Archive for the ‘Rock Brasil’ category

Top 20 – Álbuns ao Vivo (parte 15)

13/04/2016

Os álbuns a seguir vão por conta da simpatia pura. Aquele disco que você escuta, ama, e pronto, sem mais.

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Unplugged (The Official Bootleg)

Unplugged – The Official Bootleg (1991), Paul McCartney.

Os álbuns ao vivo mais importantes da carreira de Paul McCartney são, certamente, o vinil triplo Wings Over America, quando ele se afirmou junto ao público e à mídia como artista solo, e o igualmente triplo Tripping the Live Fantastic, que marcou seu retorno aos palcos após 10 anos (quase toda a década de 80) longe deles.

Mas o meu preferido é o seu acústico pra MTV, gravado logo em seguida e lançado inicialmente como um bootleg limitado. O Unplugged (The Official Bootleg) de Paul foi o primeiro disco da série MTV Unplugged. Então não é exagero dizer que foi o CD que deu origem à série.

Nele é possível ouvir um Paul solto, relaxado e à vontade com a banda que o acompanhou na turnê internacional. Relaxado, porém não menos ensaiado. O repertório é dos mais interessantes. A música mais recente é um cover de Ain’t no Sunshine, de Bill Withers, gravado em 1971. O resto é alternado com covers de rock e blues dos anos 40, 50 e 60, sucessos dos Beatles e canções de deu primeiro álbum solo, McCartney, de 1970, além de I lost my little girl, uma composição sua de 1956, quando tinha 14 anos.

O dado interessante da gravação é que foi tudo 100% acústico, com o som dos instrumentos sendo captado pelos microfones.

Aqui as gravações da MTV, para além do álbum.

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MTV ao Vivo - Pato fu no Museu de Arte da Pampulha

MTV ao Vivo – Pato Fu no Museu de Arte da Pampulha (2002).

Também da MTV, mas totalmente plugado, o álbum MTV ao Vivo do Pato Fu, gravado em 2002 no Museu de Arte da Pampulha, serve como uma simpática coletânea da banda mineira, e um resumo bastante representativo de sua carreira, pegando desde a irreverência do Rotomusic de Liquidificapum até as baladas mais radiofônicas como Perdendo Dentes e Depois, passando por experiências mais arrojadas em Eu e a ótima versão de Porque te vas, cover clássico de seu repertório retirado do filme Cría Cuervos (1975), de Carlos Saura. O som da banda pouco evolui ou mudou depois daí, apenas ampliaram um pouco seus horizontes, seja por meio da carreira solo de Fernanda Takai ou explorando o universo infantil.

Canção para viver mais ao vivo no Museu de Arte da Pampulha.

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Live at Massey Hall 1971

Massey Hall 1971 (2007), Neil Young.

Neil Young toca violão, gaita e arranha um piano. O som é tão límpido que nem parece um bootleg. Sua voz, que nunca chegou a chamar a atenção pela qualidade, chega a soar incrivelmente boa. Sério. Em Massey Hall 1971, o canadense chega até a cantar bem!

Esse é o disco. Simples, direto, solitário, um punhado de grandes canções, com destaque ao début de A man needs a maid e Heart of Gold em um formato de medley ao piano. O show foi em janeiro de 1971 e as canções só foram gravadas no mês seguinte. O show inclui também canções da passagem de Young pelo Crosby, Still & Nash e da época do Buffalo Springfield, como On the way home (que mereceu um cover de Renato Russo no acústico da Legião Urbana), que abre o disco. Incrível que só tenha sido lançado em 2007.

Old Man ao vivo no Massey Hall.

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Dias de Luta – O Rock e o Brasil dos Anos 80

30/10/2015
Dias de Luta: o Rock e o Brasil dos Anos 80 (2002, 1ª ed. / 2013, 2ª ed.), Ricardo Alexandre.

Dias de Luta: o Rock e o Brasil dos Anos 80 (2002, 1ª ed. / 2013, 2ª ed.), Ricardo Alexandre.

Meu pai sempre se mostrou incomodado com jornalistas mais jovens escrevendo ou falando sobre uma época que não viveram, mas ele sim (e intensamente), particularmente quando o tópico é futebol, política ou movimento musical. Hoje começo a entendê-lo.

O conhecimento de quem viveu cada segundo de uma época, lia as reportagens e artigos publicados no frescor do momento, trocava figurinhas com pessoas e personagens igualmente participantes daquilo que é muito mais do que uma “ambientação” passada, mas suas próprias vidas, é muito mais profundo, complexo e abrangente do que aquele adquirido por quem leu, estudou ou ouviu sobre o período.

Aquele que não tem a vivência da época está muito mais vulnerável a versões, distorções ou construções (o pior dos tipos) sobre os eventos ocorridos, e passa a tomar aquilo como verdade, ou mesmo como uma verdade, mas que de qualquer forma pode acabar se tornando “a” verdade pela simples ausência de uma outra.

Quando resolvi comprar Dias de Luta, tais considerações rondavam minha mente. Ricardo Alexandre, o autor, não é exatamente uma pessoa estranha aos anos 80, mas sua adolescência coincide com o momento de dissensão e esvaziamento do movimento roqueiro que revolucionou a música e os costumes brasileiros. Assim sendo, estaria ele muito dependente das entrevistas e leituras realizadas (com fartura, diga-se positivamente) para construir o painel do Rock e do Brasil dos anos 80. Fosse qualquer outra época, isso nem de longe seria um entrave pra mim. Mas sendo os anos 80, os “meus” anos 80, sabia de antemão que qualquer deslize seria imperdoável.

O que me animou a vencer essa resistência foram as últimas linhas do texto da orelha: “nova edição, totalmente revista, corrigida e atualizada”. O livro original é de 2002, escrito entre 1994 e 2001, e a nova edição, de 2013. Considerei que o afastamento do material e a maturidade fariam com que essa revisita ao tema poderia ter o condão de podar eventuais arroubos, deslumbramentos ou equívocos interpretativos. Mas logo no prefácio Ricardo Alexandre afasta tal hipótese, anunciando que optou por preservar o frescor e paixão do texto original, corrigindo ou adicionando informações pontuais. Enfim, quis transformar seu texto também em um retrato de uma época. E quer saber? Ele acertou. Parte da graça do livro está na paixão juvenil em desvendar os bastidores e lógica criativa de uma época de nossa história cultural que hoje é objeto de culto.

O tempo e a ênfase dedicados a determinados capítulos e personagens, como o movimento punk paulista e o agito de Julio Barroso, acabam parecendo ter tido mais impacto na época do que realmente tiveram. Porém, ainda que, para quem não viveu a época, isso possa causar alguma distorção, por outro lado a revelar uma cena ampla, onde muitas coisas aconteciam ao mesmo tempo, independentemente de seus desdobramentos futuros ou de seu impacto na mídia ou na indústria do disco. Captam-se, acima de tudo, as aspirações de uma geração.

Entretanto, a dificuldade nesse tipo de relato é manter uma narrativa linear. Avança-se muito num ponto e, na hora de falar de outro, há que retroceder uns dois anos. Não sei se é possível escapar dessa armadilha. A própria inclusão dos Engenheiros do Hawaii já nos estertores do livro ficou meio inexplicável, uma vez que a banda estourou ainda em 1988 (o texto acompanha até 1992).

O livro pode ser dividido em duas partes: a ascensão do rock até o Rock in Rio e o auge e a ressaca após o fenômeno do RPM. Na primeira fase, o grande destaque está principalmente nos meandros da indústria fonográfica a partir da saturação e predomínio dos medalhões da MPB, com Gil e Caetano como principais alvos (mas que também engloba Gal, Bethania, Chico e Milton), e a busca por um novo som. O grande mérito do autor foi não começar sua análise com Blitz, Lulu Santos e os punks da periferia, mas com Cor do Som, 14 Bis e Roupa Nova. Esses personagens de transição são essenciais para melhor compreender o impacto do chamado Rock Brasil ou BRock dos 80. Em seguida, o posicionamento, expectativa e relacionamento dos produtores musicais com as novas bandas. Um primor!

Ler sobre o surgimento da Blitz, como Você não soube me amar estourou nas rádios, como Menina Veneno foi menosprezada pela gravadora antes de virar um Ritchie… digo, o maior hit do BRock, as aventuras e desventuras de Leo Jaime e seus Miquinhos, a agitação da cena paulistana, o surgimento das danceterias e o seu papel na divulgação do rock nacional, o esquema mafioso do Chacrinha, a luta de Lulu Santos para “acontecer”, o desenvolvimento de Liminha como produtor, a chegada da Fluminense FM (aliás, a chegadas das FMs), a panelinha da Bizz, foi como viajar no tempo com acesso à internet. Senti-me um McFly tupiniquim capaz de obter num smartphone intertemporal informações que na época chegavam mascadas, atrasadas, ou simplesmente permaneciam desconhecidas por muitos e muitos anos.

Os diferentes momentos de evolução do rock brasileiro no período são entrecortados e contextualizados com o que ocorria no país, principalmente na área política e econômica. Por um momento, achei que o autor iria escorregar na tal armadilha das versões e construções quando quase ia associando o surgimento das bandas de rock com a abertura política. Mas ele se redime ao dizer “o negócio é que os jovens de 1980 estavam pouco interessados na abertura”.

Na verdade, o que aconteceu no Brasil não foi um fenômeno isolado, mas mundial, que tem seu paralelo em vários países do mundo, inclusive na América Latina. Uma ditadura militar provavelmente iria ser um obstáculo a esse fenômeno de renovação musical e cultural, como aconteceu no Chile, que chegou um pouco atrasado na festa, mas o seu fim não foi um fator desencadeador.

No Rock in Rio, os primeiros deslizes narrativos. Primeiro, uma contradição perdoável em uma primeira edição, mas imperdoável em uma edição revisada. Num primeiro momento, as atrações estrangeiras são descritas como medalhões em oposição ao frescor jovem das atrações nacionais. Mais pra frente, o próprio autor admite que as bandas de heavy metal e hard rock estavam no auge de sua popularidade, como Iron Maiden e AC/DC. Então, por que não fazer a ressalva logo de início?

Segundo, um deslize banal e pequeno se você não for um jornalista da área musical. Sendo, é praticamente um crime: ignorar que o Queen era a atração principal da primeira noite do Rock in Rio. Ricardo Alexandre narra este dia como se a fosse a noite do Iron Maiden. Claro que havia uma penca de fãs do Iron ali, mas a principal atração era o Queen, que atraiu muito mais fãs (entre eles, certamente muitos fãs do Iron, uma vez que Freddie e Cia eram muito bem quistos pela galera de rock pesado).

O diálogo com a cena internacional é bem abordado na primeira fase, culminando com o impacto do Rock in Rio nas relações entre público-artistas-mídia, mas é deixado de lado na segunda parte do livro. O autor se deixa envolver pelas picuinhas entre os artistas e o baixo astral dos roqueiros oitentistas durante a fase negra dos anos 90.

O livro dá muita ênfase às críticas (particularmente de Herbert Vianna) à influência de bandas inglesas como Echo & The Bunnymen, The Cure e The Jesus & Mary Chain na produção nacional. Na boa… Isso influenciou quem?! Ótimas bandas (adoro!), mas que tiveram um impacto setorizado, provavelmente de amigos músicos dos entrevistados, mas nem de longe a ponto de influenciar a cena musical, uma vez que nem as bandas originais eram sucesso de audiência no Brasil. Além disso, a Legião Urbana, especialmente no Dois, era fortemente influenciado por The Smiths e The Cure e isso não parecia incomodar em nada os amigos dos Paralamas do Sucesso.

Em vez de se deixar levar por esse discurso pouco representativo, o autor poderia se voltar ao que estava acontecendo na cena internacional, com o pop se distanciando do rock e o eletrônico tomando conta das rádios, e então retornar para a cena brasileira. U2 se rendia à eletrônica. Até o Barão Vermelho, o grande tradicionalista do rock, lançou mão de alguns plim-ploins. O tal popsambalanço de Lulu Santos nada mais era do que uma tentativa do artista de virar o arauto dos novos tempos modernos, um papo de “o rock morreu”, esse sim copiado da imprensa estrangeira. Só que toda essa onda de decadência do rock (em geral, não apenas do rock brasileiro) acabou com o Nirvana. O grunge resgatou o rock para o mainstream e a eletrônica, incluindo aí o grande darling da época, o Pet Shop Boys, foi varrida das rádios por um bom tempo, de forma que hoje neguinho pensa duas vezes antes de “matar” o rock, a História (na época um historiador também ousou dizer que a História havia acabado com a queda do Muro), ou qualquer outra coisa.

Ou seja, muito da decadência apresentada na segunda parte do livro é fruto de um movimento natural de retração de um gênero, no Brasil agravado por uma puta crise econômica e pelo imediatismo das gravadoras (o que está bem abordado no texto). Quando um gênero cai no gosto popular, passa tudo na peneira das rádios e gravadoras. Depois que a febre passa, é natural que arestas sejam aparadas e só sobre o que é realmente bom dentre aqueles que conseguiram se manter juntos. No caso, Barão (reinventado depois de Cazuza), Legião, Paralamas e Titãs. Muitas bandas de qualidade que não conseguiram renovar seu som e se manter relevantes na década seguinte só voltaram ao mainstream após um movimento de revival oitentista no novo século, com festas Ploc e acústicos MTV. Quem melhor aproveitou esse revival foi o Capital Inicial, que conseguiu ser nos anos 2000 a banda que não soube ser após esgotar o repertório herdado do Aborto Elétrico.

Outro pequeno equívoco foi incluir o Acústico MTV dos Paralamas neste contexto de retomada. De certa forma, foi para mim (como conto no meu Top 20 de álbuns ao vivo), mas a banda, após o estranhamento com o álbum Os Grãos no início da década (o menos comercial de toda a discografia paralâmica), retomou o caminho do sucesso nos anos 90 com vários hits radiofônicos, inclusive sendo chamada para encerrar, junto com os Titãs, uma das noites do Hollywood Rock. Na gravação do Acústico, os Paralamas estavam tinindo, plenos de frescor e vigor artístico. O discurso de Herbert no final dos 80 em prol de uma fusão do rock com a MPB e ritmos latinos virou mainstream nos anos 90, com Skank e Chico Science, sem que isso, contudo, fosse uma novidade na história do rock nacional, vide Mutantes e Raul Seixas nos anos 70.

Bola dentro quando avalia que uma banda sobrevivente ou sofistica seu som e se afasta um pouco de seu público original ou cai numa fórmula repetitiva. Isso invariavelmente abre uma brecha para que uma outra onda venha arrebatar um público ávido por aderir à nova moda do momento. Parte desse raciocínio está no livro, mas muito eclipsado pela ressaca de artistas que deixaram para trás os seus tempos de glória (e alguns não haviam ainda a recuperado).

A análise, via entrevistados, de uma cooptação das bandas sobreviventes pelos medalhões da MPB soa um tanto forçada e se deve possivelmente ao rancor de alguns músicos pelo fato da “nobreza” que eles vieram “derrubar” ainda permanecia no topo dez anos depois, enquanto eles viam seu espaço diminuir ou simplesmente desaparecer.

Também me chamou a atenção a ausência do boicote das grandes bandas da virada da década, com exceção dos Titãs, ao Rock in Rio 2. O Barão Vermelho cancelou sua participação pouco antes do evento e os Paralamas foram vistos como ingratos. A Legião Urbana, que ainda não tinha alcançado tanta popularidade em 1984, parece que nem cogitou participar. O outrora rejeitado Lobão, por sua vez, compareceu (e deve ter se arrependido). E havia, claro, o Sepultura, pela primeira vez em destaque na cena nacional.

Mas esse labirinto sorumbático é percorrido por apenas 50 páginas (de 400), chegando a um final surpreendentemente abrupto. Após lançar uma luz sobre o destino das quatro grandes bandas sobreviventes, o livro chega ao fim numa conclusão tão breve quanto o parágrafo final de uma dissertação de vestibular.

Críticas à parte, o livro pinta um delicioso retrato do que foram os anos 80 e o renascimento do rock brasileiro, do amadorismo ao profissionalismo. Para quem gosta do tema, é uma leitura obrigatória.

Top 20 – Álbuns ao Vivo (parte 6)

21/10/2015

Dois acústicos produzidos pela MTV Brasil foram responsáveis por resgatar um artista e uma banda nacional para o meu CD player. Mas não só por isso eles fazem parte deste Top 20. Em comum, como ocorre em muitos acústicos, os shows são mais do que uma coleção de sucesso desplugada, são setlists pensados e trabalhados para comporem um todo orgânico e um momento musical único.

Gilberto Gil Unplugged (1994).

Gilberto Gil Unplugged (1994).

Gilberto Gil nunca esteve entre os meus favoritos dos monstros sagrados de nossa MPB. Muito pelo contrário. Apesar de conhecer (e até gostar) de várias músicas, nunca me interessei em conhecer a sua obra além daquilo que me chegava simplesmente por estar vivo e morar no Brasil (a boa e velha osmose). O resultado é que até meados dos anos 90 nunca tinha sequer escutado um disco inteiro do baiano. Gilberto Gil Unplugged venceu essa resistência (por que “unplugged” e não “acústico”, e por que a edição americana é “acoustic” e não “unplugged”, não me pergunte).

Jamais vi o vídeo. Decidi ouvir o álbum após reiterados elogios de amigos cujo gosto eu considerava bastante. Não me arrependi. Gil conseguiu tecer um setlist inspirado e relevante, dando a cada faixa um excelente arranjo (magistralmente executados pelos ótimos instrumentistas que participaram do projeto) e interpretações vibrantes, emocionais e certeiras.

Graças ao acústico, hoje tenho algumas pérolas dele em minha discoteca (não muitas, pois Gil continua não sendo um dos meus favoritos). Aprendi que Gil, quando quer, sabe ser genial.

Expresso 2222 acústico.

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Acústico MTV (1999), Paralamas do Sucesso.

Acústico MTV (1999), Paralamas do Sucesso.

No final dos anos 80, estava tão fissurado no pós-punk britânico, mergulhado em Echo & the Bunnymen, U2, The Jesus & Mary Chain, que saí completamente de sintonia com a onda caribenha dos Paralamas do Sucesso. Assim, desde Selvagem e o show em Montreux, só ouvia aquilo que era impossível deixar de ouvir. Nos anos 90, a coisa só piorou, ainda que tivesse assistido ao show deles com os Titãs no Hollywood Rock (mas confesso que fui mais pelos Titãs do que por eles).

No final da década, assisti por acaso ao making of do acústico deles gravado no Parque Lage, que foi ao ar como forma de divulgação do show ainda inédito. Gostei das entrevistas, do clima, da proposta. Assim, quando o show foi transmitido, lá estava eu em frente à TV (coisa rara!).

Acompanhados por Dado Villa-Lobos, João Fera e um naipe de metais, eles desfilam um setlist pouco óbvio, versões inéditas e covers bem sacados. Muitas faixas eu ainda não conhecia ou havia escutado tão pouco que era como se estivesse escutando pela primeira vez de novo. Tudo era de tão bom gosto – o uniforme vermelho, o lugar, o calor da plateia empoleirada sobre o piscinão de Macunaíma, os arranjos – que eu fiquei querendo saber de onde tinha vindo tudo aquilo.

Com o CD em mãos, pude fazer minha pesquisa musical e, dessa forma, descobrir os Paralamas dos anos 90 que eu já ia deixando passar. Resultado é que os discos dessa década não só é minha fase preferida da banda como considero a melhor coisa produzida pelo entre as bandas do BRock oitentista.

Infelizmente o acidente de Herbert Vianna aconteceu pouco depois, quando estava no auge de seu amadurecimento como compositor e intérprete. Resquícios disso ainda podem ser vistos (e ouvidos) no álbum Longo Caminho, gravado depois mas com muitas composições anteriores à queda do ultraleve.

Fui eu acústico.

A Procura por Sumé

18/02/2015
Paêbirú (1975), Zé Ramalho & Lula Côrtes.

Paêbirú (1975), Zé Ramalho & Lula Côrtes.

Fazendo uma pequena parada no meu Top 20 dos anos 60, chegou a hora de comentar essa pérola dos anos 70. Paêbirú, o Caminho da Montanha do Sol, é um disco louco que vale a pena ouvir. Sim, pois tem uns, como Araçá Azul de Caetano Veloso, que são apenas loucamente chatos.

A história por trás do álbum está maravilhosamente bem contada aqui, na reportagem da Rolling Stones. Leitura recomendada.

Zé Ramalho, antes de deslanchar carreira solo, e Lula Côrtes, encantados com o sítio arqueológico na Serra da Copaoba, próxima de Recife, e com o mito civilizador de Sumé (que aproveitamos no RPG O Desafio dos Bandeirantes), tiveram uma epifania artística e embarcaram na elaboração de um vinil duplo, onde cada lado era dedicado a um elemento: Terra, Ar, Fogo e Água. Esta divisão não se trata de mero enfeite. Cada lado tem uma personalidade musical distinta, conforme cada elemento.

O resultado desse surto criativo foi uma mistura de folk, rock progressivo, música indígena, canto afro e outros sons do nordeste. Tudo de excelente qualidade. A produção independente e uma enchente que destruiu quase toda a tiragem fizeram com que o disco original seja o vinil brasileiro mais caro do mercado, superando o misterioso Louco por Você, álbum renegado de estreia de Roberto Carlos.

O belo encarte realça a participação dos músicos, destacando-se a presença dos hoje famosos Alceu Valença e Geraldo Azevedo. Se hoje o tenho em mãos, é graças à iniciativa do selo norte-americano Mr. Bongo.

Você pode escutar aqui todo o lado Terra.

Rádio Pirata ao Vivo

10/08/2013
Rádio Pirata ao Vivo (1986), RPM.

Rádio Pirata ao Vivo (1986), RPM.

Quando estava escrevendo sobre The Doors no meu Top 30 dos anos 70, quis me certificar da faixa na qual RPM cantava Light my fire. Então me deparei com a notícia de que o DVD do show deles em 1986 havia sido lançado (há algum tempo). UAU! Rapidamente corri para garanti meu tíquete aos anos 80.

Radio Pirata ao Vivo não tem uma grande qualidade de som e imagem, mas vale muito a pena. O show foi gravado no Ginásio do Ibirapuera em dezembro de 1986. Tem aquelas roupas brilhosas dos 80, ainda mais com o toque do Ney Matogrosso, diretor do show. Aquele jeitão do Paulo Ricardo se descobrindo um sedutor de multidões. O peito orgulhosamente cabeludo do Fernando Deluqui. Os arranjos um pouco datados do Luiz Schiavon. E são esses detalhes que dão graça e despertam a nostalgia.

No início da turnê, no Canecão, estava combinando de ir com amigos. Aí resolvi incluir um amigo e vizinho que curtia a banda. Lá fui eu bater no portão da casa dele: “Zeca, quer ir no show do RPM?”

Então ele abriu o portão, me fez entrar, apontou em direção à piscina e falou: “Sabe quem é aquele ali deitado? Fernando Deluqui, namorado da minha prima. Agora é a minha vez de perguntar: quer ir com a gente ao show, de graça?” Como recusar?

E lá estava eu com toda a família do Zeca, sentado em uma mesa do Canecão, ao lado da mesa de som, assistindo ao show como um videoclipe: a banda bem na altura dos meus olhos, o vértice desenhado pelo laser que saía detrás e acima da cabeça do Paulo Pagni, e a galera ensandecida pulando embaixo do “enquadramento”. Inesquecível!

Mas devo dizer que o que me arrepiou mesmo foram os extras. Além de uma apresentação chumbrega e incompleta do RPM nos insuportáveis playbacks do Chacrinha, o DVD apresenta a edição do Globo Repórter sobre a RPMania e a performance deles no Mixto Quente, também da Globo.

Mixto Quente era com xis mesmo, um trocadilho com mix. A Globo sempre teve grandes sacadas pra programas musicais, mas a execução deixava (e ainda deixa) a desejar. Não em questões técnicas, quesito no qual ela dá show, mas na abordagem, edição etc. Tudo embrulhado como um cheeseburguer do McDonald’s para viagem. Depois do Rock in Rio no ano anterior, a emissora percebeu a crescente demanda por mais oportunidades em ver nossos heróis nacionais em ação. Foi no Mixto Quente, por exemplo, que o Barão Vermelho se apresentou pela primeira vez sem o Cazuza, cantando seu Torre de Babel.

Os shows eram na Praia do Pepino, em São Conrado – sol, praia, asa-deltas cruzando o céu, meninas de biquíni… O local era um point nos anos 80, e foi lá (não sei se pro Mixto Quente) que meu irmão viu o Raul Seixas não conseguir dar um show. Pra quem ia (eu nunca fui) devia ser o máximo. Mas pra quem via pela TV, um pouco frustrante. Entretanto, o material do DVD tá completo, e mostra como os biquínis das meninas já eram bem ousados na época. E pensar que uma música como Revoluções por Minuto chegou a ser censurada…

A cereja do bolo é a reportagem de Pedro Bial com a banda no Globo Repórter. Excelente! Aí emocionou pra valer. É um retrato fiel de uma época distante. O documentário consegue captar bem como foi o impacto de uma música mais adulta e de boa qualidade no cenário do rock nacional. E também uma certa inocência, com o mico do Deluqui e do Bial tentando pegar onda, Paulo Pagni caminhando na Floresta da Tijuca…

Pra finalizar, uma entrevista otimista sobre as expectativas da turnê dos Quatro Coiotes, abortada por conflitos de ego e excesso de “aditivos”. Aí me lembro da narração do Bial enquanto mostrava as meninas no quarto e a banda no camarim se aprontando pro show: “todos se aplicando…” Pois é.

Aqui, RPM no Mixto Quente.

Top 30 – 1970/1979 (8ª parte)

24/07/2013
Transa (1972), Caetano Veloso.

Transa (1972), Caetano Veloso.

A carreira de Caetano Veloso é multifacetada, mas acho que dá pra dizer que Transa é o meu álbum preferido dele. Até a presente fase junto à Banda Cê, era o mais rock’n’roll dele. E não só. A banda formada por Jards Macalé, Tutti Moreno, Moacyr Albuquerque e Áureo de Sousa traz uma sonoridade envolvente e diferente (no Brasil) para a época. Caetano diz que Nine out of ten traz o primeiro som de reggae da MPB. O samba de Monsueto Menezes, Mora na Filosofia, é transformado numa espécie de jazz-rock. Triste Bahia (sobre poema de Gregório de Matos) e  It’s a long way são canções épicas que misturam o regionalismo à estrutura progressiva/psicodélica tão em voga. quantas pessoas não se identificam ao cantar “woke up this morning singing an old Beatles song”? A linda You don’t know me faz hoje a ponte daqueles dias de exílio com os shows do álbum e seus sucessores. No final, a bela balada Nostalgia (That’s what Rock’n Roll is all about) resume com muita simplicidade o astral do disco. Só mesmo Neolithic Man coloco num nível mais abaixo. Encaixaria melhor, talvez, no experimentalismo do disco anterior.

You don’t know me ao vivo em show recente.

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Construção (1971), Chico Buarque.

Construção (1971), Chico Buarque.

Pela discografia e livros escritos nos últimos 30 anos, é difícil entender porque Chico Buarque se tornou uma celebridade além do bem e do mal, cujas declarações quase nunca são contestadas. Mas ouvindo tudo o que gravou nos anos 60 e 70, percebe-se o que está além dos olhos verdes que tanto fazem as mulheres suspirarem. E a tal fama se mostra mais do que merecida.

Voltando de seu autoexílio na Itália, com um pouco mais de ginga na voz, Chico gravou seu 5º e melhor disco da carreira. Mais tarde, ainda na década de 70, lançou grandes álbuns como Meus Caros Amigos e o “disco da samambaia”. Antes, nos anos 60, gravou verdadeiras pérolas da MPB. Mas é em Construção que atinge o ápice de sua poesia, tanto relacionada ao universo feminino quanto à crítica social e política. O malabarismo necessário para driblar a censura só fez crescer sua habilidade como compositor. Tudo isso embalado em arranjos arrojados e marcantes de Rogério Duprat, o maestro do tropicalismo.

A faixa-título, fruto do desafio de compor uma canção com rimas em proparoxítonas, já valeria toda uma carreira. Mas o álbum ainda reserva ao ouvinte canções como Cotidiano, Valsinha, Samba de Orly, Deus lhe pague

Desalento ao vivo.

Zumbi com Fome de Tudo

15/07/2013
Fome de Tudo (2007), Nação Zumbi.

Fome de Tudo (2007), Nação Zumbi.

Em 2008 fui surpreendido com um inusitado presente: o então recém lançado CD da Nação Zumbi, Fome de Tudo. Inusitado porque a banda, apesar de conhecida, não era fazia parte do meu repertório. Quando ela surgiu capitaneada por Chico Science, causando muito frisson, a eletrônica me manteve cautelosamente afastado, apesar de simpatizar com a proposta do Manguebeat.

Mesmo distante, era impossível ficar alheio ao fenômeno. Lembro de passar na casa do amigo Daniel Og um ou dois dias após um show deles no Circo Voador. Dani ainda pulava, recusando-se a deixar aquele momento mágico para trás. A empolgação com a qual descrevia o show era contagiante. Desde então, passei a colar na TV a cada apresentação do grupo para tentar “entender” o Dani. De imediato entendi Lúcio Maia, puta guitarrista! Logo depois, quando Chico atingiu aquele poste em Recife com seu Fiat, tive a exata noção de que uma imensa lacuna se abria no futuro da música brasileira. E não haveria como preenchê-la.

Depois do confuso álbum duplo CSZN, perdi a banda de vista, até reencontrá-lo nesse singelo regalo… e me surpreendi. Não mais com o presente em si, mas com a ótima qualidade do que ouvi. Em termos instrumentais, o som da Nação Zumbi nesse disco é excelente. Com influência mais pop do que o habitual, a banda atinge a maturidade em uma mistura perfeita entre o rock, o regionalismo e a eletrônica, aparando arestas que antes me incomodavam. E tudo isso embrulhado com insuspeitada poesia.

Como uma banda com essa qualidade permanecia à margem do sucesso? Claro, a Nação Zumbi tinha o sucesso de crítica e certamente um público fiel. Eu me refiro a um sucesso mais duradouro e inequívoco. Creio que a resposta está no vocal nada carismático de Jorge Du Peixe. Não que ele cante mal ou algo parecido. O mundo artístico é farto em exemplos de cantores medianos (pra dizer o mínimo) que fizeram estrondoso sucesso, como Bob Dylan, Chico Buarque, Mark Knopfler, Roger Waters… No universo pop, carisma conta bem mais do que uma bela voz. Ambas as qualidades faltam ao Jorge.

Minha satisfação com Fome de Tudo me deixou atento e curioso para o que viria em seguida (nem tanto para o que veio antes, pois a crítica acusava justamente uma virada na sonoridade da banda). Só que não veio nada. Desde 2007 a banda não lança um álbum de inéditas. Resta apenas a perspectiva de um novo disco em 2014.

A canção Inferno, que foi tema de novela recente da Globo (Lado a Lado), ao vivo no CCBB-SP.