Archive for the ‘Rock/Pop Latino’ category

12 segundos de oscuridad

28/05/2017
12 segundos de oscuridad

12 segundos de oscuridad (2006), Jorge Drexler.

“No es la luz lo que importa en verdad; son los 12 segundos de oscuridad.”

Cabo Polônio é uma pequena vila no litoral norte uruguaio em meio a uma reserva natural. O local não possui energia elétrica nem infraestrutura sanitária. Os estabelecimentos com gerador de energia costumam desligá-los depois das 22h. Tampouco há acesso por estrada. Ou se chega lá caminhando 7 km por bosques e dunas ou as atravessando com um 4×4.

O cenário é dominado por um farol, cuja luz, durante a noite, varre as ruas (?) da vila em intervalos de 12 segundos. Ceta noite, o cantor e compositor uruguaio Jorge Drexler havia esquecido de sair com sua lanterna. Na volta a sua hospedagem, tinha de esperar a luz do farol para vislumbrar seus próximos passos na escuridão. E assim nasceu a ideia da canção título de seu álbum 12 segundos de oscuridad.

Eco, de 2004, é disparado o melhor álbum do uruguaio (ou mesmo do Uruguay), e Sea, de 2001, o álbum que colocou o cantor no mapa. Mas este disco com ares de brisa marinha é, a meu ver, sua segunda melhor obra, com uma sonoridade homogênea (com exceção do cover de Disneylandia, dos Titãs, que encaixaria melhor no álbum de 2001) e uma atmosférica poética.

A faixa-título é uma obra-prima, sendo os outros pontos altos o cover de High and Dry, do Radiohead, que soa como composição própria; a gostosa Inoportuna; e o dueto com Maria Rita em Soledad.

Top 10 – Coletâneas (parte 6)

17/08/2016
Chiapas

Chiapas (1996), vários.

Em meados dos anos 90, pedi a um amigo que viajava pro Chile pra me trazer algum CD de rock chileno. Ele me trouxe de fato um CD, mas se tratava de uma coletânea com vários artistas da América Latina, inclusive Paralamas de Sucesso. E tampouco era só de rock, tendo até Mercedes Sosa. O objetivo do disco, na verdade, era prestar solidariedade à questão social na região de Chiapas, no México. A maioria dos artistas reunidos era de argentinos, mas o disco acabou sendo se tornando, para mim, uma excelente introdução no rock/pop latino dos anos 90.

A versão dos Paralamas de Uns Dias, acústica e com solo de derbake, já valeria o presente. Mas em Chiapas descobri Los Tres, uma das minhas bandas preferidas. Descobri Andres Calamaro, que na época reiniciava sua carreira solo após o fim da banda espanhola Los Rodriguez. Media Verónica seria lançada no álbum Alta Suciedad, mas em versão distinta. Fui enganado com uma faixa folk acústica do Café Tacvba, algo bastante estranho à discografia da banda.

Quem não me animou muito foram os já badalados e oitentistas Charly Garcia e Fito Paez. Tive de “descobri-los” por outras fontes.

No geral, o mais importante foi me acostumar, escutando diferentes gêneros musicais, do rap ao hard rock, ao canto em espanhol. Não foi de imediato. A primeira reação foi de total estranhamento. Só mais de um ano depois, após deixar o disco uma boa temporada na prateleira, consegui me despir de meus preconceitos auditivos e passar a curtir tudo aquilo. Foi o início de uma bela amizade.

Por hoje adorar folk e rock latino, o que me abriu portas para descobrir e gostar de Jorge Drexler, Manel, Sílvia Pérez Cruz, Julieta Venegas, Jaime Roos, Los Fabulosos Cadillacs, Sui Generis, Uchpa, Serú Girán, No te va gustar, Marlango e até mesmo Shakira, entre tantos outros, talvez tenha sido um dos discos mais importantes da minha vida.

L’enfant n’est fait que de fêtes…

06/04/2016
Sans Tsu Tsou

Sans Tsu Tsou (2011), Zaz.

No melhor estilo Rádio Pirata, na sequência de seu primeiro e muito bem sucedido álbum, Zaz emendou um álbum ao vivo e DVD. Felizmente, a superexposição não levou às mesmas consequências e a cantora emendou mais dois bons álbuns, ainda que o segundo seja inferior ao primeiro e o terceiro siga uma linha distinta que não permite comparações.

O álbum ao vivo de um disco só é Sans Tsu Tsou, que eu havia comprado em Paris, mas que é bom mas não me impressionou particularmente. O vídeo eu tive de baixar, pois comprar DVD na Europa pra assistir no Brasil é investimento dos mais arriscados.

Revi recentemente o vídeo e não paro de tocar Zaz na minha cabeça, particularmente as músicas do primeiro álbum, claro. O vídeo é muito simpático, mostrando a cantora em ação em diversas ocasiões: Suíça, França, Alemanha, Bélgica… Com direito a um “clipe ao vivo” nas colinas verdejantes próximas ao que parece ser o Mont Blanc. Uma experiência muito mais interessante que o disco.

A abertura é igual ao álbum, com aqueles plins ploins que parecem sair de um xilofone ou de uma caixinha de música no início de Les Passants.

Quando meu filho tinha apenas alguns meses, minha esposa, desejosa de ouvir algo diferente da coletânea “baby blues” que eu havia feito, colocou Zaz pra tocar. Ao ouvir aquela introdução, Michel congelou. Abriu a boca e arregalou os olhos. Ficou apontando pro aparelho de som todo sorridente. Por um tempo foi um hit dos dos dois, até que a minha esposa parou de colocar o CD.

Às vésperas do primeiro aniversário, muitos meses depois, fui testar a minha coleção de músicas para a festinha. Abria com Les Passants. Michel paralisou e começou a dar gritinhos de alegria em direção ao som. Nitidamente reconheceu a música. Era quase como uma descoberta arqueológica, quando a gente acha um caderno da adolescência, um velho brinquedo perdido no armário. E quando coloquei o vídeo, ele parou de brincar e ficou escutando com atenção, sem sequer olhar pra TV.

Ah, Zaz, assim você me mata…

Les Passants ao vivo.

Top 20 – Álbuns ao Vivo (parte 7)

27/10/2015
No sé si es Baires o Madrid (2008), Fito Paez.

No sé si es Baires o Madrid (2008), Fito Paez.

Fito Páez não é o meu cantautor argentino preferido. Considero a sua voz num tom pouco acima do ideal, mas ainda assim tenho parte bem considerável de sua discografia, pois Fito é um artista complexo, criativo e apaixonado. Quando acerta na veia, sai de baixo!

Neste show gravado em Madri, no Palacio de los Congresos, em 24 de Abril de 2008, encontrava-se numa fase mais intimista, voz e piano. Para meu grandíssimo azar, foi justamente o show que fez no Canecão em um dia de semana e eu fiquei com preguiça de ir (era uma terça-feira, creio). Mal sabia eu que aquela turnê seria uma mostra do meu show preferido dele.

O que já tinha ouvido ao vivo dele não havia me agradado muito, realçando os aspectos que me fazia gostar dele pero no mucho. A princípio, não era pra eu comprar um disco ao vivo dele, mas achei o título tão charmoso (e o preço tão em conta) que resolvi comprar. Gostei tanto que parti pro DVD, muito mais completo e arrebatador.

Em No sé si es Baires o Madrid, Fito acerta o tom, encontra o equilíbrio ideal entre emoção, lirismo e harmonia. Quase inteiramente em piano e voz. Outros instrumentos, como guitarra, violão, trompete, violoncelo, são agregados pelos músicos convidados (todos residentes em Madri), com exceção de uma interpretação catártica sua só na guitarra em Ciudad de Pobres Corazones, uma das quatro canções presentes no DVD mas ausentes do CD.

O show também serviu para me apresentar alguns artistas espanhóis, nem todos devidamente explorados por mim (ainda). Só pela descoberta de Marlango, a banda da atriz/cantora/compositora Leonor Watling, o concerto já merece um lugar especial no meu coração. Os rapazes do Pereza ainda preciso conhecer melhor. Por outro lado, valeu o incentivo a comprar uma coletânea de Ariel Rot, que acompanha o anfitrião numa excelente versão de Giros, que até então era, para mim, apenas o guitarrista/compositor de Los Rodriguez. E ainda estão lá o cubano Pablo Milanés e a cantora/atriz espanhola Gala Évora, entre outros.

O show marca também o reencontro de Fito com Joaquín Sabina, que merece um dos extras no DVD, que terminaram brigados as gravações de Enemigos Íntimos, álbum que lançaram juntos em 1998.

Contigo, com Fito Paez e Joaquín Sabina.

Top 20 – Álbuns ao Vivo (parte 5)

14/10/2015
Los Tres MTV Unplugged (1996).

Los Tres Unplugged (1996).

O disco que me abriu definitivamente as portas para o pop/rock latino-americano foi uma coletânea beneficente da qual participava Mercedes Sosa, Fito Paez, Charly Garcia, Café Tacvba e também os Paralamas. Entre as faixas que mais me agradou estava uma versão ao vivo de Flores Secas, uma música de forte estilo jazzístico dos completamente desconhecidos Los Tres.

Um belo dia, na finada Gramophone do 1° piso do Shopping Gávea, passava os dedos despretensiosamente pelo saldão da loja e lá estava o Los Tres MTV Unplugged. Continuei minha rápida pesquisa sem dar maior atenção, pois havia registrado “Los Lobos”. Mas algo me fez voltar e conferir: “não, é Los Tres!”. Então me lembrei daquela faixa da coletânea de Chiapas e logo virei na contracapa para ver se Flores Secas estava ali. Não estava. Dei uma desanimada. Mas o preço era tão convidativo (menos de 4 reais na época, cerca de 97/98) que resolvi comprar assim mesmo.

A primeira audição foi de total estranhamento, o que é normal quando se começa a ouvir pop/rock em uma língua que não a inglesa. Pra tornar a empreitada ainda mais desafiadora, algumas faixas (logo as primeiras!) eram bem distantes daquele jazz que havia me agradado. Afinal, o show registrava principalmente o álbum no qual a banda faz a ponte entre o rock e o folk chileno.

Lá pela terceira ou quarta audição (que saudades desse tempo em que era possível dedicar tantas horas a um único álbum) já estava encantado com a maestria instrumental da banda, os arranjos e as letras um tanto arrojadas (algumas até mesmo pretensiosas). O único pecadilho do disco é o som um pouco grave demais.

Assim como o Alchemy do Dire Straits, o show registra versões definitivas para muitas canções e transcende o aspecto “coletânea ao vivo”. Até então, Los Tres haviam lançado apenas três álbuns. Do segundo foi retirada apenas uma faixa, Gato por liebre, muito melhor do que a versão em estúdio. As demais faixas dividem-se entre o primeiro e terceiro álbum, além de uma faixa totalmente inédita, Traje desastre, nunca registrada em estúdio. No final do show, uma homenagem com três canções a Roberto Parra (compositor e folclorista chileno, irmão de Violeta Parra), duas cuecas e um foxtrote.

Fiquei tão fissurado pelo álbum que, numa época em que vendas pela internet ainda engatinhavam e os sites de busca eram sofríveis, tratei de correr atrás de outros CDs da banda, conseguindo importar os três primeiros diretamente de uma loja chilena (infelizmente, no mesmo mês em que o dólar “descongelou” no início do 2° mandato de FHC).

A partir daí, não parei mais de pesquisar e explorar bandas e artistas de pop/rock hispânico. Quanto mais eu conhecia, mais eu via que valia a pena.

O álbum foi lançado em 1996, mas a gravação, feita nos estúdios da MTV em Miami, foi realizada em setembro de 1995. Trata-se do primeiro unplugged de um grupo chileno para a MTV.

Aqui está o show quase completo da MTV. Algumas faixas do show não foram transmitidas, de forma que o CD é mais completo.

Sempre teremos Paris…

09/08/2015
Paris (2014), Zaz.

Paris (2014), Zaz.

O terceiro álbum de estúdio da cantora francesa Zaz é inteiramente dedicado a Paris. Trata-se de uma coleção de canções antigas, com a exceção de Paris, l’après-midi, que tem a cidade como tema central. A única canção não francesa é I Love Paris, de Cole Porter, em dueto com a cantora canadense Nikki Yanofsky, mas é cantada em francês e inglês.

Outra participação transatlântica é a de Quincy Jones, que produz três faixas do disco: Champs Elysée (que virou uma espécie de “a chanson vai ao Harlem”), o dueto com Nikki em I Love Paris/J’aime Paris, e o dueto com a lenda viva da canção francesa, Charles Aznavour, em J’aime Paris au mois de Mai, que o próprio Charles apelidou de “Zaznavour”. As três receberam o arranjo de uma Big Band conduzida por John Clayton. É curioso notar que, no encarte, as faixas produzidas por Quincy Jones vêm acompanhada de uma logomarca própria do responsável por Thriller.

Em La Romance de Paris, do ator, cantor e compositor Charles Trenet, Zaz divide os vocais com o jazzista francês Tomas Dutronc. E, claro, não podia faltar um pouco de Piaf em Sous Le ciel de Paris (sim, o nome da cidade aparece em 9 das 13 faixas, sendo que outra se chama La Parisienne – o título do álbum NÃO é propaganda enganosa).

À Paris, uma canção de 1949, é executada sem instrumentos, só com um precioso arranjo vocal. Paris canaille, de 1953, vira um blues rasgado no final. J’ai deux amours, uma canção feita para Joséphine Baker em 1930 que já ganhou versão de Madeleine Peyroux, ganha uma roupagem sessentista, com um início vocal estilo doo-wop, seguindo como balada rock italiana tipo Rita Pavone para desaguar num gospel.

Em seus dois primeiros álbuns, Zaz transita com sua voz rouca entre o pop e a canção tradicional francesa com bastante fluidez. Nessa homenagem, é natural que a tradição das composições e arranjos se sobressaiam. Mesmo assim, ela consegue imprimir modernidade e jovialidade em canções dos anos 30, 40 e 50 sem muito esforço. La Parisienne e Dans mon Paris, por exemplo, poderiam muito bem estar em outro álbum seu. Edith Piaf já é figurinha fácil em seus shows, assim como os scats, estilo no qual ela deita e rola no disco.

Em um álbum monotemático, há variedade suficiente para manter a atenção do ouvinte. Além do mais, é Paris, né?

Making of das gravações com Quincy Jones.

Mano Negra (Rock Hispânico parte final)

02/08/2015

Não podia encerrar essa digressão pelo pop/rock hispânico sem falar do Mano Negra. Apesar do grupo ser de origem francesa, seu líder, Manu Chao, tem raízes espanholas. Junto com seu irmão e um primo, formou em 1987 o Mano Negra, uma banda de oito integrantes que mistura que mistura de tudo um pouco: rock, punk, flamenco, ritmos africanos e caribenhos, como reggae e ska. As canções são divididas entre o francês, o inglês, de maior destaque inicialmente, e o espanhol, que acaba prevalecendo mais pro final.

Patchanka (1988), Mano Negra.

Patchanka (1988), Mano Negra.

A estréia discográfica em 1988 com o álbum Patchanka, com composições que Chao já tinha acumulada e não teve a oportunidade de gravar em outras bandas da qual participou. O disco, que traz ótimas faixas como Mala Vida, Índios de Barcelona, Ronde de Nuit, Rock Island Line e Noche de Acción, fez sucesso na Europa.

O sucesso foi consolidado no ano seguinte com Puta’s Fever, considerado o melhor álbum da banda, que traz Pas assez de toi, King Kong Five e uma versão da música árabe Sidi ‘h’ Bibi. O sucesso levou o grupo ao Japão, México e EUA, onde nunca conseguiu grande penetração, apesar das boas críticas.

Puta's Fever (1989), Mano Negra.

Puta’s Fever (1989), Mano Negra.

No álbum de 1991, King of Bongo, o grupo tentou fazer um som mais voltado para o mercado americano, o que gerou algumas críticas. Mas, apesar de mais composições em inglês, há um certo exagero em acusá-los de se afastarem do espírito original. No mesmo ano eles gravam um álbum ao vivo gravado no Japão, In the Hell of Patchinko, no qual tocam um cover de Chuck Berry, County Line.

Foi em 1992 que escutei Mano Negra pela primeira vez, quando tocaram nos Arcos da Lapa em show que fazia parte dos eventos da Rio 92. O show vibrante contou com a participação de Jello Biafra, com quem tocaram I fought the Law (na versão do Dead Kennedys, claro). Aquele naipe punk de metais me remeteu a algumas canções de The Clash. E tudo isso de graça!

Eventualmente o álbum seguinte, Casa Babylon (1994), acabou chegando às minhas mãos com La Vida, Machine Gun, Santa Maradona, Sueño de Solentíname… Infelizmente, a banda original já havia se desintegrado e o Mano Negra acabou.

Clandestino (1998), Manu Chao.

Clandestino (1998), Manu Chao.

Manu Chao seguiu uma bem sucedida carreira solo, deixando de lado a parte do punk rock presente na sonoridade do Mano Negra. Com composições mais direcionadas para o público latinoamericano, Clandestino, sua estréia solo em 1998, foi muito bem recebido pela crítica e pelo público. Chao adotou um estilo cigano, viajando e tocando pela América Latina, inclusive sentando em praças com violão em puno, como fez na Lapa e Santa Tereza, no Rio. A canção Minha Galera foi dedicado ao período que passou no Brasil.

Na sequência, lançou Próxima Estación… Esperanza e o ao vivo Radio Bemba Sound System. Chao não só manteve os temas de sempre (drogas, estilo de vida alternativo, crítica social) como também a mesma sonoridade, tornando a sua música um tanto previsível e repetitiva, a ponto de La Radiolina, lançado em 2007, soar com uma reciclagem dos álbuns anteriores. Poucos anos antes, em 2004, lançou um disco só de músicas em francês, Sibérie m’était contéee, que vem acompanhado de um livro de ilustrações do polonês Jacek Woźniak.

Rock do Peru e México (Rock Hispânico parte 8)

25/07/2015

Meu conhecimento do rock mexicano e peruano é mais esgarço do que do rock espanhol, mas é possível dar algumas pinceladas. Em comum, ambos os países foram os principais centros de dominação colonial da Espanha. Portanto, tornaram-se o principal ponto de irradiação cultural em língua espanhola de suas respectivas áreas de influência. Outro ponto em comum é a forte produção musical popular nacional, similar ao Brasil.

No Peru dos anos 60, o rock produzido no país era um pouco mais arrojado do que aquele produzido por seus vizinhos, a ponto de haver uma banda proto-punk em 1964, Los Saicos. Dos pioneiros de Los Incas Modernos a surf music de The Ventures, os peruanos conseguiram criar uma cena musical bastante agitada.

O regime militar de 1968 pôs fim à farra. Nos cinzentos anos 70, destacou-se a banda Traffic Sound, que fazia um hard rock psicodélico, com influência de ritmo afro e andino. Foi a primeira banda peruana a excursionar fora do país, chegando ao Brasil e Argentina.

O ambiente político e econômico dos anos 80 era bastante explosivo, sobressaindo a influência do boom do pop/rock argentino e as estrelas da música espanhola. O cenário dá uma aquecida nos anos 90, com influência de estilos mais pesados. Coincidência ou não, é no século XXI, após a queda de Fujimori, que a produção nacional decola. Pelo ocorridos nos demais países do continente, regimes fechados fazem muito bem a músicas românticas e de protesto, mas muito mal ao “alienado” rock and roll. O mercado peruano ainda está em desenvolvimento, com o país vivendo um recente boom de artistas independentes.

Concierto (2005), Uchpa.

Concierto (2005), Uchpa.

Achar uma loja de discos originais em Lima não é tarefa fácil (no resto do país, é impossível), mas no bairro de Miraflores é possível encontrar algumas. Diante do meu total desconhecimento de rock peruano, resolvi alugar o vendedor para encontrar algo que soasse suficientemente original aos meus ouvidos, mas tudo me parecia muito igual ao que eu já conhecia. Foi então ele veio com um disco ao vivo do Uchpa, Concierto (2005), uma banda estilo zeppeliano que canta em quéchua. Apesar da voz um pouco anasalada de Fredy Ortiz, o instrumental da banda é impecável, com faixas longas e extensos solos típicos dos anos 70. E poder ouvir rock em quéchua é um charme irresistível.

Já no México, o rock chegou já nos anos 50 e seguiu forte nos anos 60. É bom ressaltar que o guitarrista Carlos Santana, o principal expoente mexicano do rock, surgiu na cena californiana, para onde se mudou com a família em 1961, com menos de 15 anos. Assim como em muitos países hispânicos, e como no Brasil, os anos 70 foi uma época de baixa. Entretanto, não devido ao estabelecimento de um regime ditatorial (o PRI se encontrava no poder desde 1929), mas à repressão cultural/policial na virada da década.

Durante todo esse tempo e no processo de abertura cultural ocorrida nos 80, a grande questão dos roqueiros nacional era compor ou não em espanhol. A balança começou a pender para o lado da língua pátria a partir do sucesso de bandas hispânicas estrangeiras. As influências eram diversas, do punk ao progressivo, passando pelo pop eletrônico e, principalmente, pelo rock pesado. Na segunda metade da década, estouram bandas como Fobia, El Tri (derivada do grupo setentista de blues rock Three Souls In My Mind), Caifanes (segunda banda latinoamericana a gravar um MTV Unplugged, em 1994) e o Maldita Vencidad y los Hijos del Quinto Patio, um grupo eclético na mesma linha do Mano Negra.

Sueños Líquidos (1997), Maná.

Sueños Líquidos (1997), Maná.

Os anos 90 são de consolidação e expansão do rock nacional. É nesta década que o grupo Maná atinge projeção nacional e internacional. A banda é um desdobramento do oitentista Sombrero Verde, com um hard rock de influências progressivas e latinas, que ressurge em 87 com o novo nome e uma tendência a baladas. Maná conquista seu espaço após o segundo álbum Falta Amor (1990), quando lança o single Rayando el sol. A partir do álbum seguinte ¿Dónde jugarán los niños? (1992), o grupo vira um fenômeno internacional, conquistando inclusive o mercado latino dos Estados Unidos. Depois do sucesso internacional de Sueños Líquidos (1997) e da turnê subseqüente, o vocalista Fher Olvera faz uma parceria com Carlos Santana e em 1999 a banda grava seu MTV Unplugged, conquistando o mercado europeu.

Cafe Tacvba (1992).

Cafe Tacvba (1992).

Entre os destaques da nova geração de roqueiros está o quarteto do Café Tacvba, que trocou o “u” pelo “v” devido a um processo movido pelo Café Tacuba, o restaurante. Apesar das fortes influências roqueiras, a sonoridade da banda, particularmente no álbum de estréia, é um pop eletrônico alternativo. Os vocais de Rubén Albarrán, que muda de nome artístico a cada álbum, são bem afetados, o que me deixou com o pé atrás com a banda por um bom tempo.

Insatisfeito com o álbum de estreia de 1992, resolvi ir pro outro extremo, o Cuatro Caminos, de 2003, primeiro álbum da banda com bateria de verdade, vencedor de um Grammy e dois Grammy Latinos, muito exageradamente comparado na época ao Álbum Branco dos Beatles.

Ainda assim, não estava satisfeito e procurei por uma coletânea, Tiempo Transcurrido, que faz uma boa síntese dos quatro primeiros álbuns do grupo, incluindo aí o aclamado Re, o álbum duplo Revés/Sou yo e o disco de covers Alavancha de Éxitos. Consegui finalmente ter um deslumbre do que era o Café Tacvba: um grupo bem inventivo, com forte personalidade musical, mas que não me encantava, apesar de algumas ótimas faixas.

Então, quando eu já tinha meio que desistido dos mexicanos, em 2005 foi lançado em CD o MTV Unplugged, gravado dez anos antes. Nesse show, todos os arroubos vocais de Rubén que me desagradavam parecem ter sido aparados. Sem as eletronices dos álbuns, pela primeira vez fiquei inteiramente satisfeito.

El Objeto Antes Llamado Disco (2012), Café Tacvba.

El Objeto Antes Llamado Disco (2012), Café Tacvba.

Mas o meu álbum preferido é o mais recente, El Objeto Antes Lllamado Disco (2012), que é tudo o que sempre esperei do Café Tacvba. Infelizmente, não pude ir ao show dessa turnê no Circo Voador. O álbum foi gravado em quatro países (Chile, México, Argentina e EUA) com um pequeno público de fãs e deu origem a um documentário.

Além do performático e carismático vocalista de vários nomes, o grupo é composto pelo multi-instrumentista Emmanuel del Real e os irmãos Joselo (guitarra) e Quique Rangel (baixo). Del Real e Joselo são responsáveis pelo maior parte das composições, embora Rubén também contribua bastante com material próprio.

MTV Unplugged (2008), Julieta Venegas.

MTV Unplugged (2008), Julieta Venegas.

A cantora Julieta Venegas, apesar de ser mais conhecida por sua faceta pop, tem raízes roqueiras e surgiu como vocalista do grupo de ska Tijuana No, na primeira metade da década. Em carreira solo, alcançou sucesso internacional neste século. Em 2008 gravou seu bem sucedido MTV Unplugged, que contou com a participação de Marisa Monte em Ilusión.

É claro que esse breve relato não dá conta da complexidade da produção musical mexicana a partir dos anos 90 e, principalmente, a partir dos anos 2000, que se caracterizou por uma pluralidade de bandas e estilos.

A Espanha no Rock (Rock Hispânico parte 7)

12/07/2015

Apesar de estar em plena ditadura franquista, o rock se tornou bastante popular na Espanha nos anos 60. Talvez tenha contribuído o fato de ser um governo já consolidado, há mais de 20 anos no poder. Apesar do conservadorismo espanhol, o rock tomou de assalto todas as mídias. Já a chegada do psicodelismo, do progressivo (em espanhol mais comumente chamado de “rock sinfônico”) e da soul music não encontrou a mesma recepção, como ocorrido no Brasil em relação aos dois primeiros gêneros. A banda mais bem sucedida da primeira metade da década de 70 foi Barrabás, que mesclava o rock a ritmos latinos, soul e funk, e que ainda se mantém em atividade.

Paseando por la Mezquita (1979), Medina Azahara.

Paseando por la Mezquita (1979), Medina Azahara.

Na segunda metade da década, a produção nacional ganha vitalidade renovada através do Rock Andaluz, que foi o encontro do rock progressivo (e posteriormente o heavy metal) com o flamenco, no qual se destacaram as bandas Imán e Triana. Da formação original do Triana saiu o duo flamenco Lole y Manuel, cujas influências progressivas podem ser sentidas em algumas gravações, a ponto do Alexandre (antigo companheiro deste blog) classificá-los como “flamenco progressivo”. No final da década surge em Córdoba o Medina Azahara, que mistura o heavy metal melódico ao flamenco, tornando-se o grupo com carreira mais sólida no gênero. Ainda em atividade e sem nenhuma interrupção, não ficaram mais de quatro anos sem lançamento no mercado, num total de 19 álbuns de estúdio e três ao vivo. Um amigo catalão, ao nos depararmos com uma coletânea não oficial da banda por um preço mega em conta numa lojinha em Blanes, pegou o disco e me disse: essa é a oportunidade de você escutar algo bem diferente do que você conhece. Apesar de não ser muito meu estilo, ele tinha toda razão.

Matrícula de Honor (1977), Tequila.

Matrícula de Honor (1977), Tequila.

Paralelamente ao Rock Andaluz, surgiu o chamado “Rock Urbano”, com influência mais marcada do hard rock, no qual a banda Leño se tornou a principal referência, tendo durado poucos anos. Coincidência ou não, essa retomada ocorre após a morte de Franco em 1976. Com o regime militar argentino em 1977, houve a migração de artistas argentinos ao país, entre eles o cantautor Moris, originário da cena roqueira portenha dos anos 60, que ajuda a consolidar a estética do rock cantado em espanhol. Nessa leva vem também Ariel Rot e Alejo Stivel, que se juntam aos espanhóis Julián Infante, Felipe Lipe e Manolo Iglesias para formarem a banda Tequila, uma banda de rock and roll “stoniano”que tem seu fim em 1982. O grupo mais longevo do Rock Urbano foi o Burning, ainda ativa, embora pouco produtiva neste século, tornando-se a mais emblemática do gênero. Em Andaluzia, a banda Veneno se distanciava do Rock Andaluz fazendo a equivalente fusão do rock com o flamenco na cena Urbana. Mas, destes, quem alcançou o maior sucesso comercial na virada dos 70 pros 80 foi o Tequila. Assim como no resto do mundo, a Espanha foi tomada de assalto pelo boom do punk e da new wave, lançando uma sombra sobre a geração anterior, até pelo contraste do sucesso comercial alcançada. Além do fim ou hiato de várias bandas, como Tequila, Leño e Triana. O próprio Medina Azahara passa por dificuldades com gravadoras até se estabilizar nos anos 90. O pop/rock nacional dos anos 80 atinge a mesma repercussão midiática dos anos 60, do underground ao mainstream. Dessa fase da música espanhola, entretanto, meu desconhecimento é total (assim como dos anos 60). O movimento musicas dessa primeira metade dos anos 80 é chamada de La Movida. La Movida não se limitava apenas à música, mas a todo um renascimento cultural da Espanha pós-Franco, incluindo o cinema, pintura, literatura e quadrinhos. O interesse político do Estado nesse renascimento acaba sendo bem aproveitada por esses artistas. Musicalmente, os que mais triunfaram fora do mercado espanhol foram a banda pop Mecano e os roqueiros dos Hombres G. A título de curiosidade, vale citar uma das principais bandas de heavy metal espanholas, ainda em atividade, surgida em 1980: o Barón Rojo (Barão Vermelho).

El mar no cesa (1986), Heroes del Silencio.

A segunda metade da década se caracterizou pela consolidação comercial do pop/rock e desmembramento em vários subgêneros, igual ao que ocorria em outros países.  Das bandas surgidas nesse período foram os Héroes del Silencio que atingiram a maior popularidade. Formada em Zaragoza, lançaram o primeiro EP em 1986, atingindo o auge nos anos 90, com o sucesso internacional. O grupo se dissolve em 1996. O núcleo da banda era formado pelo guitarrista Juan Valdivia e pelo vocalista e guitarrista Enrique Bunbury, que seguiu uma sólida e bem sucedida carreira solo. Se os Héroes faziam um pop/rock às vezes mais pesado, Bunbury solo investe no ecletismo internacional.

Palabras más, palabras menos (1995), Los Rodriguez.

Palabras más, palabras menos (1995), Los Rodriguez.

Paralelo ao sucesso dos Héroes, surge em 1990 outro grupo de pop/rock mais direto que agita o mercado espanhol na primeira metade dos anos 90: Los Rodriguez. A banda é formada por dois remanescentes do Tequila, Ariel Rot e Julián Infante, que se juntaram ao cantor e compositor argentino Andres Calamaro, amigo de Ariel e que havia migrado pra Espanha devido à crise econômica em seu país, e ao espanhol Germán Vilella na bateria. O grupo não tinha um baixista fixo. O terceiro na função, Daniel Zamora, ficou de 1993 até o final, em 1996. O primeiro álbum, Buena Suerte (1991), lançado por uma gravadora pequena que quebrou pouco depois, apesar de ter boas composições, é muito mal produzido e não chamou a atenção na Espanha, apenas na Argentina. No ano seguinte, eles decidem gravar um disco de músicas registradas diretamente dos shows, com exceção de duas faixas do álbum anterior. A boa aceitação de Disco Pirata abriu caminho para o sucesso de Sin Documentos (1993), cuja faixa-título de Calamaro tornou-se um hit na Espanha e na América hispânica. Ainda assim, o sucesso foi maior na Argentina do que na Espanha. O auge veio no disco seguinte, de 1995, Palabras más, Palabras menos, que emplacou dois sucessos da lavra de Ariel Rot, Mucho MejorMilonga del Marinero y el Capitán, e outro de Calamaro, Para no olvidar. Na sequência saem em turnê pela Espanha em conjunto com o cantor Joaquín Sabina. No ano seguinte lançam a compilação Hasta Luego, que marca o fim da banda. Impulsionado por uma turnê de despedida, é o maior sucesso de vendas de Los Rodriguez. A compilação conta com algumas faixas ao vivo, incluindo a participação de Fito Paez em Canal 69, duas demos e regravações de alguns sucessos, particularmente Mi Enfermedad, do álbum de estréia, que finalmente ganha uma versão a altura da música. Andres Calamaro, que retorna a Buenos Aires, e Ariel Rot seguem cada um sua carreira solo, bem como a amizade. Julián Infante morre de AIDS em 2000.

Mentiras Piadosas (1990), Joaquín Sabina.

Mentiras Piadosas (1990), Joaquín Sabina.

A carreira do cantor e poeta espanhol Joaquín Sabina corre em paralelo a todos esses movimentos acima pincelados. De família ligada a movimentos de esquerda durante a ditadura franquista, Sabina foge pra Paris e se depois se estabelece em Londres, só retornando após a morte de Franco. Se em Londres levava a vida cantando de bar em bar (chegando a receber gorjeta de George Harrison), ao retornar a seu país consegue dar início à carreira discográfica, oscilando entre o popular e o rock. A partir de Hotel, Dulce Hotel (1987), começa a enfileirar sucessos. Em 1997 lançou o álbum Enemigos Íntimos com Fito Paez, que acabou em sérios atritos e um afastamento de 11 anos. Em 1999 lança aquele que talvez seja o seu maior sucesso, 19 días y 500 noches. Em 2001 sofre um AVC e enfrenta problemas de depressão, o que o leva a reduzir as atividades até meados da década.

Lo mas lejos, a tu lado (2003), Fito & Fitipaldis.

Lo más lejos, a tu lado (2003), Fito & Fitipaldis.

Os anos 90 resgataram o som do Rock Andaluz e o hard rock do Rock Urbano, que foram deixados de lado pela Movida dos anos 80. Neste cenário, além do êxito de bandas como Héroes del Silencio e Los Rodriguez, surge em Bilbao o Platero y Tú, liderado por Fito Cabrales, no melhor estilo sexo, drogas e rock and roll. Antes do fim da banda em 2001, Fito inicia um projeto paralelo que mantém até hoje, o Fito & Fitipaldis, com sonoridade mais variada, que obteve grande sucesso logo em seus dois primeiros álbuns. Em seu terceiro disco, Lo más lejos a tu lado (2003), a banda atinge seu auge de popularidade (gosto particularmente de (Las nubes de tu pelo), consolidando a banda no mainstream do pop/rock hispânico. Em 2008 lançam um CD/DVD ao vivo junto com Andres Calamaro, Dos son multitud. Nos anos 2000, o duo de pop/rock alternativo Pereza, formado pela dupla Rubén e Leiva, atinge grande notoriedade entre 2001 a 2011, quando se separam. Na mesma década, numa cena mais alternativa, surge o trio Marlango, formado pela atriz e cantora Leonor Watling, o pianista Alejandro Pelayo e o trompetista americano Oscar Ybarra, que deixou a banda recentemente. O som é basicamente pop com influências de jazz. Seus primeiros quatro álbuns são compostos de canções em inglês, pois Leonor é filha de uma inglesa e possui boa fluência. Dessa fase, destaque para Automatic Imperfection (2005) e Life in the Treehouse (2010). Os dois mais recentes são de composições em espanhol, com destaque para o primeiro, Un Día Extraordinario, de 2012. Tanto Marlango quanto Pereza conheci no CD/DVD ao vivo do show de Fito Paez em Madrid, No sé si es Baires o Madrid, que já ganhou um post aqui, gravado em abril de 2008, que marca a reconciliação do compositor argentino com Joaquín Sabina.

Els millors professors europeus (2008), Manel.

Els millors professors europeus (2008), Manel.

Na cena pop/rock catalã contemporânea, pude destacar dois grupos: Manel e La Célula Durmiente. Manel é o típico produto do atual indie folk tão apreciado pelas novas gerações. Quando escuto o meu arquivão de músicas randômicas, às vezes tenho de esperar o vocalista começar a cantar para saber se é Manel ou Los Hermanos. Apesar das boas músicas, o fato do grupo só compor em catalão impede maior divulgação. O primeiro álbum, o ótimo Els millors professors europeus (2008), titulo tirado da canção Pla quinquennal, acabou incentivando uma onde de música pop em catalão. De lá pra cá, a banda lançou mais dois discos, sempre com boa vendagem e repercussão na região.

Disco Póstumo (2010), La Célula Durmiente.

Disco Póstumo (2010), La Célula Durmiente.

Falar de La Célula Durmiente é falar basicamente de Joan Colomo, que surgiu com o Zeidun, uma banda punk alternativa que remete às raízes barulhentas do grunge. Em 2004 Colomo aparece à frente do trio La Célula Durmiente, com o álbum Perverso Universo. O estilo é mais eclético e melódico que sua banda anterior, e bastante alternativo e experimental, cantando em inglês, espanhol e catalão. Entretanto, mesmo em Barcelona não é tão fácil encontrar esse material, sendo a internet o meio mais acessível. Tive a sorte de dar de cara com o Disco Póstumo, de 2010, quando Colomo já iniciara sua carreira solo com Contra todo pronóstico, em 2009. Depois lança Producto Interior Bruto em dois volumes, repleto de faixas curtíssimas (característica também do Célula Duermiente, como nos pouco mais de 2 minutos de Canción Póstuma), que recebe boas críticas. Em 2014 sai La fília i la fobia, seu trabalho mais recente. Colomo parece uma versão catalã de Beck, só que com outro background e com um canto propositalmente desleixado tipo Marcelo Amarante.

Rock Cisplatino (Rock Hispânico parte 6)

05/07/2015

O Uruguai gerou um movimento roqueiro tão exitoso quanto a nossa Jovem Guarda, a ponto de influenciar o mercado argentino. Os grupos Los Shakers e Los Iracundos obtiveram sucesso internacional, incluindo o Brasil.

Los Shakers, banda formada pelos irmãos Fattoruso, tinham forte influência da Beatlemania. A maiorias das músicas eram cantadas em inglês, mas com composições próprias. No final, a banda já começava a incorporar ritmos populares. Após o término em 69, Hugo e Osvaldo Fattoruso partem pros EUA e ressurgem com a banda Opa, uma mistura de rock, jazz e candombe, principal ritmo uruguaio, de origem africana. Lançam três discos no mercado americano entre 1975 e 1977. Ressurge no Uruguai em 1981 com um novo álbum, realizando alguns shows esporádicos na década de 80.

Los Iracundos, dos irmãos Eduardo e Leonardo Franco, fizeram, sem precisar terminar a banda, toda a migração do rock ao popular romântico, como fez Roberto Carlos. Nos anos 60, o grupo foi influenciado principalmente pela música italiana. Seu maior sucesso da época foi Puerto Montt. Nos anos 70, tiveram intensa produção, lançando disco todo ano, incluindo um disco de tango, e ampliando o leque de composições próprias. O grupo manteve sua fama internacional ao longo dos anos 80, mas em 1989, morre Eduardo Franco, vocalista e principal compositor do grupo, vítima da doença de Hodgkin. No ano seguinte, seu irmão Leonardo retoma as atividades da banda, que continua ativa.

Entre os solistas da década, destaca-se Eduardo Mateo, oriundo da música popular, que incorpora elementos do pop/rock a sua música, assim como a bossa nova. Em 1966, une-se ao cantor e percussionista Rubén Rada, de background musical semelhante, e formam El Kinto, que mistura o candombe, o rock e música brasileira, uma salada que passou a ser conhecida como Candombe Beat. Rada deixa a banda em 68 e o grupo se dissolve em 1971.

O regime militar uruguaio se inicia em 1973, quatro anos antes que o argentino e no mesmo ano que o chileno. Apesar do rock ser associado à alienação, é justamente o movimento mais prejudicado tanto no Uruguai quanto no Brasil e Chile. O inconformismo jovem é canalizado justamente para a música popular, no qual se destaca o candombe fusion de Rubén Rada. Após sair de El Kinto, Rada integrou a banda Totem (1970 a 1973), participou de gravações do Opa, mas se destacou mesmo como solista, com muitas incursões na música argentina, incluindo um álbum com o argentino Litto Nebbia.

Concierto Aniversario (1999, gravado em 1997), Jaime Roos.

Concierto Aniversario (1999, gravado em 1997), Jaime Roos.

O mais importante cantautor surgido nos anos 70, seguindo a linha musical de Mateo e Rada, foi Jaime Roos, com influências dos Beatles ao candombe. Após breves passagens por grupos uruguaios, Roos inicia sua carreira solo em Paris, depois se mudando para Amsterdam. Retorna ao Uruguai apenas em 1984, quando grava um de seus maiores sucessos, Durazno y Convención, do álbum Mediocampo. Manteve projetos paralelos com conjuntos de música popular, particularmente de murga, a música do carnaval uruguaio. Fissurado por futebol, dedicou a canção Cometa de La Farola ao primeiro título nacional conquistado pelo Defensor, em 1976, e Cuando juega Uruguay para a Celeste.

Ao completar vinte anos de carreira, fez um show comemorativo no Teatro Solís (o equivalente uruguaio ao nosso Teatro Municipal – carioca ou paulistano), eternizado no CD/DVD Concierto Aniversario, que abre com a bela Si me voy antes que vos, cuja versão original foi gravada em duo com Mercedes Sosa (posteriormente, em 2010, foi realizada nova versão em duo com o argentino León Gieco). Esse show talvez seja a forma mais indicada para iniciar-se na obra de Jaime Roos.

Como era de se esperar, o fim do regime militar marcou o retorno do rock (rock mesmo!) à cena musical. Entretanto, o protagonismo dessa vez ficou por conta dos grupos e artistas argentinos, ficando as novas bandas uruguaias relegadas a segundo plano, em situação inversa ao ocorrido nos anos 60. Os grupos surgidos nessa fase, em sua maioria, perderam força nos anos 90. Tanto que o primeiro artista uruguaio da nova geração bem sucedido internacionalmente foi Jorge Drexler, oriundo da música popular com elementos modernos, no estilo da nossa MPB. Ainda assim, em 1995, após abrir shows em Montevideo para Caetano Veloso e Joaquín Sabina, seguiu conselho deste último e foi tentar a vida em Madrid, onde vive até hoje.

Rantifusa (1998), Buitres después de la una.

Rantifusa (1998), Buitres después de la una.

Das poucas bandas sobreviventes dos 80, que obtiveram reconhecimento nacional nos anos 90, destaco Buitres Después de la Una, ou simplesmente Buitres (ufa!), grupo formado a partida da banda punk oitocentista Los Estómagos. Portanto, oficialmente a estréia da banda ocorre nos anos 90, deixando o passado punk para trás e seguindo um caminho mais parecido com o nosso Barão Vermelho com alguns toques de Titãs. Atingem o mercado argentino em 1995 e estouram em 1998 com seu sexto álbum, Rantifusa, produzido por Jaime Roos. A primeira metade dos anos 2000 é o auge de popularidade dos Buitres. Em 2009 lançaram uma coletânea dupla sobre os 20 anos de carreira que serve como bom ponto de partida, assim como os álbuns ao vivo dos shows de 10 e 17 anos de carreira.

Uma vertente que ficou popular no Uruguay foi o rock com influências de ritmos latinos como o ska e reggae, num estilo Paralamas ou Mano Negra, como La Vela Puerca, La Abuela Coca e No Te Va Gustar, todas surgidas na segunda metade dos anos 90.

El Ritmo del Barrio (2001), Abuela Coca.

El Ritmo del Barrio (2001), Abuela Coca.

La Abuela Coca é a mais antiga, lançando seu primeiro álbum em 1996, com participação de Rubén Rada, e possui poucos discos ao longo da carreira, sendo o último e sexto álbum lançado em 2010. A coletânea 20 Años é uma boa opção para conhecer o som do grupo, abrindo com Y la abuela también, do álbum Vos, de 2010. A coletânea vem como disco bônus o álbum El Ritmo del Barrio, de 2001. A faixa-título e Cría Cuervos mostra bem o estilo do grupo e suas influências.

Normalmente Anormal (2009, gravado entre 2007-2008), La Vela Puerca.

Normalmente Anormal (2009, gravado entre 2007-2008), La Vela Puerca.

Mais populares, mais pesados e mais roqueiros são os rapazes de La Vela Puerca. Lançaram seu primeiro disco em 1998, mas é no segundo, De Bichos y Flores (2001), que a banda ganha reconhecimento na cena nacional. Tiveram a ousadia de desaparecer por dois anos do país, Investindo em shows pela América Latina e Europa. Os álbuns mais bem sucedidos comercialmente são Piel y Hueso, duplo de 2011, e os ao vivo Normalmente Anormal (duplo, 2009) e Uno Para Todos (2014), ambos gravados em Buenos Aires, sendo que o primeiro contém também apresentações em Montevideo.

Este fuerte viento que sopla (2002), No Te Va Gustar.

Este fuerte viento que sopla (2002), No Te Va Gustar.

O No Te Va Gustar, liderado por Emiliano Brancciari e formado em 1994, ainda na escola, mas com o primeiro álbum lançado apenas em 1999, é o mais bem sucedido na retomada do rock uruguaio no século XXI. Além do ska, reggae e candombe, o grupo pode ser enquadrado também no estilo indie folk que se tornou popular na cena pop internacional.

A banda ganha distinção com seu segundo (e, na minha opinião, o melhor) álbum, Este furte viento que sopla, de 2002, gravado no Chile. Na sequência foram conquistando importante público na Argentina, chegando ao ápice em 2006, quando lançam seu quarto álbum, Todo es tan infamable. Este disco contém os maiores sucessos da banda, entre os quais se destaca comercialmente Pensar. Na mesma época, o grupo perde seus baixista e baterista do trio original (antes de lançar seu 1º disco, a banda já havia se tornado uma tropa de 8 músicos – atualmente são 9). O álbum de 2010, Por lo menos hoy, já apresenta um som mais diluído.

Calhou de eu conhecer também a banda Trotsky Vengarán, de punk hardcore, por meio de uma coletânea lançada em 2012. O primeiro álbum da banda é de 1994, mas eles começam a ficar mais conhecidos e ampliar seu público a partir de Durmiendo Afuera (2001), também produzido por Jaime Roos. Seu maior sucesso comercial é Pogo, disco ao vivo de 2003. Na coletâneo é possível notar a mudança de um punk tipo Ramones (dá quase pra ouvir um “1, 2, 3, 4″ antes de cada faixa), passando por um Clash inicial, at´r chegar a um punk mais comercial tipo Green Day, mas sem deixar totalmente as raízes hardcore.