Archive for the ‘Rock/Pop Latino’ category

A Voz dos 80 e as Vozes dos 90 (Rock Hispânico parte 5)

21/06/2015
Pateando Piedras (1986), Los Prisioneros.

Pateando Piedras (1986), Los Prisioneros.

Tanto o heavy metal quanto o punk rock entraram no gosto da juventude chilena nos anos 80. Mas o governo Pinochet não era terreno dos mais férteis para o desenvolvimento de uma cena roqueira nacional de vulto. A banda que consegue romper esse obstáculo, mesmo com letras críticas e postura contestatória, é Los Prisioneros, tornando-se a principal referência musical da década de 80.

Formada em 1979, Los Prisioneros mesclavam punk com batida new wave e lançaram seu primeiro álbum em 1984, La Voz de los 80. Trata-se de um trio formado por Jorge González (voz e baixo), Claudio Narea (guitarra) e Miguel Tapia (bateria). Em 90, Claudio deixa a banda, que lança apenas mais um álbum antes de seu fim. Um retorno do grupo nos anos 2000 rende mais dois discos.

O primeiro álbum foi totalmente independente e sua divulgação encontrou alguns problemas com a censura. O segundo álbum, Pateando Piedras, incorpora teclados e sintetizadores, estourando comercialmente com hits como ¿Por qué no se van? e El baile de los que sobran, considerada a música mais emblemática da banda. Los Prisioneros mantinham na época uma rixa unilateral com os argentinos do Soda Stereo.

O disco seguinte, La Cultura de la Basura (1987), foi um estouro de venda devido ao hype, mas na verdade não agradou muito, refletindo um clima de desagregação interna. Minha canção preferida do grupo, We are sudamerican rockers, é dessa época, mas só saiu na edição sulamericana do álbum, editado no ano seguinte. A canção é uma brincadeira sobre o domínio do rock anglófono no continente e só foi lançada no Chile na coletânea de 1992, Grandes Êxitos, que marcou o fim da banda.

Com o fim da Era Pinochet e a volta da democracia ao Chile, foi possível consolidar uma cena rock no país. Dessa nova geração musical se destacaram as bandas Lucybell, La Ley e Los Tres.

Uno (2000), La Ley.

Uno (2000), La Ley.

La Ley foi a banda chilena a alcançar maior destaque internacional. Começou em 1987 sob liderança do guitarrista Andrés Bobe, com a pretensão de fazer um som que misturasse Duran Duran, The Cure e Depeche Mode. Após experimentar diferentes vocalistas, inclusive feminino, chegam a Beto Cuevas, um talentoso vocalista com nacionalidade canadense.

Após um álbum independente em 1989, lançam Doble Opuesto em 1991, atingindo imediatamente o mercado mexicano, a Meca dos roqueiros chilenos. O segundo álbum homônimo, lançado em 1993, consolida o sucesso da banda, que é chamada pra fazer música para programas de TV, apresentações no México e Estados Unidos, incluindo a gravação de um MTV Unplugged, sendo a primeira banda hispanoamericana que realizaria tal proeza. Entretanto, a gravação não aconteceu devido à morte de Andrés Bobe em um acidente de trânsito em 1994 (quem acabou estreando a atração foram os argentinos dos Fabulosos Cadillcs). Bobe também iria produzir o álbum de estréia da banda Lucybell.

Com a morte de seu líder e principal compositor, o futuro da banda tornou-se incerto, incluindo aí disputas de direitos com os familiares de Bobe. A banda dá a volta por cima com o disco Invisible (1995), que bate em vendagens o Soda Stereo (feito que Los Prisioneros não conseguiram). No mesmo ano, a banda muda sua base para o México.

A segunda metade da década foi de divergências entre os integrantes, com a saída do baixista original, Luciano Rojas, em 1999. Em 2000 sai o álbum Uno, que garante um Grammy ao grupo. O álbum é um pop/rock competente e bem produzido, mas não impressiona. No ano seguinte a banda grava finalmente seu MTV Unplugged, que mereceu mais um Grammy Latino, além de prêmios da Bilboard e da MTV Awards. O grupo se separara em 2005, voltando bem mudado em 2014.

Todos Sus Exitos (2003), Lucybell.

Todos Sus Exitos (2003), Lucybell.

Lucybell é uma banda alternativa inspirada no britpop, com estreia discográfica em 1995 e ainda ativa. Em 2003 se mudou para Los Angeles em busca de sucesso internacional. Assim como o La Ley, não há nada no som da banda, até onde escutei, que remeta a uma fusão do pop/rock com a música popular. As músicas ficam entre a batida eletrônica e clima etéreos, como em Carnaval.

Se La Ley foi a banda de rock chileno de maior repercussão internacional, Los Tres é a mais importante e influente dos anos 90, combinando rock, jazz e música folclórica, ao contrário de seus conterrâneos acima citados, que seguem a cartilha do pop/rock internacional . Surgida a partir da amizade entre o guitarrista e vocalista Álvaro Henríquez e o baixista Roberto ‘Titae’ Lindl, a eles se juntaram o baterista Francisco Molina e o guitarrista Ángel Parra, neto de Violeta Parra.

Los Tres (1991).

Los Tres (1991).

O primeiro álbum, Los Tres, lançado em 1991, apresenta uma mistura de rockabilly com o jazz e traz logo de cara cinco importantes faixas: Pájaros de Fuego, He barrido el sol, La primera vez (um petardo contra Pinochet), a jazzística Flores Secas e a popular Un amor violento, que muito lembra as músicas românticas de Roberto Carlos da época da Jovem Guarda. O regime militar é um tema recorrente do disco, que não conta com uma produção das melhores.

Se Remata El Siglo (1993), Los Tres.

Se Remata El Siglo (1993), Los Tres.

O álbum seguinte, Se Remata El Siglo, foi lançado pela Sony e recebeu produção mais apurada. Contudo, foi criticado pelo excesso de influência do grunge. Uma versão posterior remasterizada do CD tratou de “limpar” essa influência do disco.

La Espada & La Pared (1995), Los Tres.

La Espada & La Pared (1995), Los Tres.

É com La Espada & La Pared, de 1995, que o grupo atinge o seu auge e consolida o seu som, incorporando elementos da música popular. Ainda assim, o álbum conta com o blues rasgado Hojas de Té, e covers de All tomorrow’s parties, do Velvet Underground, e Tu cariño se me va, uma homenagem a Buddy Richard, cantor das origens do rock chileno nos anos 60. Incluí esse disco no meu Top 20 dos anos 90.

A qualidade de letra e música de canções como Déjate caer e Tírate permitiu ao grupo atingir uma larga faixa de público e alcançar o mercado mexicano, atraindo a atenção dos músicos do Café Tacvba. Tal repercussão fez o grupo voar a Miami para gravar um MTV Unplugged em 1995. Naquele mesmo ano, a TV americana investiu firme no mercado hispanoamericano, produzindo ainda o unplugged do argentino Charly Garcia e das bandas mexicanas Café Tacvba e Caifanes.

Los Tres Unplugged (1996).

Los Tres Unplugged (1996).

O MTV Unplugged é um grande sucesso, com releituras preciosas das canções e excelente execução instrumental, com os músicos fazendo-se valer de sua formação jazzística e acadêmica. O show apresenta uma canção inédita, Traje Desatre, nunca lançada em estúdio, e termina com uma homenagem a Roberto Parra, tio-avô de Ángel recém falecido, emendando três composições tradicionais. Uma delas, Quién es la que viene allí, é versão do foxtrot Yes Sir, that’s my baby. Algumas canções da banda ganharam sua melhor versão nesta apresentação, particularmente La Primera Vez e Pájaros de Fuego.

O mergulho do grupo na música folclórica o levou a gravar um álbum duplo ao vivo inteiramente dedicado a cuecas e cumbias (dois ritmos populares). Foi lançado também Peinate, o registro de uma apresentação da banda junto com Roberto Parra e seu irmão Lalo Parra realizada em 1994.

Fome (1997), Los Tres.

Fome (1997), Los Tres.

Após a digressão pela música popular, Los Tres volta com tudo para o presente em Fome (1997). Apesar de ter um instrumental mais enxuto, o álbum apresenta uma coleção de composições complexas, diversificadas e letras herméticas. Um disco de grande vitalidade e criatividade. Faixas como Bolsa de mareo, Olor a gas e La Torre de Babel nem de longe remetem ao título, uma gíria chilena que significa “aborrecido”, “sem graça”, “chocho”.

La Sangre en el Cuerpo (1999), Los Tres.

La Sangre en el Cuerpo (1999), Los Tres.

O álbum de 1999, La Sangre em el Cuerpo, tenta seguir a mesma linha, mas os atritos internos impediram que atingissem o mesmo nível. Na época, Álvaro Henríquez estava casado com a estrela mexicana em ascensão Julieta Venegas, que participa da faixa No me gusta el sol. O grupo se separou no fim da turnê lançando o disco ao vivo Freno de Mano. Tanto o título quanto a capa referente ao Let it be dos Beatles simbolizam bem o momento “apagar das luzes”.

Entre 2000 e 2006, Henríquez montou a banda Los Pettinellis e depois gravou um álbum solo. Os demais integrantes formaram o Ángel Parra Trío, uma grupo de jazz. Molina logo saiu e seguiu projetos particulares. Em 2002, os amigos mexicanos do Café Tacvba gravam um EP em tributo à banda, Vale Callampa, fazendo releitura de quatro composições. Pancho Molina é o único a não se interessar pelo retorno do grupo em 2006.

Hágalo usted mismo (2006), Los Tres.

Hágalo usted mismo (2006), Los Tres.

A banda retoma as atividades com o ótimo Hágalo Usted Mismo, emplacando sucessos como a faixa-título e Cerrar y Abrir. Incluí este álbum no meu Top 20 da década de 2000. O álbum seguinte, Coliumo, só saiu em 2010, dedicado às vítimas do terrível terremoto daquele ano. Musicalmente, não possui a mesma força do disco de regresso. Em 2013, Ángel Parra deixa a banda.

Na sequência do boom do rock nacional ocorrido tardiamente nos anos 90, vale citar Javiera y Los Imposibles, grupo de Javiera Parra, irmã de Ángel (e, portanto, neta de Violeta Parra), com estreia discográfica em 1995, que contou com a ajuda de duas composições da lavra de Álvaro Henríquez (Los Tres), que ainda chamou o companheiro de banda Roberto Lindl para tocar no álbum. O álbum AM, de 2001, é composto de versões de sucessos das rádios AM dos anos 70, fazendo muito sucesso com as faixas Maldita Primavera, Respiro e No, basicamente baladas românticas (como o próprio conceito do álbum sugere). O disco seguinte, El Poder de Amar, segue uma proposta mais pop, se afastando do som mais eclético do álbum original.

O Rock e a Nova Canção Chilena (Rock Hispânico parte 4)

15/06/2015

O rock surgiu no Chile como nos demais países da região: grupos jovens influenciados pelo rock americano dos 50 e pelo rock britânico dos 60. Assim como na Argentina, não surgiu no Chile um fenômeno como Roberto Carlos. Mas, assim como no Brasil, surgiu um movimento forte de música popular. No final dos anos 60, surgiu a Nova Canção Chilena, visando resgatar a música tradicional do país. Uma geração inspirada pela obra de Violeta Parra, falecida em 1967. Entre os expoentes estavam Victor Jara, Isabel Parra e os conjuntos Inti-IllimaniQuilapayún, entre outros.

Minha introdução à música chilena, bem antes de me aproximar dos roqueiros argentinos, foi justamente pela NCC, particularmente por Inti-Illimani, um grupo de música popular que, entre vários ritmos do continente, exploravam também a música andina, que eu já conhecia e admirava a partir de um disco ao vivo de Paul Simon, Live Rhymin’.

Na intenção de conhecer mais sobre esse tipo de som, pedi para uma amiga chilena me enviar uma fita com mais músicas do país. Para minha surpresa, veio uma fita TDK 90 com uma banda de cada lado, Los Jaivas e Congreso, e justamente com o que calhou de ser meus dois discos chilenos preferidos dos anos 70: Canción del Sur e Terra Incógnita. A partir daí, ainda que sem perder de vista a NCC, o meu interesse musical mudou de foco.

O movimento da NCC provocou uma fusão com os roqueiros influenciados pelo rock psicodélico do final dos anos 60 e pelo rock progressivo dos 70. O resultado foi um som muito particular que eu costumo chamar de “progressivo andino”. Esse “rock” chileno setentista tem algum paralelo com a música mineira do período, tanto da galera do Clube da Esquina quanto de grupos como 14 Bis e Uakti, oscilando de forma indefinida entre o rock e o popular.

O gênero, chamado de fusión latinoamericana, mistura rock, folk e jazz. Os principais expoentes são as duas bandas já citadas, Los Jaivas e Congreso (e também as mais longevas e bem sucedidas), e Los Blops, que acabou junto com os anos 70.

Vale ressaltar que tanto Congreso quanto Los Jaivas têm sua formação baseada em núcleos familiares. Congreso é composto em torno dos irmãos González, Patrício, Sérgio e Fernando. Dos outros integrantes, destacam-se Francisco Sazo e Joe Vasconcellos. Los Jaivas é formado a partir dos três irmãos Parra (de família distinta de Violeta Parra), Claudio, Eduardo e Gabriel (os dois últimos já falecidos), tendo Gato Alquinta como vocalista e guitarrista (também falecido).

Canción del Sur (1977), Los Jaivas.

Canción del Sur (1977), Los Jaivas.

Com uma ou outra faixa puramente de música folclórica, a música de Los Jaivas possui estrutura muito calcada no rock progressivo, com longas passagens instrumentais e diferentes movimentos ao longo das faixas. O uso da guitarra tem DNA inconfundivelmente roqueiro. O meu álbum preferido é Canción del Sur, mas o mais famoso deles é Alturas de Macchu Picchu, no qual musicaram o poema de Pablo Neruda.

A banda se mudou primeiramente para a Argentina após o golpe militar. Lá lançou três discos, sendo o último justamente Canción del Sur, no ano do início do regime militar naquele país. Esse período deu bastante projeção à banda no continente. Faixas como En la Cumbre de un Cerro e a faixa-título misturam guitarra elétrica e sintetizadores com elementos do folclore do sul, enquanto Frescura Antigua é uma faixa instrumental puramente inspirada na música popular andina. E, de certa forma, Dum Dum Tambora, retirada do folclore uruguaio, me soa como uma versão folclórica de Hey Jude (viajando na maionese aqui).

Com o clima pesando na Argentino, o jeito foi radicar-se de vez em Paris. Com as sucessivas turnês europeias, acabou se tornando o grupo chileno mais popular fora do país junto com o Inti-Illimani, este na seara mais folclórica, que se instalou na Itália.

Alturas de Macchu Picchu (1981), Los Jaivas.

Alturas de Macchu Picchu (1981), Los Jaivas.

Alturas de Machu Picchu, o álbum seguinte, só saiu quatro anos depois, em 1981. A ideia de musicar o poema de mesmo nome de Pablo Neruda partiu de um produtor peruano. O grupo procurou manter-se fiel aos versos originais, mas tomou a liberdade de fazer uma colagem de trechos diferentes do poema, não o explorando na íntegra. Assim, enquanto La Poderosa Muerte foi composta utilizando-se trechos de quatro cantos distintos do poema, o último canto foi dividido em duas faixas, Sube a nascer conmigo Hermano e Final. A parte musical é considerada uma boa tradução do clima do texto.

Um especial para a TV foi gravado nas próprias ruínas de Macchu Picchu, apresentado por Mario Vargas Llosa (qualquer semelhança com Pink Floyd em Pompéia é mera inspiração). Na turnê do álbum, o grupo não teve problemas em se apresentar no Chile, Argentina e Uruguai.

Após um álbum-tributo a Violeta Parra, lançado em 1984, a banda diminuiu suas atividades. Em meados dos anos 90, volta a se instalar no Chile, retomando a produção musical com mais intensidade até 2001, quando gravou seu último álbum, apesar de ainda ser uma banda em atividade. Ao longo da carreira, a troca de integrantes foi constante, inclusive com a participação de filhos dos integrantes originais.

Terra Incógnita (1975), Congreso.

O Congreso teve uma trajetória um tanto distinta. Seu primeiro álbum, El Congreso (1971), tinha uma influência mais inequivocamente roqueira do que a de Los Jaivas, como fica evidente na faixa Vamos andando mi amigo. Enquanto elaborava o álbum seguinte, ocorreu o golpe militar, atrasando a realização do próximo álbum, que só foi lançado em 1975. Terra Incógnita mereceu estar no meu disputado Top 30 dos anos 70. O DNA roqueiro do primeiro álbum encontra-se praticamente imperceptível, com as composições mais voltadas para a música popular, e até mesmo com algumas faixas de música andina, como Quenita, Violín, ou numa vibe Secos & Molhados em Canción del Reposo. O disco seguinte, o bom Congreso (1977), mantém as mesmas características do anterior, com alguns arroubos do progressivo, no caso dos dez minutos de Arco Iris de Hollín e os oito e meio da “folk-progressiva” Los Elementos. Começa a surgir a influência do jazz, que mais tarde se torna a característica principal do grupo. Apesar da situação política, a banda consegue se manter baseado no Chile. Em 1978, a Igreja faz uma encomenda para musicar uma liturgia com arranjo de música andina. Misa de los Andes é um álbum conceitual e totalmente anticomercial.

Viaje por la cresta del mundo (1981), Congreso.

Viaje por la cresta del mundo (1981), Congreso.

Em seguida, há uma mudança considerável na composição do grupo e, consequentemente, no som da banda, que ganha uma roupagem mais no estilo “progressivo andino”. O álbum seguinte, Viaje por la Cresta del Mundo, de 1981, que pode ser considerada uma resposta latinoamericana ao Journey to the Center of the Earth de Rick Wakeman. O álbum abre com um hit, Hijo del Sol Luminoso, a única canção que subsiste independentemente do resto da obra. As outras sete faixas compõem um instigante álbum conceitual muito bem urdido em termos instrumentais.

A partir do álbum seguinte, Ha llegado carta (1983), o grupo incorpora de vez aspectos jazzísticos a sua sonoridade, mas sem abandonar ainda algumas peças mais chegadas ao progressivo, como em Sur e Ingreso a la hiperbórea del sur.

A banda segue em atividade, entre saídas e retorno de integrantes, oscilando entre o popular e o jazz fusion, até 1995. De lá pra cá, diminui de atividade, tendo lançados apenas três espaçados álbuns nos últimos vinte anos.

A Era de Ouro do Rock Argentino (Rock Hispânico parte 3)

01/06/2015
Clics Modernos (1983), Charly Garcia.

Clics Modernos (1983), Charly Garcia.

Coincidência ou não, o fim da Guerra das Malvinas marcou o início da Era de Ouro do rock argentino. Considerando o início do BRock, a data parece mais relacionada ao movimento musical internacional, com o New Wave e o pós-punk, do que ao fim do regime militar argentino já em 1983. O mais inusitado é que o primeiro protagonista desses novos tempos tenha sido justamente o último ídolo surgido nos velhos tempos: Charly Garcia.

Ao longo dos anos 80, Charly emplacou quatro álbuns de grande impacto. Em 1982 lançou Yendo de la cama al living, emplacando a faixa-título, com participação de Nito Mestre (ex-parceiro do Sui Generis), e Yo no quiero volverme tan loco, com participação de León Gieco. O álbum também conta com participações de Pedro Aznar (ex-companheiro do Serú Girán) e Spinetta.

Com embalagem eletrônica típica dos 80, Clics Modernos não tem nenhuma grande canção de destaque, mas funciona bem no conjunto, sendo considerado um dos melhores do pop/rock argentino. Particularmente, prefiro o álbum seguinte, Piano Bar (1984), que apresenta o hit Demoliendo Hoteles, no qual lida com sua própria fama (justificada) de artista temperamental. O álbum conta com a participação de Alfredo Toth (ex-Los Gatos) e um jovem Fito Paez.

Depois de uma tentativa frustrada de álbum conjunto com Spinetta (que acabou o fazendo com Fito Paez) e outro, concretizado, com Pedro Aznar, Charly lança Parte de la religión somente em 1987, considerado por parte da crítica como seu melhor álbum. Ele toca quase tudo no disco, fora algumas participações especiais, com David Lebón (ex-Serú Girán) tocando guitarra em duas faixas, Paula Toller e Os Paralamas do Sucesso. Ou seja, já em 87 Herbert e Cia flertavam com os roqueiros hermanos.

Nesses anos, Charly tinha uma banda para acompanhá-lo nos shows, da qual se destacam o baixista Cachorro Lopez, um jovem Andres Calamaro nos teclados e, fazendo backing vocal, Fabiana Cantilo, então esposa de Fito Paez.

Parte de la religión eu deixei escapar na minha coleção, mas tenho os dois álbuns seguintes, Cómo conseguir chicas, de 1989, e Filosofía barata y zapatos de goma, de 1990.

Cómo conseguir chicas (1989), Charly Garcia.

Cómo conseguir chicas (1989), Charly Garcia.

Cómo conseguir chicas é uma espécie de álbum de sobras desde a época do Sui Generis, que conta com a participação de Herbert Vianna, L. Shankar, Fabiana Cantilo e Claudio Gabis (ex-Manal). Herbert participa da faixa Zocacola, uma homenagem à esposa brasileira de Charly, que o deixa pouco depois.

Filosofía barata y zapatos de goma foi o álbum da ressaca da separação, no qual Charly contou com o apoio dos amigos Andres Calamaro, Nito Mestre, Fabiana Cantilo, Gustavo Cerati (do Soda Stereo) e Pedro Aznar.

Contudo, ambos os álbuns mostram uma fadiga de material. Como comecei a ouvir sua carreira solo justamente por estes discos, cheguei a pensar que sua fama como solista era exagerada, até encontrar num sebo uma edição empoeirada de seu MTV Unplugged de 1995, que serve muito bem como álbum introdutório de sua obra.

De fato, os anos 90 não foram muito bons para Charly, que enfrentou problemas de saúde e se escorou em parcerias com Pedro Aznar e Mercedes Sosa. O disco mais conceituado do período é Say no more (1996).

Los Abuelos de la Nada (1982).

Los Abuelos de la Nada (1982).

Outro artista influente no início do rock/pop dos 80 também é das antigas. Miguel Abuelo retorna dos EUA e reconstrói a sua banda Los Abuelos de la Nada. A banda participou do impulso inicial do rock nacional nos anos 60, mas se dispersou após o primeiro single. Na época, contava com Claudio Gabis, que viria a ser guitarrista do Manal, e Pappo, que viria a integrar Los Gatos e Pappo’s Blues.

A nova formação contou com Cachorro López, Daniel Melingo (cantor de tango e saxofonista que havia tocado com Milton Nascimento), Gustavo Bazterrica (ex-guitarrista de La Máquina de Hacer Pájaros), o baterista Polo Corbella e Andres Calamaro. Calamaro, em início de carreira, também fazia parte da banda de apoio de Charly Garcia, que era o produtor musical do grupo.  Bazterrica e Calamaro dividiam os vocais e as composições da banda com Abuelo.

O som da banda tem bastante suingue, com muita percussão e guitarra funkeada. A música de trabalho do primeiro álbum homônimo bomba nas rádios argentinas, No te enamores nunca de aquel marinero Bengalí. Do mesmo álbum sai a primeira composição de sucesso de Andres Calamaro, Sin Gamulán.

Ao longo da curta carreira, Los Abuelos de la Nada emplacam mais dois grandes hits, Mil Horas e Costumbres Argentinas, ambas de Calamaro. No início de 85, Bazterrica sai, e no final do ano foi a vez de Calamaro e Cachorro Lopez. A banda continuou completamente modificada até a morte de Miguel Abuelo de AIDS em 1988.

Nadie sale vivo de aqui (1989), Andres Calamaro.

Nadie sale vivo de aqui (1989), Andres Calamaro.

Os primeiros álbuns solos de Andres Calamaro apresentam um pop/rock comercial bem medíocre, não dando ao artista o mesmo reconhecimento que a sua passagem por Los Abuelos de la Nada. Mais relevante no período foi seu trabalho como produtor das bandas Enanitos Verdes e Los Fabulosos Cadillacs.

Em 1989, junto com o amigo Ariel Rot, guitarrista argentino radicado na Espanha, gravou seu primeiro grande álbum solo, Nadie sale vivo de aqui, um sucesso de crítica. A começar pela faixa-título, de um minuto e meio, o disco é uma série de faixas curtas, cuja maior duração não chega a 4 minutos. Mas devido à grave crise econômica pela qual passava o país, o reconhecimento do meio musical não correspondeu a um sucesso comercial. Desapontado, Calamaro segue com o amigo Ariel para tentar a vida na Espanha. Lá, os dois montam a banda Los Rodriguez, que revolucionam a cena rock espanhola e se transformam em banda-referência do rock hispânico. Mas sobre essa fase eu entro em mais detalhes quando falar sobre a Espanha.

Alta Suciedad (1997), Andres Calamaro.

Alta Suciedad (1997), Andres Calamaro.

Após o fim de Los Rodriguez, Calamaro retorna a Buenos Aires e retoma a sua careira solo. Sua reestreia é em grande estilo. Alta Suciedad (1997) não só é seu melhor trabalho como um dos melhores álbuns do pop/rock argentino, e integrou meu Top 20 dos anos 90. Desfilando uma série de sucessos, como a polêmica Loco, Flaca, Media Verónica e Crímenes Perfectos, o álbum flerta com gêneros mais populares em Donde manda marinero e El novio del olvido, com o blues em El tercio de los sueños, e brinca com a mitologia roqueira em Elvis está vivo.

Entretanto, o sucesso na carreira coincidiu com uma crise pessoal: sua esposa o trocou pelo velho amigo Charly Garcia. Se o troca-troca de casais era bastante comum nos anos 60/70, seja entre os artistas ingleses ou entre os argentinos, Calamaro não levou a traição nos anos 90 na boa. Portanto, nada de convidar Charly e Calamaro para o mesmo palco, problema com o qual o amigo em comum Fito Paez tem de lidar.

A ressaca emocional fez Calamaro mergulhar no trabalho. Assim, seu álbum seguinte, Honestidad Brutal (1999), foi um CD duplo, com 37 faixas no total. O problema é que, ainda que metade das canções tenham lá sua qualidade, o segundo CD quase todo acrescenta pouco ao álbum, no qual se destaca um cover do tango Naranjo em Flor. Mesmo o primeiro CD tem aquelas faixas com inevitável cara de tapa-buraco. Dessa forma, Calamaro, na ânsia de exorcizar seus demônios, perdeu grande chance de fazer um disco (simples) extraordinário. Mesmo assim, o álbum contém algumas de suas músicas mais significativas: Paloma, Cuando te conocí, Te quiero igual, La parte de adelante e Clonazepán y circo. Tem ainda a divertida Maradona e ótimo tango Jugar con Fuego, composto junto com Mariano Mores, famoso compositor de tango.

No ano seguinte, Calamaro perde de vez a linha, lançando o álbum quíntuplo El Salmón. A egotrip inclui muitos covers e algumas versões alternativas. A maior parte do material do segundo ao quinto disco não conta com um acabamento muito rigoroso, seja nos arranjos, nas letras ou sequer na execução. Se Honestidad Brutal poderia ter sido um ótimo álbum simples, El Salmón poderia ter sido um excelente álbum duplo. O primeiro CD contém canções emblemáticas como Días distintos, Tuyo siempre, Ok perdón, Horarios Esclavos, All you need is pop e um cover do tango Cafetín de Buenos Aires, de Mariano Mores e Discépolo. No material adicional, destaque para os covers de Durazno Sangrando, sucesso de Spinetta da época do Invisible, o tango Malena, e para a versão soul de No se puede vivir del Amor.

Compreensivelmente esgotado artisticamente, Calamaro dá um tempo e só retorna em 2004 com um álbum de covers de canção popular, com uma embaraçosa versão de A Distância, de Roberto Carlos, e apenas três composições próprias, das quais La Libertad e Estadio Azteca são as melhores faixas do disco.

Depois de uma extensa turnê que marca seu retorno aos palcos após seis anos, Calamaro lança um disco de tango, Tinta Roja. Apesar de ser muito bem recebido pela crítica, considero as incursões avulsas no gênero superiores às do álbum, semelhante ao que acontece com os covers internacionais de Caetano Veloso em relação aos álbuns inteiramente dedicados a eles.

La Lengua Popular (2007), Andres Calamaro.

La Lengua Popular (2007), Andres Calamaro.

Neste século, Calamaro se tornou uma espécie de figura onipresente na cena musical argentina, a ponta de uma banda de rock colocar em seu CD o aviso “este disco não teve a participação de Andres Calamaro”. Os álbuns seguintes carecem de relevância, exceto por La Lengua Popular (2007), um de seus melhores álbuns, que lhe garantiu o Grammy Latino de 2008. É uma boa coleção de faixas, especialmente Carnaval de Brasil, Mi Gin Tonic e La mitad del amor.

Com o passar dos anos, não apenas o visual do artista faz lembrar Bob Dylan, mas também a sua voz cada vez mais esgarçada.

Del 63 (1984), Fito Páez.

Del 63 (1984), Fito Páez.

Entre as carreiras solo iniciadas nos anos 80, a que alcançou maior destaque a longo prazo talvez tenha sido a de Fito Páez. Como cantor, sua voz sempre me soou um tom acima do adequado, mas a sua capacidade musical acabou por me conquistar.

O cantor, com seu inseparável piano, debuta em 1984 com o álbum Del 63, uma referência ao ano de seu nascimento. A faixa-título tem uma bela letra, mas o álbum é mal produzido. Pra se ter uma ideia, eu conheci a canção numa coletânea. Quando ouvi o disco original pela primeira vez, achei que o meu CD estava com defeito. Outro destaque do álbum é Rumba del piano.

O álbum seguinte, Giros (1985), tem produção bem superior, mas igualmente irregular. A faixa-título é uma linda mistura do pop com o tango. Outro destaque é 11 y 6, com participação de Pedro Aznar. No ano seguinte gravaria seu álbum em conjunto com Spinetta.

Os álbuns de Fito nos anos 80 mostra um artista oscilando entre o pop e o rock, sendo Ciudad de pobres corazones, de onde saiu a música Track Track, o seu álbum mais roqueiro. Mas conheci Fito Páez antes da apresentação dele, via Paralamas, ao público brasileiro. Foi no filme Sur, de Fernando Solanas, onde faz uma ponta de roqueiro-celebridade que “pega” a amiga da protagonista.

El amor después del amor (1992), Fito Páez.

El amor después del amor (1992), Fito Páez.

Apesar de já ter alcançado notoriedade nos anos 80, é nos anos 90 que Fito Páez estoura internacionalmente e supera o amigo Charly Garcia como grande astro do pop/rock argentino. El amor después del amor (1992), que entrou no meu Top 20 dos anos 90, é o melhor álbum do artista e um dos melhores da discografia argentina. Com participação de Charly Garcia, Fabiana Cantilo (já como ex-esposa), Andres Calamaro, Mercedes Sosa, Spinetta, Ariel Rot e Celeste Carballo (cantora de blues). É uma coleção de hits: a faixa-título gospel, Pétalo de sal, Un vestido y un amor, Tumbas de la gloria, La Rueda Mágica, Brillante sobre el mic, Dos dias en la vida. Ainda assim, considero um álbum com mais baixos do que Alta Suciedad de Calamaro. Mas é cabeça com cabeça os meus dois discos argentinos preferidos.

Nesse álbum, Fito alcança a mistura ideal para o seu pop/rock, com tendência mais assumidamente pop. Mas ele não chegou a isso da noite pro dia. O álbum anterior, o bom Tercer Mundo (1990), já apontava nessa direção. Contudo, ao tentar manter a fórmula no álbum seguinte, Circo Beat (1994), decepciona um pouco. Talvez a expectativa fosse demasiada. Mas o álbum traz o hit Mariposa Tecknicolor.

Enemigos Íntimos (1998), Fito Páez + Joaquin Sabina.

Enemigos Íntimos (1998), Fito Páez + Joaquin Sabina.

O projeto seguinte representou um grande revés, o dueto com o cantor espanhol Joaquín Sabina. Enemigos Íntimos é mais do que o título do álbum, é um resumo da falta de química que rolou no estúdio. A incompatibilidade foi tanta que a turnê, já agendada, foi cancelada. Apesar de tudo, o álbum produziu o sucesso Llueve sobre mojado, e também ressalto Delirium Tremens, talvez por razões mais cervejeiras do que musicais.

Fito volta à forma no final da década, com Abre (1999), com o sucesso Al lado del camino, e Rey Sol (2000), o qual, ainda que desprovido de grandes hits, considero a melhor sequência musical para El amor después del amor. Na época, Fito havia adotado um filho com sua segunda esposa, Cecília Roth, atriz e irmã de Ariel Rot, de quem se separou no ano seguinte.

Neste século, Fito entrou numa vibe mais intimista, tipo voz e piano, que rendeu o excelente álbum ao vivo No sé si es Baires o Madrid, que já comentei aqui. Nesse show, gravado em Madri, participam vários artistas espanhóis ou radicados no país. A participação de Joaquín Sabina cantando Contigo exala mais cumplicidade do que qualquer uma das 14 faixas de Enemigos Íntimos.

Recentemente, Fito vem buscando desafios, impondo temas para cada álbum (covers, amor, sordidez, homenagens) em intensa produção.

Comfort y Música para Volar MTV Unplugged (1996), Soda Stereo.

Comfort y Música para Volar MTV Unplugged (1996), Soda Stereo.

Soda Stereo foi um trio de pop/rock, formado por Gustavo Cerati (voz e guitarra), Zeta Bosio (baixo) e Charly Alberti (bateria) que causou furor no continente ente 1984 e 1997, ocasião de seu último concerto, no estádio do River Plate. É possível que a banda tenha recebido influência de bandas como The Police, Talking Heads, Television e coisas do gênero no início, mas o resultado no final soa mais como um Duran Duran portenho (com melhores resultados, particularmente o trabalho de guitarra de Cerati).

A influência da new wave já fica evidente no disco de estréia, produzido por Federico Moura, do grupo Virus, então principal referência new wave da Argentina. O álbum já emplaca logo de cara uns quatro hits: ¿Por qué no puedo ser del Jet-Set?Te hacen falta vitaminasUn misil en mi placard e Sobredosis de TV.

O álbum seguinte, Nada Personal, já busca maior diversidade sonora, destacando-se nesse sentido Cuando pase el temblor. A turnê pelo continente faz sucesso considerável no Chile e no Peru. Tal sucesso foi consolidado e abrangido nas turnês dos dois álbuns seguintes, chegando ao México.

É em 1990 que o Soda lança o seu álbum mais emblemático, Canción Animal, que leva a banda à Espanha. Daqui saiu o maior sucesso do grupo, De música ligera, que ganhou uma excelente versão fiel do Paralamas e uma com a letra totalmente alterada do Capital Inicial, rebatizada como A sua maneira.

A troca de gravadora no auge do sucesso e a opção por uma maior experimentação fizeram a banda perder um pouco o pique. Mas ainda tiveram tempo de, em seu último disco, Sueño Stereo (1995), emplacar o sucesso Ella usó mi cabeza como un revólver.

Em 1996 gravaram um histórico MTV Unplugged, que recebeu o título de Comfort y música para volar. Trata-se, na minha opinião, da melhor exibição instrumental do trio (com músicos convidados), dando profundidade e sofisticação a seus sucessos.

Gustavo Cerati morreu em 2014 por complicações de um AVC sofrido quatro anos antes. Sua carreira solo contou com a inércia positiva de ser um popstar consagrado.

Vasos Vacíos (1993), Los Fabulosos Cadillacs.

Vasos Vacíos (1993), Los Fabulosos Cadillacs.

Los Fabulosos Cadillcs é uma banda de ska punk que se manteve em atividade contínua de 1985 a 2002, retornando depois por breves períodos. É impossível ouvir faixas como V Centenario sem lembrar imediatamente de Mano Negra, a banda franco-hispânica liderada por Manu Chao. Só que o grupo liderado por Vicentico é mais antigo e mais chegado à música popular. Ambos provavelmente se inspiraram nas bandas inglesas que mesclaram o punk com os ritmos caribenhos, como The Specials e o próprio The Clash. Aliás, o grupo tem uma boa versão para Revolution Rock, faixa do London Calling. A mesma crise econômica que levou Andres Calamaro à Espanha levou os Fabulosos Cadillacs aos Estados Unidos, passando por um breve período de ostracismo. Em 92 dão a volta por cima com o álbum El León, e chegam à consagração com Vasos Vacíos (1993), uma compilação na qual a maioria das faixas receberam nova versão. O título é tirado do duo com a Rainha da Salsa, a cubana Celia Cruz.

La Era de la Boludez (1993), Divididos.

La Era de la Boludez (1993), Divididos.

Sumo foi uma banda de rock alternativo que lança seu primeiro disco em 1985, o Divididos por la felicidad, título em homenagem à banda Joy Division. A influência do grupo britânico ganha contornos trágicos em 87 com a morte do vocalista, Luca Prodan, de cirrose. A banda se dividiu e um dos “filhotes” obteve bastante sucesso, a banda Divididos, fundada no ano seguinte por Ricardo Mollo (guitarrista) e Diego Arnedo (baixista). É difícil estabelecer um estilo para os Divididos, que vai do folk ao hard rock. Dá apenas pra dizer que sabem pesar o som quando querem. A banda continua em atividade, mas reduziu radicalmente suas atividades após 2002.

Lo Esencial (2008), Enanitos Verdes.

Lo Esencial (2008), Enanitos Verdes.

Os Enanitos Verdes, apesar de formada em 1979, só debutou discograficamente em 1984. Com um pop/rock típico dos anos 80, semelhante ao produzido no Brasil, a banda fez bastante sucesso até 1989, quando Marciano Cantero sai em carreira solo. Mas a banda retornou em 1992 e continua em atividade.

Outras bandas relevantes surgidas no período, mas que não tive a oportunidade de conhecer, são:

Los Ratones Parnoicos, de estilo mais Stones, surge em 1986 liderados por Juanse. Abriram para os Rolling Stones na turnê de 1995 e conseguiram tocar com Mick Taylor. A banda terminou em 2011.

Vírus, banda de new wave que lançou sete álbuns ente 1981 e 1989. Seu líder, Federico Moura, morreu de AIDS em 88, sendo substituído por seu irmão no último álbum. A banda retornou em 94, mas com baixíssima produtividade.

Patricio Rey y sus Redonditos de Ricota é considerada uma das mais influentes do período, buscando fugir do circuito comercial, fazendo poucas concessões ao mainstream e à mídia. Montada em 1976, só obteve popularidade (na base do boca a boca) nos anos 80. De certa forma, lembra muito o que o Ira! tentou ser em seu início. Seu primeiro álbum, Gulp!, foi lançado apenas em 84. A contraposição de estilos criou uma rivalidade entre os fãs do Ricota e os fãs do Soda Stereo. Encerrou suas atividades em 2001.

Charly Garcia e o Rock Argentino dos Anos 70 (Rock Hispânico parte 2)

23/05/2015

Poucos anos antes do regime militar, a cena musical argentina foi tomada pelo folk rock estilo America, James Taylor, Simon & Garfunkel ou os primeiros anos de Bob Dylan. Seus principais expoentes foram León Gieco e o duo Sui Generis.

León Gieco incorporou o folclore argentino em suas canções e se especializou na crítica social e política. Já em seu terceiro disco, em 1976, teve sérios problemas com a censura, o que o levou a um breve auto-exílio nos Estados Unidos. Tive a infeliz ideia de ouvir Gieco mais adiante no álbum Orozco, de 1997, bem fraquinho. Esse seria um caso de explorar primeiro uma coletânea, haja vista a extensa carreira desse bardo argentino.

Confesiones de Invierno (1973), Sui Generis.

Confesiones de Invierno (1973), Sui Generis.

Sui Generis já foi objeto de um post aqui no blog. Partindo do folk para um soft rock em seus dois primeiros álbuns, Vida e Confesiones de Invierno (o meu favorito), até chegar, em seu terceiro álbum, Pequeñas anécdotas sobre las instituciones, a elementos psicodélicos e progressivos, constituindo-se não mais no duo formado por Charly Garcia e Nito Mestre, mas em banda completa, a qual fazia parte David Lebón, ex-Pescado Rabioso.

Charly estava cada vez mais encantado por complexos arranjos instrumentais, o que deixava meio de lado seu companheiro Nito Mestre. Além disso, complicações com a censura ainda durante o governo peronista e confusões na turnê acabaram levando à dissolução da banda.

PorSuiGieco (1976).

PorSuiGieco (1976).

Nada disso impediu o surgimento de uma superbanda, a PorSuiGieco, iniciada por uma turnê em 1975 com uma proposta de fazer uma reunião de globetrotters semelhante ao Crosby Still Nash & Young. O grupo era formado pela dupla do Sui Generis, León Gieco, Raúl Porchetto  e Maria Rosa Yorio, então esposa de Charly Garcia.

Raúl Porchetto era um músico oriundo do rock progressivo, autor do álbum Cristo Rock, que contou com a participação de Charly, Oscar Moro (ex-Los Gatos), Claudio Gabis e Alejandro Medina (ambos ex-Manal), entre outros

Maria Rosa Yorio até então só havia participado como backing vocal do último disco do Sui Generis, de Cristo Rock e de um álbum solo de David Lebón. Em evidência após o breve sucesso do grupo, deu início a sua carreira de cantora, sendo um equivalente para o rock argentino o que Rita Lee foi para o rock brasileiro, mas sem a mesma longevidade.

O PorSuiGieco tem uma trajetória semelhante aos Doces Bárbaros: artistas independentes, amigos e participantes do mesmo movimento musical que se juntam para uma turnê e acabam gravando um disco.

A banda se separa logo depois, com Charly Garcia iniciando seu novo projeto, La Máquina de Hacer Pájaros, e León Gieco partindo pros EUA.

20/19 (1981), Nito Mestre.

20/10 (1981), Nito Mestre.

Nito Mestre montou a banda  Los Desconocidos de Siempre, que contou com a participação, entre outros, de Alfredo Toth (ex-Los Gatos) e Maria Rosa Yorio, que acabou se separando de Charly e se tornando companheira de Mestre. A banda durou três anos e rendeu três álbuns. O primeiro disco solo de Mestre, 20/10, gravado com uma pequena ajuda dos amigos, foi muito bem recebido, já com uma abordagem mais pop/jazz. As parcerias caracterizaram seu trabalho ao longo da década.

Peliculas (1976), La Máquina de Hacer Pájaros.

Peliculas (1976), La Máquina de Hacer Pájaros.

La Máquina de Hacer Pájaros foi o mergulho de Charly Garcia no rock progressivo, com muito Rick Wakeman e Procol Harum na cabeça, que experimentava um boom na Argentina. A banda contava com a participação de Oscar Moro. O primeiro álbum homônimo foi muito bem recebido, contando ainda com algumas sobras de composições da época do Sui Generis  Escutei apenas o segundo (e último) disco, Películas, que achei com muitas firulas baseadas em dois teclados.

Com crise no matrimônio, com dificuldade de se adaptar às exigências da paternidade como um Lennon portenho, e a chegada dos militares ao poder, em 1977 Charly Garcia decidiu passar uma temporada no Brasil. Passou um ano em Búzios, onde morou com sua segunda esposa, uma bailarina brasileira chamada Zoca, e mergulhou na música local (particularmente Milton Nascimento). Retornou a Buenos Aires decidido a formar uma nova banda, o Serú Girán, que também já mereceu um post aqui.

Bicicleta (1980), Serú Girán.

Bicicleta (1980), Serú Girán.

A Charly García se juntaram David Lebón, Ocar Moro e um jovem baixista chamado Pedro Aznar. O Serú Girán foi o auge do rock progressivo argentino depois deste ter desaparecido como movimento. Mas o grupo só vingou em seu segundo álbum, La Grasa de las Capitales, de 1979. O álbum apresenta proposta conceitual e traz o sucesso Viernes 3am, que mereceu uma versão sensacional dos Paralamas do Sucesso (na minha opinião, uma das melhores faixas já gravadas por Herbert e Cia.).

O álbum seguinte, Bicicleta, é sua obra master, cujas composições se mostram mais diversificadas em termos de estilo.

O último álbum, Peperina, menos inspirado, sai em 1981, e a curtíssima turnê do ano seguinte marca o final do Serú Girán, uma das mais importantes bandas do rock argentino.

Após o fim do grupo, David Lebón teve uma intensa carreira solo nos anos 80, diminuindo drasticamente suas atividades nas décadas seguintes.

A carreira de Pedro Aznar merece atenção. O fim do Serú Girán foi marcado pela ida de Aznar para Berklee. O baixista acaba integrando o Pat Metheny Group até 1984, quando começa a sua carreira solo. Músico virtuoso, dedicou-se a trilhas sonoras e participações com vários artistas, como Soda Stereo e Shakira, mas principalmente com os ex-companheiros Charly Garcia e David Lebón.

Charly Garcia partiu logo pra sua estreia como artista solo, num álbum 2 em 1: o seu álbum de fato e uma trilha sonora. O que mais impressiona no início da bem sucedida carreira solo de Charly é como um roqueiro vindo do soft rock e do progressivo se adequou à cena pop dos 80 como se pertencesse àquela geração. Mas isso será abordado no próximo capítulo.

Spinetta e as origens do rock argentino (Rock Hispânico parte 1)

18/05/2015

É comum considerar o surgimento do rock argentino como gênero próprio a partir de 1967. Não que antes não houvesse rock na Argentina, mas ele era totalmente influenciado pela música estrangeira, haja vista o som e o visual dos Beat Boys, banda argentina que acompanhou Caetano Veloso na gravação e apresentação de Alegria, Alegria. Talvez tenha faltado aos argentinos uma figura como Roberto Carlos para alavancar a primeira onda do rock nacional.

Nesse período, o rock argentino não sofria influência apenas do rock americano dos anos 50 e do rock britânico dos 60, mas também do que era produzido no México, na cola de Ritchie Valens, e no Uruguay, puxada pelos Los Shakers, a ponte de se falar de uma invasão britânica e uruguaia. Como atualmente a produção cultural de Montevideo orbita em torno do que de faz em Buenos Aires, é de se admirar essa influências nos anos 60. Há quem ainda defenda que o Tango, assim como Carlos Gardel, nasceu no Uruguay, mas aí já é outra história.

O tripé fundador é constituído pelas bandas Manal, Los Gatos e Almendra. Interessante notar que nenhuma delas durou muito tempo. Haveria ainda um quarto grupo, Los Abuelos de la Nada, que gravou dois singles e se separou, com seu líder Miguel Abuelo partindo pra França e só voltando dez anos depois para integrar a cena musical dos anos 80.

Inolvidables (2003), Los Gatos.

Inolvidables (2003), Los Gatos.

O som de Los Gatos é o que mais se adéqua aos sucessos comerciais da época, com forte influência melódica dos Beatles, Beach Boys e quetais, além do mesmo cacoete romântico (e órgão) da Jovem Guarda.

Seu primeiro single, La Balsa, em junho de 1967, é considerado a pedra fundamental do rock argentino, uma espécie de Quero que vá tudo pro inferno portenho. O grupo durou somente até 1971, com cinco álbuns lançados, formado por Lito Nebbia (voz e gaita), Oscar Moro (baterista), Alfredo Toth (baixo), Ciro Fogliatta (teclados), e a guitarra alternando entre Kay Galifi, Norberto Aníbal Napolitano e Alfredo Toth.

Oscar Moro, já falecido, se tornou um importante músico do rock argentino, tocando com vários artistas e bandas, integrando um dos mais importantes grupos de rock do país, Serú Girán.

Norberto Aníbal Napolitano se torna Pappo, do Pappo’s Blues, que se tornou um dos pioneiros do heavy metal no país

Lito Nebbia é considerado pela geração roqueira dos anos 70/80 uma influência essencial em suas carreiras. Nebbia já estava na estrada desde o início da década até estourar com La Balsa. Após o término da banda, seguiu importante carreira solo, sendo nos anos 70 influenciado pelo jazz e pelo rock progressivo. Da carreira solo, contudo, não conheço nada, exceto o álbum que gravou junto com Andres Calamaro em 2006, El Palacio de las Flores (por sinal, o mais fraco disco de Calamaro pós-Los Rodriguez).

Conheci Los Gatos pela coletânea Inolvidables, que possui algumas boas faixas, mas nada realmente imperdível.

El León (1971), Manal.

El León (1971), Manal.

Manal é um trio de hard rock blues formado por Alejandro Medina (baixo, teclados e voz), Claudio Gabis (Guitarra, piano, gaita e órgão) e Javier Martínez (bateria e voz). A influência forte do blues e o vocal gutural me remetem a um The Doors encontra Motorhead. A banda foi formada em 1968, mas só conseguiu gravar dois álbuns entre 1970 e 1971, acabando logo em seguida. Para merecer tamanha reverência em tão curta vida, deve ter causado muito furor na época, pois é difícil pra mim perceber uma influência do grupo no desenvolvimento do rock nacional. O principal feito do trio parece ter sido gravar com sucesso blues em espanhol. Pappo, ex-guitarrista de Los Gatos, parece ter ocupado papel mais efetivo nesse sentido.

Claudio Gabis teve intensa participação em discos de artistas e bandas argentinas, e até mesmo no Brasil, tocando no primeiro disco solo de Ney Matogrosso.

Conheço o álbum de 1971, El León, cuja produção deixa muito a desejar. É curioso imaginar que na Argentina, por essa época, tinha gente fazendo esse tipo de blues mais pesadão, como é possível conferir em Paula, mas fica só nisso mesmo.

Almendra (1970).

Almendra (1970).

Almendra, a minha banda favorita desse tripé, é um quarteto de rock psicodélico com toques de blues. Durou apenas de 1967 a 1970, com alguns singles gravados antes do álbum de estreia em janeiro de 70. Um retorno entre 1979/1981 acabou rendendo mais um disco.

Conhecido como Almendra I, o álbum de estreia é reconhecido como um dos melhores do rock argentino. O grupo ainda apresentava resquícios do rock melódico dos 60, mas já dava o pontapé inicial no rock psicodélico/progressivo argentino dos anos 70. O CD atual, assim como o Are you experienced?, abre com os singles da época, e fecha com alguns singles posteriores e outtakes.

Dos singles, destacam-se o Tema de Pototo (para saber como és la soledad) e Final. Do álbum inicial, o grande sucesso da banda foi Muchacha (Ojos de Papel). Na sequência, uma faixa de 9 minutos, a viajante Color Humano. Não há faixa ruim ou letra banal, além de apresentar estilos musicais variados.

O álbum seguinte, Almendra II, duplo, é melhor produzido. O lado psicodélico se torna mais evidente e os solos de guitarra mais frequentes. Como a maioria dos álbuns duplos, se mostra mais irregular que o Almendra I. Se o álbum possui muitas faixas curtas, com menos de 3 ou 2 minutos, Agnus Dei, com seus mais de 14 minutos, ocupa praticamente todo o antigo lado B.

A banda era formada por Luís Alberto Spinetta (guitarra e voz), Edelmiro Molinari (guitarra), Emilio del Guercio (baixo) y Rodolfo García (bateria). Mas é o nome de Spinetta que deve ser gravado na memória por quem quer conhecer o rock argentino. Entrando e saindo de bandas ao longo dos anos 70, com eventuais álbuns solos, ele foi o principal nome dos anos 70, influenciando toda uma geração.

Pescado 2 (1973), Pescado Rabioso.

Pescado 2 (1973), Pescado Rabioso.

Compositor extremamente criativo, infelizmente sua voz frágil nem sempre dava conta das necessidades de suas canções. Depois de um confuso disco experimental chamado Spinettalandia, o jovem ídolo argentino Luis Alberto Spinetta fundou a banda Pescado Rabioso com Black Amaya (bateria), Carlos Cutaia (teclados) e um jovem David Lebón (baixo, guitarra e voz), que mais tarde se tornaria um importante nome da música argentina e integraria, junto com Oscar Moro de Los Gatos, a banda Serú Girán.

A banda puxa mais pra uma mistura do psicodelismo com o rhythm & blues. O primeiro álbum, Desatormentándonos, ainda não ouvi. O segundo e último (pois é, o peixe hidrofóbico durou apenas de 71 a 73), Pescado 2, outro álbum duplo na discografia de Spinetta, tem o arrojo de um álbum branco, alternando, assim como em Almendra II, faixas curtíssimas com outras de 7 ou 8 minutos, num total de 18 faixas. Uma viagem musical que vale muito a pena, apesar das limitações vocais de Spinetta, como se pode notar em Amame Peteribi.

Artaud (1973), Pescado Rabioso/Luís Alberto Spinetta.

Artaud (1973), Pescado Rabioso/Luís Alberto Spinetta.

Enquanto Spinetta se inclinava cada vez mais ao experimentalismo e composições mais complexas, o resto da banda preferia o rhythm & blues. Assim, a banda se desintegrou. Só que Spinetta queria mostrar que a banda era ele. Chamou, então, antigos companheiros do Almendra e o seu irmão para gravar um terceiro disco do Pescado Rabioso, mas que se trata na verdade de um álbum solo. Artaud é considerado o maior disco do rock argentino, uma espécie de The Dark Side of the Moon nacional. Tem uma pegada mais acústica e experimental. A bela Todas las hojas son del viento,  Cementerio Club (ótimo riff!) e a curiosa Cantata de Puentes Amarillos, que com seus nove minutos parece uma demo acústica de um rock progressivo clássico, são muito boas, mas não é minha obra preferida de Spinetta. Pelo conjunto, ainda prefiro o Pescado 2, ou mesmo o primeiro Almendra, embora Artaud seja realmente uma obra mais bem acabada.

Durazno Sangrando (1975), Invisible.

Durazno Sangrando (1975), Invisible.

Ainda em 1973, Spinetta fundou uma nova banda, Invisible, que durou até 1976 e lançou três discos. Calhou de eu conhecer a banda pelo seu disco menos badalado, o segundo, mas que contém a sua música mais famosa, Durazno Sangrando, que mereceu muitos covers e dá nome ao álbum de 75. Trata-se de uma obra conceitual típica do rock progressivo, inspirado no taoismo. Encadenado al anima, primeira faixa, tem 15 minutos de letra e música bem viajandona, num estilo meio Yes de ser (e até de cantar). O disco mais bem cotado do grupo é El Jardín de los Presentes, de 1976.

A 18' del Sol (1977), Luís Alberto Spinetta.

A 18′ del Sol (1977), Luís Alberto Spinetta.

Antes mesmo do fim oficial do Invisible, Spinetta partiu para o seu primeiro disco assumidamente solo, A 18’ del Sol, lançado em 1977. O artista agrega a suas influências roqueiras o jazz moderno, o que dá ao álbum uma certa sonolência para quem não curte muito o gênero como eu. Mas certamente angariou fãs fervorosos. O efeito em mim foi desistir de seguir a discografia de Spinetta a esmo. Resolvi partir direto pro Estrelicia MTV Unplugged, de 1997, show com ares compilatórios, para ver se estava perdendo alguma coisa.

Estrelicia MTV Unplugged (1997), Luís Alberto Spinetta y Los Socios del Desierto.

Estrelicia MTV Unplugged (1997), Luís Alberto Spinetta y Los Socios del Desierto.

Entre o A 18’ del Sol e o Estrelicia, Spinetta retornou brevemente com o Almendra, fundou uma nova banda, o Spinetta Jade, retornou à carreira solo e, à época do show, tocava acompanhado de Los Socios del Desierto. A impressão que tive ao ouvir o álbum é que pouco ou nada havia mudado em seu som nesses 20 anos. Neste hiato, Kamikaze, álbum solo de 1982, é bastante elogiado. Do Spinetta Jade, destaca-se Bajo Belgrano, do ano seguinte. Mas só me animei a investir no disco gravado junto com um ainda iniciante Fito Paez, o La la la, em 1986. Outro álbum duplo, por sinal. Das vinte faixas, Fito compôs sete e Spinetta dez; e uma única foi composta em conjunto, Hay otra canción. O resultado final é mais orgânico do que a experiência posterior de Fito Paez com o espanhol Joaquín Sabina.

La La La (1986), Luís Alberto Spinetta + Fito Paez.

La La La (1986), Luís Alberto Spinetta + Fito Paez.

Luís Alberto Spinetta faleceu em 2012.

Rock Hispânico, esse desconhecido (Introdução)

13/05/2015

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O rock em espanhol é uma vertente do rock praticamente desconhecido entre os brasileiros. Quando se trata da música romântica na voz de Julio Iglesias, do popular na voz de cordilheira de Mercedes Sosa e das cantoras de bolero de outrora, ou ainda do tango de Gardel, a língua não parece ser uma barreira a ser transposta. Mas quando se trata de rock…

Mesmo em português, até os anos 80 se travou a discussão se o rock deveria ser cantado em português ou se seria um estilo mas afeito ao inglês. O sucesso o BRock oitentista acabou ganhando a parada. Se a discussão continuou nas gerações seguintes, pelo menos eu não participei dela. Nada de diferente aconteceu com nossos hermanos. À medida que aspectos da música popular de cada país foi sendo incorporada ao rock anglo-saxão, a discussão foi perdendo a força e o canto na língua pátria foi se fazendo relevante e essencial.

Entretanto, quando se trata de um brasileiro ouvir rock em espanhol (ou mesmo em português de Portugal), aquilo soa tão ou mais fora do lugar como o rock em português de outrora. Nada de muito diferente ocorre quando se ouve em francês, japonês ou alemão. O estranhamento é o mesmo. Talvez, no caso do espanhol, devido ao bolero e à música romântica, agrega-se a esse estranhamento um sentimento de breguice. Mas é apenas uma questão de costume, de reeducar os ouvidos.

Eu também fui apresentado à música em espanhol pelas canções populares. Minha introdução ao universo roqueiro da vizinhança foi lenta e gradual: uma fita uruguaia aqui, umas pinceladas de Fito Paez acolá, e algumas migalhas chilenas que me conduziram a uma insólita coletânea de pop/rock latino americano. Este CD ficou na minha prateleira por quase dois anos até que eu começasse a apreciá-lo, e daí a me entusiasmar com suas faixas. Mesmo assim, ao começar a explorar as potencialidade do pop/rock em espanhol, cada nova banda/artista parecia me desafiar a romper essa barreira da língua no ouvido. Até que um dia escutar o velho rock bretão na língua de Gardel passou a soar tão normal quanto um disco da Legião Urbana.

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O rock produzido na Espanha e na América Latina pode ser encontrado como “rock em espanhol”, “rock castelhano” ou “rock hispânico”. A escolha do termo a ser usado pode ser mais complicado do que parece. Nas lojas do Cone Sul, é normal ter uma seção de “rock castellano”, mas se você usar esse termo na Espanha, particularmente na Catalunha, é melhor deixar a loja rapidinho. O castelhano é associado à região de Madri, então a galera que mora na Galícia, Andaluzia e Catalunha costuma preferir o termo “espanhol” ou “hispânico”, pois castelhano pode sugerir uma dominação de Castela. Por alguma razão, um raciocínio inverso ocorre na América do Sul, onde “espanhol” ou “hispânico” pode evocar lembranças indesejáveis da dominação espanhola, enquanto “castelhano” é percebido como uma denominação linguística. Não se trata, contudo, de uma observação embasada por pesquisas aprofundadas ou em trabalhos acadêmicos, apenas em comentários ouvidos aqui e ali em meio a viagens pela Espanha, México, Peru, Chile, Argentina e Uruguai.

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O histórico do rock nos países da América Latina (incluindo o Brasil) e Espanha não difere muito: um início rudimentar inspirado no rock de Elvis, Chuck Berry e Cia, consolidado após nova onda com a Beatlemania, com poucas características originais. Na virada dos 60 para os 70, um impulso inspirado na psicodelia e no rock progressivo, que raramente obteve sucesso comercial e que, eventualmente ao longo dos anos 70, experimentou um momento de decadência.

Esses dois movimentos obtiveram diferentes graus de sucesso em cada país. Na Argentina, por exemplo, o rock sessentista não obteve o mesmo êxito do alcançado pela Jovem Guarda no Brasil ou no México, Uruguai e Espanha.

Já a influência do progressivo levou o rock brasileiro e mexicano ao underground, enquanto na Argentina, Peru e Chile deu verdadeiro impulso para o rock nacional. Da mesma forma, apenas em alguns países o heavy metal e o hard rock obtiveram êxito já no final dos anos 70, como no México e na Espanha, com o rock Andaluz.

No caso brasileiro, o fato de seus principais artistas influenciados pelo rock terem levado essa influência para a MPB (e não o contrário) pode ter contribuído para o quase desaparecimento comercial do gênero nos anos 70.

Nos anos 80, uma nova onda, geralmente na cola da new wave e pós-punk, recolocou o rock nas paradas de sucesso e nas cenas nacionais de forma definitiva. Atualmente, em sintonia com uma realidade internacional, o rock não pode ser considerado exatamente mainstream, mas a pulverização de mídias não permite mais uma hegemonia sonora de um determinado estilo nem o desaparecimento de outro.

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Há três mercados no universo do rock hispânico que exercem força gravitacional sobre os demais. O mais forte talvez seja o mexicano, que funciona como Meca a todos os países da América Latina, exceto a Argentina. Os argentinos, como era de se esperar, meio que se bastam, tendo grande influência sobre a produção cultural uruguaia. Já o que se passa no Chile parece ser para os portenhos algo tão distante quanto é, para nós brasileiros, o rock produzido na América Latina. Já as bandas chilenas sonham em conquistar o mercado mexicano. A Espanha abriga artistas argentinos, uruguaios e cubanos por razões distintas, que abrangem a política, a economia e a arte. Não se trata exatamente de uma busca por um mercado mais amplo, como ocorre com o México, que tem ainda como chamariz a possibilidade de “vazar” para o público imigrante dos Estados Unidos.

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Não sou profundo conhecedor da história do rock ou das bandas de toda a América Latina ou da Espanha. Da Colômbia, por exemplo, meu conhecimento se limita à Shakira. Sobre o Peru, um pouco mais, mas quase nada. Sobre México e Espanha, menos do que gostaria. Conheço um pouco mais da cena argentina, chilena e uruguaia, nesta ordem. Mas já dá pra dar início a uma série de posts sobre o rock hispânico e dicas de boas bandas e artistas a serem explorados. Já escrevi no blog sobre a catalã Sílvia Perez Cruz, Charly García e suas encarnações no Serú Girán e Sui Generis, Jorge Drexler, Marlango e Shakira. Los Tres, Fito Paez, Congreso e Andres Calamaro integraram as listas dos Top 20 por década. Tentarei dessa vez dar uma perspectiva histórica e artística desses artistas (e de outros) dentro da cena de cada país.

Zaz no Metrô… digo, no Circo.

22/03/2014
Zaz ao vivo no Circo Voador, Rio de Janeiro (20/3/2014).

Zaz ao vivo no Circo Voador, Rio de Janeiro (20/3/2014).

Na madrugada de domingo pra segunda, fui apresentado pelo meu amigo Bruno à nova promessa da nouvelle chanson, a cantora Zaz (nome artístico de Isabelle Geffroy), avisando aos amigos de seu show no Circo Voador na quinta, dia 20 de março. Não me lembro o que fiquei fazendo no computador naquela noite, mas fiz ouvindo a íntegra de seu 1º disco (ZAZ, de 2010).

O resultado é que no dia seguinte já tinha comprado os ingressos pro show e encomendado o seu 2º CD, Recto Verso. Chegando o dia 20, Zaz estampava sua foto no Segundo Caderno do Globo, e a fila que encontrei sob os Arcos da Lapa era bem maior do que estava acostumado. Pelo menos não choveu. E ainda deu pra ver o finalzinho da passagem de som enquanto retirava os ingressos na bilheteria, pagando o preço justo em troca da doação de 1kg de alimento.

Casa cheia (não precisa muito pra encher o Circo, que sempre põe mais gente pra dentro do que cabe no espaço efetivamente reservado pra assistir ao show), a banda sobe no palco passando de 23:30h, revelando aos gritos a presença ali de muitos e árduos fãs (o que a internet não fez com o mundo…).

A francesinha, com sua voz extremamente rouca, começou emendando canções pop agitadas pra animar a galera, com parcial sucesso. Algumas puxadas de corinho não deram muito resultado, mas ela ficou visivelmente satisfeita com os aplausos e urros no final de cada canção. Simpática, falava francês com a naturalidade com que outros artistas se dirigem a nós em inglês, lendo muitas passagens em português (com pronúncia bem melhor que a dos anglo-americanos). Mas quando chegou a hora de seu sucesso Je Veux, a casa veio abaixo. Até parecia a lendária apresentação do Franz Ferdinand na casa. Para minha surpresa (e para a dela), a galera cantou a música a plenos pulmões com a desenvoltura de um Love of my life no Rock in Rio (em francês? É isso mesmo?!). Dava pra ver os olhos dos músicos brilhando, e Zaz genuinamente emocionada e arrebatada.

A acústica do Circo funciona muito bem da platéia para o palco, numa onda sonora de fazer a alma descolar do corpo. Posso afirmar sem medo de errar que, em termos de show em terras cariocas, o Circo Voador é o nosso alçapão.

Assim, daí pra frente foi só partir pro abraço, com o público na mão, atendendo prontamente a qualquer aceno da musa. No momento “homenagem”, Zaz mandou uma versão moderna de La Vie en Rose e uma tocante interpretação, em português, de Samba em Prelúdio. Esta, aliás, foi a única música lenta que a galera respeitou. Sim, pois no Circo Voador parte da galera que fica na arquibancada e nos limites da tenda não vai pra assistir a um show, mas pra conversar como se estivesse numa boate. Assim, quando o volume da música diminui, é possível ouvir o zumzumzum das conversas tomar corpo. No show do Belle & Sebastian, por exemplo, deu pra saber (involuntariamente) toda a história de uma menina com o namorado. Portanto, se você for ao Circo querendo ouvir música, nunca, jamais fique nas beiradas da tenda, ainda que a visibilidade seja boa.

Creio que o público e Zaz saíram de lá tão ou mais satisfeitos do que eu. Zaz pulava e gritava u-la-lá o tempo todo, talvez querendo que aquele momento congelasse no tempo.

Dia seguinte, passei na Saraiva pra pegar meu Recto Verso. Como não tô ganhando nada com isso, aviso logo que a Cultura também tá vendendo, e pelo mesmo preço. O álbum, claro, é muito bom, alternando o pop-rock com canções mais puxadas pra música popular francesa.

Comme ci, comme ça ao vivo na Espanha e a apoteose de Ja Veux no Circo Voador.

Recto Verso (2013), Zaz.

Recto Verso (2013), Zaz.

O 11 de Novembro de Sílvia Pérez Cruz

23/12/2013
11 de Novembre (2012), Sílvia Pérez Cruz.

11 de Novembre (2012), Sílvia Pérez Cruz.

Estou longe de reclamar das redes sociais e dos aborrecimentos eventuais que ele pode causar. Em que outro lugar um torcedor do Avaí, que nunca encontrei pessoalmente, iria me dar a dica de uma cantora catalã? A dica, no caso, chama-se Sílvia Pérez Cruz, que veio atrelada a sua performance junto a um grupo feminino de flamenco conhecido como Las Migas.

O que eu não sabia, ao chegar a Barcelona, é que Sílvia tinha um extenso rol de colaborações com outros artistas, sendo Las Migas apenas mais uma, em duas oportunidades. Neste rol inclui-se um dueto de voz e hang, um instrumento de percussão suíço bastante sui generis. Ao vê-lo sendo tocado em frente à catedral de Girona, podia jurar que era algo árabe, trazido pelos mouros. Certamente o homem que o tocava me induziu involuntariamente a essa conclusão.

O que eu também não sabia, ao me deparar com o CD de Sílvia Pérez numa prateleira de sucessos na Fnac, era que 11 de Novembre era o seu primeiro disco solo. O álbum possui faixas cantadas em castelhano, catalão e português, numa mistura de composições de fazer inveja a um tropicalista: folk, samba, jazz, flamenco, fado… E o mais incrível: todas composições dela.  Apenas quatro das treze faixas com parceria.

Vou tentar reproduzir, com vários meses de atraso, o impacto de ouvir este disco pela primeira vez. Trata-se de um álbum que passa a léguas, muitas léguas, do óbvio. É uma sonoridade minimalista, de canto suave, arranjo sofisticado e que demanda, ou melhor, exige silêncio e atenção. O passar do dedo nas cordas do violão, o som de trovoadas, passos, corda de um relógio, um sopro sutil… Um festival de suavidade e bom gosto conduzido por uma voz deslumbrante.

Sílvia Pérez Cruz é uma intérprete como poucas, que, devido a nossa ignorância do que vai além da música brasileira e anglo-americana, permanecerá desconhecida por essas bandas. E eu sequer mencionei que ela é linda!

Aqui uma bela versão acústica de Iglesias, com o irresistível snippet de Moon River.

 

Serú Girán, a Superbanda Argentina.

01/12/2013
Bicicleta (1980), Serú Girán.

Bicicleta (1980), Serú Girán.

Serú Girán é uma banda de rock progressivo argentina que fez furor no país e no cenário de rock hispânico entre 1978 e 1982. De certa forma permite alguns paralelos com o nosso Vímana, também de influências progressivas, que reuniu futuros ícone do pop/rock dos anos 80: Ritchie, Lulu Santos e Lobão. O Serú Girán também reuniu músicos que fizeram fama na música argentina após seu término: Charly García, Pedro Aznar, David Lebón e Oscar Moro. A diferença é que o Vímana não lançou um álbum sequer, pois os artistas ainda eram ilustres desconhecidos, enquanto os membros do grupo argentino já tinham certa estrada.

O mais conhecido de todos, disparado, era Charly García, que já tinha causado furor ao lado de Nito Mestres no duo Sui Géneris (1970-1974), fazendo um som que misturava o soft rock estilo Simon & Garfunkel com influências psicodélicas. Encantado cada vez mais com o rock progressivo, García foi alienando cada vez mais Mestre da parte criativa. Com o fim da dupla, García partiu pra um projeto de rock sinfônico com o grupo La Máquina de Hacer Pájaros, de resultados bem duvidosos, eu diria. Após dois álbuns, o projeto desandou.

Charly García partiu, então, com David Lebón para Búzios, e de lá pra São Paulo. Conheceu aquela galera toda de Minas, especialmente Milton Nascimento, e voltou um ano depois pra montar o Serú Girán. Toda essa volta pra dizer que o Brasil influenciou o surgimento da maior banda de rock argentino. É como dizer que Rivelino inspirou Maradona (e não foi?).

Serú Girán lançou quatro álbuns e um ao vivo de despedida (houve um retorno em 1992, mas deixa pra lá). O segundo, Grasa de las Capitales, é bastante elogiado, e contém a belíssima Viernes 3am, que mereceu excelente versão do Paralamas.  Nas o auge da banda é mesmo Bicicleta, que equilibra perfeitamente os arroubos progressivos da banda (como na abertura com A los Jóvenes de Ayer), baladas delicadas (como a bela Desarma y Sangra, muito superior à versão que já havia ouvido em versão solo com Charly García), faixas de pop/jazz típicas dos anos 80, e até mesmo um surpreendente blues moderno, com direito a sopro de metais, na última faixa, Encuentro con el Diablo.

Canción de Alicia en el País, ao vivo em 1981.

Casal 20

24/08/2013

Se fosse fazer hoje o meu Top 20 – 2000/2009, certamente faria duas alterações, incluindo Eco, de Jorge Drexler, e Automatic Imperfection, da banda espanhola Marlango. Coincidência ou não, a vocalista da banda, Leonor Watling, é atualmente esposa de Drexler, com quem teve dois filhos. Eco é de 2004. Automatic Imperfection é de 2006. Em 2005, Drexler se separou de sua primeira esposa e passou um período de crise passeando na desplugada vila de Cabo Polônio. As aventuras de Drexler por lá deram origem a 12 Segundos de Oscuridad, faixa-título de seu álbum de 2006, no qual Leonor participa na canção El otro engrenaje. De lá pra cá, dobradinhas do casal são frequentes, seja em estúdio ou no palco. E outra curiosidade: a principal atividade de Leonor é como atriz, atuando, inclusive, em filmes de Pedro Almodóvar. Drexler, por sua vez, depois do álbum de 2006, lançou apenas um de inéditas em 2010. Ainda que não tenha descuidado dos shows, parece investir na carreira de… ator – seu filme acaba de estrear por aqui.

Automatic Imperfection (2006), Marlango.

Automatic Imperfection (2006), Marlango.

Automatic Imperfection é daqueles discos do qual não se joga nada fora. Nos quatro primeiros álbuns, Leonor, filha de inglesa com espanhol, canta principalmente em inglês. A banda segue forte influência de jazz, blues e da música pop em geral. O álbum abre com Shake the Moon, que remete a um clima de inferninho jazz. Segue com uma balada blues, Days are tired. Daí em diante é um festival de belas canções, muito bem tocadas e cantadas, como Twiested & Sick, I don’t care (cuja versão stripped nos extras da Special Edition é de arrepiar), Automatic Imperfection (com uma perturbadora introdução de teclado de filme de terror), Pequeño Vals (lindíssima, com um assovio contagiante, que, apesar do título, é em inglês), Architeture of Lies. Entre os extras, Vete, uma belíssima canção romântica em espanhol que ficou por vários dias na minha cabeça.

Vídeos de Automatic Imperfection e Shake the Moon.

Eco (2004), Jorge Drexler.

Eco (2004), Jorge Drexler.

Jorge Drexler teve uma sorte e tanto. Tornou-se internacionalmente conhecido no momento em que lançava seu melhor disco da carreira. A afirmação, a princípio, parece óbvia… se uma coisa tivesse a ver com outra. A razão do sucesso foi uma música composta pro filme Diários de Motocicleta, Al otro lado del río, que acabou ganhando o Oscar de melhor canção original. Os organizadores da festa de premiação preferiram chamar Antonio Banderas e Carlos Santana pra apresentar a canção. Drexler, ao receber a estatueta, “discursou” a canção a capella.

A música, todavia, não fazia parte do disco, sendo incluída num relançamento em 2005. E sequer é uma das melhores do álbum. Eco é um desfile de grandes canções, que deslumbra e arrebata a cada faixa. Poesia, ritmo, melodia e até mesmo os arroubos eletrônicos tão caros ao uruguaio – tudo flui perfeitamente como clássicos prontos para serem cantados e repetidos pela plateia anos a fio. A contagiante (e Lavoisieriana) Todo se transforma, a lírica Salvapantallas, Guitarra y Vos com meu refrão favorito (hay tantas cosas, yo sólo preciso dos: mi guitarra y vos), Milonga del Moro Judío (No hay doctrina que no vaya / Y no hay pueblo que no se haya / Creído el pueblo elegido), o tango-pop de Se va, se va, se fue. E, claro, todo o resto do disco.

Todo se transforma e Salvapantallas ao vivo no Teatro Solís, em Montevideo.