Archive for the ‘Livros’ category

HO-BA-LA-LÁ – À procura de João Gilberto

14/06/2017

Hobalala

Acabei de ler o mais inusitado dos livros sobre João Gilberto.

No segundo semestre de 2010, entre a vitória de Dilma nas eleições e a ocupação do Morro do Alemão pela polícia, o jornalista e escritor alemão Marc Fischer, seguidor do Novo Jornalismo de Gay Talese, veio ao Rio na tentativa de encontrar (e, se possível, entrevistar) o mais recluso dos nossos mitos musicais: João Gilberto.

Quem conhece João já sabe de antemão o final dessa empreitada. Fischer, então, transforma em livro suas desventuras e descobertas, num misto de biografia artística e autobiografia jornalística.

Autodenominando-se um Sherlock moderno, acompanhado de uma Watson carioca que lhe servia de tradutora, assistente e investigadora, Fischer vai contando os bastidores de cada entrevista, cada porta na cara e até mesmo eventuais porres. Em vez de construir uma narrativa em cima do material levantado, ele narra como obteve cada informação. Assim temos o capítulo com Menescal, o capítulo com Marcos Valle, com João Donato, Miúcha, um ex-cozinheiro do Plataforma etc., incluindo uma ida improvisada a Diamantina em busca do banheiro mágico onde a Bossa Nova teria sido inventada.

O mito (real) do banheiro da casa da irmã, o gosto pela maconha e a reclusão de João são bem conhecidos, mas o livro traz outras revelações que, ao menos a mim, surpreendem, como a relação e a filha com a bela e jovem Claudia Faissol. E principalmente, como ele encontrava a filha todos os fins de semana como um avô brincalhão. A batalha com a EMI e a razão da ausência de seus primeiros discos no mercado. A forma como ele se relaciona com o mundo (na verdade, uma pequeníssima parte dele) através do telefone.

A lentidão com que a investigação se desenrola me lembrou a primeira temporada de True Detective. Muito beco sem saída, muita porta na cara, até que a persistência e os contatos rendam frutos. Neste ínterim, o autor preenche as lacunas fazendo elucubrações românticas dignas de um “João Gilberto e a Filosofia”, com uma ingenuidade que ganha ares de literatura adolescente. No final, quando se dá conta que tinha chegado até onde podia sem atingir a meta pretendida, bate o desespero.

Entretanto, um detalhe na orelha do livro acabou por dar sentido à paixão juvenil que permeia a narrativa. Marc Fischer morreu em abril de 2011, aos 40 anos, pouco antes da publicação do livro. Fiquei curioso em saber se havia sido acidente, uma doença terminal ou algo assim. Marc se suicidou. Seu perfil no Facebook continua ativo, com uma última postagem em fevereiro. A maioria de seus posts era de música, e havia alguns sobre a viagem ao Brasil. E, claro, músicas de João Gilberto.

Perguntei-me, então, se, ao vir ao Brasil atrás de João, o jornalista já encarava aquela viagem como uma última e louca missão guiado pela paixão, talvez uma tentativa de dar sentido a sua vida. E eis que me pego fazendo as mesmas elucubrações que ele. Menescal tem razão: esse João é mesmo um perigo…

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John Lennon

03/06/2017

John Lennon, a vida

Não costumo ler biografias de artistas que viraram símbolos, pois geralmente a narrativa é capturada pelo mito. Seja para exaltá-lo, seja para contestá-lo. Por essas e outras, nunca me interessei em ler sobre John Lennon.

Entretanto, após ler duas biografias sobre Paul McCartney e pesquisar sobre George Harrison, fiquei interessado em conhecer mais sobre aquele lado da história. Coincidentemente, ganhei de aniversário justamente uma biografia do líder dos Beatles: John Lennon, a vida, escrita pelo jornalista londrino Philip Norman, também autor de Shout!, livro sobre os Beatles execrado por Paul McCartney.

A leitura exigiu fôlego. São 800 páginas sobre 40 anos de vida. São, então, 200 páginas para cada 10 anos. A expectativa é, de saída, uma obra bem detalhada, o que não é frustrada pela leitura. Paul McCartney só aparece depois de 100 páginas. O primeiro capítulo é inusitadamente dedicado a contar a história de Alfred Lennon, filho de John Lennon e pai de John Lennon, o Beatle. Se o livro de Norman tem uma particularidade é justamente o fato de resgatar a figura do pai de John, tido como aquele que abandonou o filho. Lendo o livro, você fica com pena do cara: chifrado incansavelmente pela mulher, execrado pela família dela, ele bem que tentou criar John, a quem amava (assim como um tio, irmão de Alfred, que quis adotá-lo), mas acabou deixando que ele ficasse com a mãe. Não sabemos qual teria sido sua decisão se soubesse que, no fim das contas, o filho seria criado pela tia, e não por Julia. Uma coisa que nunca soube é que, quando ainda era casado com Cynthia, John e o pai se reconciliaram; e só lá pelo final da década John, totalmente surtado, chegou a ameaçar o pai de morte e não mais se falaram.

A mãe, por outro lado, era pintada como a tresloucada incapaz de criar uma criança. Na verdade, Julia queria criar John, assim como o novo namorado. Tanto que, com este, teve mais duas filhas. Trata-se no caso de uma alienação parental por parte da irmã Mimi, que, cooptando o pai (avô materno de John), aproveitou-se da personalidade instável de Julia e conseguiu para si um filho sem ter de passar por situações como sexo, gestação e parto. Extremamente rigorosa e preconceituosa, a Tia Mimi achava terrível que John fosse criado sob um lar “ilegítimo”. Há muita coisa aí que o livro não fala, mas que permite supor que ninguém nessa história era normal. A vítima, claro, foi o menino, que não podia jamais ser alguém normal.

A separação dos pais se deu aos 6 anos. John cresceu com sérios problemas de afeto e sofreu sucessivas perdas nesse sentido em um espaço relativamente curto de tempo. Depois da separação, veio a morte do Tio George, figura paternal e afetuosa que aceitava protagonizar um casamento virgem. Em seguida, a morta da mãe, atropelada. Pouco depois, a súbita morte do melhor amigo, Stu. Mais tarde, a de Brian Epstein. Pra piorar o enredo, logo no início do sucesso, sentiu-se obrigado a se casar ao engravidar a namorada, quando já a chifrava frequentemente com outra, por quem se dizia apaixonado. Nos anos seguintes, repetiu impotente a sina da família: mesmo sem desaparecer como Alfred, foi um pai (e marido) extremamente ausente.

John era uma alma conturbada, bipolar. Uma pessoa bastante insegura, mas que sustentava uma persona confiante e arrogante. Escondia de (quase) todos sua sensibilidade e interesses intelectuais. Tinha rompantes explosivos no qual se tornava uma pessoa fisicamente violenta, além de possuir uma ética um tanto duvidosa. Muitos amigos foram alvo de sua fúria, a quem espancava selvagemente. Algumas vezes sem motivo aparente. Numa delas, quase à morte. Fraco pra bebida, duas cervejas já eram o suficiente pra transformá-lo num ogro. E era praticamente incapaz de pedir desculpas. As drogas, por outro lado, poderiam torná-lo divertido e pacífico, mas também mais paranoico e emocionalmente mais instável que o normal. Ninguém se via livre de sua língua ferina, nem seu filho Julian. Só Ringo nunca foi alvo de seus ataques verbais. Se, com Sean, John foi a vanguarda do pai participativo, com Cynthia foi a caricatura do macho abusivo. E, por fim, tinha um enorme apetite sexual.

Dos aspectos positivos, me surpreendeu a crítica positiva de seus livros e os elogios a suas caricaturas, o Lennon artístico, mas não desenvolvido. Sua língua ferina seria inofensiva não tivesse ele um olhar bem perspicaz sobre as pessoas (pena que tal olhar falhou ante a bajulação de Allen Klein). O talento como compositor, desnecessário comentar. Como amigo, deveria ter mesmo um lado bastante cativante, capaz de compensar sua agressividade.

Até os Beatles assinarem com uma gravadora, Norman teve o mérito de entrevistar qualquer um que tenha esbarrado em John pelas ruas de Liverpool e Hamburgo. Da fase dos Beatles, como ocorre em qualquer biografia ou história do Rock, é impossível escapar da força gravitacional da banda, que passa a ser o foco da narrativa. Já não dá pra falar só de John. Fala-se de George, Paul, Ringo, Brian, Martin, os álbuns, as músicas etc. Depois, a base é, principalmente a versão de Yoko Ono, o que pode gerar alguma distorção. Mas o que importa que a sua visão sobre o casal faz sentido.

Aquela simbiose entre John e Yoko na fase final dos Beatles, que sempre me pareceu ser coisa dela, na verdade foi ideia de John. Com drogas na cabeça, paranoico com a Beatlemania, sufocado com o 1° casamento, órfão de Epstein e sentindo-se aquém de Paul, John quis construir para si um mundo próprio, no qual não tivesse que dar satisfações a e não dependesse de mais ninguém. Entretanto, era incapaz de fazer isso sozinho. Quando surgiu Yoko, pôde abrir mão da banda. Mas levou um tempo para sentir-se seguro para tanto. Na verdade, foi Yoko quem teve de abdicar boa parte de sua vida para viver essa fantasia de John. Algo um tanto inusitado para uma feminista. Coisas que eu não sabia sobre o romance: desde o 1° encontro na exposição de arte, demorou muito pro caso engrenar; Yoko engravidou duas vezes de John e perdeu a criança nas duas vezes de forma traumática.

Após o “lost weekend”, período em que ficou separado de Yoko (por iniciativa dela) em meados dos anos 70, a relação dos dois atingiu outro patamar, Logo de início, Yoko finalmente pôde ter um filho com John. O livro traz um generoso relato desses anos em que ele passou longe da mídia, evitando os amigos que pudessem levá-lo de volta ao álcool, às noitadas e à bebida. O jejum não anunciado de produção artística acabou sendo imposto também a Yoko, que não ficou muito satisfeita com isso. Enquanto se dedicava ao lar, ao filho (na tentativa de compensar o fracasso anterior dele como pai e o do próprio pai) e até à gastronomia, Yoko assumiu o papel de mulher de negócios (a contragosto, apesar de mostrar-se bastante talentosa na função). O John que emerge dessa limpeza física (Yoko, por sua vez, teve uma recaída às escondidas) é um ser solar, ainda temperamental e de língua ferina, mas bem mais tranquilo.

Quando tudo parecia ir bem, quando finalmente parecia estar satisfeito consigo mesmo e com sua família, cheio de planos para o ano seguinte, John é assassinado. Se a volta à ribalta o levaria de volta a velhos hábitos é algo que infelizmente nunca saberemos. Um “p.s.” com uma entrevista com Sean Lennon quase me levou às lágrimas. Creio que isso só não ocorreu porque estava em um restaurante. As páginas finais, com a morte iminente, e justamente quando eu começava sinceramente a amar o personagem (e não só a sua arte), já haviam me deixado com um nó na garganta.

Enfim, dificilmente haverá uma biografia tão completa e honesta sobre John (tão honesta que Yoko acabou por não endossá-la). Nas partes mais polêmicas, como a viagem de John e Brian à Espanha, o autor se limita a fornecer as versões, sem tomar partido ou tirar conclusões. Talvez um livro sobre fases delimitadas (como o livro sobre os anos 70 de Paul) possam servir de complemento, mas só.

I’m Your Man – A Vida de Leonard Cohen

24/12/2016

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Todas as biografias que li até agora, incluindo autobiografias, possuem uma narrativa, um corte específico, uma determinada abordagem que segue do início ao fim, deixando muitas histórias de lado. A biografia que Sylvie Simmons escreveu sobre Leonard Cohen, I’m Your Man, impressiona ao deixar muito pouca coisa de fora. Fica a impressão de que tudo que era possível apurar está contido em suas páginas.

Já li duas biografias de Paul McCartney, duas de Bruce Springsteen, e em nenhum momento tive a impressão de repetição ou perda de tempo, mas de complementação. Neste caso, fica difícil imaginar no que outra leitura sobre o artista, no sentido biográfico, possa acrescentar. Como diz a crítica da Rolling Stones exposta na capa da edição brasileira da Best Seller, “ela torna qualquer outra obra sobre o músico praticamente desnecessária”. E talvez seja mesmo o caso, exceto pelo fato dela ter sido terminada em maio de 2012, quatro anos e meio antes da morte de Leonard Cohen.

Inicialmente, temi por uma leitura um tanto pesada, no que diz respeito ao texto jornalístico. Simmons vai tão fundo e tão detalhadamente nas origens familiares do biografado, e avançando cronologicamente com cuidado, que algumas vezes me peguei pensando: “pra que tanta informação?” Porém, mais pra frente, esse tijolo por tijolo formando um desenho lógico mostra o seu valor.

Ao contrário da maioria das biografias de artistas, onde a parte mais palpitante é a história antes da fama, ou antes da obra que consolidou a carreira, a trajetória de Cohen até o primeiro álbum ocorre quase que por gravidade. Do jovem apaixonado por literatura e música que se torna poeta, do poeta de 30 anos que se torna compositor, do compositor que se torna cantor, do cantor alternativo que se torna mainstream, do artista famoso que se torna monge… A personalidade um tanto desconcertante e problemática é que vai ser, ao longo de toda a sua vida, a grande atração, garantindo emoção a cada capítulo.

Claro que é delicioso acompanhar aspectos de sua carreira, ficar por dentro dos bastidores das gravações, e Simmons é bastante generosa ao enveredar também pelo caminho da crítica musical e literária, particularmente quanto aos livros de Cohen, tanto os de poesia quanto os romances, dando à obra maior completude. Mas o personagem está sempre em primeiro plano.

Como na autobiografia de Bruce Springsteen, chamou-me a atenção desde o início a ênfase na depressão de Cohen. Pensei na coincidência de ler, em sequência, a história de dois artistas que sofrem do mesmo mal. Mas há diferenças relevantes. Bruce não usava drogas e procurou tratamento, obtendo grande melhora na qualidade de vida ao tomar antidepressivos. Leonard abusava das drogas (principalmente ácido e anfetaminas), não procurou ajuda profissional (apenas espiritual) e dizia piorar com antidepressivos. Por fim, com quase 70 anos, viu-se livre de seu mal e viveu os últimos 15 anos sentindo-se leve.

A crítica do New York Times classifica o livro como “um impressionante trabalho de amor”. Nada mais apropriado. Simmons cobriu todas as idas e vindas de alguém que viveu em Montreal, New York, Los Angeles, Londres, na ilha grega de Hidra e ainda passou um tempo frequentando o sul da França para ver os filhos. Enfim, uma penca de entrevistados (muito bem identificados e indicados nas notas finais) e milhas. Ao chegar ao final da leitura, com uma nota pessoal de Simmons, o leitor, assim como a autora, lamenta ter chegado ao fim.

Quando pôs um ponte final em seu livro em 2012, Simmons certamente lamentava ter de se afastar daquele universo Coheniano. Mas, ao ler este livro após seu falecimento (apesar de tê-lo comprado logo após o lançamento), o fato de saber que este afastamento é definitivo deixa um travo de melancolia.

Born to Run

14/12/2016
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Born to Run (2016), Bruce Springsteen.

Estava tão curioso em ler a autobiografia de Bruce Springsteen que, apesar de ter sido o último livro que comprei, tratei de fazê-lo furar a fila. É impossível não comparar com a biografia escrita por Peter Ames Carlin, publicada em 2012 e lançada no Brasil em uma edição apressada para aproveitar a vinda do Boss para o Rock in Rio de 2013. Foi com alegria que constatei que um não torna o outro obsoleto. São textos complementares.

Interessante notar que Bruce começou a trabalhar em Born to Run em 2009, sem se dar nenhum prazo para terminá-lo. Portanto, quando abriu suas portas a Carlin, já sabia que escreveria a sua própria biografia. Talvez isso tenha facilitado a decisão de se abrir, mas, por outro lado, é de se admirar a generosidade em guardar para si algumas revelações. No livro de Carlin, talvez a mais surpreendente seja a depressão daquele que incendeia multidões noite após noite. A depressão, que também atacou fortemente seu pai por décadas, torna-se o principal tema na reta final do livro. Mas está lá desde o início.

Assim como na biografia de Carlin, Bruce começa a sua falando da infância, da família, de seus pais e avós, para depois ir avançando por temas dispostos em capítulos relativamente curtos, no total de 79. Fico pensando se Bruce chegou a ler o que Carlin escreveu, pois é incrível como sua narrativa serpenteia pelas lacunas deixadas por seu biógrafo e não se detém por fatos ali abordados exaustivamente. O livro de Carlin nos dá o panorama histórico-cronológico jornalístico. O de Bruce nos revela alma por trás daqueles acontecimentos.

Bruce Springsteen faz parte de uma estirpe de compositores contadores de história, então é de se esperar algo semelhante em suas memórias. E ele não decepciona. Como ele mesmo diz no final, não dá pra contar tudo em um livro, seja pelo tamanho, pela discrição e o respeito às demais pessoas. Trata-se, contudo, de uma narrativa sincera, corajosa, e que tem como fio condutor um dos aspectos de sua personalidade: justamente o mais conturbado. E, por isso mesmo, aquele que o fez ser quem é.

Após o início familiar, totalmente pessoal, que ajuda também a dar o contexto psicológico e social de sua origem, em meio às colônias irlandesas e italiana de Freehold, em New Jersey, Bruce passa a descrever suas primeiras tentativas de se tornar um astro de rock. Na adolescência com os Castiles, depois com o power trio Earth, e finalmente com o Steel Mill, que chegou a angariar uma pequena legião de fãs locais. Na autobiografia fica mais evidente as motivações que o fizeram abrir mão de ser parte de uma banda pra querer ter uma banda para acompanhá-lo, inicialmente chamada de Bruce Springsteen Band.

O roteiro segue conforme o esperado, com o primeiro contrato, o primeiro disco, o sucesso de Born to Run, até chegar a The River. Ao chegar aos anos 80, com a explosão subsequente de Born in the USA, as questões pessoais voltam a se destacar e a competir com as musicais. Após o fim da turnê com a Anistia Internacional, em 1988 (eu fui!), até o triunfal retorno com a E Street Band em 1999, praticamente não se fala de música. Pela primeira vez ele fala de seu primeiro casamento, o início de sua relação com Patti Scialfa, da família, dos filhos, sobre ser pai. Na década seguinte, volta a falar também de música, seguindo até o lançamento de High Hopes e um pouquinho além, chegando a deixar registrado o falecimento de Allen Toussaint em 2015 (a biografia de Carlin vai até Wrecking Ball, de 2012).

O final do livro deixa um travo amargo, pois é um retrato de seu autor em luta contra uma doença pouco compreendida. Bruce foi vítima de um preconceito comum contra os remédios antidepressivos. Quando seu psicanalista por 25 anos faleceu em 2008, ele foi procurar outro, que acabou lhe sugerindo parar de tomar os remédios para ver o que acontecia. Nunca dá em boa coisa. E não deu.

Apesar desse final um tanto pesado, mas coerente com a narrativa da autobiografia (não se espera menos de um bom contador de histórias), a leitura é envolvente e agradável, com o humor e estilo típico de Bruce, da forma que a gente conhece dos shows e entrevistas. Lendo os dois livros, entende-se a opção do compositor em querer mostrar seu lado sombrio em detrimento do popstar.

Só não é possível entender a razão de tantos problemas na tradução em português, realizada por dois tradutores. A falta de revisão salta aos olhos ante a quantidade de artigos e preposições desaparecidos (não se trata, no entanto, da versão de O Sumiço), problemas de edição do tipo “sua música dele” e até mesmo erros ortográficos. Há também muitas opções de tradução estranhas, frases confusas e alguma falta de familiaridade com o material traduzido. O título de um dos capítulos é o nome do power trio de Bruce, Earth. Colocaram “Terra”. Porém, ainda que um pouco irritante, o problema não atrapalha a leitura, exceto quando um “a la” se transforma em “lá”. Tive de reler a frase umas quatro vezes pra entender onde estava o erro.

E, assim como na biografia, termino minha resenho com um anticlímax.

Paz, Amor e Sgt. Pepper

09/12/2016
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Paz, Amor e Sgt. Pepper (1994, 1995), George Martin e William Pearson.

Paz, Amor e Sgt. Pepper (Summer of Love: the making of Sgt. Pepper) talvez seja a visão mais abrangente possível que uma única pessoa poderia dar às gravações do mais famoso álbum dos Beatles: Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Escrito por George Martin com o auxílio de William Pearson, após participar do documentário de 25 anos do disco (e imediatamente antes do documentário Beatles Anthology), o relato bastante pessoal do produtor mostra porque Sgt. Pepper é um dos mais importantes álbuns da história do pop/rock.

Ainda que não seja para muitos (incluindo eu e Martin) o disco favorito dos Beatles, o nível de inventividade que a criatividade de John e Paul (então livres das turnês e totalmente dedicados às gravações) exigiu da equipe técnica fez com que o álbum virasse a cabeça de todos no mundo da música. O que hoje parece fácil e comum, lendo o relato de Martin fica claro o quão revolucionário foi o resultado final. Alguns comentários sobre o uso dos canais só vão interessar a entendidos, mas quanto a todo o resto, ainda que um leigo não possa compreender toda a complexidade técnica, é possível perceber o tamanho do desafio proposto.

O texto não se limita apenas aos longos meses de gravação. Martin se dá a liberdade de alguns flashbacks, como o primeiro encontro e as gravações com a banda, o fim dos shows e as gravações de Revolver, e ainda um pequeno estudo sobre as influências musicais do quarteto de Liverpool e o papel que esta cidade desempenhou no som deles.

É possível, ainda, ter pequenos vislumbres da vida cotidiana não só dos integrantes da banda, mas também de Brian Epstein. Também vemos a real admiração pela capacidade musical de Paul e uma certa preferência por John, assim como o preconceito inicial pelas músicas de George, que fez com que Only a Nothern Song ficasse de fora.

Falando muito pouco sobre dias futuros, particularmente o pouco apreço pelo clima confuso das gravações entre Magical Mystery Tour e Let it be, a narrativa tem seu ponto final com a morte de Epstein.

Infelizmente, a necessidade de lançar um single no final do ano fez com que Strawberry Fields Forever e Penny Lane ficassem de fora do álbum, fazendo com que este tenha muitas faixas tapa-buraco. Strawberry Fields Forever foi o ponto de partida de todo o processo e não deveria ter ficado de fora. Ao escutar Sgt. Pepper, sempre fico com a impressão de estar faltando alguma coisa.

Leitura obrigatória para qualquer beatlemaníaco e indicada para os fãs de música em geral, o livro encontra-se esgotado no Brasil, mas é fácil encontrá-lo por um bom preço na Estante Virtual, no acervo da Relume Dumará.

Queen, a Biografia.

05/11/2016
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A Verdadeira História do Queen (2010), Mark Blake. Edição brasileira, Seoman, 2015.

Quando comprei A Verdadeira História do Queen, foi uma decisão de momento. Estava comprando outros dois livros e, de repente, vi a biografia, que eu nem sabia que existia, sobre o balcão. Como bom fã, de impulso, passei mão na edição e incluí na compra. Só quando cheguei em casa é que pude parar para analisá-lo melhor. Se tivesse feito isso na loja, talvez não o tivesse comprado. Mas ainda bem que comprei.

Ao folhear aleatoriamente suas páginas, achei a tradução um pouco esquisita, com escolhas estranhas. Fui verificar o nome do tradutor e me assustei em não encontrá-lo. Pensei logo numa tradução via Google translator ou numa versão revisada de uma edição portuguesa. Contudo, ao pegar o livro pra ler muitos meses depois, achei a leitura tranquila. Alarme falso (além de ter realmente umas escolhas de termos e formas pouco usuais).

De cara, o título “A Verdadeira História” soa um tanto arrogante, com cara de tabloide britânico. Justiça seja feita ao autor, o título em inglês soa um pouco menos pomposo: Is this the real life? The untold story of Queen. Parece não só que vai contar algo que ninguém mais contou como irá fazer uma série de revelações bombásticas. Nada disso. O subtítulo na capa da edição brasileira só piora as coisas: “os bastidores e os segredos de uma das maiores bandas de todos os tempos”. Tirando a passagem em que Peter Gabriel chama Roger Taylor para ser o baterista do Genesis, antes de convidar Phil Collins, e saber que John Deacon teve seis filhos com a mesma mulher, nenhum outro “segredo” me fez levantar da cadeira. Quanto aos bastidores, ora, toda biografia de um artista visa os bastidores, ou não seria uma biografia, mas uma análise da obra.

A primeira metade do livro é o grande destaque, a que vale a leitura e o dinheiro e tempo gastos. Não que a outra metade seja ruim, mas soa mais como uma compilação jornalística da carreira da banda e de seus integrantes, recorrendo a livros já publicados e a inúmeras entrevistas em rádio, jornal, revista e TV, com algumas entrevistas originais ligando os pontos e preenchendo algumas lacunas.

É mais difícil penetrar nos bastidores de uma banda já famosa, que se torna mais refratária à invasividade da mídia. Seus integrantes transitam em círculos mais fechados, os amigos mais próximos ficam mais precavidos. Nos primórdios, entretanto, as coisas não são assim tão controladas. E o mérito de Mark Blake, que tem as revistas Mojo e Q no currículo, além de livros sobre Pink Floyd, Bob Dylan e Keith Richards, foi justamente encontrar as pessoas que conviveram com Freddie Mercury, Brian May, Roger Taylor e até mesmo John Deacon muito antes da banda fazer seu primeiro ensaio. Um amigo de Fred de Zanzibar, por exemplo, só soube que o velho amigo de escola havia se tornado um astro de rock cinco ano após a sua morte, mesmo morando nos EUA. Ele explica quem sempre foi ligado ao jazz.

Assim sendo, as primeiras 238 páginas do livro, que vai desde o nascimento de Farrokh Bulsara até a turnê americana de A Night at the Opera, na esteira do sucesso de Bohemian Rhapsody, é um belo trabalho de jornalismo. Blake conseguiu entrevistar dezenas de pessoas e construir um mosaico que contasse uma historia linear, coerente e interessante. Brian e Roger não parecem ter dado entrevistas ao autor para a biografia propriamente, mas para as revistas, de forma que não são eles que conduzem a narrativa. Porém, a participação deles certamente concede uma aura de oficialidade a toda a obra. Portanto, não temos uma visão “de dentro” do Queen, até porque isso seria impossível diante das reservas de Fred quanto a sua vida pessoal e familiar, a ponto de até mesmo seus companheiros de banda não o conhecerem tão intimamente. Mas é possível ter uma visão de como eram vistos no meio social em que viviam, uma verdadeira narrativa em terceiras pessoas.

A vida de Fred em Zanzibar e no internato na Índia certamente é mais eletrizante que a tranquila infância de Brian em Londres ou as aventuras musicais de Roger na Cornualha. Mesmo assim, dá-se o mesmo peso a cada uma delas. Essas narrativas iniciais seguem até o momento em que os três começam a frequentar o mesmo circuito de pubs e shows nos subúrbios de Londres. Já John Deacon, que foi o quatro baixista do Queen, é quase um fantasma nessa história, aparecendo muito depois, e sempre nos limites de sua discrição e timidez.

O que se vê em seguida é uma divertida descrição do circuito musical da Londres da segunda metade dos anos 60, como viviam os aspirantes a rockstar, a contracultura, a penúria, as influências musicais. Fred ajudando um iniciante David Bowie a empurrar mesas pra construir um palco improvisado em uma escola. Os futuros astros babando no gargarejo das apresentações de Jimi Hendrix e do Cream. A série de formações, troca de bandas, excursões furadas. A luta para compor material próprio.

Brian e Roger logo se juntaram e sempre estiveram às voltas com grupos musicais. Já Fred Bulsara parecia o mais improvável a se tornar uma lenda viva do rock, embora dissesse a todos que um dia se tornaria um grande astro enquanto tocava sua barraquinha hippie em Kensington junto com Roger.

Nesta parte do livro, é muito comum citações a frases que Fred teria dito, dando uma noção de seu jeito e maneirismos. Em cada uma dessas cenas, vinha a minha mente não a figura de Mercury, mas a do ator que interpreta Felix em Orphan Black, Jordan Gavaris. Este seria o melhor intérprete do jovem Fred Bulsara.

É justamente esse período formativo do artista que gera os melhores filmes. Não só pelo desafio, pelos obstáculos a serem transpostos, mas também pelo material mais desabrido, menos controlado e estudado. Ainda que alguns pontos de uma carreira consolidada possam render boas narrativas, como a morte de Mercury, geralmente é difícil contar uma boa história coesa e com bom ritmo do início ao fim. Por isso um Backbeat (a história dos Beatles com Stuart Sutcliffe) rende melhor do que o filme que conta tooooda a vida de Chaplin; assim como aquele que narra os tempos de Renato Russo em Brasília é mais vibrante que a narrativa picotada sobre Cazuza.

Das gravações de A Day at the Races em diante, o livro se assemelha a uma gigantesca (e boa) matéria especial de revista. Bastante detalhada, mas com poucos momentos palpitantes. Exceto, talvez pela doença de Mercury, a primeira turnê sulamericana (se a passagem pelo Brasil em 1981 fez eu me sentir constrangido, logo o sentimento foi superado pela aterradora turnê no México) e o show no Live-Aid. Aliás, a introdução do livro é o Live-Aid.

Inicialmente, achei estranha a opção do autor. Mas, no decorrer da leitura, passa a fazer sentido. Desde The Game, mais especificamente o single Crazy little thing called love, que fez a banda finalmente acontecer nos EUA e, consequentemente, na América Latina (de fato, eu e meus irmãos só viemos a tomar conhecimento da banda a partir daquele cara que “imitava Elvis” no rádio), que a banda se mantinha na ativa no embalo de sucessos imprevistos. A má recepção de Hot Space e as confusões na turnê americana (que foi a última nos EUA) levaram a banda ao limite. Talvez uma motivação estilo Abbey Road (“vamos parar deixando uma boa imagem”) levou ao The Works, cujo sucesso os colocou na estrada novamente. No final da turnês, o plano era ficarem cinco anos dedicados a projetos solos. Mas aí veio o convite para o Live-Aid… O resultado foi mais impactante do que o salto do Bono em Bad (o próprio autor classifica esse momento do U2 como o único de todo o espetáculo, tanto em Londres quanto na Filadélfia capaz de rivalizar com o esmagador sucesso da apresentação do Queen).

Pelo menos daqui, do meu ponto de vista tupiniquim, eu sempre vi o Queen como uma das grandes bandas da história do rock. Mas o que se nota é que sua relação com a crítica musical chegou a ser tão áspera quanto a de Roberto Carlos nos anos 80. Principalmente nos EUA, onde a boa vontade se limitou ao disco de estreia e ao The Game. Na Inglaterra, ainda que às turras, a mídia não podia ignorar o grande sucesso da banda. Havia, claro, o surgimento do punk (que Mercury confessava não entender) e a new wave, sendo o Queen associado aos dinossauros virtuoses dos anos 70. Mas talvez todo esse “nariz virado” se deva mais ao comportamento de Freddie Mercury, que realmente não fazia a menor questão de ser simpático com quem quer que seja, fosse a imprensa, o pessoal da produção, os músicos de abertura ou mesmo o público.

Curiosamente, se externamente Freddie era a personalidade mais difícil da banda (e Brian o bom moço), dentro do estúdio ele era o diplomata, a pessoa que conseguia contornar os atritos entre os demais integrantes da banda e fazer o trabalho fluir. Na hora de trabalhar, não havia divas ou celebridades (Roger adorava a vida de rockstar), todos trabalhavam duro.

Um dos méritos do livro é não acabar com a morte de Mercury. Ele segue em frente com a vida de Brian e Roger (e, quando possível, a de John), suas carreiras, a vida privada e o retorno com Paul Rodgers. Ainda que isso soe como um arrastado anticlímax, como em O Senhor dos Anéis após a destruição do anel.

Mas uma coisa realmente me incomodou no livro, uma falha básica de informação: dizer que o Queen abriu e encerrou o Rock in Rio. Quem encerrou foi o Yes. A segunda apresentação do Queen ocorreu duas noites antes. Se Blake foi capaz deste pequeno deslize, quantos mais não terá cometido?

Linha M

23/08/2016
Linha M

Linha M (2015), Patti Smith.

“Não é tão fácil escrever sobre nada.”

E assim, de forma franca, Patti Smith abre o seu Linha M (M Train), um novo livro de memórias estimulado pelo sucesso de Só Garotos. A frase lembra muito o “a melhor série sobre o nada”, o sensacional slogan de Seinfeld.

Diferentemente de Só Garotos, que tinha tema e cronologia definidos, Linha M é uma narrativa à deriva, solta no tempo, atemática e sem objetivo aparente. Enfim, um livro sobre o nada. Não posso afirmar que seja o melhor livro sobre o nada, pois não li todos os livros sobre o nada. Mas, daqueles que eu li, foi o melhor. Não que seja, por isso, um grande livro.

Linha M fala sobre todas as paixões de Patti Smith, menos sobre música. Fala de literatura, cafés, séries policiais, artes, ciência, misticismo. Mas, música, no máximo um comentário sobre uma música ou outra que escutou enquanto estava em algum lugar.

A estrutura narrativa é fluida, mas perfeitamente identificável. Patti vai narrando o que está acontecendo com ela no presente. Os eventos importantes, os excêntricos e os totalmente banais. Ela vai compondo um mosaico de uma existência sofrida, tediosa, isolada, com alguns rompantes de socialização, como alguém que vem à tona em busca de ar, de vida.

O mais curioso nessas “memórias em tempo real” é que nitidamente ela não sabe sobre o que escrever. E vai tateando as coisas ao redor ou dentro de si em busca de um lampejo, uma faísca, até que, de repente, vem uma história, uma lembrança, um insight realmente interessante. Mas, ao invés de compor o livro com esses momentos de inspiração, ela faz questão de registrar todo o processo de busca, de branco, de um escritor à procura de assunto.

E, nessas idas e vindas, temos a insólita viagem de Patti e Fred, seu falecido marido, à Guiana Francesa, a maratona de série policial em um hotel de Londres (a paixão dela por séries policiais talvez seja a maior revelação do livro) ou a incursão em uma distribuidora de café no México disfarçada de jornalista. Aliás, um viés jornalístico involuntário fornece uma visão humana da passagem do furacão Sandy por Rockaway Beach e do último tsunami no Japão.

A narrativa é entrecortada por seus sonhos, cujo lado místico da autora procura colorir de significados. Tais sonhos rivalizam com a realidade improvável de sua viagem a Tanger ou sua palestra no reservado Continental Drift Club, em Berlim, e chegam até mesmo a provocar uma viagem até o outro lado do mundo.

Outra presença constante é a memória dos que se foram, a dor da perda, a angústia do presente e a dificuldade de seguir em frente. À medida que o livro vai chegando ao final, tal fardo vai se tornando mais pesado, e a necessidade de confrontá-lo, como se todo o livro servisse secretamente a este fim, inevitável.

Se não é fácil escrever sobre o nada, tampouco é fácil ler sobre o nada. A experiência de ler Linha M me levou a uma necessidade de fazê-lo em momentos de introspecção, isolamento existencial. Pra não falar na urgência em beber um café. Se, em Só Garotos, há algo de alegria e esperança na morte final, em Linha M há dor e resignação no prosseguimento da vida.