

22/02/2017

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Estava tranquilo com minha decisão de ver o documentário Eight Days a Week: The Touring Years em DVD, quando fui alertado que depois do documentário era exibido a íntegra restaurada do The Beatles at Shea Stadium, que contém 10 das 12 músicas do setlist, e que este era exclusivo para as salas de cinema.

Há alguns anos comprei um daqueles DVDs mequetrefes da Coqueiro Verde que dizia ser o show no Shea Stadium, mas era pura enganação. Fica na minha estante junto com um do U2 ao vivo na África do Sul para me lembrar do quanto eu posso ser otário.

Soa um tanto irônico ir assistir a um filme cujo título fala de uma semana de oito dias na única sessão de um único cinema da cidade em toda a semana. E lotou!

Não sou daqueles beatlemaníacos que tem tudo, que já viu, leu ou ouviu tudo que saiu, tanto oficialmente quanto pirata, sobre os Beatles, mas posso dizer que tenho uma quilometragem bastante razoável. Depois do Anthology, o melhor documentário sobre os Beatles que eu vi na vida foi um editado por um fã brasileiro, com legendas rudimentares, exibido pela Band ou pela Manchete, de quase duas horas, que mostrava excelentes gravações de shows e programas em Paris e Estocolmo; apresentações em TV na Inglaterra, incluindo uma onde eles cantam Shout em meio à plateia; o show do “rock the jewelry”; muitas tomadas do show em Washington onde Ringo Starr fica virando a bateria; Ringo cantando Boys com dor de barriga.

Assim, assistir a um documentário dos Beatles é como colecionar álbum de figurinha: chega uma hora em que você passa na banca de jornal, compra dez pacotes e sente como um ganhador da loteria caso consiga ao menos uma figurinha não repetida. De fato, o documentário de Ron Howard revela pouco, mas conseguiu me apresentar bem mais do que uma figurinha inédita.

Creio que o principal acerto do diretor foi focar em um tema específico, e não ser mais um documentário sobre os Beatles. No caso, as turnês, os Beatles sobre o palco. Outro acerto foi passar batido em episódios já fartamente esmiuçados em outros documentários, como o imbróglio nas Filipinas, a polêmica sobre o show em Budokan, as razões do fim das turnês e sequer mencionar a substituição de Ringo na Austrália. Talvez o único senão tenha sido fazer parecer (involuntariamente, prefiro acreditar) que Ringo entrou na banda antes de Please Please Me.

Com o tema bem delimitado, Howard pôde debruçar-se sobre algumas pérolas inéditas ou mal exploradas. A melhor de todas é a entrevista com Larry Kane, jornalista que acompanhou a banda em sua primeira turnê regular nos EUA e Canadá, em agosto /setembro de 1964. O que mais impressiona (e emociona) é a naturalidade com que Paul McCartney, numa entrevista, detona com o racismo antes de um show em Jacksonville.

A polêmica sobre ser mais conhecido do que Jesus, que provocou bastante turbulência na turnê de 1966 (não por acaso a última), inovou por dar menos atenção às reações do que à retratação de John Lennon. Pela primeira vez eu vi a entrevista com ele na íntegra.

Das entrevistas novas, a mais surpreendente é a com Whoopi Goldberg, que além de fã de Star Trek se revela agora como uma grande fã de Beatles. Ela narra não só a sua ida ao show no Shea Stadium como o quanto a banda foi importante em sua vida, inclusive para sua autoestima e superação de preconceitos raciais.

No final, o documentário detém-se um pouco sobre Sgt. Pepper’s, talvez por tempo demais devido a especificidade do tema, para então fazer uma ponte rápida para a última apresentação da banda sobre o telhado da Apple. Infelizmente, os fãs ainda permanecem à espera da íntegra dessa performance lendária e icônica.

Mas não tem jeito: aqui a cereja do bolo é mais importante do que o bolo. Você sai de casa, assiste a todo o documentário com um sorriso no rosto, mas o que você está esperando é mesmo por aqueles 30 minutos de mergulho no túnel do tempo. E vale cada fotograma!

E bora comprar o DVD e o CD!

Sonic Highways, o documentário

23/04/2016
Sonic Highways

Sonic Highways (2014), Foo Fighters.

A série Sonic Highways, produzida e conduzida por Dave Grohl, é composta por 8 episódios de uma hora cada. Em cada um ele visita com o Foo Fighters um estúdio em uma cidade diferente nos EUA. A cidade é escolhida por sua importância na história da música americana, por ser polo de atração de músicos para gravação ou mesmo por motivos pessoais. O estúdio escolhido pode ter tido ou não importância nestes contextos, ser novo ou antigo, mas sempre tem uma história interessante para contar. A ideia surgiu com o aniversário de 20 anos da banda. Foi uma forma que eles encontraram de mudar um pouco a dinâmica do processo de composição e gravação.

Para quem não gosta de Foo Fighters, ou não é tão fã da banda assim como eu, não pense que a série não vai lhe interessar. Se você gosta de música, gosta de ler e saber sobre música, a série é obrigatória. Trata-se na verdade de um documentário sobre música, a indústria musical, estúdios míticos, e um pouco sobre a história de cada cidade visitada. O resultado final é um delicioso painel sobre a música americana como um todo, não só o rock, ainda que ele seja o centro gravitacional de tudo. Apenas no final dos episódios você ouvirá Foo Fighters, quando é apresentada uma música do álbum homônimo, em tese composta naquele estúdio durante as entrevistas, impregnada das histórias contadas e da atmosfera local.

Dá pra perceber uma estrutura narrativa na série como um todo, ainda que não seguida à risca. Começa com um descortino sobre a música na cidade, a sua importância, os estúdios, os artistas que lá gravaram, os produtores, os estilos que marcaram época. Depois, um pouco da história pessoal de Dave Grohl ou de algum membro da banda, o presente da cidade e da cena musical, reflexões sobre o passado e algumas considerações sobre o futuro. E, claro, o clipe com a música do novo álbum.

Chicago

O primeiro episódio da série se divide em duas narrativas paralelas: o blues e o punk. Há, portanto, um recorte bastante pessoal ao falar de uma cidade tão plural musicalmente como Chicago. Portanto, nada da rivalidade entre New Orleans e Chicago no jazz. Algo sobre assunto pode ser visto no simpático filme New Orleans (1947), de Arthur Lubin, com a participação de Louis Armstrong e Billie Holiday. Muito dessa história diz respeito à migração de negros do sul para a região. E é assim que Muddy Waters, considerado a pedra fundamental do Blues em Chicago, entra na história. E de Muddy, a história passa direto para Buddy Guy, um dos entrevistados, chegando à Chess Records.

Em algum momento do episódio, a banda fala sobre a diferença de gravar um disco regular e o desafio de compor uma música por semana como todos enfiados em um estúdio.

O outro lado do programa diz respeito a uma história familiar de Dave Grohl. Sua prima, que vive no subúrbio, foi a primeira punk que ele conheceu ao vivo e a cores, e o levou a seu primeiro show de rock: os punks do Naked Raygun. A prima, inclusive, tocava numa banda punk mirim. A Naked Raygun também foi essencial na vida de Steve Albini, dono do Electrical Audio, o estúdio escolhido pelo Foo Fighters. Steve “só” produziu de PJ Harvey, Pixies, Nirvana (In Utero), Jimmy Page e Robert Plant, entre outros. A loja de disco Wax Trax é apontada como essencial para a consolidação de uma cena musical na cidade em torno do punk, da new wave e da música eletrônica.

Deslocando-se um pouco dessas histórias paralelas está o Cheap Trick, do genial guitarrista presepeiro Rick Nielsen (se você acha uma guitarra de dois braços presepada, você não viu uma de cinco!). Rick dá uma canja na primeira faixa do álbum, a boa Something from Nothing, que é também a música tema do documentário, que toca nos créditos iniciais. No fim das contas, o episódio chega a um denominador comum: pessoas que constroem seu caminho do nada.

Washington D.C.

Não tivesse sido o primeiro episódio que vi da série, ainda na TV, sem saber direito do que se tratava, teria estranhado a escolha de Washington D.C. Mas aos cinco minutos tudo se explica: Dave Grohl cresceu em Virginia, e foi lá que começou a tocar profissionalmente como baterista. Então o episódio revela-se como um episódio pessoal do líder do Foo Fighters.

Apesar de ter saído de lá músicos conhecidos como Marvin Gaye e Duke Ellington, a cidade não possuía uma cena musical marcante até os anos 70. Não é a toa que a narrativa começa com o assassinato de Martin Luther King e as revoltas ocorridas em decorrência disso. A música que tomou conta da cena local foi o funk, tendo seu principal expoente o Trouble Funk. Ian McCkaye, vocalista do Minor Threat e guitarrista do Fugazi, sentia-se discriminado por ser branco em D.C. A virada veio com o punk na virada pros anos 80, graças ao surfista e ativista nerd Don Zientara, que abriu o Inner Ear Studios em Arlington e investiu no punk. Foi esse o estúdio que a banda escolheu para gravar a faixa da vez, The Feast and the Famine. Neste episódio, o produtor do álbum Butch Vig, discorre sobre as dificuldades de gravar cada semana em uma cidade diferente, num estúdio diferente, com equipamentos e acústica distintos.

Nessa primeira fase, onde os grupos surgiam, tocavam, mas não eram escutadas nas rádios, destacou-se o Bad Brain, um dos pioneiros do hardcore, uma banda punk de negros, ou, como fazem questão de dizer, de jovens punks. Foi então que Ian McCkaye e o amigo Jeff Nelson resolveram radicalizar o discurso “faça você mesmo” e fundaram a Dischord Records. As bandas produzidas podem não ser as mais famosas, mas influenciaram artistas como Red Hot Chili Peppers e Beastie Boys. Nesse meio tempo, Dave foi descoberto como baterista adolescente de uma banda chamada Mission Impossible e convidado a substituir o baterista do Scream, sua favorita na época, onde ficou por quatro anos. O ciclo se fecha com um show juntando o punk com o funk da capital norte-americana.

Apesar de associarmos Dave Grohl ao Nirvana e à cena grunge de Seattle, ele define a si mesmo musicalmente como um produto da cena punk de Virginia/Washington D.C.

Nashville

Nashville é parada obrigada numa empreitada desse tipo. Muitos artistas vão pra lá pra buscar uma nova ambiência que inspire seu próximo álbum, sem que necessariamente isso se transforme em um disco de country.

A cidade é reconhecida como a capital mundial do country, uma indústria de hits, onde a canção é o mais importante. Nisso, muitas questões autorais são pormenorizas. Um compositor pode pegar seu violão e ir tocar e cantar suas músicas no bar Bluebird, mas na indústria a coisa é diferente. Nashville não acredita em compositores que cantam. A fórmula de sucesso é reunir dentro de um estúdio o melhor cantor e os melhores músicos pra executarem a melhor canção, composta pelo melhor compositor. Por essas e outras que Willie Nelson acabou desistindo da cidade e se reencontrou em Austin.

Nashville se tornou o que é devido a um programa de rádio, Grand Ole Opry, iniciado em 1925. Os músicos e compositores de country eram atraídos para o programa e aos poucos foi se formando a indústria musical. Parte do programa também realça a influência gospel na música country, muito devido à formação religiosa dos artistas e do próprio público.

Hoje em dia, o pragmatismo comercial tem transformado o country numa vertente pop, música para festas, com seus sugar shakers a caminho do mar. Nada muito diferente do que acontece no Brasil com o sertanejo. Produtores como Tony Brown, ex-tecladista de Elvis Presley e Emmylou Harris, mantém-se como focos de resistência. Afinal, se o country é basicamente contar histórias, se essas histórias não soarem como verdade na voz de seus intérpretes, qual o sentido?

Assim, o programa acaba se desenvolvendo em torno dos outsiders de Nashville, aqueles que conseguiram fazer o seu caminho sem curvar-se aos padrões estabelecidos, como Dolly Parton (que disse não a Colonel Parker, empresário de Elvis), Tony Joe White (compositor de Polk Salad Annie), Emmylou Harris e Willie Nelson, além do contemporâneo Zac Brown, que toca com o Foo Fighters na faixa Congregation, e não se prende ao rótulo country. Para Zac, compor não é sobre country, é sobre fazer música.

O estúdio escolhido para o programa é o de Zac, onde antes funcionava o Monument Studios, que por sua vez foi estabelecido onde era antes uma igreja, com instalações bastante rústicas. Grohl reconhece a importância do local na elaboração da música. Tendo no grupo um fã de country, foi difícil evitar que o estilo contaminasse o riff de guitarra. A banda teve de fazer um esforço pra “descountrizar” o arranjo. Parece ter tido sucesso nisso, embora eu tenha preferido a versão original. Congregation tem um arranjo tão legal que é uma pena a parte instrumental não ser mais longa.

Austin

Austin é uma espécie de cena alternativa à indústria de Nashville. Cidade universitária, a cena cultural parece ter sido sempre mais ousada por lá. Mas, musicalmente, a coisa começou a bombar quando Willie Nelson, após não conseguir se encaixar no formato quadradão de Nashville, retornou a Austin e lançou o estilo hippie country.

O episódio começa falando que Austin marcou a música americana com o country e o movimento punk, mas a primeira metade do programa é inteiramente dedicada ao primeiro e ao estúdio escolhido: o palco original do programa de TV Austin City Limits, inaugurado por Willie Nelson em 1976. Ao contrário de Nashville, onde o Grand Ole Opry fez da cidade uma cena musical, foi a cena musical de Austin que tornou o ACL possível. O programa se tornou bastante popular entre os artistas por prover um som de qualidade, algo raro para as apresentações ao vivo da época. Só não entendi por que fizeram tanta onda em torno de um piano encostado, que havia servido há vários monstros da música, que acabou não sendo usado na gravação final.

Esta parte inicial também enche a bola da banda 13th Floor Elevators, considerada o pai do rock psicodélico. Sem desprezar a sua influência na cena californiana, para onde migrou, essa história de onde começou determinado estilo é sempre polêmica.

Aproveitando o gancho do ACL, passam para o blues de Stevie Ray Vaughan, e, finalmente, dedicam menos de dez minutos ao movimento punk dos anos 80, para voltar novamente ao blues de Gary Clark (que participa da faixa gravada em Austin). Parece-me que o punk só foi importante para a própria cena local.

A principal importância de Austin para a música americana revela-se ser o seu papel de polo de atração, seja na abertura para carreiras alternativas, seja pelo ACL e o festival ao qual deu origem, assim como o South by Southwest, evento multicultural surgido em 1987, mas pouquíssimo abordado no programa. Só que o futuro se torna um pouco incerto na medida em que o mainstream ameaça engolir a espontaneidade alternativa que deu fama à cidade, assim como a nova vizinhança avessa a som alto, que fez com que o ACL mudasse de endereço.

É curioso notar que, na abertura do programa, Pat Smear brinca com a guitarra tocando alguns acordes de Bohemian Rhapsody. E não é que God as my Witness/What did I do?, a música que encerra o episódio, não lembra Queen?

Los Angeles

O episódio de Los Angeles talvez seja o mais mal resolvido da série. O problema de se ter um tema com tantas narrativas possíveis, e impossíveis de serem reunidas em uma só, é que a probabilidade de se enrolar é alta. A primeira coisa é que o episódio não é sobre Los Angeles. Começa como se fosse, mas logo deixa de ser. O episódio gira em torno de dois núcleos que eventualmente se confundem.

Um é o estúdio escolhido, o Rancho de La Luna. Um estúdio que tinha tudo para dar errado, mas virou um templo de peregrinação roqueira. Ele fica em Joshua Tree, no meio do deserto californiano, pra lá de Palm Springs. Ele simboliza a crença de que o ambiente faz a música e reflete muito da metodologia de trabalho de Daniel Lanois, que ajudou seus idealizadores a o tornarem realidade (Lanois, Joshua Tree… tudo a ver!).

O outro núcleo é o ambiente musical no qual cresceu Pat Smear, guitarrista do Foo Fighters, que tocava na banda punk The Germs. Fala da “amadrinhagem” de Joan Jett e de um DJ (sósia de Serginho Groisman) que tocou o disco deles pela primeira vez na rádio (só para que parassem de ligar pedindo). Assim, a narrativa salta do Runnways pro The Germs e, paralelamente, para a cena punk do deserto, ancorada por Josh Homme, que, via Kyuss, faz a ponte com o Rancho.

A história do Rancho é ótima, e realmente merecia um episódio só pra ele, mas o problema é que o roteiro não assume isso. Então fica estranho falar dos Germs, que não faziam parte da turma do deserto, ou de Los Angeles sem falar mais nada de Los Angeles além de uma vinheta introdutória. O destaque vai pros urros do baterista Taylor Hawkins durante a gravação da participação especial de Joe Walsh.

New Orleans

O sexto episódio desembarca em New Orleans. Assim como Nashville, a cidade é um atrativo comum para músicos que buscam imersão numa determinada cena musical em busca de inspiração. Particularmente após o Katrina. Só que o som de New Orleans não é relacionado a nenhum estúdio, mas às ruas. Por isso o Foo Fighters escolheu o salão do Preservation Hall, o primeiro lugar onde brancos e negros puderam tocar e ouvir jazz juntos. Inaugurado em 1961 por um branco tocador de tuba vindo de outra cidade, na época as pessoas iam a New Orleans para ouvir jazz e não encontravam um lugar que tocasse.

Dessa vez não há passado, presente e futuro, tudo se funde numa tradição passada de geração a geração. Não só o jazz é abordado, mas também o grupo funk The Meters. O episódio apresenta entrevistas de Dr. John (que todos chamam pelo nome real, Mac) e Allen Toussaint, falecido em 2015. Parece ter sido a etapa onde o pessoal da banda mais se divertiu, com jams caseiras, show pra galera na rua e a dificuldade de tirar Dave do bar.

A música final, In the clear, é uma das melhores do álbum. Caso ainda não tenha ouvido, não espere que a banda tenha tocado jazz em New Orleans ou country no Texas. As inspirações afetam as letras, não o som da banda, que é o mesmo de sempre.

Seattle

É natural que a passagem por Seattle tenha uma vibe diferente. A narrativa se torna muito mais pessoal, baseada nas experiências de Grohl e a história do Nirvana, do Grunge e da Sub Pop. A parte histórica começa direto no The Sonics, dos anos 60, pulando pro Heart e daí direto para o movimento punk que descambou no grunge. O destaque, contudo, fica pro bizarro estúdio escolhido, o Robert Lang Studios, onde ocorreu a última gravação do Nirvana e onde foi gravado o primeiro álbum do Foo Fighters. E também o ex-companheiro de quarto de Dave “entregando” as gravações caseiras que ele fazia na época do Nirvana.

Provavelmente havia uma certa expectativa dos fãs por este episódio. Então foi uma decisão esperta ser o penúltimo. Se fosse o último, soaria como uma egotrip. Se fosse o 1°, daria uma impressão errada do que seria a série. Colocá-lo perdido no meio, talvez fosse um pouco anticlímax.

New York

O último episódio sobre New York é bastante emocional, com entrevistas com a filha de Woody Guthrie, Rick Rubin e Steve Rosenthal, dono do Magic Shop, o estúdio escolhido. Ficaria difícil, por excessivamente extensa, traçar um histórico detalhado sobre a música na cidade. Há reflexões interessantes sobre a mudança da cidade ao longo das décadas, pra pior e pra melhor. O episódio (e a série) se encerra com uma boa participação de Obama.

Pra quem só ouviu o álbum até agora, depois de assistir ao documentário, ele não soará mais o mesmo.

Extras do DVD

Infelizmente, e criminosamente, os extras não estão legendados, algo infelizmente comum em DVDs nacionais, tanto de música como de filmes, mas principalmente nos de música. E não se trata daquele item no cantinho do menu, mas de um DVD inteiro de extras!

A primeira parte é a versão estendida de dez entrevistas, entre elas a de Barack Obama. A segunda mostra o processo de gravação de cada uma das oito músicas do álbum. Algo em torno de 15 minutos para cada faixa.

Living in the Material World

07/06/2015
George Harrison: Living in the Material World (2011), Martin Scorsese.

George Harrison: Living in the Material World (2011), Martin Scorsese.

Simplesmente havia me passado despercebido o documentário que Martin Scorsese fez em 2011 sobre George Harrison. Acho que foi pouco divulgado por aqui, mas é possível encontrá-lo pelas redes da vida, e com legendas!

O documentário não tem mesmo muito apelo comercial. Não há uma narrativa sequer em off para encadear os relatos ou situar cronologicamente o que é mostrado, nem mesmo com legendas. Todo o texto é composto por entrevistas, músicas, filmes de época e, no máximo, a leitura de cartas e anotações de agenda. Portanto, quem não tem conhecimento prévio da vida do ex-Beatle pode ficar um pouco bastante perdido ao longo dos 208 minutos. Mas achei interessantíssima essa narrativa montada sobre as falas. Ainda que não seja muito didática, a montagem de um mosaico emocional do biografado tem impacto positivo.

Infelizmente, mais da metade dessas 3 horas e 28 minutos é dedicada justamente a fase dos Beatles, justamente a mais conhecida. Isso não é ruim nem redundante, pois é interessante rever esses relatos de um outro ângulo, mas senti falta de outros episódios da vida de Harrison que ou são mostrados en passant ou simplesmente ignorados.

Agora só me resta ir atrás da trilha sonora com as versões demos apresentadas no filme.

Bruce Springsteen and I

23/01/2014
Bruce Springsteen and I (2013).

Bruce Springsteen and I (2013).

Ridley Scott produziu um curioso documentário sobre fãs. Em cerca de 74 minutos, depoimentos entrecortados por trechos de shows gravados por câmeras profissionais ou simples celulares mostram a relação entre público e artista. Declarações de amor, emoções à flor da pele, casais apaixonados, mães impositivas, homens abandonados, trabalhadores e até mesmo (e por que não) Elvis Presley! Trailer oficial aqui.

Claro que o filme é obrigatório a todos os fãs de Bruce Springsteen, mas pode interessar não apenas a eles. Bruce Springsteen and I também é dirigido aos fãs. De ninguém especificamente, apenas fãs. Qualquer fã. Qualquer um que não aguentou esperar o preço baixar pra comprar um disco; que encontrou a trilha sonora de sua vida nas voltas de um vinil; que coleciona os objetos mais tolos sobre um artista; que montou guarda na porta de um hotel; dormiu numa fila ou esperou anos e anos para o tão aguardado momento único e breve de um concerto. Como não se identificar com aquilo que faz uma música ou um artista ser importante na sua vida? As formas variadas de se conectar, de gostar, de acompanhar a carreira? Cada fã tem seu jeito, seu estilo, sua intensidade, e deve se ver retratado por alguns dos vários personagens retratados.

O desfecho com Born to run ao vivo, editado em trechos de diversas apresentações ao longo das últimas quatro décadas, fez este blogueiro solitário hidratar ligeiramente os olhos.

Sim, tem extras!

O DVD traz algumas apresentações do show no Hard Rock Calling de 2012, em Londres. O pacote traz uma arrebatadora participação de Paul McCartney junto com Bruce e a E Street Band, cantando I saw her standing there e Twist and Shout (sim, com fogos no final; e, sim, ele é expulso do palco no final).

Há também 4 vídeos que foram deixados de fora do documentário, um deles de um carioca, mas o destaque é o “livro-legenda” de uma japonesa.

Mas o melhor dos extras é o encontro, num show em Copenhague, de três participantes do filme com o ídolo. Cada um também conta como foi o seu making of, com destaque pra fã inglesa que resolveu enviar um vídeo só com o marido, que vai aos shows apenas para fazer companhia.

Bruce Springsteen e Eu

Claro que assistir ao documentário me fez editar mentalmente o meu próprio “vídeo” (como evitar, né?). E aqui vai a minha história com The Boss (ao menos nesse blog ela deve ser inédita).

Tudo começou com aquele vídeo de We are the World. Creio que quase todo mundo no Brasil o conheceu naquele vídeo. Como ignorar um cara boa pinta com aquele vozeirão? Achei o nome um tanto brega na época. E com aquela história de “born in the USA”, capa com a bandeirada americana, imediatamente torci um pouco o nariz. Fui salvo por um vizinho com quem trocava informações musicais (enquanto jogávamos xadrez e alguns jogos de cartas excêntricos). Quando vi o vinil na casa dele, ao perceber a minha cara, logo falou: “sabe que isso é bom?” Ouvimos e tive de concordar com ele. Saí de lá com uma fita Basf gravada que logo virou uma favorita do meu irmão. Este se deparou com um show de Bruce na Bandeirantes, magro e vestindo um blazer azul (show de 80, 81?), no qual ouvi pela primeira vez The River, Rosalita e Thunder Road.

E aí veio a conversão definitiva. Primeiro semestre da faculdade, greve de um mês. Havia juntado o dinheiro do ônibus e do lanche. Estava com um amigo no Barrashopping, entrei na Gabriela (antiga loja de discos, meio careira) e me deparei com “a caixa”. Trata-se, claro, da caixa com 5 vinis ao vivo de Bruce Springsteen e a E Street Band, com registros de 1975 a 1985. “Tá muito caro!”, falei. “Você gosta do cara. É uma caixa importada. Compra!”, falou meu amigo. E lá se foi o dinheiro economizado. Claro que, quando cheguei em casa, meu pai não concordou muito com o meu conceito de “economizar”. Para ele, economizar era sinônimo de não gastar.

Fiquei devorando e digerindo aquela caixa por meses a fio, como uma sucuri com um boi na barriga. Então, no ano seguinte, quando soube do show da Anistia Internacional em São Paulo, reunindo Peter Gabriel, Tracy Chapman, Sting, Bruce Springsteen, Youssou N’Dour e Milton Nascimento, não perdi tempo. Minha turma estava se organizando pra fretar um ônibus e eu já tinha mandado o meu “tô dentro”. Entretanto, aquele mesmo amigo que incentivou a comprar a caixa me convenceu a irmos antes e chegar pela manhã na cidade. O dia foi muito cansativo e os shows, sensacionais. Conhecia precariamente Peter Gabriel, que fez um show impecável, deslumbrante. Bruce entrou logo em seguida, última atração. A galera estava exausta devido à maratona, mas os primeiros acordes de Born in the USA acordaram qualquer defunto.

Sempre que falam sobre os Beatles no Cavern Club, do quanto eles eram especiais, fazem menção a uma sensação física, um som que vibra e bate no peito. E aqueles acordem faziam exatamente isso: eu os sentia batendo no meu peito. Pela primeira vez no Brasil, pouco tempo de show, o setlist foi enxuto e recheado de hits.

Saindo do Palestra Itália, não sabíamos se haveria ônibus pra rodoviária ou mesmo se haveria ônibus na rodoviária. Pensamos em pegar um táxi, mas não sabíamos se o dinheiro daria pro táxi e pras passagens de volta ao Rio. Então ouvi alguém me chamando e correndo na minha direção. Era a galera da PUC! Havia dois lugares sobrando no ônibus, e ganhamos uma carona e tanto de volta pra casa.

Muitos discos e DVDs se passaram até ele voltar ao Brasil, dessa vez pro Rock in Rio. Ingresso pro festival comprado, não pude resistir quando soube que tocaria poucos dias antes em São Paulo. Então posso dizer que vi todos os shows de Bruce Springsteen no Brasil.

 

Saravah

26/08/2013
Saravah (1969), de Pierre Barouh.

Saravah (1969), de Pierre Barouh.

Estava fazendo um lanche na Livraria da Travessa quando vi ao longe, na TV, as imagens de um Paulinho da Viola bem moço falando sobre escola de samba numa mesa de bar (sabia disso por causa da legenda). Sentada ao lado dele, percebo uma Maria Bethânia com 22 aninhos, plena de energia e brilho nos olhos.

E foi assim que eu fiquei sabendo da existência do documentário Saravah, realizado em 1969 pelo francês Pierre Barouh. Como filme, na verdade, é bem amador, como alguém gravando com sua câmera de vídeo uma reunião de amigos. As tentativas de uma abordagem mais, digamos, antropológica (escola de samba, macumba, candomblé), sofríveis. Mesmo assim, o filme é uma pérola!

Ver Paulinho da Viola e Maria Bethânia, casualmente na mesa de um bar, tocando violão e cantando, bebendo cerveja; Pixinguinha relembrando sua passagem por Paris em 1921; João da Baiana arriscando seu coração numa sambadinha; Baden Powell, na varanda de uma casa de subúrbio, acompanhando Pixinguinha, no sax, em Lamento, e depois ensaiando com Márcia, entre uma bafora e outra de um ansioso cigarro; Maria Bethânia ensaiando músicas de Caetano com Luiz Carlos Vinhas ao piano e Raul no trombone, emocionada cantando Baby e falando do irmão exilado… é emoção garantida.

Impressiona também a qualidade da imagem, bem definida, registrando nostalgicamente aquelas roupas coloridas e um subúrbio com casas, varandas, quintais e muito verde, com aquela cor dessaturada de álbuns de família, ou, ao menos, os da minha nos anos 70. Quando vi, logo no início, Baden tocando numa mureta de varanda com o gramado se estendendo atrás, identifiquei uma nova cor: o verde-infância.

O preço, entretanto, é um pouco salgado, mas é possível encontrar o filme (cerca de 1 hora) com os extras (meia-hora) no youtube.

A TODO VOLUME

27/07/2010

A Todo Volume (It Might Get Loud) – 2009

It Might Get Loud é um documentário reunindo um mestre da guitarra de cada geração: Jimmy Page, The Edge e Jack White. Há cenas individuais e outras com os três reunidos pra falar de guitarra e composições. Jack White é o mais tagarela. Jimmy Page o mais contido. É engraçado ver o mais novo posando de grande purista da guitarra. Quanto ao Edge… bem, a gente sabe que, se dependesse dele, o U2 já teria virado uma banda de música eletrônica.

Enfim, o filme é curto, e, em DVD, não justifica tantas cenas cortadas (incluídas nos extras), especialmente a do Seven Nation Army. Não há nenhuma grande revelação ou sequer momentos antológicos, mas é extremamente agradável. Pra quem gosta de música (e de rock em especial), é prazer garantido.

Em tempo: a direção é de Davis Guggenheim, o mesmo carinha que dirigiu aquele documentário do Al Gore (ou seria “pro Al Gore”?).