Archive for the ‘Top 20 – 1980/1989’ category

Top 20 – 1980/1989 (10ª parte – final)

04/09/2012

Boy (1980), U2.

Quando os irlandeses do U2 estouraram por essas bandas, já estavam no 4º álbum. O sucesso era Pride (in the name of love), que eu não curti muito. Mas logo vieram a reboque Sunday Bloody Sunday e New Year’s Day, com seu vídeo clip. A primeira, em particular, gostei bastante. Com o EP ao vivo, Under a blood red sky, algumas músicas do álbum de estreia ficaram conhecidas e fizeram sucesso, especialmente I will follow.

Boy foi recebido como um grande debut. Se lembrarmos que os integrantes da banda oscilavam entre 18 e 20 anos, mal dominavam seus instrumentos, incluindo aí a voz, e vinham de um país marginal da Europa, o feito se torna impressionante. Conseguiram fazer um disco cuja sonoridade é originalíssima, particularmente bateria e guitarra; tanto letra quanto música conseguem compor um todo homogêneo, intuitivamente conceitual, construindo um painel sobre as incertezas adolescentes. Absolutamente todas as faixas têm qualidade.

Boy não tem a pegada de War, a experimentação de The Unforgettable Fire, a grandeza de The Joshua Tree e sequer a ousadia de Achtung Baby ou a pretensão de POP, Rattle & Hum e Zooropa. Até mesmo o quase esquecido October consegue ser instrumentalmente superior. Mesmo assim, Boy é referência obrigatória para qualquer fã da banda, assim como a capa inusitadamente polêmica.

O álbum possui um forte magnetismo que perpassa todas as turnês. Suas faixas podiam ser facilmente esquecidas pela banda, sem nenhum sucesso radiofônico que impusesse a sua execução, mas isso jamais ocorreu. O garoto entrou em crise, foi à guerra, atravessou os Estados Unidos, colocou óculos escuros, vestiu roupas coloridas e passou a frequentar as pistas de dança. Tornou-se, enfim, um homem maduro, pai de família. Mas, como cantou Bono quase 15 anos depois, “time won’t take the boy out of this man”.

Boy é U2 de raiz.

Out of Control, o primeiro single da banda, ao vivo no Morumbi, em 10 de abril de 2011.

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Gostaria de agradecer, mais uma vez, a Cowboy Junkies, Loreena McKennitPeter Gabriel por terem feito esta década discograficamente memorável. E, ainda, às inestimáveis contribuições de Dire Straits, Faith no more, Ira, Iron Maiden, Lou Reed, Pixies, RPM, Suzanne Vega, Titãs, Traveling Wilburys (valeu, rapazes!) e Whitesnake.

Já a próxima década vai dar um trabalho danado… Por isso, talvez demore um pouco para iniciá-la.

Até os anos 70!

Top 20 – 1980/1989 (9º parte)

09/08/2012

Script for a Jester’s Tear (1983), Marillion.

“Ah, mas eles imitam o Genesis!”

Esse era o comentário mais comum que se ouvia a respeito dos ingleses do Marillion, quando surgiram com o grandalhão Fish nos vocais, que saiu em 1988 após 4 discos de estúdio e 2 ao vivo. Inicialmente era mais uma banda tocada pelo mundo fantástico de J.R.R. Tolkien, chamando-se Silmarillion, título de um dos livros do autor de O Senhor dos Anéis. Entretanto, temendo um possível processo de direitos autorais, encurtaram para Marillion.

A crítica de fato procedia, pois o som da banda e os vocais e a teatralidade ao vivo do escocês Fish lembravam muitíssimo o Genesis da época de Peter Gabriel. Mas é aquela história… em 1982, o Genesis com Phil Collins à frente já trilhava outros caminhos, assim como a carreira solo de Gabriel quase nada lembrava sua passagem pela banda que o consagrou. Então, qual o problema?

Possivelmente, o ápice da banda foi o lado A de Misplaced Childhood (na era do vinil, claro), com suas canções impecavelmente amarradas. Não só o disco era conceitual como Fish tentava dar uma continuidade de álbum para álbum, como se contasse uma só história, e assim fazia crer a belíssima arte das capas, ricas em detalhes e referências.

A melhor capa é a do LP de estreia, Script for a Jester’s Tear, com a figura icônica do Joker ou Curinga tocando violino, as cifras de Yesterday, os discos jogados em frente à lareira, como o Meddle do Pink Floyd e o primeiro single da banda, Marquet Square Heroes.

Em estúdio, o andamento das músicas parece mais lento do que deveria, como em Garden Party e He knows you know, as mais “agitadas”. Mas a riqueza de detalhes sonoros a la Pink Floyd por todo o disco e o uso criativo do estéreo em Forgotten Sons garantem o interesse mesmo quando o som soa um pouco datado.

A dramaticidade e poesia da faixa título continua eficiente, e ainda hoje me arrepia a abertura com a voz solitária de Fish cantando “so here I am once more…” Mas a música que melhor sobreviveu ao tempo foi Chelsea Monday, atualmente a minha favorita não só do álbum, mas do grupo.

Chelsea Monday ao vivo em Recital os the Script, gravado ao vivo em 1983 no Hammersmith Odeon.

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The Final Cut (1983), Pink Floyd.

Após The Wall, Roger Waters gostou do resultado e decidiu continuar sua ego (bad) trip no disco seguinte, exorcizando seu passado e seus problemas com o pai morto na 2ª Guerra. Na verdade, o projeto inicialmente era para a trilha sonora do filme The Wall. De fato, parte de One of the few é cantada no banheiro na sequência final. Mas a Guerra das Malvinas levou Waters a direcionar seus canhões à guerra e a Margaret Thatcher.

The Final Cut não é muito badalado, mas é um grande álbum. Infelizmente, é também o marco do fim do Pink Floyd como o adoramos. O tecladista Richard Wright havia saído da banda por não querer ser mais o “músico de estúdio” de Roger Waters. David Gilmour só canta em uma faixa, Not now John. O clima, definitivamente, não era dos melhores. Não é a toa que é considerado mais como o 1º álbum solo de Waters do que o último do Pink Floyd reunindo Waters e Gilmour. Se o maior sucesso de vendas da banda foi Dark Side of the Moon, The Final Cut pode ser considerado o genuíno dark side of Pink Floyd, considerado um dos mais depressivos discos já feito.

O álbum, assim como o anterior, tem bobagens como Get your filthy hands off my desert, que mal funciona como vinheta. Por outro lado, há faixas dignas dos melhores momentos da banda, incrementadas com a percussão de Ray Cooper e o sax de Raphael Ravenscroft: a breve e poderosa abertura com The Post War Dream; o solo arrasador de Gilmour em Your possible pasts; a belíssima The Gunner’s Dream, onde a voz de Waters se mescla com o sax cortante; Paranoid Eyes, que fechava o lado A com Waters revivendo o tom quase insano de Brain Damage, do Dark Side of the Moon; a singela Southampton Dock, que emenda com The Final Cut, a melhor música não composta para The Wall, cuja letra se encaixa perfeitamente na derrocada interna do astro de rock Pink; a pesada (em termos sonoros) Not now John; e o final com a deliciosa balada Two Suns in the Sunset.

Vídeo em sequência de The Gunner’s Dream e The Final Cut.

Top 20 – 1980/1989 (8ª parte)

24/07/2012

Born in the USA (1984), Bruce Springsteen.

No clip de We are the World, apareceu aquele moço de cara limpa, pinta de galã e um baita vozeirão, ganhando mais destaque do que o seu anonimato no Brasil sugeriria. Agradou em cheio e provocou a pergunta que não queria calar: “quem é esse cara?!”

O “cara” era Bruce Springsteen, a salvação do rock na 2ª metade dos anos 70 e que bombava com seu recém lançado Born in the USA. Tanto sucesso que até o republicano Ronald Reagan tirou uma casquinha, citando “I was born in the USA” em um de seus discursos. Bastou para os apressadinhos do Brasil cravarem o sujeito de críticas, tachando o eterno defensor dos democratas de “propaganda americana”, no pior dos sentidos.

O cara cantava a realidade do homem comum americano, sujo de graxa, sem perspectiva; do veterano do Vietnã, todo fudido… Mas neguinho aqui achava que Born in the USA era a exaltação da supremacia norte-americana e Glory Days, a glorificação do american way of life. Santa ignorância, Batman!

Born down in a dead man’s town

The first kick I took was when I hit the ground

You end up like a dog that’s been beat too much

Till you spend half your life just covering up

Born in the USA

Born in the USA foi o auge da carreira do The Boss. Depois deste álbum, seu maior sucesso foi The Rising, em 2002, que não chegou perto. Mas este disco, e os sucessos anteriores com Born to run, Darkness on the edge of town e o duplo The River garantiram o sucesso do bardo de New Jersey para todo o sempre, amém.

O Brasil, coitado, só teve o prazer de vê-lo em ação no show da Anistia Internacional, no Parque Antártica, em 1988… e eu estava lá!

O sax do saudoso Clarence Clemons se mesclando à voz de Bruce na bela Bobby Jean; o estilo folk de Downbound Train; o rock de arena de No Surrender; a apaixonada I’m on fire; a dureza de My Hometown (que ganhou um cover ao vivo do U2); o pop de Glory Days e Dancing in the dark; e a pegada de Cover me, além da inquietante faixa-título, fazem deste um álbum épico.

Bobby Jean ao vivo em Paris, 1985.

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Ocean Rain (1984), Echo & The Bunnymen.

Em 1987 eu só conhecia Echo & the Bunnymen das capas da coleção de disco do meu primo Sérgio. Passava uma semana por lá quando ele saiu pra assistir ao primeiro show da banda no Brasil, no Canecão. Curto de grana, achei melhor não ir. Quando voltou, botou para tocar a fita do show que havia gravado em seu walkman. Trauma e arrependimento…

O show, com muitas músicas do disco de estréia, Crocodiles, baseado em Ocean Rain, o quarto disco da banda, com quatro covers (Twist and Shout, Soul Kitchen, In the midnight hour e Paint it black), e antecipando quatro canções do quinto álbum, ainda inédito, foi simplesmente impecável e marcou a história da própria banda.

Ocean Rain não chega a ser aquele disco perfeito, mas é certamente o melhor disco dessa banda menos famosa de Liverpool. Audacioso, com instrumentos de corda e arranjos mais complexos, o álbum contém as duas melhores músicas do Echo: a faixa-título e The Killing Moon. Ainda que Nocturnal me, que chega a evocar uma sonoridade de cossacos russos, e The Yo-Yo Man estejam em um nível bem abaixo, Silver, Crystal Days, Seven Seas, Thorn of Crowns e My Kingdom justificam a inclusão do álbum neste top 20.

The Killing Moon, como o próprio Ian McCulloch (vocalista) disse em entrevista à Rede Manchete, foi o mais próximo que a banda chegou da música perfeita, aquela que finca raízes no repertório popular, ganhando vida além da própria banda.

The Killing Moon ao vivo no Canecão, em 1987.

Top 20 – 1980/1989 (7ª parte)

06/05/2012

O Passo do Lui (1984), Os Paralamas do Sucesso.

Os Paralamas do Sucesso mal tinham estourado no verão de 1985 com Óculos e lá estavam eles escalados para tocar no Rock in Rio. Matéria tipo RJTV com o Pedro Bial mostrava os rapazes andando pelas ruas, admirados com um pôster deles numa loja, e tocando o tema de James Bond pra expressar a tensão pré-festival.

E no dia D subiram naquele palco enorme de bermudas e, como objeto cênico, uma singela palmeirinha, que não passou despercebida do comentário maravilhado de Caetano Veloso no pós-show.

Se em seu disco de estréia já tinham dado uma mão aos colegas da Legião Urbana ao gravar Química, no Rock in Rio a ajuda foi pro Ultraje à Rigor, com uma versão sensacional de Inútil.

A banda cantou e tocou como gente grande, e fez a platéia pular e cantar como as grandes estrelas do festival. Foi, de fato, uma apoteose, agora disponível em DVD.

O sucesso da banda ao vivo transformou O Passo do Lui num dos mais importantes discos de rock dos anos 80, talvez só perdendo pra Revoluções por Minuto do RPM, que mostrou a todos que o rock brasileiro podia soar como os estrangeiros. Não me esqueço do meu primo, Marcelo Paulino, delirando ao descrever Juvenília. Na verdade, só minha preferência pessoal pelas bandas desse post e um certo envelhecimento dos arranjos do RPM me fizeram tirá-lo desse top 20. Seguramente ele é o 21º disco.

O antigo lado A do vinil traz 5 eternos sucessos radiofônicos: Óculos, Meu Erro, Fui Eu, Romance Ideal e Ska. Do lado B, como era comum naqueles tempos, só Mensagem de Amor dá sequência aos grandes sucessos, mas Me Liga e Assaltaram a Gramática, de autoria e com a participação de Lulu Santos e Waly Salomão, não deixam a peteca cair. Só as duas últimas, Menino e Menina e a instrumental faixa título ficaram no esquecimento.

Óculos ao vivo no 1º show deles no Rock in Rio (o DVD é um registro do 2º show).

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Legião Urbana (1984).

Com um empurrãozinha dos colegas de sarau de Brasília, Renato Russo e sua turma tiveram a chance de gravar seu primeiro disco. Intitulado simplesmente de Legião Urbana, eles entram de sola desfilando a trilha sonora de uma geração e alguns símbolos marcantes da mitologia da banda, como o desenho do Congresso Nacional e a frase em latim Urbana Legio Omnia Vincit.

Inicialmente, havia incluído na lista apenas o Dois (já resenhado). Mas aí resolvi revisitar esse disco. O frescor e vitalidade de A Dança não me deixaram dúvidas: a magia ainda estava no ar. Além desta, canções como Teorema, Petróleo do Futuro e O Reggae são tão poderosas quanto outras mais conhecidas (e batidas) como Será, Ainda é cedo, Geração Coca-Cola, Soldados e Por Enquanto. Só mesmo Baader-Meinhoff Blues e Perdidos no Espaço parecem ter resistido menos ao teste do tempo. Como ficar indiferente a uma obra dessas?

De certa forma, eu fiquei. Justamente quando ela foi lançada. Radical, torcia o nariz pra tudo que tocava em rádio. O próprio Paralamas só me dobrou com a performance no Rock in Rio. Lendo as letras do encarte na casa de um vizinho, especialmente a de Geração Coca-Cola, percebi que aquilo tinha qualidade. Mas ainda implicava com aquele jeitão meio Jerry Adriani do Renato Russo cantar.

O Reggae no programa Perdidos na Noite, quando o Faustão ainda estava na Band e o Dado Villa-Lobos ainda não tinha aprendido a solar.

Top 20 – 1980/1989 (6ª parte)

29/04/2012

The Head on the Door (1985), The Cure.

Acredito que tenha sido com The Head on the Door que The Cure atingiu seu auge de popularidade. Bem, talvez a coletânea Standing on a Beach tenha sido determinante, mas creio que uma coisa levou à outra. Levou, por exemplo, ao vídeo do show The Cure in Orange, que encontrei vendendo em DVD como “Wembley Stadium“. In Between Days foi até tema do remake da novela Selva de Pedra! Além desta, o álbum conta com as conhecidas Close to me, A Night Like This e Kyoto Song. E ainda Six different ways e a ótima Push. Logo depois eles vieram ao Rio e tocaram no Maracanãzinho.

Mas eu não tava nem aí. Como já disse antes, comecei a gostar pra valer da banda nos anos 90, apesar de já gostar de algumas músicas. Minha entrada no universo pós-punk foi mesmo via U2 e Echo & the Bunnymen.

The Head on the Door junta o lado deprê e o lado alegre da banda, revelado no The Top (quase matando de enfarte alguns fãs do gótico Pornography). Pra mim, uma obra prima da banda junto com o Disintegration.

Push ao vivo em Orange, 1986.

Top 20 – 1980/1989 (5ª parte)

12/03/2012

Graceland (1986), Paul Simon.

Antes de Graceland fazer o sucesso que fez, conhecia pouquíssimo da carreira solo de Paul Simon; ou melhor, achava que conhecia pouco. Tinha (e ainda tem) em casa o vinil do Live Rhymin’, show com músicas dos dois primeiros álbuns solos e alguns sucessos da era Simon & Garfunkel, e o antológico duplo ao vivo no Central Park da dupla, onde imaginava que apenas as músicas cantadas só por Simon eram da carreira solo (e não me impressionavam muito). Foi assim que cresci pensando que clássicos como American Tune, Me and Julio down by the schoolyard, Slip Slidin’ Away, Kodachrome e Homeward Bound eram da dupla.

De qualquer forma, aqui no Brasil a carreira solo dele era obscura e os discos recentes, nos anos 80, davam água até nos EUA. Então veio Graceland, canção em trilha de novela da Globo com direito a close na Bruna Lombardi etc.

A mistura com a música negra da África do Sul agradou em cheio o público, mas a lista de músicos que participaram do disco é extensa e variada. Além de africanos como Youssou N’Dour e o grupo Ladysmith Black Mambazo, há parcerias com Los Lobos (All Around the World or the Myth of Fingerprints), The Everly Brothers (na faixa-título) e Linda Ronstadt (na belíssima Under African Skies). Mas o que pegou mesmo de jeito foi aquele coro tribal em Homeless e Diamonds on the soles of her shoes.

Simon já fazia essas pesquisas musicais nos anos 70, tocando com músicos peruanos e grupos de gospel, e depois se enveredou pelo jazz. A experiência sulafricana deu fôlego a uma tentativa de bis, dessa vez com a percussão brasileira em The Rhythm of the Saints, que, se não chegou a ser tão bom quanto o seu antecessor, cumpriu sua missão na Terra ao trazer Paul Simon ao Brasil. Assim, tive a oportunidade de vê-lo num ótimo show na Apoteose, botando a galera pra dançar com You can call me Al (salvo engano, com direito a bis) e encerrando com uma versão simples e sensível de The Sound of Silence.

Recentemente, The Boy in the Bubble ganhou covers de Patti Smith e Peter Gabriel. Não é pouco, né?

You can call me Al ao vivo na África, em 86.

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Dois (1986), Legião Urbana.

O segundo disco da Legião Urbana pode não ser um álbum perfeito, mas é o seu disco mais importante, que elevou Renato Russo, como letrista, ao lugar que ocupa hoje no Panteão da música brasileira.

Eu só despertei pra Legião Urbana enquanto ouvia Faroeste Caboclo no trocador da C&A em minha compra anual de roupa (a música não acabava nunca!). Na época, era muito cruel com qualquer coisa que conhecesse via rádio (a Fluminense FM não pegava lá em casa, é bom esclarecer). Passei a ter um pouco de consideração pela banda após ver a letra de Geração Coca-Cola, mas implicava com o sucesso de Eduardo e Mônica (Oswaldo Montenegro faz esse tipo de música há tempos e ninguém fala nada”). Talvez a melancolia ainda não tivesse chegado a mim a ponto de curtir algo como Tempo Perdido. O pós-punk ainda estava pra ser descoberto por este, então, jovem adolescente.

Entretanto, depois de mergulhar de cabeça na onda da Legião, certamente o grupo se tornou (apenas com seus 3 primeiros discos) uma presença marcante em uma época da minha vida. E o repertório de Dois foi o núcleo disso tudo: Daniel na Cova dos Leões, Música Urbana 2, Andrea Doria, Acrilic on canvas, Eduardo e Mônica, Quase sem querer, Índios e, claro, Tempo Perdido. Uma coleção de obras-primas de tirar o fôlego.

Reza a lenda que Renato Russo queria fazer um álbum duplo. Mas se eles não conseguiram nada melhor pra por no lugar de Metrópole e Plantas embaixo do aquário, que nada acrescentam à discografia da banda, e ainda tiveram de usar faixas instrumentais de tapa-buraco, a decisão da gravadora me parece acertada.

Andrea Doria ao vivo no Jockey Club, em 90. Eu tava lá! Láááááá atrás…

Top 20 – 1980/1989 (4ª parte)

05/03/2012

The Queen is Dead (1986)m The Smiths.

Nos anos 80, não gostava muito de The Smiths. Enquanto na Inglaterra a turma se dividia entre U2 e Echo & The Bunnymen, no Brasil parecia se dividir entre U2 e The Smiths. Talvez os fãs da banda não se conformassem com o fato do U2 ser visto como a maior banda dos anos 80 em vez de Morrissey, Marr e Cia.

No finado Jornal do Brasil, havia um colunista (demitido após enraivecer os fãs de rock progressivo), fã de Smiths, que conseguiu a proeza de detonar até mesmo o Joshua Tree. Talvez eu deva a ele, Luiz Carlos Mansur, a implicância inicial. Vai também o fato de que a sonoridade é um pouco repetitiva.

Só quando saiu o ao vivo Rank é que eu comecei a me ligar na banda, pois ali a sonoridade mudava um pouco, ganhava mais peso. O resultado é que hoje tenho todos os LPs originais da banda (optando pelo americano Louder than bombs no lugar do inglês The World won’t listen).

Ainda que Meat is Murder seja um puta disco e a tentativa de mudar a sonoridade em Strangeway, here we comes (último álbum inédito da banda) me encante, The Queeen is Dead é de fato meu preferido.

De 10 faixas, 7 são simplesmente sensacionais, ainda que prefira muito mais a versão do Rank de Vicar in Tutu. Entre elas, minha preferida: The boy with the thorn in his side.

E, de quebra, tinha uma fita pirata com o show da Legião Urbana no Maracanãzinho, em julho de 88, onde o Renato Russo canta a letra inteira de Bigmouth Strikes Again no meio de Que país é esse?

Vicar in Tutu ao vivo em 86 (versão do Rank).

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Lifes Rich Pageant (1986), REM.

Se alguém me perguntasse, antes de começar essa série de Tops, qual o meu disco preferido do REM nos anos 80, provavelmente eu responderia Reckoning ou talvez Green. Mas, como eu disse ao falar do Out of Time, minha percepção dos álbuns pré-Automatic for the people era bastante obscura, mais focada nas canções em si.

Ao ouvir novamente toda a discografia do período, não tive dúvidas em escolher Lifes Rich Pageant, que sempre foi o favorito do Alexandre, meu sumido companheiro de blog.

O REM dos anos 80 possui uma mistura divina de urgência e leveza. É incrível que, com 7 discos lançados no período, só tenha estourado na virada da década (ao menos no Brasil). Disparado a mais conhecida do álbum é Fall on me, mas o disco inteiro é tudo de bom.

I believe ao vivo, da época em que Michael Stipe ainda tinha cabelo.

Top 20 – 1980/1989 (3ª parte)

25/02/2012

Darklands (1987), The Jesus and Mary Chain.

Há poucos anos, quando o Orkut era “a” rede social no Brasil, recebi a mensagem de um amigo da faculdade, Luís Eduardo de Almeida Leal, que, então, morava em São Paulo (e ainda deve morar): “você é o Flávio Andrade da PUC, fã de The Jesus & Mary Chain?”

Acho que foi o maior elogio que alguém me fez. Ok, já me fizeram outros elogios antes (e depois), que sempre recebo com estranha timidez e desajeitamento. Mas ser identificado como um fã de JMC, ou melhor, ser destacado do resto da multidão por isso, pareceu-me ser o melhor que poderia esperar da vida. Vai entender…

E o álbum Darklands, o 2º da banda, e minha paixão por ele, tem muito a ver com isso. Não há um acorde desse disco que não me cause arrepios. Na época eu tinha ojeriza a qualquer coisa parecida com bateria eletrônica, e talvez por isso tenha demorado anos pra eu perceber que eles usaram o aparelho na gravação. As letras são extremamente “dark”, tudo a ver comigo entre 89 e 91. Sem as microfonias do álbum de estréia, Psychocandy, Darklands realçava toda a beleza melódica da banda escocesa.

Eu podia recitar Darklands, a música, de trás pra frente. Dançar Happy when it rains como um rato de laboratório condicionado toda vez que ela tocava. Hoje, About you e Deep one perfect morning são minhas favoritas. E On the Wall e April Skies continuam sendo hits atemporais.

Vídeo de Happy when it rains.

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The Joshua Tree (1987), U2.

Há tantas coisas a falar sobre The Joshua Tree… Por onde começar?

Conheci a banda em 1985, mas só fui me apaixonar por U2 em 1986, assistindo ao VHS de Under a Blood Red Sky na casa do meu primo Sérgio. Portanto, meu 1º lançamento do U2 foi o Joshua Tree.

O primeiro contato foi na academia Ortocenter, em Jacarepaguá. Estava tocando With or without you, que foi a música de trabalho por aqui. O Bono nunca tinha usado a voz grave antes, e eu podia jurar que era Echo & the Bunnymen. Mas não era possível estar tocando Echo na rádio. Então perguntei: que música é essa? Resposta: “não conhece? É a nova do U2!” Mas hein?!

Casa-pai-dinheiro-loja-disco do U2- casa. Botei o vinil pra tocar e achei tudo muito estranho. Gostei de cara de Where the streets have no name, I still haven’t found what I’m lookin for e, claro, With or without you. Mas não achei aquilo com muita cara de U2. Bullet the Blue Sky achei horrorosa, mas Running to stand still voltou a me acalmar. Não desgostei de nenhuma música do lado B, mas, no geral, só In God’s Country tinha me alçado às alturas. Mas U2 é assim, a banda não faz música chiclete, que gruda no ouvido em 1ª audição. Depois de 2 semanas em contato com aquele vinil, eu estava completamente abduzido e viciado (exceto por Bullet, que continuei não gostando – pra isso foi necessário vir o Rattle & Hum).

Where the streets have no name, Running to stand still e One Trill Hill são minhas favoritas, assim como as versões ao vivo do filme Rattle & Hum de With or without you e  Exit. O mergulho dos irlandeses do U2 nas raízes da América deu origem a um dos mais belos álbuns de todos os tempos. Mas ainda acho que eles perderam a oportunidade de fazer uma belíssima capa, só com a foto da árvore-título.

Minha amiga Kalu costuma dizer que meus olham brilham ao ouvir essa música. Outro grande elogio, com certeza! Assim como Darklands, The Joshua Tree é um daqueles disco que me definem.

Where the streets have no name ao vivo no show de ano novo, em 1989/1990, no Point Depot, Dublin.

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Appetite for Destruction (1987), Guns’n’Roses.

É muito estranho escrever sobre Appetite for Destruction como um disco do mesmo ano de Darklands e Joshua Tree, uma vez que demorou um pouco pra Sweet Child O’Mine estourar no Brasil. Antes disso, um show do Guns’n’Roses costumava passar na TV. Cheguei na sala e vi meu irmão assistindo àquela banda de tatuados. “O que é isso?”, perguntei. “Não sei, mas é legal”, respondeu.

Gostei da cover de Knockin’ on Heaven’s Door, mas achei estranho o vocalista estar sem voz no meio do show. O meu 2º contato com os caras foi a participação de Axl Rose e Izzy Stradlin num show dos Rolling Stones na Filadélfia, na turnê do Steel Wheels (“esses caras deve ser mesmo importantes”, pensei). Pouco tempo depois, estaria na 1ª noite do Rock in Rio II pulando enlouquecidamente.

Qualquer um que tinha entre 12 e 22 anos na virada dos anos 80 pros 90 sabe do que estou falando. Era impossível ficar impassível ao fenômeno Guns’n’Roses.

A banda foi abraçada pelos metaleiros da época, que reconheceram na banda qualidade além do rock farofa ao qual havia se reduzido o hard rock no final dos 80. Mas não serviu pra garantir o futuro do rock, por ser considerado um som retrô, com referências aos Stones e ao Aerosmith (pra isso seria necessário o Nirvana).

O disco é um marco, ainda que prefira a versão de You’re Crazy do Lies e lamente a ausência de You could be mine (sim, a música já existia!), minha preferida da banda junto com a canção abaixo.

Sweet Child O’Mine ao vivo no Rock in Rio 2.

Top 20 – 1980/1989 (2ª parte)

15/02/2012

I’m Your Man (1988), Leonard Cohen.

Nos anos 80 Leonard Cohen reinventou seu som a partir do álbum Various Positions, de 84. Quatro anos depois, coloca na rua sua nova obra-prima, I’m Your Man.

Tirando a fraquinha Jazz Police (cujo coro lembra aquele dos créditos finais da série clássica de Star Trek), só tem musicão. A melhor de todas, claro, é Tower of Song. Mas First we take Manhattan, Ain’t no cure for Love, Everybody knows, a faixa título, Take this waltz (com base em poema de Federico García Lorca) e I can’t forget, ou seja, o resto do disco, deixam pouco a dever.

Cohen deixou de vez pra trás o estilo bardo e violão para adotar o estilo crooner, com teclados e bateria eletrônica, só não abrindo mão dos vocais femininos.

Eu demorei mais de 15 anos do lançamento desse álbum pra conhecer Leonard Cohen, e um pouco mais do que isso pra conhecer ESSE disco. Portanto, de todo o Top 20 dos anos 80, é o único que se impõe por motivos 100% atuais.

Tower of Song ao vivo no excelente Live in London, de 2009 (simplesmente divino!).

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The Lion and The Cobra (1987), Sinéad O’Connor.

No início de 1988 surgiu aquela carequinha (uma gracinha) no vídeo raivoso de Mandinka. A música tinha saído do disco The Lion and The Cobra, lançado em novembro de 87, quando Sinéad O’Connor estava grávida de seu 1º filho, aos 20 anos (esses irlandeses precoces…). O disco saiu com duas capas: ela com cara raivosa e com cara de coitadinha. Reação: que coisa diferente, punk, alternativa… Legal!!!

O disco contou com outro sucesso midiático, I want your (hands on me). Mas o disco vai muito além dos seus dois sucessos imediatos. A assinatura marcante do estilo e voz de Sinéad pode ser sentindo mais profundamente em Never get old (que conta com introdução em gaélico de Enya), Just like U Said it would B (parceria com Steve Wickham, conhecido pelos fãs do U2 como o violino do álbum War) e a abertura crescendo em Jackie.

Mas mesmo que não houvesse nada disso. Mesmo que o disco fosse mais fraquinho, como a canção Drink before the war, há Troy. E um disco que tem Troy não pode ser qualquer um. Mesmo com épicas versões ao vivo, nada se compara a esta gravação em estúdio, que sempre me hipnotiza e arrepia a espinha toda vez que a escuto.

Num DVD recente, piratex, de um show na Suíça acompanhada por orquestra, já fora de forma, muitos quilos a mais e com a voz falhando, à medida que ela vai cantando a música, a mulher meio que é possuída e volta a ser a Sinéad de antes.

Sabe Kurt Cobain em Smell like teen spirit? Esquece. Sinéad, nessa canção, implode de emoção e renasce das cinzas como a fênix da canção. Não uma, mas várias vezes.

Gostando ou não, você pode conferir o que estou dizendo aqui.

Top 20 – 1980/1989 (1ª parte)

10/02/2012

Ao contrário dos anos 90, fazer uma lista dos meus discos preferido dos anos 80 foi relativamente fácil e rápido, embora ainda esteja incerto quanto aos álbuns do BRock. Talvez essa facilidade se deva ao fato dessa década ser a qual estou mais ligado afetivamente. Então, eu tinha certeza do que eu queria aqui.

Mesmo assim, tive dificuldades em separar discos que eu gosto bastante hoje em dia de discos que foram muito importantes pra mim na época, mas que já não tem a mesma relevância.

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Automatic (1989), The Jesus & Mary Chain.

Na 1ª vez que ouvi Automatic, tive uma reação conflitante. Havia grandes canções, mas era muito diferente do Darklands, que eu adorava. Fiquei ainda mais ressabiado quando soube que era com bateria eletrônica (mal sabia eu que Darklands também era). Mas, enquanto no disco anterior a bateria se limitava a soar como uma bateria, em Automatic ela é usada pra criar uma tensão com as guitarras, que parecem querer explodir, expandir, mas ficam contidas pelo tempo rígido da bateria. Sensacional!

Mesmo assim, quando assisti ao show deles na turnê do Automatic no Canecão, fiquei decepcionado quando tocaram apenas uma música do Darklands: April Skies. O que não me impediu de dançar bastante olhando pro chão, como o protocolo alternativo da época exigia (ou minha timidez, vá lá…).

Automatic e Darklands são, pra mim, uma espécie de Achtung Baby e Joshua Tree do Jesus & Mary Chain: duas obras primas em sequência e com propostas distintas (ok, não tão distintas quanto os álbuns do U2).

A versão em CD possui 2 faixas a mais, mas isso pouco altera a percepção da obra, pois são pouco mais de 3 minutos extras. Entre as 10 faixas originais, há pelo menos 6 excelentes músicas. A mais conhecida talvez seja Head on, que ganhou cover do Pixies (e, posteriormente, da Legião Urbana, mas sobre a versão do Pixies).

Vídeo de Head on.

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Disintegraton (1989), The Cure.

Confesso que o The Cure passou um pouco batido por mim nos anos 80. Eu gostava da banda, assim como gostava (menos) de Smiths, mas estava longe da adoração que dedicava a U2, Echo & The Bunnymen e The Jesus & Mary Chain. O lançamento do álbum duplo Kiss me, Kiss me, Kiss me, um tanto over, ajudou a empurrar meu mergulho no som da banda um pouco mais frente.

Após assistir o vídeo de Show (vídeo do CD duplo ao vivo da turnê do Wish, de 1992) no Estação Botafogo, é que me deu o click. Apelei pro meu primo Sérgio, que, na época, tinha toda a coleção da banda, exceto o The Top, incluindo o recém lançado Wild Mood Swings (1996). Dei uma geral em todos os CDs, fiz uma lista extensa que ele resumiu em 3 fitas TDK 60, muito bem gravadas e fora de ordem cronológica, de forma que me apeguei muito às canções, sem me ligar muito de quais álbuns elas vieram.

Gostei tanto que parti pra gravação de fitas ao vivo: uma com o Show, outra com o Paris (da mesma turnê) e uma 3ª com o Entreat, da turnê do Disintegration (The Prayer Tour), em 1991 – praticamente um bootleg. O CD tinha apenas 8 músicas: todas do Disintegration. E foi aí que eu senti pela primeira vez a força do disco. Talvez, por isso, seja meu álbum favorito do The Cure.

Lembrei de uma amiga, em 89, comentando como o disco era lindo e cortava o coração. De fato, o disco foi um retorno à atmosfera depressiva do Pornography (1982), e é belíssimo. Enquanto o álbum de 82 me chama a atenção pela bateria, Disintegration é levado pelos teclados. Fora a empolgante Fascination Street, que mantém a sonoridade dos dois álbuns anteriores, no disco predomina a cama de teclados e a voz lamentosa de Robert Smith.

Entretanto, fazendo um contraponto a esse possível convite a cortar os pulsos, Lovesong surge como uma verdadeira música de amor, merecendo cover tanto de Adele (no álbum 21) quanto de Tori Amos (apenas ao vivo).

A linda Pictures of You ao vivo em Wembley, 1991.

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The Stone Roses (1989).

Quando ouvi Stone Roses pela primeira vez (e foi logo quando saiu o vinil), nunca imaginei que a banda viraria cult para as gerações futuras. Ainda mais levando 5 anos para lançar o 2º (e último) disco, que muitos criticam, mas eu gosto.

Stone Roses me parece uma banda dos anos 60 que demorou a fechar contrato com a gravadora. Talvez fizesse muito mais sucesso disputando espaço com The Who, Kinks e que tais. E isso pode ser considerado um elogio, ok?

Sempre me intrigou as rodelas de limão na capa do LP de estréia… Não deveria ter rosas?

She bangs the drums, ao vivo, em 1989.