Archive for the ‘Filmes e Séries’ category

Minha fama de mau

26/02/2019

Minha fama de mau

Na preguiça de me deslocar até um bom restaurante para celebrar meu aniversário a dois, decidi na última hora ver Minha fama de mau, baseado na autobiografia do Erasmo Carlos. Ênfase no baseado, por favor.

Depois de Bohemian Rhapsody, parece que virou moda de vez tratar biografia como obra de ficção, haja vista Marighella. Com o Tremendão não é diferente.

Dito isso, assim como o filme do Queen, Minha fama de mau funciona muito bem como filme. Parafraseando o nosso guia em visita a Windhoek, é tão bom que nem parece cinema brasileiro.

O estilo faz lembrar aqueles filmes britânicos ousados dos anos 90. A direção é muito boa e com uma linguagem pop de altíssimo nível, misturando quadrinhos, imaginação, realismo.

Dizer que Chay Suede convence como Erasmo é pouco. Ele brilha, reinventa e toma posse de um personagem real e célebre. Não se trata aqui da transfiguração de Val Kilmer e Rami Malek, mas de um Christopher Reeve ou de um Morgan Freeman.

Gabriel Leone também não se acovardou ao vestir a pele do Rei. E Bruno de Lucca surpreende no papel do escorregadio Carlos Imperial. O elenco como um todo emoldura bem o o universo do protagonista, sem desequilíbrios. Quem aparece dá o seu recado a altura.

Pra não dizer que só falei de flores, a última cena destoa do resto. Típica cinema nacional ou especial da Globo. O recorte do filme, tendo em vista a longa vida do biografado, é bastante curto. Então não há um final propriamente dito. Ao contrário de Bohemian Rhapsody, o roteirista não conseguiu encaixar um bom gancho para fechar a história, optando por uma cena desgarrada e narrativamente forçada e frouxa.

Mas o deslize é rapidamente varrido pra debaixo do tapete pelos créditos finais com filmes caseiros do Tremendão em família.

Por falar em créditos, filme brasileiro tem tantos produtores e patrocinadores, que a apresentação deles no início do filme faz lembrar a época em que toda a ficha técnica vinha no início. E nada do filme começar…

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Bohemian Rhapsody, o filme

14/02/2019

Bohemian Rhapsody

AkiraReady Player One e V de Vingança são exemplos de obras cujas versões cinematográficas contam a mesma história, só que de uma forma completamente diferente (V se afasta menos do original que as duas primeiras). Esse é o caso do filme Bohemian Rhapsody em relação à história do Queen, ou de Freddie Mercury.

O filme é fiel à música e ao espírito do grupo, mas quem o assistir ficará sabendo muito pouco sobre a história da banda. Se for ficar falando tudo que está errado ou fora da ordem cronológica, esse texto vai ficar maior do que o roteiro do filme. Então, para ser breve, vou me limitar a listar os fatos mostrados no filme que realmente ocorreram mais ou menos da forma como ocorreram.

Freddie desenhou a logo da banda e criou o nome.

Mary Austin viveu com Freddie; eles se separam após ele revelar a ela sobre sua sexualidade; e eles continuaram amigos, sendo ela uma pessoa muito importante para ele.

Eles passaram três semanas em uma fazenda ensaiando as músicas de A night at the opera.

Bohemian Rhapsody foi tocada na rádio pela primeira vez no programa de um conhecido DJ amigo de Freddie.

Jim Beach era o advogado e se tornou o empresário da banda.

Freddie entrou numa onda de festas nababescas e de arromba, com muito sexo, drogas e álcool. Ao mesmo tempo, era bastante reservado sobre sua vida privada e nunca quis posar de ícone gay.

O show no Live Aid foi apoteótico, muito importante para a continuação e união da banda, e Freddie, no dia, enfrentava problemas de garganta. O volume da mesa de som foi aumentado por um membro da equipe.

Freddie começou a namorar um homem chamado Jim Hutton em 1985, que ele havia conhecido brevemente dois anos antes.

Pronto. Agora posso falar sobre o filme em si.

O filme é divertido, engraçado e emocionante. Os atores estão bem, particularmente os empresários e os intérpretes de Brian MayJohn Deacon e Mary Austin. Quando ele começa a tocar We are the champion no filme, praticamente fui às lágrimas. Pena que não tocaram o show todo. Faltaram Crazy little thing called love e We will rock you. Não entendi a ausência dessa última devido o destaque dado à composição dela no filme.

Os fatos que antecederam ao Live Aid são inteiramente ficcionais, mas, como roteiro, funcionam muito bem como preparação para o clímax.

Curiosamente, a biografia da banda escrita por Mark Blake começa da mesma forma que o filme: a apresentação no Live Aid. Não deve ser coincidência. Tive a impressão que o grupo que passa por Freddie ao subir ao palco é o U2. Eles não estariam ali, pois entre o U2 e o Queen teve a apresentação do Dire Straits (no final, quando retornam ao show, é possível ouvir o Dire Straits tocando). A furtiva homenagem não é casual: os irlandeses e o Queen foram considerados os dois maiores “vencedores” do evento. Além disso, reza a lenda que Mercury se chegou todo animado pra cima do Bono no backstage.

Geralmente esse tipo de filme dá bastante destaque ao surgimento da lenda: o início da banda, as dificuldades iniciais até o breakthrough. No caso do Queen, tudo é contado muito rápido. Afinal, há muito história ainda pela frente. A história do Queen e Freddie Mercury renderia fácil dois filmes: um até Bohemian Rhapsody explodir nas rádios; e outro até a morte de Freddie, com, o gran finale no tributo a sua homenagem. Ou mesmo 3, com o segundo abordando até o Live Aid. Como, em um único filme, não dá pra contar a história toda, fizeram muito bem em terminar no Live Aid, e, dramaticamente, ficou excelente antecipar a descoberta da doença. Freddie foi diagnosticado como HIV-positivo em 1987, embora já desconfiasse que as coisas não iam bem pelo menos desde o ano anterior, e enfrentasse problemas de saúde, creditados aos excessos, ainda antes disso.

Sobre o palco, Rami Malek está muito bem como Freddie Mercury. Fora dele, pareceu o tempo todo incomodado com os dentes, como se a boca lutasse contra eles, prestes a expeli-lo. Isso me desconcentrou bastante.

Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, o Filme.

27/10/2016
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Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1978), Michael Schultz.

Quando a moda era pegar filmes em videoclubes, a maioria com acervo pirata, chegou lá em casa, sem legenda, uma fita do filme Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, de 1978, dirigido por Michael Schultz, que tem como maior obra do currículo o esquecível Car Wash. Reza a lenda que os ex-Beatles foram convidados para atuar no filme. Na falta dos originais, chamaram Peter Frampton (Billy  Shears) e os Bee Gees (the Hendersons) para formarem o quarteto.

O filme é um musical baseado, principalmente, nas canções dos álbuns Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band e Abbey Road, com o reforço de The long and winding road e Get back, do Let It Be, e ainda Nowhere Man e Got to get into my life.

A história é a mais Sessão da Tarde possível, que atualmente poderia estrelar uma série do Disney Channel. A direção, em todos os sentidos, leva o termo Kitsch a significados inimagináveis. As atuações, caricatas (justiça seja feita, propositadamente). A crítica, obviamente, considerou um dos piores filmes jamais feito.

O elenco conta com o grande George Burns como Mr. Kite, Steve Martin no papel de Dr. Maxwell, e ainda Donald Pleasence, Aerosmith, Alice Cooper, Earth Wind & Fire, Billy Preston, Paul Nicholas e grande elenco interpretando personagens como Lucy, Mr. Mustard e Strawberry Fields.

Por alguma dessas inexplicáveis coisas que acontecem na vida da gente, o filme se tornou um mega hit lá em casa. Minha mãe simplesmente adorou! Meu irmão comprou o a trilha sonora!!! Diga-se em minha defesa, que nos anos 80 o material sobre os Beatles andavam escasso no mercado. Nem os filmes passavam no cinema ou na TV. Como eu ainda não havia comprado o Sgt. Pepper’s e Abbey Road, todas as músicas desses dois álbuns que não estão no álbum azul, eu escutei pela primeira vez neste filme. Lembro de ter estranhado muitíssimo a versão de Paul de Oh, Darling, e preferido a de Robin Gibb. Na verdade, concordo com John Lennon quando diz que a canção se adéqua mais à voz dele.

Pra ser justo, alguma versões são bem interessantes, como a da banda (Peter Frampton + Bee Gees) cantando Getting Better, A day in the life, The long and winding road, Golden Slumers/Carry that weight, Good morning good morning, de Billy Preston cantando Get Back, e Aerosmith em Come Together. Até mesmo a inexpressiva Sandy Farina não faz feio em Here comes the sun.

Enfim, hoje consigo ver todos os defeitos do filme, mas sem perder o valor afetivo agregado. Aqui pra casa, tive de recorrer a uma versão em DVD com legendas em francês e espanhol. Consigo achar o filme um desastre e maravilhoso ao mesmo tempo. Vai entender…

 

Vinyl

14/10/2016
vinyl

Vinyl (2016), Mick Jagger + Martin Scorsese + Rich Cohen +Terence Winter

Vinyl é uma série criada por Martin Scorsese, Mick Jagger, Rich Cohen (escritor e colaborador das revistas Vanity Fair e Rolling Stone) e Terence Winter (The Sopranos e Boardwalk Empire) que visa mesclar a temática de submundo de Scorsese com a indústria musical dos anos 70 vivenciada por Jagger. Nesse intento, o quarteto foi bem sucedido. Mas a série tem problemas.

Trata-se de mais uma série curta (10 episódios) com mais de 50 minutos por episódios. Entretanto, o primeiro episódio, o único dirigido por Scorsese, é na verdade um filme. O piloto tem quase duas horas e é uma obra típica do diretor. Enxuta, redonda, firme, melhor do que muitos de seus filmes mais recentes (parece que a ansiedade de ganhar Oscar estava mesmo bloqueando sua criatividade – depois do prêmio, seus filmes melhoraram).

Quando chega ao final do piloto, achei a história tão redondinha – um crápula da indústria musical, mas muito talentoso, que chega ao fundo do poço e é literalmente salvo pelo rock’n’roll – que pensei ser cada episódio uma história diferente. Mas não, no segundo episódio estavam todos lá, e dessa vez com menos de uma hora de episódio.

O segundo episódio é muito divertido, o mais engraçado da série, e parece apontar em uma determinada direção. Só que nos episódios seguintes o caldo meio que desanda. Talvez preocupado demais em retratar o período, homenagear artistas, registrar costumes, a história perde o foco, enrola e fica sem ritmo. Há pelo menos três episódios muito fracos. Enfim, o que foi contado em 10 poderia ter sido feito em 6 episódios.

Apesar disso, a caracterização está muito boa. Exceto por um esquisitíssimo Robert Plant, você embala no sonho com Lou Reed, David Bowie, Alice Cooper, John Lennon, Andy Warhol etc. Por outro lado, a trama policial se torna muito óbvia, cartesiana.

Só no último capítulo a série recupera o pique e surpreende. Coincidência ou não (acredito que não), o 2° e o último episódios foram escritos por Terence Winter, que co-escreveu com seus colegas de criação o piloto. Ou seja: o que há de melhor na série tem o dedo dele.

No geral, a série acaba valendo a pena, mas a grande frustração fica por conta do final. Ou não final. As tramas principais encontram um desfecho, mas a temporada se encerra com algumas pontas soltas. Na época, estava prevista uma segunda temporada, mas quatro meses depois a HBO decidiu cancelá-la.