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Top 20 – 1960/1969 (11ª parte – final)

27/04/2015
The Beatles (1968).

The Beatles (1968).

Sempre que alguém me fala que não gosta dos Beatles ou simplesmente não vê nada de mais na banda, eu pergunto se a pessoa já ouviu o Álbum Branco. Coincidentemente, a resposta é sempre não.

As músicas conhecidas desse álbum costumam ser Obladi-Oblada, Back in USRR e While my guitar gently weeps. Com um pouco sorte as pessoas também conhecem Blackbird e Helter Skelter.

O álbum flagra o processo de ruptura da banda ao longo do ano de 1968. Muitas das músicas foram compostas ou inspiradas em eventos ocorridos no “spa” do quarteto na Índia. Lennon e Yoko viraram irmãos siameses, Harrison estava de saco cheio, mas quem deixou a banda por alguns dias foi Ringo, a ponto de algumas faixas terem sido gravadas sem ele. Ao mesmo tempo, é o primeiro álbum com uma composição do baterista. E o primeiro a contar com a participação de um artista de fora: Eric Clapton, que chegou a ser cogitado por John como substituto de George, quando este ameaçou sair.

O único jeito de transformar o álbum em realidade foi cada um trabalhar na composição do outro como músico de estúdio. Não se trata exatamente de um álbum colaborativo, mas de uma soma de partes. Só isso explica uma das faixas mais idiotas já gravadas no mundo pop: Revolution 9, uma colagem de sons elaborada por John, George e Yoko. Paul e George Martin foram contra a sua inclusão no álbum, mas tudo o que conseguiram foram reduzir a sua duração para “apenas” 8 minutos.

Mesmo com este cenário de terra arrasada, os Beatles conseguiram produzir um álbum icônico, que se tornou referência para definir álbuns de outros artistas que representam algum tipo de ruptura na carreira. O disco mais badalado do Metallica é conhecido como The Black Album em referência direta ao White Album. Cuatro Caminos, disco do Café Tacvba a ganhar um Grammy, foi considerado um “álbum branco” da banda.

Musicalmente, The Beatles (White Album) marca o afastamento de Harrison das composições de influência indiana em direção ao blues. Lennon buscando um rock mais cruento, como Yer Blues. Paul aproveita o espaço para expandir suas experimentações musicais, indo da romântica e singela I will ao rock pesadíssimo em Birthday e Helter Skelter.

Este foi o último álbum da discografia oficial que eu comprei, ainda em vinil, já passando dos 18.

Blackbird ao vivo com os Wings, em 1976.

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Abbey Road (1969), The Beatles.

Abbey Road (1969), The Beatles.

Por muito pouco, mas muito pouco mesmo, eu não fecho esse Top 20 com Astral Weeks, do Van Morrison. Se fosse há alguns anos atrás, o disco dos Beatles que estaria disputando esse lugar seria A Hard Day’s Night. Mas calhou de ser Abbey Road, uma das capas mais famosas da indústria do disco, mas um álbum que nunca foi dos meus favoritos… até comprar a versão remasterizada.

O último relançamento da coleção dos Beatles não mostra muita diferença quanto aos primeiros álbuns, mas praticamente abriu meus ouvidos para as belezas ocultas em Abbey Road. Foi como se ouvisse o disco pela primeira vez. E dizer isso de uma banda da qual conheço cada acorde como se fosse parte do meu corpo não é pouco!

A qualidade dos arranjos, a clareza nos instrumentos, tudo ganhou mais profundidade, mais frescor, nova dimensão. Fenômeno só ocorrido nesse disco (e, num contexto bem diferente, com o Let it be Naked). Até corri pra escutar o Sgt. Paepper’s Lonely Hearts Club Band, na expectativa de produzir o mesmo resultado, mas a ausência dele nessa listagem já revela qual foi o resultado.

Infelizmente, Maxwell’s Silver Hammer continuou sendo a maior bobagem já gravada por Paul McCartney nos Beatles. Há coisas que nenhuma remasterização ou remixagem do mundo é capaz de fazer.

Por outro lado, Something e Here comes the sun são consideradas a melhor participação de George Harrison num álbum dos Beatles, incluindo aí declaração do próprio Paul. Frank Sinatra considerava Something a melhor canção de Lennon & McCartney; e a segunda passou a ter valor afetivo inestimável por ser, via Bee Movie, a porta de entrada da minha sobrinha para a obra da banda. Come Together, junto com as canções de George, é o grande hit do álbum. Aqui também está a contribuição mais interessante de Ringo Starr, Octopuss Garden (não que ele tenha dado muitas). Mas melhor do que a contribuição de Ringo como compositor é sua performance como baterista em Here comes the sun. A minha preferida depois de A day in the life.

Oh Darling sempre esteve entre as minhas favoritas. Curiosamente, a maioria dessas canções eu conheci primeiro pelo filme trash Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos anos 70, com Peter Frampton, Bee Gees, Aerosmith, Steve Martin, Billy Preston, entre outros. O filme é uma espécie de brega-psicodélico, mas eu adoro. Oh Darling é cantada por Robin Gibb, e por muito tempo preferi a versão dele. Aliás, concordo com John Lennon quando diz que a música ficaria melhor na voz rascante dele.

O grande resgate da versão remasterizada foram I want you (she’s so heavy) e Because. Grande som! Também foi possível apreciar melhor a boa sacada que foi juntar arremedos de canções que não se sustentariam sozinhas numa espécie de suíte; ainda que soem como uma enrolação para se chegar ao grand finale, a verdadeira suíte de Paul, com Golden Slumbers, Carry that weight e The End, passando por um You never give your Moneyrevisited”.

John Lennon toca Come Together ao vivo no Madison Square Garden, em 1972.

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Assim, fechando o último dos Tops por década, gostaria de agradecer a The Allman Brothers Band, Antônio Carlos Jobim e Frank Sinatra, The Band, Beach Boys, Buffalo Springfield, Gal Costa, Gilberto Gil, Janis Joplin, Jefferson Airplane, João Gilberto e Stan Getz, Pink Floyd, Roberto Carlos, Tim Buckley, Van Morrison, por terem feito esta década musicalmente memorável.

Mas, após essa jornada regressiva de 2009 a 1965 (o álbum mais antigo escolhido), com poucos arrependimentos (hoje faria algumas mudanças na década de 2000), a aventura não chegou ao fim. Chegou a hora de encarar o Top 20 dos álbuns ao vivo. Mas dessa vez não divido por décadas, mas os 20 melhores álbuns de shows de todos os tempos (para mim, é claro). Valendo apenas álbuns oficiais e registros de uma mesma turnê.

Portanto, desde já, ficam de fora caixas como a de Bruce Springsteen Live 1975-1985. Estas farão parte do último Top, o das coletâneas.

Top 20 – 1960/1969 (10º parte)

23/04/2015
Revolver (1966), The Beatles.

Revolver (1966), The Beatles.

Quando esse blog foi criado, fiz questão que o primeiro post fosse sobre o Revolver, meu álbum favorito de minha banda favorita. E o que faz deste um disco tão especial?

Revolver é o elo de ligação entre a primeira e a segunda fase dos Beatles se encontram. Nele há um pouco da Beatlemania e um pouco da psicodelia; as baladas clássicas e experimentações estilísticas de Paul McCartney; e, acima de tudo, as inovações no processo de gravação.

Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band costuma ser citado como o disco da virada do quarteto de Liverpool, mas, pra mim, esta virada ocorre em Revolver. O disco mais famoso da banda é a consolidação dessa variada. E vou logo adiantando que Sgt. Pepper’s não aparecerá nesse Top 20. Mas trata-se de álbum tão importante que até sua ausência merece ao menos um parágrafo explicativo.

Sgt. Pepper’s era um álbum concebido inicialmente para ser conceitual. Mas esta ideia está presente apenas em umas poucas faixas. O disco é praticamente um álbum repleto de canções independentes, e muitas delas nem são exatamente as mais inspiradas da banda. Isso muito se dá devido a ausência das duas faixas que foram selecionadas para serem o single: Strawberry Fields Forever e Penny Lane. Estivessem elas no álbum, certamente ele apareceria em destaque nesta listagem. Mas Fixing a Hole, Good Morning Good Morning, Lovely Rita e Being for the Benefit of Mr. Kite! Passam longe disso. Mesmo Within You Without You, a faixa de George Harrison, a parte instrumental Indiana é melhor do que a parte cantada. Na verdade, do álbum, eu destacaria apenas She’s leaving home, A Day in the Life e When I’m 64 como memoráveis. A Day in the Life é, sem dúvida, o melhor momento da carreira de Ringo Starr. É um disco que, na época, impactou pelas inovações de estúdio, visual arrojado e sonoridade. Mas, décadas depois, os parâmetros são outros.

Revolver, por sua vez, apresenta, pela primeira e única vez, Harrison com três faixas no mesmo álbum (no Álbum Branco foram quatro, mas ele é duplo!). Das três composições, duas estão entre as melhores canções dele nos Beatles: Taxman e I want to tell you.

Paul, desde And I love her, queria emplacar a balada perfeita. Conseguiu logo em Yesterday. Mas, sempre ambicioso, tentou repetir o feito. Não conseguiu fazê-lo, pelo menos não da mesma maneira. Ainda que não tenham alcançado o mesmo sucesso que Yesterday, For no one e Here, there and everywhere são duas lindas e inspiradas baladas românticas.

Assim como em Sgt. Pepper’s, o álbum sofre dois desfalques das sessões de gravação, canções “desviadas” para compor o single da vez: Rain e Paperback Writer. Meu sonho é que essas duas faixas estivessem no disco, possivelmente no lugar de Dr. Roberts (a mais fraca, na minha opinião) ou mesmo de Yellow Submarine. Por outro lado, é compreensível a escolha. Yellow Submarine, hoje, pode até parecer uma escolha óbvia para um single, mas na época dificilmente a gravadora apostaria numa brincadeira musical. Já Paperback Witer, para época, era a música mais do que certa para sustentar um single. Rain joga no mesmo time de I’m only sleeping, duas músicas de John Lennon com vibe semelhante. É natural que uma delas ficasse de fora. Ainda assim, eu lamento.

A pscicodelia entra de chapa no solo invertido de I’m only sleeping, em She said She said e na inventiva e hipnótica Tomorrow never knows.

Paul experimenta novos estilos em Good Day Sunshine e Got to get into my life, iniciando uma linhagem que prossegue com Fixing a hole, When I’m 64, Martha my dear, Honey Pie, Obladi Oblada, Rocky Racoon, Helter Skelter etc.

And your Bird can sing é uma faixa que poderia estar nos discos anteriores, enquanto Eleanor Rigby, com sua parte orquestrada, é uma ousadia que dá mais do que certo, inspirando uma certa continuação com She’s leaving home. Uma canção atemporal, clássica, eterna.

Se os Beatles não tivessem decidido não mais fazerem shows ao vivo, dificilmente teriam condições, só os quatro, de reproduzirem Revolver numa eventual turnê.

Ensaio de For no One.

Top 20 – 1960/1969 (9ª parte)

08/04/2015
Help! (1965), The Beatles.

Help! (1965), The Beatles.

Help! foi meu primeiro disco preferido dos Beatles, que embalou a minha pré-adolescência. Até a morte de John Lennon, tudo o que se conhecia lá em casa eram os álbuns duplos vermelho e azul, coletâneas oficiais lançadas nos anos 70. O vermelho era a primeira fase, da Beatlemania. O azul era a psicodélica, das barbas e cabelões. E mesmo assim os vinis eram dos meus primos. Nós só tínhamos as fitas gravadas, assim como a fita do show no Hollywood Bowl, álbum também lançado naquela década.

Além disso, os filmes que passaram, salvo engano, na TVE. O que mais me encantou foi justamente Help!, por mais encantador que fosse A Hard Day’s Night. O colorido, o humor, o jeitão palhaço de Ringo Starr e aquela correria toda eram um prato cheio para as crianças. Curiosamente, nunca gostei do desenho Yellow Submarine. Enquanto o primeiro filme só consegui rever muitos anos depois, Help! ainda tive a chance de rever na telona, num cinema pulgueiro da Praia de Botafogo. Só por isso, Help! já era forte candidato à melhor disco dos Beatles. No dia em que viesse a tê-los claro.

E isso ocorreu após a morte de John. Naquele verão de 1981, consegui convencer meu pai a comprar “pros meus irmãos”, que estavam em viagem a Disney, três discos dos Beatles. Um deles era uma coletânea não oficial que tinha Hey Jude; o segundo era a coletânea oficial Oldies (but Goldies); e, salvo engano, Revolver. Claro que meus irmãos não desgostaram do presente, mas o comentário foi “por que você não comprou logo os álbuns vermelho e azul”? No meu aniversário, poucas semanas depois, arrastei meu pai para o setor de música da velha Sears, onde hoje fica o Botafogo Praia Shopping, e pedi de aniversário os discos dos Beatles que se encontravam por lá. Nessa leva certamente estavam, entre outros, Help!

Ao ouvir o álbum, maravilhado com a qualidade de Night Before, You’re gonna lose that girl (um mega hit lá em casa), Another Girl, I need you, meu irmão virou pra mim e disse: “Você tem razão. Se tivesse comprado o álbum vermelho, a gente não teria conhecido essas músicas!”

Ao contrário de A Hard Day’s Night, onde o lado B é melhor do que o lado que serve como trilha do filme, o lado A de Help!, com as músicas do filme, é superior ao lado B. Mesmo assim, faixas como It’s only love, Tell me what you see (uma música menor dos Beatles que meu irmão cantava com uma empolgação surpreendente), a ótima I’ve just seen a face e a rasgada Dizzy Miss Lizzy garantiam a alegria do outro lado. E, claro, “ela”, “a” música: Yesterday.

I’ve just seen a face ao vivo no Unplugged de Paul McCartney.

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Rubber Soul (1965), The Beatles.

Rubber Soul (1965), The Beatles.

Rubber Soul é o álbum que fez a crítica ver os Beatles com outros olhos, e não mais como uma banda de sucesso adolescente. Aqui eles enxergaram nos quatro rapazes de Liverpool algo além do alvoroço da Beatlemania. Ao dizerem isso, todos costumam citar particularmente In my life, que creio ser a música que marca a maturidade do grupo. De fato, Bob Dylan já motivava Lennon a aprimorar seu lado letrista. Paul McCartney sempre procurou não ficar atrás de seus pares, principalmente de John.

Mas essas viradas não acontecem da noite pro dia, ainda mais numa banda produtiva como os Beatles. Tal mudança já ocorria em Help! A faixa título já mostrava John apresentando composições mais pessoais; You’ve got to hide your love away mostrava a influência de Dylan; Ticket Ride abre caminho para a exploração de novas sonoridades em Rubber Soul, onde a banda explora arranjos mais funkeados.

Nesse disco, a participação de George Harrison também fica mais interessante com Think for yourself e If I needed someone. A cítara indiana também é introduzida por George em Norwegian Wood.

Mas mesmo apresentando arranjos e composições mais trabalhadas e complexas, ainda é possível reconhecer nas faixas do álbum a banda da Beatlemania. A verdadeira mudança ainda estava por vir.

You won’t see me ao vivo com Paul McCartney em St. Petesburg, 2004.

Top 20 – 1960/1969 (8ª parte)

01/04/2015
Highway 61 Revisited (1965), Bob Dylan.

Highway 61 Revisited (1965), Bob Dylan.

Numa bela tarde, Pete Seeger tentou partir os fios dos amplificadores de Bob Dylan a machadadas. Dylan, até então o queridinho do folk americano, havia se rendido ao rock and roll e turbinado seu som com guitarras elétricas distorcidas. Para muitos, imperdoável!

Dylan não era nada bobo e, ao contrário de muitos de seus companheiros da cena folk, nada ligado a ideologias. Ele queria mesmo é fazer sucesso. Influenciado indiretamente pelos Beatles, na mesma medida em que John Lennon era influenciado por suas letras, o jovem bardo do violão e gaita percebeu que a eletricidade era o caminho. Via The Byrds, que eletrificaram um de seus hits, Mr. Tambourine Man, fazendo mais sucesso do que a versão original, é possível que Dylan tenha percebido que corria o risco de ficar pra trás. A versão dos Byrds é considerada a pedra fundamental do folk rock.

Ele já tinha passado por algo assim antes. Em seu primeiro álbum, de 1962, Dylan pegou emprestado uma versão de House of The Risin Sun de Dave Van Ronk, sem pedir. A canção fez sucesso e Dave virou o cara que tocava a “música do Bob”. Logo depois, The Animals gravou uma versão eletrificada e Dylan a deletou de seu repertório pra não ser visto como o cara que tocava a versão dos Animals. Claro que isso não chegou a ocorrer com Mr. Tambourine Man, que era uma composição sua, mas certamente ele resolveu repensar as coisas.

No álbum anterior, Bringing It All Back Home, de onde saiu Mr. Tambourine Man, Dylan já flertava com o rock, mas é em Highway 61 Revisited que ele marca a sua conversão ao estilo, com muita influência do blues. Se a fase anterior ainda aquece os corações de velhos hippies e até mesmo senadores da república, é este salto que lhe abre os horizontes (não só para o rock, como é próprio do rock) e o coloca de vez entre os grandes da história da música.

A faixa de abertura é arrebatadora, um ícone, um mito: Like a Rolling Stone, produzida por Tom Wilson, o mesmo que havia recriado pouco antes a dupla Simon & Garfunkel com The Sound of Silence. Essa música serve de porta e de guia para tudo o que acontece na carreira de Dylan a partir de então. Incluindo o próprio álbum.

O disco chama atenção não só pela já conhecida habilidade de Dylan como compositor e letrista, mas também pelos arranjos e sonoridade. Outras faixas mereceram covers de grandes artistas. É um álbum pra se ouvir da primeira à última faixa sem perder o interesse, com pelo menos mais duas obras primas: Ballad of a Thin Man e Desolation Row.

Ballad of a Thin Man ao vivo em 1966.

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The Velvet Undeground & Nico (1967).

The Velvet Undeground & Nico (1967).

De um álbum icônico a outro. De um artista influente a outro. Sou da opinião que o Velvet Underground é uma das bandas mais influentes da História do Rock depois dos Beatles. Isso é 1967, gente! Gravado em 1966! Sgt. Pepper’s nem tinha saído forno (mas Revolver já!). E tem banda hoje em dia se achando moderna fazendo o que Lou Reed e companhia já faziam há 48 anos atrás!

Som sujo, guitarras distorcidas, atonalidade, letras pesadas, crônica underground, visual proto-punk… não foi a toa que o álbum foi muito mal recebido comercialmente na época. E quem foi o responsável por ele ter sido lançado por uma grande gravadora? Tom Wilson! O mesmo que produziu The Sound of Silence e Like a Rolling Stone (estou cada vez mais fã desse cara!).

Considerando que o Velvet fez dois ótimos discos depois de seu álbum de estreia, fica difícil imaginar como o famoso “Disco da Banana” soaria se Andy Warhol, o padrinho da banda, não tivesse empurrado a estranha Nico goela adentro. A estranhíssima modelo alemã canta apenas 3 músicas. É possível imaginar Lou Reed cantando All Tomorrow’s Parties e I’ll be a your mirror (nesta, até mesmo Maureen Tucker poderia se arriscar nos vocais) sem maiores alterações. Mas Femme Fatale é impensável sem ela. Quer dizer… até ouvir o cover arrepiante do Big Star.

Como passou a ser comum no universo do pop/rock, o Velvet Underground foi concebido pra ser não apenas um grupo musical, mas um happening, uma performance artística, um impacto cultural. Nesse ponto, Warhol estava realmente à frente de seu tempo.

Mesmo assim, musicalmente o álbum funciona que é uma beleza. A dupla Lou Reed e John Cale é responsável por clássicos do rock como I’m waiting for the man, Venus in Furs e a sensacional, fantástica, incomparável, inesquecível Heroin.

As baladas Sunday Morning e There she goes again apontam para o caminho trilhado por Reed, já sem Cale, no terceiro álbum da banda, também presente neste Top 20.

Mas nem tudo são flores. Aqui também estão presentes as doideiras atonais que ganham maior destaque no álbum seguinte, White Light/White Heat.

Femme Fatale ao vivo no Bataclan, em 1972, com Lou Reed, John Cale e Nico.

Top 20 – 1960/1969 (7ª parte)

25/03/2015
Sounds of Silence (1966), Simon & Garfunkel.

Sounds of Silence (1966), Simon & Garfunkel.

Fala-se pouco do papel dos produtores na carreira de um artista ou até mesmo no desenvolvimento da música. No caso de Paul Simon, talvez este deva a sua bem sucedida carreira a um cara chamado Tom Wilson. Wilson havia produzido o disco de estreia da dupla Simon & Garfunkel, em 1964, um álbum folk totalmente acústico, que teve uma recepção fria. Com o fracasso da estreia, Art Garfunkel voltou pra vida universitária e Paul Simon voou pra Londres em busca de novos horizontes musicais.

Incomodado com o não reconhecimento de uma faixa em particular, The Sound of Silence, Wilson resolveu colocar em prática o que havia presenciado quando os Byrds eletrificaram Mr. Tambourine Man de Bob Dylan, influenciados pelo estouro dos Beatles. O grande sucesso da versão dos Byrds resultou na reviravolta da carreira de Dylan, que decidiu eletrificar o seu som antes que mais um aventureiro o fizesse (nada bobo esse Bob). Wilson deve ter pensado: “se funcionou uma vez…”

Assim, Tom Wilson juntou uns músicos no estúdio e, sem a presença de Simon e Garfunkel (talvez até sem o conhecimento destes), apenas com a fita original da música embaixo do braço, gravou a versão eletrificada de The Sound of Silence que todos nós conhecemos. E assim a dupla alcançou pela primeira vez o nº 1 na parada de sucessos americana.

O estrondoso sucesso da canção fez a dupla voltar aos estúdios para gravar um novo álbum. Claro que nem passou pela cabeça de Paul Simon reclamar da “deformação” de sua arte ou nada parecido. Muito pelo contrário, o novo álbum seguiu o estilo da gravação de Wilson, mas sem a participação do produtor, que foi trabalhar com Bob Dylan.

E assim nasceu essa obra prima do folk rock sessentista chamada Sound of Silence. O álbum, além da faixa título, tem delicadas canções folk como April come she will (utilizada na trilha sonora de A primeira noite de um homem), Kathy’s Song, Leaves that are green e A most peculiar man; baladas mais agitadas, de acordo com os novos ventos da época, como Blessed, Somewhere they can’t find me e a ótima e inquietante Richard Cory (que mereceu um cover dos Wings), ou até mesmo dançante, no caso de We’ve got a groovy thing goin’.

O álbum encerra com I am Rock, já descrita como a melhor música sobre a solidão (I have my books / And my poetry to protect me / I am shielded in my armor / Hiding in my room, safe within my womb / I touch no one and no one touches me / I am a rock / I am an island).

Enfim, Tom Wilson tinha razão. The Sound of Silence é uma das mais belas composições já escritas. Não podia mesmo passar despercebida. Obrigado pela insistência.

Richard Cory ao vivo, em 1966, na TV canadense.

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Parsley, Sage, Rosemary and Thyme (1966), Simon & Garfunkel.

Parsley, Sage, Rosemary and Thyme (1966), Simon & Garfunkel.

Sound of Silence foi gravado em 1965 e lançado em janeiro de 1966. Naquele mesmo ano saiu o disco seguinte, Parsley, Sage, Rosemary and Thyme. Lançar dois álbuns no mesmo ano e com a mesma qualidade garantem a carreira de qualquer artista. E o primeiro, por si só, já garantiria o futuro da dupla Simon & Garfunkel.

As faixas que mais marcam é o delicado arranjo para a folclórica Scarborough Fair (também na trilha sonora de A primeira noite de um homem), mesclada com uma composição de Simon chamada Canticle; a “ulissiana” Homeward Bound e a contagiante The 59th Street Bridge Song (Feelin’ Groovy).

Só isso já bastaria para um álbum inteiro, mas o disco ainda tem Cloudy, a belíssima For Emily, Whenever I may find her (que mereceu um cover de John Frusciante com o RHCP) e Flowers never bend with the rainfall, que preenchem o espaço das canções delicadas, assim como Patterns e The Big Bright Green Pleasure Machine o das baladas mais agitadas.

Mas o álbum dá um passo adiante, apresentando arranjos e composições mais arrojadas em The Dangling Conversation e A Simple Desultory Philippic (or How I was Robert McNamara’d into Submission), esta totalmente inspirada, cantada e tocada a la Bob Dylan, com muitas referências ao artista. A Poem on the Underground Wall é uma deliciosa crônica urbana em quanto a última faixa é dedicada à crítica social, com o noticiário do mundo cão fazendo contraponto à angelical Silent Night.

For Emily, Whenever I may find her  ao vivo há muito tempo atrás.

Top 20 – 1960/1969 (6ª parte)

19/03/2015
I never loved a man the way that I love you (1967), Aretha Franklin.

I never loved a man the way that I love you (1967), Aretha Franklin.

Demorei pra deixar Aretha Franklin entrar na minha vida. Primeiro, ela quebrou o gelo na casa de um amigo, com esse mesmíssimo disco, I Never Loved a Man the Way I Love You, aquele com a qual essa grande cantora de soul music estourou de vez, após alguns anos na estrada, tornando-se referência obrigatória para toda cantora do gênero. Depois, foi a versão de Respect na trilha sonora de Forrest Gump. Por fim, anos depois, o reencontro com o álbum. Não que eu não a conhecesse de vídeos na TV ou de participação em filmes como The Blues Brothers. Mas a versão oitentista de Aretha nunca me foi tão atraente, e provavelmente deva-se a isso a minha resistência. É como conhecer Elton John nos anos 80 sem nunca ter ouvido nada de suas gravações nos anos 60/70. Ficaria difícil entender toda aquela badalação em torno do artista. A Aretha dos anos 60 é simplesmente arrebatadora.

O álbum abre com a clássica Respect, de Otis Redding, mas a pegada do disco é mais pras baladas do que pras músicas agitadas. Mesmo em faixas de composições menos inspiradas, a força da interpretação de Aretha segura a onda e mantém o nível lá em cima em todas as onze faixas.

O único ponto negativo do álbum é que ele tornou-se impossível de ser batido ou igualado pela própria artista. Mas quem se importa?

Dr. Feelgood ao vivo em Amsterdam, 1968.

Top 20 – 1960/1969 (5ª parte)

11/03/2015
Are you experienced (1967), The Jimi Hendrix Experience.

Are you experienced (1967), The Jimi Hendrix Experience.

Quando estava elaborando meu Top 20 dos anos 60 e pensei no Are you experienced: “claro, óbvio! Não tem como deixar de fora!” Mas aí entrou em campo minha fidelidade ao álbum original…

O problema começa na diferença entre o álbum americano e o inglês, relevantemente diferentes, assim como os álbuns iniciais dos Beatles e dos Rolling Stones. A versão em CD atualmente à venda é formada pelos três primeiros singles de Jimi Hendrix e, a partir da 7ª faixa, o disco original inglês. Em tese, eu deveria avaliar apenas essa parte. Aí começaram meus problemas.

Pense no Real Madrid. Timaço! Agora tire dele o Cristiano Ronaldo, o James Rodríguez e o Tony Kroos… Continua um timaço, não é mesmo? Mas que time no mundo não se ressente da saída de três craques desse naipe? Dá a impressão que o time ficou fraco. O mesmo acontece quando você saca músicas como Hey Joe, Purple Haze, The wind cries Mary e Highway Chile do tracklist. O álbum continua ótimo, mas…

Confesso que tive que reaprender a ouvir o disco até me livrar dessa impressão. O bom disso é que o escutei diversas vezes recentemente. E aí acabo entregando a verdadeira motivação de todas essas listas: inventar uma desculpa pra arrumar tempo em meio a essa vida tão atribulada para escutar esses discos, furando a fila de tantos outros ainda por ouvir.

Falar sobre um álbum tão balado é complicado, pois não há nada a acrescentar. Jimi era criativo, inventivo, um puta guitarrista, mas também um cantor interessantíssimo.

The wind cries Mary (que é da versão americana) ao vivo em Estocolmo.

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The Doors (1967).

The Doors (1967).

Esse é o terceiro álbum de estreia desse Top 20, e vem mais um pelo caminho. De fato, a segunda metade dos anos 60 foi bastante feliz nesse aspecto. O primeiro disco de Jim Morrison e companhia parece daqueles que a banda se preparou a vida inteira para gravá-lo. The Doors, o álbum, é forte, maduro, intenso. O disco, na verdade, foi gravado ainda em 1966.

As mais conhecidas, Break on through (to the other side), Light my Fire e The End, certamente justificam a sua fama. Mas mesmo algumas faixas despretensiosas e menos conhecidas, como Take it as it comes (que ganhou um cover dos Ramones), I look at you e End of the night não deixam a peteca cair. Soul Kitchen, “coverizada” por Patti Smith e Echo & the Bunnymen (ótima versão, aliás), está entre as minhas preferidas do grupo.

Tanta intensidade na estreia talvez tenha prejudicado o foco nos álbuns seguintes, com ótimas músicas, mas não grandes álbuns. Neste aspecto, a situação melhora (e muito) nos dois últimos.

Esse álbum lembra minha primeira faculdade, regada a The Doors, o impacto da atuação de Val Kilmer e todas essas coisas. E tudo o que eu tinha era uma fita K-7.

Back Door Man, ao vivo na Europa, 1968.