Archive for the ‘Top 20 – Álbuns ao Vivo’ category

Top 20 – Álbuns ao vivo (final)

03/07/2016
Paris album

Paris (1980), Supertramp.

O álbum duplo ao vivo Paris, do Supertramp, foi, junto com o Alchemy do Dire Straits, o disco mais importante da minha adolescência. Hoje, contudo, não tenho sequer o CD, ainda que preserve o vinil. Mas tenho o DVD, sobre o qual já escrevi no blog, que não é exatamente a mesma coisa.

Apesar de ser um registro da turnê do Breakfast in America, um álbum que nunca foi dos meus favoritos, o principal contemplado foi Crime of the Century, que só não tem uma de suas faixas gravadas ao vivo no vinil, If everyone was listening. De Breakfast in America e Crisis? What Crisis?, três músicas de cada. E apenas duas de Even in the quietest moments, sendo uma delas a enorme Fool’s Overture e a outra, uma belíssima versão de From now on, que não está no DVD, a única diferença realmente relevante (e sentida) entre as duas mídias.

O fato de ter me dado por satisfeito com o DVD de Paris me faz pensar em como a produção dos álbuns ao vivo mudou ao longo dos anos. Hoje, o CD virou um mero suporte do DVD, que passa a ser o produto principal. Não há mais os grandes álbuns ao vivo de antigamente, quase sempre duplos, antológicos, inesquecíveis. Hoje, com os DVDs e os registros no Youtube, as gravações ao vivo perderam a qualidade de momento único e mágico de outrora.

Ainda que nos anos 80 e início dos 90 alguns lançamentos tenham sido acompanhado de um vídeo em VHS, os vídeos não tinham o mesmo peso, pois era um produto que se desgastava com o tempo, além de a maioria não ter um bom equipamento de som acoplado ao videocassete.

Da minha lista de 20, nove refletem aquela época, e pelo menos dois foram lançados a reboque de um DVD. Considero os anos 90 uma fase de transição entre uma realidade e outra. Há ainda quatro bootlegs oficiais, que parece ser o formato no qual os discos ao vivo mantém sua relevância, pois se tratam, em sua maioria, de registros antigos não registrados em vídeo ou sem um registro de qualidade.

O U2, curiosamente, nunca se interessou em lançar um álbum ao vivo, mesmo nos anos 80. Sempre esteve interessado no vídeo. O EP turbinado de Under a blood red sky foi um subproduto mandrake (pois a maioria das faixas foram retiradas de outra apresentação) do vídeo, que era o projeto principal. E Rattle & Hum, que não é propriamente um álbum ao vivo (e por isso ficou de fora deste Top 20), uma trilha sonora do filme. A partir dos anos 80, a banda só investiu em DVDs (e VHS), relegando os discos ao vivo aos brindes do U2.com. Enfim, os irlandeses foram precursores involuntários da irrelevância dos live albums.

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A seguir, o Top 10 das melhores coletâneas, incluindo aí bootlegs, caixas e coletâneas ao vivo.

Top 20 – Álbuns ao Vivo (parte 15)

13/04/2016

Os álbuns a seguir vão por conta da simpatia pura. Aquele disco que você escuta, ama, e pronto, sem mais.

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Unplugged (The Official Bootleg)

Unplugged – The Official Bootleg (1991), Paul McCartney.

Os álbuns ao vivo mais importantes da carreira de Paul McCartney são, certamente, o vinil triplo Wings Over America, quando ele se afirmou junto ao público e à mídia como artista solo, e o igualmente triplo Tripping the Live Fantastic, que marcou seu retorno aos palcos após 10 anos (quase toda a década de 80) longe deles.

Mas o meu preferido é o seu acústico pra MTV, gravado logo em seguida e lançado inicialmente como um bootleg limitado. O Unplugged (The Official Bootleg) de Paul foi o primeiro disco da série MTV Unplugged. Então não é exagero dizer que foi o CD que deu origem à série.

Nele é possível ouvir um Paul solto, relaxado e à vontade com a banda que o acompanhou na turnê internacional. Relaxado, porém não menos ensaiado. O repertório é dos mais interessantes. A música mais recente é um cover de Ain’t no Sunshine, de Bill Withers, gravado em 1971. O resto é alternado com covers de rock e blues dos anos 40, 50 e 60, sucessos dos Beatles e canções de deu primeiro álbum solo, McCartney, de 1970, além de I lost my little girl, uma composição sua de 1956, quando tinha 14 anos.

O dado interessante da gravação é que foi tudo 100% acústico, com o som dos instrumentos sendo captado pelos microfones.

Aqui as gravações da MTV, para além do álbum.

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MTV ao Vivo - Pato fu no Museu de Arte da Pampulha

MTV ao Vivo – Pato Fu no Museu de Arte da Pampulha (2002).

Também da MTV, mas totalmente plugado, o álbum MTV ao Vivo do Pato Fu, gravado em 2002 no Museu de Arte da Pampulha, serve como uma simpática coletânea da banda mineira, e um resumo bastante representativo de sua carreira, pegando desde a irreverência do Rotomusic de Liquidificapum até as baladas mais radiofônicas como Perdendo Dentes e Depois, passando por experiências mais arrojadas em Eu e a ótima versão de Porque te vas, cover clássico de seu repertório retirado do filme Cría Cuervos (1975), de Carlos Saura. O som da banda pouco evolui ou mudou depois daí, apenas ampliaram um pouco seus horizontes, seja por meio da carreira solo de Fernanda Takai ou explorando o universo infantil.

Canção para viver mais ao vivo no Museu de Arte da Pampulha.

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Live at Massey Hall 1971

Massey Hall 1971 (2007), Neil Young.

Neil Young toca violão, gaita e arranha um piano. O som é tão límpido que nem parece um bootleg. Sua voz, que nunca chegou a chamar a atenção pela qualidade, chega a soar incrivelmente boa. Sério. Em Massey Hall 1971, o canadense chega até a cantar bem!

Esse é o disco. Simples, direto, solitário, um punhado de grandes canções, com destaque ao début de A man needs a maid e Heart of Gold em um formato de medley ao piano. O show foi em janeiro de 1971 e as canções só foram gravadas no mês seguinte. O show inclui também canções da passagem de Young pelo Crosby, Still & Nash e da época do Buffalo Springfield, como On the way home (que mereceu um cover de Renato Russo no acústico da Legião Urbana), que abre o disco. Incrível que só tenha sido lançado em 2007.

Old Man ao vivo no Massey Hall.

Top 20 – Álbuns ao Vivo (parte 14)

30/03/2016
Elton John 17-11-70

Elton John 17-11-70 (1971).

Talvez o disco ao vivo mais bombástico de Elton John seja o Here and There. Só que o álbum original era uma edição chumbrega em vinil simples e mal editada, e sequer tinha o melhor dos dois shows, um em Londres e o outro em New York, ambos em 1974. No final dos anos 80, saiu a versão dupla, com um CD dedicado a cada show. E ali está participação de John Lennon no Madison Square Garden em três canções, sendo a última I saw her standing there, do repertório clássico de Paul McCartney. Só que eu sou tão vidrado nesta parte do show que não consigo me concentrar no resto.

Então temos o álbum ao vivo registrando a apresentação 17 de novembro em 1970, numa apresentação com plateia para a rádio WABC-FM, em New York.

Na época, Sir Elton havia lançado apenas três álbuns, mas o segundo, homônimo, é um dos melhores de sua carreira. Tanto que não há nenhuma composição no show do 1° álbum, Empty Sky, e apenas duas de seu terceiro (no setlist completo, outras duas foram tocadas), Tumbleweed Connection. Então temos um artista jovem, em início de carreira, em plena ascensão, cantando e tocando com todo vigor e empolgação. O frescor é contagiante e evidente a cada faixa. A banda, enxutérrima, contava apenas com Dee Muray no baixo e o eterno Nigel Olsson na bateria.

O próprio John tem um carinho super especial por esta gravação. Ele deve saber das coisas…

Amoreena, incluída no CD, mas ausente do vinil original.

Top 20 – Álbuns ao Vivo (parte 13)

23/03/2016
Fleetwood Mac Live

Fleetwood Mac Live (1980).

Fleetwood Mac Live é um belo exemplo de uma coletânea ao vivo. Gravado em várias cidades na Europa, Estados Unidos e Japão, o álbum lançado em 1980 registra a melhor fase da formação mais popular da banda. Na verdade, o melhor se resume a dois discos: Fleetwood Mac (1975) e Rumours (1977). O terceiro, o álbum duplo Tusk, é um daqueles retratos de uma banda que já está se esfacelando, pois parecem não conseguir chegar a um acordo sobre quais músicas devem ou não entrar no disco. Mesmo se fosse um álbum simples, o disco não estaria à altura dos anteriores.

De Tusk saíram três faixas: a boa Over & Over, de Christine McVie, a muito boa Sara, de Stevie Nicks, e a razoável Not that funny, de Lindsey Buckingham.

Três faixas foram gravadas durantes os ensaios, duas delas inéditas: Fireflies, de Nicks, e One more night, de McVie. A terceira é um cover dos Beach Boys, The Farmer’s Daughter. Nenhum desses momentos, contudo, podem ser descrito como memoráveis. O álbum duplo levanta voo mesmo é nas canções do período 75-77, turbinadas com uma canção animada da época da dupla Buckingham Nicks, Don’t let me down again.

Apesar da ausência de You making love fun, o show contém o melhor dos dois álbuns. Quase todo o lado A de Rumours está presente, e com versões excelentes, particularmente uma arrasadora Go your own way, cujo solo de guitarra extrapola com sobras a comportada versão original. Sempre me deixa a impressão que o teatro ficou reduzido a cinzas. Já Never going back again, igualmente comportada, ganha mais nuances e malícia ao vivo.

O álbum homônimo de 1975 está contemplado com seis canções, quase todas em versões melhoradas. Over my head é a única que mantém o mesmo (bom) nível. I’m afraid ganha um extenso solo hipnótico que vais crescendo em espiral como um Bolero psicodélico. Monday Morning e Say you love me ganham mais energia. Mas é Lanslide e Rhiannon que roubam a cena, ambas de Nicks.

A bonita Landslide ganha um tom confessional mais denso ao vivo, enquanto Rhiannon, podada por um fade out na versão em estúdio, alça voo ao vivo como a personagem da canção. A interpretação de Nicks na canção é catártica.

Acredito que a importância do Fleetwood Mac ao longo dos anos se deva aos dois álbuns acima citados e este petardo ao vivo. Um breve momento em que a química funcionou e explodiu criatividade.

Go your own way ao vivo em 1977, portanto, versão distinta do álbum, não tão explosiva, mas excelente assim mesmo.

Top 20 – Álbuns ao Vivo (parte 12)

05/03/2016
Leyenda

Leyenda (1990), Inti-Illimani + John Williams + Paco Peña.

Em menos de uma hora de música, o ouvinte é transportado a outro universo sonoro, tão relaxante que parece new age, só que muito melhor. Depois de lançarem Fragments of a Dream ou Fragmentos de un sueño, em 1987, com o guitarrista de flamenco Paco Peña, um dos maiores do gênero na Espanha, e o violonista clássico australiano John Williams, que fora aluno de Segovia, o grupo chileno Inti-Illimani decide repetir a parceria e partir em turnê com a dupla. O show Leyenda foi registrado em disco na apresentação de 30 de janeiro de 1990, em Colônia, no  Philarmonic Theater.

O entrosamento é tão perfeito que os dois amigos parecem fazer parte do grupo chileno. O destaque do álbum está justamente nas apresentações instrumentais e na colaboração entre eles. Das nove faixas, três delas são cantadas, sem a participação dos violonistas. Sensemaya, com seu intrincado arranjo vocal, e a calmaria de Juanito Laguna remonta um barrilete harmonizam bem com o espetáculo, já Candidos destoa um pouco.

Os pontos altos estão na parceria com Paco Peña no medley Farruca / Huajra e a abertura de John Williams com David of the White Rock à explosão vocal do grupo em La Fiesta de la Tirana.

Mais quatro faixas reúnem todos eles sobre o palco, sendo uma delas uma peça flamenca liderada e composta por Peña, Alondras.

Inti-Illimani pode fazer três tipos de shows distintos: um mais centrado nas composições populares, outro que explora suas habilidades instrumentais, como em Leyenda, ou equilibrando as duas vertentes. Tive a feliz oportunidade de vê-los em ação no Teatro João Caetano em parceria com a Orquestra Sinfônica Brasileira. Imperdível!

O grupo formado no final dos anos 60 começou a se desmontar no início deste século, cindindo-se em dois grupos: Nuevo Inti-Illimani e Inti-Illimani Histórico. Infelizmente, momentos como aqueles vividos por mim e pela plateia em Colônia não mais se repetirão.

A versão em vídeo de Farruca / Huajra parece que ser de outra apresentação da turnê, mas tá valendo.

Top 20 – Álbuns ao Vivo (parte 11)

27/02/2016
Elis Regina Montreux

Montreux Jazz Festival (1982, gravado em 1979), Elis Regina.

A história já é bem conhecida. Elis Regina ia fazer um show no Montreux Jazz Festival em 1979, com intenção de gravá-lo em um disco paras tentar novamente uma repercussão internacional (Elis já havia tentado se lançar na Europa no final dos anos 60). Devido à grande procura pelo show noturno, que contaria ainda com a abertura do “bruxo” Hermeto Paschoal, a produção resolveu transformar a passagem de som em uma matiné.

O problema começa quando Elis se empolga e entrega a alma no show da tarde. Ao retornar para o show principal, já não tinha o mesmo gás. Pra piorar a situação, Hermeto havia colocado a casa abaixo, o que sempre força o artista que se apresenta depois a se superar para não deixar a peteca cair. Elis tentou, mas não encontrou forças para dar o melhor de si. O cansaço é perceptível na gravação. Entretanto, é aquela história: o artista sabe o que ele pretendia fazer, a plateia não. A não ser quem já tenha visto o mesmo espetáculo antes, o público não tem a percepção de que aquilo poderia ser melhor e fica bastante satisfeito com o que vê.

Elis saiu do palco frustrada, arrasada, considerando sua performance burocrática. Enfim, achou que pagou mico. Tomada por este espírito, proibiu o lançamento do álbum ao vivo. Qualquer um que ouvir a gravação, certamente discordará dela, a começar pelo público ali presente.

Após sua trágica morte, a gravadora resolveu (felizmente) lançar o tal álbum, mesclando o melhor de cada apresentação. No caso da apresentação noturna, o melhor se trata da participação de Hermeto Paschoal no bis, travando um antológico duelo com a cantora que, extremamente competitiva, reagiu positivamente ao desafio e conseguiu a superação física que antes lhe faltara. No lote, versões jazzísticas (de verdade) para Garota de Ipanema, Corcovado e Asa Branca. Tão perfeito que parecia até ensaiado, só que não. Todo o resto é tirado do show da tarde. No encarte do vinil, a produção lamenta não poder incluir uma ovação de 11 minutos recebida pela cantora.

Na mesma época, um vídeo do show da tarde foi transmitido pela antiga TVE (no Rio), com o aviso de que, a pedido da família de Elis, seria a primeira e última vez que o show seria exibido. Não sei se, posteriormente, ele voltou a ser exibido (parece que passou também na Bandeirantes). Só sei que a fita onde gravamos foi vista e revista várias vezes. Até hoje não foi lançado em DVD (se foi, por favor, me avisem!). Ao ver e ouvir o show, é impensável que a frustração de Elis com o show da noite tenha lhe impedido de perceber o momento mágico que havia protagonizado naquela tarde. Elis estava linda, solta, sorridente e cantando como nunca.

Posteriormente, a edição em CD incluiu algumas faixas bônus retiradas do show da tarde (tudo o que havia ficado de fora do vinil). A inclusão, entretanto, tira um pouco da coesão do disco. Não só pelas músicas fora de ordem como pela qualidade ligeiramente inferior a do disco original. Nota-se, principalmente, um pequeno deslize de Elis em Rebento. Com certeza essa parte ela realmente desejaria deixar de fora. No show da noite, apesar do cansaço, ela acerta a passagem.

Recentemente, todo o material foi recuperado e um álbum duplo, com o título Um Dia, foi lançado com os dois shows separados e em sequência. No CD da tarde, curiosamente não consta Na baixa do sapateiro, que consta no vídeo. Há dois momentos no mínimo estranhos no CD do show da noite: a versão encurtada de Águas de Março, que termina num fade pois a fita havia terminado (no show da tarde está completo), e a inclusão apenas de uma vinheta de Maria-Maria, cantada em um poderoso medley à tarde. Não sei se, a medida que o sentimento de frustração foi lhe tomando conta, ela decidira encurtar o show, ou se a gravação deste espetáculo não foi inteiramente recuperada. Mas isso não impediu que Elis fosse ovacionada pela plateia (dessa vez, devidamente registrado).

No que diz respeito ao instrumental, o conjunto formado por Chico Batera, Hélio Delmiro, César Camargo Mariano, Paulinho Braga e Luizão Maia contagia a plateia na longa introdução de Cobra Criada. Quando Elis começa a cantar, o jogo já está ganho. São também eles que seguram a onda em Triste, que encerraria o show noturno, depois que ela sai do palco e a plateia pede insistentemente por seu retorno, o que acaba sendo providenciado por Claude Nobs, o saudoso fundador do festival.

Aqui o show da tarde completo, na versão da Band.

Um Dia

Um Dia (2012, gravado em 1979), Elis Regina.

Top 20 – Álbuns ao Vivo (parte 10)

10/01/2016

Alguns álbuns ao vivo se destacam por registrar todo o esplendor criativo de um artista ou banda em um determinado momento carreira ou por sintetizar em um único momento toda a sua até então. Álbuns como Paris, Alchemy, Wings Over America e It’s too late to stop now certamente se encaixam em suas respectivas discografias dessa forma.

Em sentido oposto, alguns shows se destacam justamente por conter o registro de um momento singular de toda uma carreira. Alguns álbuns da série MTV Unplugged funcionam assim. Mas há outros exemplos de excepcionalidade, como o show de Chico Buarque e Maria Bethania no Canecão ou o encontro de Jimmy Page com os Black Crowes no The Greek.

Na sequência dos meus 20 álbuns ao vivo preferidos, listo um exemplo de cada um, onde os artistas conseguem, seja pela excepcionalidade, seja pela síntese artística, atingir resultados verdadeiramente brilhantes.

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Circuladô ao Vivo

Circuladô Vivo (1992), Caetano Veloso.

Curiosamente, o primeiro álbum solo ao vivo de Caetano Veloso surgiu após 20 anos de carreira, e foi em formato acústico, só voz e violão, chamado Totalmente Demais, gravado no Golden Room do Copacabana Palace. Até então, ao longo dos anos 70, só shows com outros artistas: Gil, Chico, Bethania, os Doces Bárbaros. Lembro-me de um show no Circo Voador, em meados dos anos 80, com formato também acústico, mas com banda completa, que desfiava um repertório muito semelhante ao dó álbum Caetano Veloso (1986), igualmente acústico, feito para o mercado norte-americano, que já renderia um excelente disco (ou fita VHS) ao vivo.

Mais foi apenas em 1992 que Caetano botou na rua um disco ao vivo que registrava todo o seu esplendor sobre o palco: Circuladô Vivo. Desde então, Caetano passou a lançar um disco ao vivo para cada álbum lançado, com exceção do A Foreign Sound.

Depois de passar os anos 80 com uma sequência de discos meia-bomba, foi com Circuladô que Caetano ressurgiu como um artista de álbuns, e não apenas compositor de grandes hits radiofônicos perdidos em meio a faixas inexpressivas, embora o álbum anterior, Estrangeiro, já apresentasse um processo de recuperação nesse sentido.

A turnê do Circuladô foi muito mais do que um show, ela marcou os 50 anos do artista, que rendeu um belíssimo especial na finada Rede Manchete, com cinco capítulos que foram ao ar de segunda a sexta, entremeando músicas de uma apresentação no Imperator com entrevistas, filmes antigos e cenas em família. Também havia música nas entrevistas, com versões emocionais de Cabelos Brancos, samba de Herivelto Martins, e Curvas da Estrada de Santos, de Roberto Carlos.

No material registrado em CD duplo está o que há de melhor em Caetano. Mano a Mano de Carlos Gardel, acompanhado apenas do violoncelo de Jaques Morelembaum, representa todos os tangos e boleros constantes de sua discografia desde Cambalache, em 1969.

O resgate de sambas antigos, outra constante na carreira, com Quando eu penso na Bahia, de Ary Barroso, e Disseram que eu voltei americanizada, feito para Carmen Miranda.

Homenagem à Bossa Nova em Chega de Saudade e ao frevo, com os seus Chuva, suor e cerveja e A Filha da Chiquita Bacana.

Lá está também a reinvenção de canções da MPB, elevando-as a novo patamar, dessa vez com Oceano, de Djavan, uma música que sempre considerei chatinha e clichê, mas que na interpretação de Caetano ganha contornos épicos.

Lá está também os covers dos ídolos estrangeiros como Bob Dylan, numa versão de Jokerman superior ao original (bem, quando se trata de cover de Bob Dylan, isso costuma mesmo acontecer), e Michael Jackson, já abrasileirado anteriormente em Billy Jean (no tal disco de 86 e também no já citado show no Circo), dessa vez com Black or White, que serve de introdução a Americanos. Sim, o show também tem aquelas composições novas inéditas e experimentais que nem sempre funcionam muito bem, mas nada tão constrangedor quanto As Camélias do Quilombo do Leblon, apresentada na recente turnê voz e violão junto com Gilberto Gil.

Alguns clássicos que antes não me encantavam (devido possivelmente aos insossos arranjos típicos dos anos 80) ganharam versões brilhantes, delicadas e repleta de nuances, como Queixa e Você é Linda, além de eternos clássicos do top de Índios e Sampa. A batida Leãozinho é renovada com um acompanhamento solo do baixo de Dadi, para quem a canção foi composta.

Das faixas do disco que deu origem à turnê presentes no show, só sobreviveram ao disco Circuladô de fulô, Itapuã e A Terceira Margem do Rio, menos da metade das apresentadas ao vivo.

E, claro, tem também o momento confessional, de conversa com o público, histórias emotivas e, para alguns, surpreendentes. No caso, a história por trás de Debaixo dos caracóis dos seus cabelos, que Roberto Carlos compôs sobre o exílio de Caetano em Londres.

A excelência do show não se limita apenas ao repertório, mas principalmente aos arranjos de Morelembaum. A sonoridade retrata toda a complexidade de Caetano, com guitarras roqueiras, batuques, distorções, cordas e o velho banquinho e violão. Tudo na medida certa. Talvez só tenha ficado de fora a fase londrina, que, de alguma forma, fez-se representar pela canção do Rei.

Queixa ao vivo.

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Live in Dublin

Live in Dublin (2006), Bruce Springsteen with The Sessions Band.

Em 2006, Bruce Springsteen decidiu gravar um álbum baseado no repertório de músicas tradicionais resgatadas por Pete Seeger. Entretanto, nas mãos de Bruce, as canções folk ganharam uma roupagem mais adequada ao seu habitual wall of sound, e banjos, acordeões, tubas e violinos mesclaram-se à guitarra elétrica. Tanto melhor! Disco-tributo costuma pecar por excesso de respeito ao material original. Se We Shall Overcome: The Seeger Sessions (2006) fosse um disco de folk tradicional como gravado por Seeger, provavelmente seria teria se tornado uma nota de rodapé na carreira de Bruce.

Com o pé na estrada com sua The Sessions Band Tour, aquelas versões foram turbinadas pela mitológica energia de Bruce ao vivo. Quando chegou a Dublin no final da terceira leg da turnê, a Sessions Band havia se tornado um todo compacto, uma máquina musical e coreográfica perfeita. Nada menos do que 18 músicos sobre o palco, com intensa movimentação, numa aparentemente descontraída confusão, sem ninguém se atropelar, sem nenhuma trombada. E com cada músico tendo pelo menos um momento de brilho sob os holofotes ao longo do espetáculo. Uma grande festa!

We Shall Overcome é o primeiro e único (até o momento) álbum de Bruce com músicas que não são de sua lavra. Compositor prolífico, nunca houve muito espaço para covers em seus álbuns, apenas nos shows. Então é no mínimo inusitado um show do The Boss em que metade (ou mais) das músicas apresentadas não sejam dele. Mas se por um lado Bruce aproximou musicas tradicionais ao seu estilo, por outro, fez o caminho inverso com suas composições próprias, adaptando-as à sonoridade do álbum e, consequentemente, da Sessions Band Tour. Assim, enquanto canções como Long time comin’ precisaram de poucas mexidas, If I should fall behind vira uma valsa, Further up (up the road) fica a um passo do gospel, Open all night se transforma numa apoteótica big band dos anos 20 e Growin’ up só é reconhecível pela letra.

Além da excepcionalidade do show em si em relação à carreira de Bruce (a turnê foi muito mais aceita na Europa, onde foi um estrondoso sucesso, do que nos EUA, com casas à meia-bomba), o CD do show não deixa de ser uma excepcionalidade em relação à própria turnê, deixando de fora algumas canções regulares dos shows e eternizando outras que não eram tão tocadas.

Live in Dublin já pertence a uma etapa da indústria fonográfica em que os DVDs são o carro-chefe e os CDs uma espécie de by-product. De fato, até pela magistral apresentação cênica da Sessions Band, o DVD é o produto principal, mas, musicalmente, o CD não deixa nada a dever. Por sorte, o repertório é o mesmo, incluindo os extras.

Uma repaginada Blinded by the light e a arrebatadora O Mary don’t you weep no The Point Theatre, Dublin, em novembro de 2006.