Archive for the ‘Rock/Pop Latino’ category

12 segundos de oscuridad

28/05/2017
12 segundos de oscuridad

12 segundos de oscuridad (2006), Jorge Drexler.

“No es la luz lo que importa en verdad; son los 12 segundos de oscuridad.”

Cabo Polônio é uma pequena vila no litoral norte uruguaio em meio a uma reserva natural. O local não possui energia elétrica nem infraestrutura sanitária. Os estabelecimentos com gerador de energia costumam desligá-los depois das 22h. Tampouco há acesso por estrada. Ou se chega lá caminhando 7 km por bosques e dunas ou as atravessando com um 4×4.

O cenário é dominado por um farol, cuja luz, durante a noite, varre as ruas (?) da vila em intervalos de 12 segundos. Ceta noite, o cantor e compositor uruguaio Jorge Drexler havia esquecido de sair com sua lanterna. Na volta a sua hospedagem, tinha de esperar a luz do farol para vislumbrar seus próximos passos na escuridão. E assim nasceu a ideia da canção título de seu álbum 12 segundos de oscuridad.

Eco, de 2004, é disparado o melhor álbum do uruguaio (ou mesmo do Uruguay), e Sea, de 2001, o álbum que colocou o cantor no mapa. Mas este disco com ares de brisa marinha é, a meu ver, sua segunda melhor obra, com uma sonoridade homogênea (com exceção do cover de Disneylandia, dos Titãs, que encaixaria melhor no álbum de 2001) e uma atmosférica poética.

A faixa-título é uma obra-prima, sendo os outros pontos altos o cover de High and Dry, do Radiohead, que soa como composição própria; a gostosa Inoportuna; e o dueto com Maria Rita em Soledad.

Top 10 – Coletâneas (parte 6)

17/08/2016
Chiapas

Chiapas (1996), vários.

Em meados dos anos 90, pedi a um amigo que viajava pro Chile pra me trazer algum CD de rock chileno. Ele me trouxe de fato um CD, mas se tratava de uma coletânea com vários artistas da América Latina, inclusive Paralamas de Sucesso. E tampouco era só de rock, tendo até Mercedes Sosa. O objetivo do disco, na verdade, era prestar solidariedade à questão social na região de Chiapas, no México. A maioria dos artistas reunidos era de argentinos, mas o disco acabou sendo se tornando, para mim, uma excelente introdução no rock/pop latino dos anos 90.

A versão dos Paralamas de Uns Dias, acústica e com solo de derbake, já valeria o presente. Mas em Chiapas descobri Los Tres, uma das minhas bandas preferidas. Descobri Andres Calamaro, que na época reiniciava sua carreira solo após o fim da banda espanhola Los Rodriguez. Media Verónica seria lançada no álbum Alta Suciedad, mas em versão distinta. Fui enganado com uma faixa folk acústica do Café Tacvba, algo bastante estranho à discografia da banda.

Quem não me animou muito foram os já badalados e oitentistas Charly Garcia e Fito Paez. Tive de “descobri-los” por outras fontes.

No geral, o mais importante foi me acostumar, escutando diferentes gêneros musicais, do rap ao hard rock, ao canto em espanhol. Não foi de imediato. A primeira reação foi de total estranhamento. Só mais de um ano depois, após deixar o disco uma boa temporada na prateleira, consegui me despir de meus preconceitos auditivos e passar a curtir tudo aquilo. Foi o início de uma bela amizade.

Por hoje adorar folk e rock latino, o que me abriu portas para descobrir e gostar de Jorge Drexler, Manel, Sílvia Pérez Cruz, Julieta Venegas, Jaime Roos, Los Fabulosos Cadillacs, Sui Generis, Uchpa, Serú Girán, No te va gustar, Marlango e até mesmo Shakira, entre tantos outros, talvez tenha sido um dos discos mais importantes da minha vida.

L’enfant n’est fait que de fêtes…

06/04/2016
Sans Tsu Tsou

Sans Tsu Tsou (2011), Zaz.

No melhor estilo Rádio Pirata, na sequência de seu primeiro e muito bem sucedido álbum, Zaz emendou um álbum ao vivo e DVD. Felizmente, a superexposição não levou às mesmas consequências e a cantora emendou mais dois bons álbuns, ainda que o segundo seja inferior ao primeiro e o terceiro siga uma linha distinta que não permite comparações.

O álbum ao vivo de um disco só é Sans Tsu Tsou, que eu havia comprado em Paris, mas que é bom mas não me impressionou particularmente. O vídeo eu tive de baixar, pois comprar DVD na Europa pra assistir no Brasil é investimento dos mais arriscados.

Revi recentemente o vídeo e não paro de tocar Zaz na minha cabeça, particularmente as músicas do primeiro álbum, claro. O vídeo é muito simpático, mostrando a cantora em ação em diversas ocasiões: Suíça, França, Alemanha, Bélgica… Com direito a um “clipe ao vivo” nas colinas verdejantes próximas ao que parece ser o Mont Blanc. Uma experiência muito mais interessante que o disco.

A abertura é igual ao álbum, com aqueles plins ploins que parecem sair de um xilofone ou de uma caixinha de música no início de Les Passants.

Quando meu filho tinha apenas alguns meses, minha esposa, desejosa de ouvir algo diferente da coletânea “baby blues” que eu havia feito, colocou Zaz pra tocar. Ao ouvir aquela introdução, Michel congelou. Abriu a boca e arregalou os olhos. Ficou apontando pro aparelho de som todo sorridente. Por um tempo foi um hit dos dos dois, até que a minha esposa parou de colocar o CD.

Às vésperas do primeiro aniversário, muitos meses depois, fui testar a minha coleção de músicas para a festinha. Abria com Les Passants. Michel paralisou e começou a dar gritinhos de alegria em direção ao som. Nitidamente reconheceu a música. Era quase como uma descoberta arqueológica, quando a gente acha um caderno da adolescência, um velho brinquedo perdido no armário. E quando coloquei o vídeo, ele parou de brincar e ficou escutando com atenção, sem sequer olhar pra TV.

Ah, Zaz, assim você me mata…

Les Passants ao vivo.

Top 20 – Álbuns ao Vivo (parte 7)

27/10/2015
No sé si es Baires o Madrid (2008), Fito Paez.

No sé si es Baires o Madrid (2008), Fito Paez.

Fito Páez não é o meu cantautor argentino preferido. Considero a sua voz num tom pouco acima do ideal, mas ainda assim tenho parte bem considerável de sua discografia, pois Fito é um artista complexo, criativo e apaixonado. Quando acerta na veia, sai de baixo!

Neste show gravado em Madri, no Palacio de los Congresos, em 24 de Abril de 2008, encontrava-se numa fase mais intimista, voz e piano. Para meu grandíssimo azar, foi justamente o show que fez no Canecão em um dia de semana e eu fiquei com preguiça de ir (era uma terça-feira, creio). Mal sabia eu que aquela turnê seria uma mostra do meu show preferido dele.

O que já tinha ouvido ao vivo dele não havia me agradado muito, realçando os aspectos que me fazia gostar dele pero no mucho. A princípio, não era pra eu comprar um disco ao vivo dele, mas achei o título tão charmoso (e o preço tão em conta) que resolvi comprar. Gostei tanto que parti pro DVD, muito mais completo e arrebatador.

Em No sé si es Baires o Madrid, Fito acerta o tom, encontra o equilíbrio ideal entre emoção, lirismo e harmonia. Quase inteiramente em piano e voz. Outros instrumentos, como guitarra, violão, trompete, violoncelo, são agregados pelos músicos convidados (todos residentes em Madri), com exceção de uma interpretação catártica sua só na guitarra em Ciudad de Pobres Corazones, uma das quatro canções presentes no DVD mas ausentes do CD.

O show também serviu para me apresentar alguns artistas espanhóis, nem todos devidamente explorados por mim (ainda). Só pela descoberta de Marlango, a banda da atriz/cantora/compositora Leonor Watling, o concerto já merece um lugar especial no meu coração. Os rapazes do Pereza ainda preciso conhecer melhor. Por outro lado, valeu o incentivo a comprar uma coletânea de Ariel Rot, que acompanha o anfitrião numa excelente versão de Giros, que até então era, para mim, apenas o guitarrista/compositor de Los Rodriguez. E ainda estão lá o cubano Pablo Milanés e a cantora/atriz espanhola Gala Évora, entre outros.

O show marca também o reencontro de Fito com Joaquín Sabina, que merece um dos extras no DVD, que terminaram brigados as gravações de Enemigos Íntimos, álbum que lançaram juntos em 1998.

Contigo, com Fito Paez e Joaquín Sabina.

Top 20 – Álbuns ao Vivo (parte 5)

14/10/2015
Los Tres MTV Unplugged (1996).

Los Tres Unplugged (1996).

O disco que me abriu definitivamente as portas para o pop/rock latino-americano foi uma coletânea beneficente da qual participava Mercedes Sosa, Fito Paez, Charly Garcia, Café Tacvba e também os Paralamas. Entre as faixas que mais me agradou estava uma versão ao vivo de Flores Secas, uma música de forte estilo jazzístico dos completamente desconhecidos Los Tres.

Um belo dia, na finada Gramophone do 1° piso do Shopping Gávea, passava os dedos despretensiosamente pelo saldão da loja e lá estava o Los Tres MTV Unplugged. Continuei minha rápida pesquisa sem dar maior atenção, pois havia registrado “Los Lobos”. Mas algo me fez voltar e conferir: “não, é Los Tres!”. Então me lembrei daquela faixa da coletânea de Chiapas e logo virei na contracapa para ver se Flores Secas estava ali. Não estava. Dei uma desanimada. Mas o preço era tão convidativo (menos de 4 reais na época, cerca de 97/98) que resolvi comprar assim mesmo.

A primeira audição foi de total estranhamento, o que é normal quando se começa a ouvir pop/rock em uma língua que não a inglesa. Pra tornar a empreitada ainda mais desafiadora, algumas faixas (logo as primeiras!) eram bem distantes daquele jazz que havia me agradado. Afinal, o show registrava principalmente o álbum no qual a banda faz a ponte entre o rock e o folk chileno.

Lá pela terceira ou quarta audição (que saudades desse tempo em que era possível dedicar tantas horas a um único álbum) já estava encantado com a maestria instrumental da banda, os arranjos e as letras um tanto arrojadas (algumas até mesmo pretensiosas). O único pecadilho do disco é o som um pouco grave demais.

Assim como o Alchemy do Dire Straits, o show registra versões definitivas para muitas canções e transcende o aspecto “coletânea ao vivo”. Até então, Los Tres haviam lançado apenas três álbuns. Do segundo foi retirada apenas uma faixa, Gato por liebre, muito melhor do que a versão em estúdio. As demais faixas dividem-se entre o primeiro e terceiro álbum, além de uma faixa totalmente inédita, Traje desastre, nunca registrada em estúdio. No final do show, uma homenagem com três canções a Roberto Parra (compositor e folclorista chileno, irmão de Violeta Parra), duas cuecas e um foxtrote.

Fiquei tão fissurado pelo álbum que, numa época em que vendas pela internet ainda engatinhavam e os sites de busca eram sofríveis, tratei de correr atrás de outros CDs da banda, conseguindo importar os três primeiros diretamente de uma loja chilena (infelizmente, no mesmo mês em que o dólar “descongelou” no início do 2° mandato de FHC).

A partir daí, não parei mais de pesquisar e explorar bandas e artistas de pop/rock hispânico. Quanto mais eu conhecia, mais eu via que valia a pena.

O álbum foi lançado em 1996, mas a gravação, feita nos estúdios da MTV em Miami, foi realizada em setembro de 1995. Trata-se do primeiro unplugged de um grupo chileno para a MTV.

Aqui está o show quase completo da MTV. Algumas faixas do show não foram transmitidas, de forma que o CD é mais completo.

Sempre teremos Paris…

09/08/2015
Paris (2014), Zaz.

Paris (2014), Zaz.

O terceiro álbum de estúdio da cantora francesa Zaz é inteiramente dedicado a Paris. Trata-se de uma coleção de canções antigas, com a exceção de Paris, l’après-midi, que tem a cidade como tema central. A única canção não francesa é I Love Paris, de Cole Porter, em dueto com a cantora canadense Nikki Yanofsky, mas é cantada em francês e inglês.

Outra participação transatlântica é a de Quincy Jones, que produz três faixas do disco: Champs Elysée (que virou uma espécie de “a chanson vai ao Harlem”), o dueto com Nikki em I Love Paris/J’aime Paris, e o dueto com a lenda viva da canção francesa, Charles Aznavour, em J’aime Paris au mois de Mai, que o próprio Charles apelidou de “Zaznavour”. As três receberam o arranjo de uma Big Band conduzida por John Clayton. É curioso notar que, no encarte, as faixas produzidas por Quincy Jones vêm acompanhada de uma logomarca própria do responsável por Thriller.

Em La Romance de Paris, do ator, cantor e compositor Charles Trenet, Zaz divide os vocais com o jazzista francês Tomas Dutronc. E, claro, não podia faltar um pouco de Piaf em Sous Le ciel de Paris (sim, o nome da cidade aparece em 9 das 13 faixas, sendo que outra se chama La Parisienne – o título do álbum NÃO é propaganda enganosa).

À Paris, uma canção de 1949, é executada sem instrumentos, só com um precioso arranjo vocal. Paris canaille, de 1953, vira um blues rasgado no final. J’ai deux amours, uma canção feita para Joséphine Baker em 1930 que já ganhou versão de Madeleine Peyroux, ganha uma roupagem sessentista, com um início vocal estilo doo-wop, seguindo como balada rock italiana tipo Rita Pavone para desaguar num gospel.

Em seus dois primeiros álbuns, Zaz transita com sua voz rouca entre o pop e a canção tradicional francesa com bastante fluidez. Nessa homenagem, é natural que a tradição das composições e arranjos se sobressaiam. Mesmo assim, ela consegue imprimir modernidade e jovialidade em canções dos anos 30, 40 e 50 sem muito esforço. La Parisienne e Dans mon Paris, por exemplo, poderiam muito bem estar em outro álbum seu. Edith Piaf já é figurinha fácil em seus shows, assim como os scats, estilo no qual ela deita e rola no disco.

Em um álbum monotemático, há variedade suficiente para manter a atenção do ouvinte. Além do mais, é Paris, né?

Making of das gravações com Quincy Jones.

Mano Negra (Rock Hispânico parte final)

02/08/2015

Não podia encerrar essa digressão pelo pop/rock hispânico sem falar do Mano Negra. Apesar do grupo ser de origem francesa, seu líder, Manu Chao, tem raízes espanholas. Junto com seu irmão e um primo, formou em 1987 o Mano Negra, uma banda de oito integrantes que mistura que mistura de tudo um pouco: rock, punk, flamenco, ritmos africanos e caribenhos, como reggae e ska. As canções são divididas entre o francês, o inglês, de maior destaque inicialmente, e o espanhol, que acaba prevalecendo mais pro final.

Patchanka (1988), Mano Negra.

Patchanka (1988), Mano Negra.

A estréia discográfica em 1988 com o álbum Patchanka, com composições que Chao já tinha acumulada e não teve a oportunidade de gravar em outras bandas da qual participou. O disco, que traz ótimas faixas como Mala Vida, Índios de Barcelona, Ronde de Nuit, Rock Island Line e Noche de Acción, fez sucesso na Europa.

O sucesso foi consolidado no ano seguinte com Puta’s Fever, considerado o melhor álbum da banda, que traz Pas assez de toi, King Kong Five e uma versão da música árabe Sidi ‘h’ Bibi. O sucesso levou o grupo ao Japão, México e EUA, onde nunca conseguiu grande penetração, apesar das boas críticas.

Puta's Fever (1989), Mano Negra.

Puta’s Fever (1989), Mano Negra.

No álbum de 1991, King of Bongo, o grupo tentou fazer um som mais voltado para o mercado americano, o que gerou algumas críticas. Mas, apesar de mais composições em inglês, há um certo exagero em acusá-los de se afastarem do espírito original. No mesmo ano eles gravam um álbum ao vivo gravado no Japão, In the Hell of Patchinko, no qual tocam um cover de Chuck Berry, County Line.

Foi em 1992 que escutei Mano Negra pela primeira vez, quando tocaram nos Arcos da Lapa em show que fazia parte dos eventos da Rio 92. O show vibrante contou com a participação de Jello Biafra, com quem tocaram I fought the Law (na versão do Dead Kennedys, claro). Aquele naipe punk de metais me remeteu a algumas canções de The Clash. E tudo isso de graça!

Eventualmente o álbum seguinte, Casa Babylon (1994), acabou chegando às minhas mãos com La Vida, Machine Gun, Santa Maradona, Sueño de Solentíname… Infelizmente, a banda original já havia se desintegrado e o Mano Negra acabou.

Clandestino (1998), Manu Chao.

Clandestino (1998), Manu Chao.

Manu Chao seguiu uma bem sucedida carreira solo, deixando de lado a parte do punk rock presente na sonoridade do Mano Negra. Com composições mais direcionadas para o público latinoamericano, Clandestino, sua estréia solo em 1998, foi muito bem recebido pela crítica e pelo público. Chao adotou um estilo cigano, viajando e tocando pela América Latina, inclusive sentando em praças com violão em puno, como fez na Lapa e Santa Tereza, no Rio. A canção Minha Galera foi dedicado ao período que passou no Brasil.

Na sequência, lançou Próxima Estación… Esperanza e o ao vivo Radio Bemba Sound System. Chao não só manteve os temas de sempre (drogas, estilo de vida alternativo, crítica social) como também a mesma sonoridade, tornando a sua música um tanto previsível e repetitiva, a ponto de La Radiolina, lançado em 2007, soar com uma reciclagem dos álbuns anteriores. Poucos anos antes, em 2004, lançou um disco só de músicas em francês, Sibérie m’était contéee, que vem acompanhado de um livro de ilustrações do polonês Jacek Woźniak.