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Top 30 – 1970/1979 (12ª parte – final)

05/04/2014

Fechando meu Top 30 dos anos 70, nada mais simbólico do que uma passada de bastão: o último álbum dos Beatles e dois álbuns solo de ex-Beatles.

Let It Be (1970), The Beatles.

Let It Be (1970), The Beatles.

Pra quem estiver estranhando a inclusão de Let It Be, cabe mesmo uma explicação. Apesar das músicas terem sido gravadas no início de 1969, em 1970 rolou uma nada irrelevante pós-produção. Basta dizer que a inclusão de orquestra e coro nas músicas de Paul McCartney por Phil Spector foi a gota d’água para o fim dos Beatles. Além disso, o solo de George Harrison na faixa-título foi gravado em janeiro de 1970.

Geralmente Abbey Road, o verdadeiro “último álbum”, é muito mais elogiado, mas sempre tive predileção por Let It Be, até mesmo comparado ao mítico Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Por muito anos (até porque eu demorei a adquirir o Álbum Branco) este foi o meu favorito da chamada segunda fase da banda.

O clima despojado do álbum, com as conversas e as jams entre as músicas, e canções antológicas como Let it be, The long and winding road, Across the Universe e Get back, lado a lado com pequenas gemas como Two of Us, Dig a pony, I’ve got a feeling, One after 909, I me mine e For you blue, talvez só não atinjam a perfeição devido à mão pesada de Spector.

Portanto, não deixa de fazer parte do “pacote” a versão stripped de 2003, Let It Be… Naked. Mesmo sem as charmosas falas e as jams, mas reforçada pela poderosa Don’t let me down, as músicas dos Beatles nunca soaram tão magníficas. Creio que Paul conseguiu dar o seu recado: “eu tinha razão”.

Gravação de For you blue.

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All Things Must Pass (1970), George Harrison.

All Things Must Pass (1970), George Harrison.

All Things Must Pass foi o primeiro álbum solo de George Harrison, e considerado por muitos como o melhor solo de um ex-Beatle. Originalmente foi um vinil triplo, mas considerei na minha análise apenas o duplo, pois o 3º disco é uma jam session que funciona separadamente do restante do disco.

A força com que Harrison estreou a carreira solo (e que não manteve ao longo da carreira) não deveria surpreender. Enquanto John e Paul conseguiam despejar quase toda sua produção nos álbuns e singles dos Beatles, George tinha muito material represado, a começar pela faixa-título, que teria caído muito bem no Let It Be, mas acabou ficando de fora.

A face mais conhecida do álbum é My Sweet Lord, mas nem de longe é a que melhor o representa. E lá estão What is life e Beware of Darkness que não me deixam mentir. Até mesmo I live for you, um outtake incluído apenas 30 anos depois, é lindíssima.

O disco contou com zilhões de participações, desde Ringo Starr, Billy Preston e Eric Clapton ao pessoal do Badfinger, Bobby Keys e Phil Collins, entre (muitos) outros.

All things must pass em talk show.

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Plastic Ono Band (1970), John Lennon.

Plastic Ono Band (1970), John Lennon.

John Lennon já não queria saber muito dos Beatles e parece que passou 1969 ensaiando pra sua estreia solo. Cansado das ideias mirabolantes de Paul, juntou os amigos – Ringo, Klauss Voorman, Billy Preston, Phil Spector – e fez um disco cru, direto, rascante e sensível ao mesmo tempo. Imagine, o disco seguinte, é sensacional, mas Plastic Ono Band é um álbum que te pega de jeito, no contrapé. Isolation e God são desconcertantemente belas. Em Remember, John se antecipa a Alan Moore em quase 15 anos ao recitar “remember, remember, the Fifth of November”. Mother, apesar de um pouco gritada demais, é marcante. Working Class Hero, presença obrigatória nas coletâneas. Não há uma faixa que permita a indiferença.

O CD inclui mais duas músicas que saíram em singles, Power to the People e Do the Oz, mas que não pertencem ao original, e não costuma haver ressalva a respeito. Vale ressaltar que a primeira foge completamente ao espírito do álbum.

Se, numa realidade alternativa, um novo disco dos Beatles tivesse saído dos primeiros álbuns solos de seus integrantes, Paul só conseguiria emplacar umas duas faixas. Tudo bem que uma delas certamente seria Maybe I’m amazed, e quem compõe uma canção como esta não precisaria fazer mais nada na vida. E Paul já tinha feito “quase nada” antes e fez “pouca coisa” depois. Um luxo!

Mother ao vivo no Madison Square Garden.

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Gostaria de agradecer a AC/DC, Big Star, Black Sabbath, Bob Dylan, Carole King, Cat Stevens, David Bowie, Dire Straits, Elis Regina, Elton John, Eric Clapton, Gilberto Gil, Grand Funk Railroad, Grateful Dead, Los Jaivas, Janis Joplin, The Kinks, Leonard Cohen, Lou Reed, Milton Nascimento e o Clube da Esquina, Mutantes, Nick Drake, Novos Baianos, Patti Smith, Paul McCartney e os Wings, Paul Simon, Ramones, Raul Seixas, Roberto Carlos, Rod Stewart, Sui Generis, Television, Velvet Underground, The Who, Yes e ZZ Top por terem feito esta década discograficamente memorável e tão difícil pra montar essa lista.

Até os anos 60!

Top 30 – 1970/1979 (11ª parte)

19/03/2014
Bridge Over Troubled Water (1970), Simon & Garfunkel.

Bridge Over Troubled Water (1970), Simon & Garfunkel.

Nada mais anos 60 do que uma canção de Simon & Garfunkel. Mas, apesar de ter sido gravado em 1969, o lançamento de Bridge Over Troubled Water foi no início de 1970, que, apesar de tecnicamente ser década de 60, nesse meu Top Top não é.

A faixa título é a mais avassaladora interpretação de Art Garfunkel, e foi coverizada por Elvis, Aretha, Jackson 5, Willie Nelson, Whitney Houston, entre vários outros.  No “lado B” (coisa de velho), o igualmente clássico The Boxer. Ambas com letras inspiradíssimas. Como se não bastasse,  o disco ainda tem a linda The Only Living Boy in New York e a versão de Paul Simon para a peruana El Condor Pasa.

A inclusão da versão ao vivo de Bye Bye Love, boa música mas com qualidade de som inferior, é uma incógnita pra mim. E até hoje ainda não me decidi se gosto ou não de Cecília. São os dois únicos senões de um álbum que foi o canto do cisne de uma dupla que fez lotar de saudade o Central Park dez anos depois.  Pra mim, entretanto, mesmo já tendo um Greatest Hits sendo furado no toca-disco lá de casa, foi neste reencontro que eu descobri  Simon & Garfunkel.

Keep the Customer Satisfied ao vivo em 2003.

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Moondance (1970), Van Morrison.

Moondance (1970), Van Morrison.

Fui apresentado a Van Morrison por um amigo no final dos ano 80 pelo vinil de Astral Weeks, sempre referido como o melhor de sua obra. Entretanto, só fui mesmo parar para ouvir este genial irlandês mais de 15 anos depois, restabelecendo contato pelo mesmo Astral Weeks. Gostei tanto que resolvi arriscar o disco seguinte, Moondance. E aí fiquei chapado.

Com todo respeito ao disco anterior, que é mesmo sensacional e está cotado (mas não confirmado) pro Top 20 – 1960-1969, este é o meu disco favorito do Van Morrison, basicamente pela pluralidade musical apresentada. Na faixa-título ele avança com maestria para o reino do jazz como que possuído pelo espírito de um Tony Bennet (não a toa ganhou cover do Michael Bublé, o Harry Connick Jr. da vez).

Moondance ao vivo no Festival de Montreux, em 1980.

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After The Gold Rush (1970), Neil Young.

After The Gold Rush (1970), Neil Young.

Descobri After The Gold Rush pouco depois de Harvest (também incluso neste Top 30), e um é a continuação musical do outro. Ainda tateando no universo de Neil Young, fui atraído a este álbum pela presença de Southern Man, que eu conhecia de um cover bastante mal gravado do U2. A rapidez com que me aprofundei no universo deste bizarro canadense logo tornou obsoleto uma coletânea comprada na mesma época, que por isso mesmo escutei umas duas vezes no máximo (alguém aí interessado?).

A beleza desses dois álbuns representa pra mim o coração da obra de Neil Young (mas não a resume ou sintetiza), assim como A Day at the Races e A Night at the Opera para o Queen.

Tell me why ao vivo em 1970.

Top 30 – 1970/1979 (10ª parte)

03/08/2013

A primeira vez na vida que ouvi falar na existência de uma banda chamada The Doors foi algumas semanas antes do RPM reviver a Beatlemania em solo tupiniquim. A turnê que os catapultou ao estrelato estava para estrear no Canecão e uma matéria na Globo chamou a atenção para um pequeno snippet de Light my fire em Rádio Pirata, passando imagens de Jim Morrison, todo de preto,  contorcendo-se no palco. Da música eu já tinha ouvido a respeito. Meu pai tinha um vinil da Maysa ao vivo no mesmo Canecão, no qual ela também cantava a música. Um tanto inusitado, não?

Entretanto, só com os covers do Echo & The Bunnymen nos antológicos shows também no Canecão, Soul Kitchen e snippets de Ligh my Fire em Crocodiles e The End em Thorn of Crowns (Renato Russo também mandava um The End em uma das diversas versões ao vivo de Ainda é cedo), que eu resolvi dar uma olhada mais de perto. Um amigo tinha o Alive she cried (um ao vivo com excelentes versões de Gloria e Moonlight Drive) e outro tinha uma coletânea dupla. E assim gravei minhas fitas K7, às quais juntei um vinil do Hollywood Bowl (na verdade um EP ao vivo chumbrega).

Bem, isso tudo foi nos anos 80. Não sei bem por quê, em algum momento dos anos 90, quanto todo mundo escutava grunge ou britpop, comecei a arrebanhar todos os CDs da banda. Um eu já conhecia bem de casa de amigos, Morrison Hotel, e talvez por isso mesmo tenha demorado um pouco mais para comprar. Outro, do qual só conhecia duas músicas e que foi um dos primeiros a adquirir, tornou-se logo meu preferido: LA Woman.

L.A. Woman (1971), The Doors.

L.A. Woman (1971), The Doors.

Sempre que penso no álbum LA Woman, vem à mente um disco de blues. De fato, as faixas Been down so long, Cars hiss by my window e a tradicional Crawling King Snake contribuem nesse sentido, mas é pouco pra justificar essa impressão tão arraigada em mim.

O disco abre com um funk, The Changeling, que não ficaria nada mal na trilha sonora de Shaft.  Na sequência, a ótima Lover her madly que tanto irritou o produtor Paul Rotchild. Adoro a canção, que me faz lembrar outros momentos despretensiosos da banda, como Take it as it comes e I looked at you. Hyacinth House é uma relaxante e melancólica balada. The WASP (Texas Radio and the Big Beat), uma interessante mistureba de estilos que hoje provavelmente ganharia incrementos eletrônicos (aliás, Jim Morrison já profetizava o futuro da música eletrônica numa entrevista de TV).  As mais conhecidas do disco, claro, são a faixa-título e Riders on the Storm. Apenas L’America não diz muito a que veio.

Sabendo que as gravações começaram com o pior clima possível e com a debandada de Rotchild, salvas pela iniciativa do então engenheiro de som Bruce Botinck, que conseguiu estimular um cansado Jim Morrison e arejar o ambiente, o resultado impressiona. Assim como a horrorosa capa, que lembra aquelas coletâneas de gravadora pirata, com erro de digitação no nome das músicas.

Vídeo de LA Woman.

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Morrison Hotel (1970), The Doors.

Morrison Hotel (1970), The Doors.

O disco anterior e mais conhecido, Morrison Hotel, é até mais rock do que LA Woman. A banda sempre teve o blues como referência, assim como a psicodelia e toques experimentais. Mas, com o fracasso de Soft Parade (fraquinho mesmo), a reação foi um blues-rock na veia. A única exceção foi Waiting for the Sun, título do 3º álbum, de cujas sessões a música teve origem.

Ao contrário do que ocorre com a primeira faixa de LA Woman, que dá uma impressão totalmente equivocada do que será o disco, Roadhouse Blues é um perfeito cartão de visita para o que o ouvinte vai encontrar pela frente. Entretanto, o álbum peca um pouco no acabamento, soando às vezes como colagem de pedaços de canções.

O CD perde um detalhe curioso do vinil, que são os títulos diferentes para cada lado: o lado A é Hard Rock Cafe, e o lado B, Morrison Hotel. Algumas curiosidades em torno disso podem ser lidas aqui.

Vídeo de Roadhouse Blues.

Top 30 – 1970-1979 (9ª parte)

30/07/2013
Straight Up (1971), Badfinger.

Straight Up (1971), Badfinger.

Badfinger foi uma das poucas apostas dos Beatles bem sucedidas na Apple. Inicialmente chamada The Iveys, quase uma banda cover dos Beatles, ganhou a maioridade como Badfinger, mas não se livrou da pecha de ser “a melhor banda de Beatles”.

A “sombra” dos Beatles não foi sem razão. O disco de estréia, com muitas faixas reaproveitadas do álbum lançado como The Iveys, foi a trilha sonora do filme The Magic Christian, com Ringo Starr no elenco e a principal música, Come and get it, composta por Paul McCartney. A canção foi o primeiro hit da banda e, se ouvida distraidamente, faz você jurar que foi gravada pelo próprio Paul (cuja versão pode ser ouvida no Anthology 3).

Depois do disco seguinte, o ótimo e elogiado No Dice, veio Straight Up, que contou com a participação de George Harrison na produção e na guitarra em Day After Day, um dos hits do álbum e cujo refrão Raul Seixas “aproveitou” em seu Tente Outra Vez (só provocando). Outros dois nomes ligados ao Beatles também aparecem nos créditos: Geoff Emerick, na produção, e Klaus Voorman tocando piano elétrico em Suitcase. A lista de ilustres participantes também contém Leon Russell, tocando nas mesmas faixas acima citadas,  e Todd Rundgren (We’re an American Band, Bat out of Hell, New York Dolls) na produção e mixagem final.

Apesar de ter emplacado quatro ou cinco big hits ao longo da carreira, a vida nunca foi fácil para a banda, ora envolta pela crise da Apple, ora perdendo tempo e dinheiro em brigas com empresários salafrários. O futuro da banda foi trágico, com o suicídio de dois membros fundadores: Peter Ham, em 1975, e Tom Evans, em 1983.

Straight Up é considerado, com justiça, o melhor álbum do Badfinger, mas não por causa da crítica, que preferiu o trabalho anterior. É um daqueles discos que garantiu seu lugar na história pelo reconhecimento do público. E não foi só porque ele emplacou dois hits, Day After Day e Baby Blue, mas porque todo o disco é bom, cada uma das 12 faixas. Ainda que Sometimes seja chupada de She’s a woman, ainda que Badfinger continue sendo a melhor banda de Beatles de todos os tempos depois dos Beatles (e isso não é pouco!), o álbum é pop-rock de altíssimo gabarito. A capa, por outro lado, uma das mais feias…

Vídeo de Day After Day.

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Aqualung (1971), Jethro Tull.

Aqualung (1971), Jethro Tull.

Aqualung my friend… é simplesmente um daqueles álbuns que entra fácil em qualquer lista de “melhores de todos os tempos”. Certamente um dos dez primeiros que me vem à mente. Um falso disco conceitual, como Sgt. Pepper’s, o que parece ser muito comum numa época em que álbuns conceituais eram moda. Modismo, aliás, repelido por Ian Anderson, que odeia o rótulo de conceitual dado ao disco. Talvez por isso o disco seguinte, Thick as a brick, tenha sido o álbum de uma música só, com o líder do Jethro Tull respondendo aos críticos: “ISSO é um disco conceitual”.

Jethro Tull me foi apresentado nos anos 80 como banda de rock progressivo. Aquela flautinha do Ian, o tal disco verdadeiramente conceitual e a extensão de determinadas músicas (“rock progressivo é qualquer música com mais de 6 minutos”, já foi dito por alguém) até pareciam indicar nessa direção. Meu irmão havia comprado uma coletânea e o Thick as a brick, enquanto eu devorava a fita na qual eu gravara o Bursting Out (álbum duplo ao vivo) do meu primo Sérgio. Naquela mesma década, a banda levou o Grammy de melhor grupo de Heavy Metal, batendo um iniciante Metallica. Bem, metaleiros eu tinha certeza de que eles não eram, apesar de poderem soar um pouco mais pesados vez ou outra. Iron Maiden, inclusive, tascou um cover de Cross-Eyed Mary, segunda faixa de Aqualung, no lado B de The Trooper.

Mas, ouvindo Aqualung, nem mesmo o “progressivo” parece se adequar (talvez, com boa vontade, em My God – afinal, tem mais de 7 minutos). Quem sabe um folk hard rock. Até mesmo a questão sobre ser ou não um disco conceitual não é fácil de ser respondida. Se não há, de fato, um conceito que permeia todo o álbum, há alguns temas recorrentes que podem ser detectados separadamente ou não, como religião, sentimentos que beiram o autobiográfico e a decadência.

Acho deliciosa a presença de pequenas canções acústicas: Cheap Day Return, Slipstream e Wond’ring Aloud, a minha canção de amor preferida. Certa vez, conversando com uma amiga da faculdade sobre as breves músicas do U2 em seus primeiros álbuns, como Promenade e October, ela comentou: “São tão lindas… Pena que sejam tão curtas”. “Talvez sejam boas justamente por isso”, respondi. Não consigo imaginar um verso ou acorde a mais nelas (tanto nas do U2 quanto nas do Jethro), pequenas e perfeitas.

Enquanto Aqualung, Cross-Eyed Mary e Hymn 43 põem peso nos autofalantes, Mother Goose, Up to me (genial!) e My God soam como um rock medieval moderno. Fechando essa obra-prima, duas preciosidades em sequência matadora: Locomotive Breath, que se tornou presença obrigatória nos shows, e a linda Wind-Up. Apenas na versão comemorativa de 40 anos a remasterização digital conseguiu fazer jus ao original em vinil. Aqualung não é para ouvidos desatentos.

Aqualung, a faixa-título, ao vivo em 1977.

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Sticky Fingers (1971), Rolling Stones.

Sticky Fingers (1971), Rolling Stones.

Sticky Fingers é, provavelmente, o meu disco favorito dos Rolling Stones (tratando-se de quem é, a cautela torna-se necessária). O álbum abre com Brown Sugar, que faz jus aos grandes riffs dos anos 60; tem I got the blues e You gotta move rendendo homenagem às raízes do blues; Dead Flowers, Bitch, Wild Horses… E o que dizer de Sister Morphine com Ry Cooder na slide guitar?

As músicas e sua capa feita por Andy Warhol são célebres. Há mesmo pouco a acrescentar, exceto que acho Moonlight Mile, a mais esnobada, linda. O fato de ter sido o meu 3º ou 4º disco dos Stones se deve, creio, a minha paixão por Brown Sugar, que fazia minha alegria junto com Get off of my  cloud (presente no meu 2º CD da banda) na minha surrada fita K7.

Dead Flowers ao vivo em 2012.

Top 30 – 1970/1979 (8ª parte)

24/07/2013
Transa (1972), Caetano Veloso.

Transa (1972), Caetano Veloso.

A carreira de Caetano Veloso é multifacetada, mas acho que dá pra dizer que Transa é o meu álbum preferido dele. Até a presente fase junto à Banda Cê, era o mais rock’n’roll dele. E não só. A banda formada por Jards Macalé, Tutti Moreno, Moacyr Albuquerque e Áureo de Sousa traz uma sonoridade envolvente e diferente (no Brasil) para a época. Caetano diz que Nine out of ten traz o primeiro som de reggae da MPB. O samba de Monsueto Menezes, Mora na Filosofia, é transformado numa espécie de jazz-rock. Triste Bahia (sobre poema de Gregório de Matos) e  It’s a long way são canções épicas que misturam o regionalismo à estrutura progressiva/psicodélica tão em voga. quantas pessoas não se identificam ao cantar “woke up this morning singing an old Beatles song”? A linda You don’t know me faz hoje a ponte daqueles dias de exílio com os shows do álbum e seus sucessores. No final, a bela balada Nostalgia (That’s what Rock’n Roll is all about) resume com muita simplicidade o astral do disco. Só mesmo Neolithic Man coloco num nível mais abaixo. Encaixaria melhor, talvez, no experimentalismo do disco anterior.

You don’t know me ao vivo em show recente.

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Construção (1971), Chico Buarque.

Construção (1971), Chico Buarque.

Pela discografia e livros escritos nos últimos 30 anos, é difícil entender porque Chico Buarque se tornou uma celebridade além do bem e do mal, cujas declarações quase nunca são contestadas. Mas ouvindo tudo o que gravou nos anos 60 e 70, percebe-se o que está além dos olhos verdes que tanto fazem as mulheres suspirarem. E a tal fama se mostra mais do que merecida.

Voltando de seu autoexílio na Itália, com um pouco mais de ginga na voz, Chico gravou seu 5º e melhor disco da carreira. Mais tarde, ainda na década de 70, lançou grandes álbuns como Meus Caros Amigos e o “disco da samambaia”. Antes, nos anos 60, gravou verdadeiras pérolas da MPB. Mas é em Construção que atinge o ápice de sua poesia, tanto relacionada ao universo feminino quanto à crítica social e política. O malabarismo necessário para driblar a censura só fez crescer sua habilidade como compositor. Tudo isso embalado em arranjos arrojados e marcantes de Rogério Duprat, o maestro do tropicalismo.

A faixa-título, fruto do desafio de compor uma canção com rimas em proparoxítonas, já valeria toda uma carreira. Mas o álbum ainda reserva ao ouvinte canções como Cotidiano, Valsinha, Samba de Orly, Deus lhe pague

Desalento ao vivo.

Top 30 – 1970/1979 (7ª parte)

20/07/2013
Exile on Main Street (1972), Rolling Stones.

Exile on Main Street (1972), Rolling Stones.

Exile on Main Street é o último de uma sequência matadora de álbuns dos Rolling Stones, iniciada com Beggars Banquet, e único álbum duplo original (e com toda a pretensão que projetos do gênero sugerem). Como embarquei tarde nessa canoa, não conheci sua versão em vinil, mas apenas o CD simples. Influenciado pela disputa Beatles x Stones, só comecei a me interessar por Richards, Jagger & Cia por meio dos covers e snippets com os quais Renato Russo homenageava o grupo inglês. Assim, por algum tempo, uma fita k-7 de 60 minutos repleta de hits e o vinil duplo Love You Live era tudo o que eu tinha.

Meus primeiros CDs dos Stones foram Now e December’s Children, e Exile veio logo depois, já recomendado por um amigo como “o melhor disco dos Stones”. O disco de fato é excelente, mas não é meu favorito. O fator “álbum duplo” certamente contribui muito para isso, mas não é o único.

Não me lembro de já ter lido ou ouvido uma comparação de Exile com o Álbum Branco dos Beatles, mas é exatamente disso do que se trata. O álbum está embrulhado no mito de um mergulho nas raízes do rock e no glamour das gravações em Nellcôte, casarão de Keith Richards em Villefranche-sur-Mer. Mas o disco nem é uma proposta consciente e integrada de explorar as raízes do rhythm’ blues, e tampouco fruto das caóticas sessões nos porões de Nellcôte. O disco é uma colagem de momentos distintos e inspirações diversas das duas mentes criativas da banda: Mick Jagger e Keith Richards (nesse conflito de egos, talvez o papel de Mick Taylor, bastante ativo na “fase francesa”, tenha sido o mais subestimado).

O documentário do making-of, Stone in Exile, foca principalmente nas gravações na França, mas não deixa de registrar que muita coisa ainda foi feita depois dali (ou antes). Se, de fato, muita coisa teve origem na Côte d’Azur, o que rolou depois em Los Angeles, e até mesmo na Inglaterra, não teve importância menor. Basta dizer que Loving Cup, Tumbling Dice e Shine a Light vieram desse segundo momento. All down the line e Sweet Black Angel tiveram origem ainda durante as gravações de Sticky Finger, o disco anterior. E dá pra imaginar Exile on Main Street sem elas?

Nellcôte é puro Keith Richards, com suas drogas e gravações noturnas. Los Angeles é basicamente Mick Jagger. O resultado é a soma de esforços desconexos de um grupo que começava a perder a coesão. Um disco até certo ponto frouxo, variado e genial. Mais “álbum branco” impossível.

Sweet Virginia ao vivo no Texas, em 1972.

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Harvest (1972), Neil Young.

Harvest (1972), Neil Young.

Harvest foi o primeiro álbum do Neil Young que eu escutei por inteiro, e isso aconteceu há menos tempo do que eu gostaria. Até então conhecia algumas poucas músicas esparsas, o que não me impediu de ir ao show dele no Rock in Rio 3.

O disco (na verdade uma pasta com arquivos em mp3 que peguei com meu amigo Alexandre) me foi apresentado como “o melhor disco de Neil Young”. Não sei se é porque foi o primeiro, mas tendo a concordar. Seguindo o padrão soft-folk-rock do excelente disco anterior, Harvest não deixa de explorar algumas sonoridades, como em A man needs a maid e There’s a World, nas quais o arranjo com a Orquestra Sinfônica de Londres dá um ar de rock progressivo às faixas. There’s a World, particularmente, fica a cara de canção do Renaissance.

Impressiona também que um álbum tão bom tenha sido gravado praticamente de improviso, juntando músicos de estalo, e contando casualmente com participações de James Taylor e Linda Ronstadt, além do trio Crosby, Still & Nash.

Heart and Gold ao vivo em 1971, antes mesmo do disco ser gravado.

Top 30 – 1970/1979 (6ª parte ou Sessão Nostalgia)

12/07/2013
Crime of the Century (1974), Supertramp.

Crime of the Century (1974), Supertramp.

A carreira do Supertramp se construiu em torno da combinação criativa da dupla Roger Hodgson e Rick Davies, desde sua estréia em 1970, com um (bom) disco genuinamente progressivo. Entretanto, o álbum com capa tosca não impressionou. Acompanhados de outros músicos, fizeram nova tentativa no ano seguinte, incorporando agora o blues e um pouco de folk na sonoridade da banda. Apesar da famosa capa da mulher tatuada com os peitos de fora, voltou a não empolgar. Com sua terceira banda (dessa vez a definitiva), partiram para o terceiro disco, lançado três anos depois.

Em Crime of the Century, a banda atingiu o equilíbrio perfeito entre a origem progressiva, o blues de Davies e o recém incorporado pop de Hodgson. Perfeito da primeira à última faixa, os dois fracassos anteriores cobram seu preço na produção. A diferença sonora em relação aos álbuns posteriores é bastante perceptível, o que não impede de ser este o melhor momento do Supertramp em estúdio. Afinal, lá estão School, Rudy, Dreamer, Hide in your Shell, Asylum

Feita esta constatação, não deixo de rir ao me lembrar do longo tempo em que o vinil de Crime of the Century era um objeto inalcançável lá em casa. Enquanto as bolachas de Even in the Quietest Moments e Breakfast in America eram tocados até arranhar por mim e por minha irmã, Crime of the Century integrava a “coleção de ouro” do meu irmão: os discos que só ele podia tocar, manipular, e escutava exclusivamente no toca-discos artesanal especial do meu pai. Por sorte, o duplo ao vivo Paris (que eu comprei) continha quase todas as faixas do álbum, ficando de fora apenas If everyone was listening (no final das contas, a mais fraca).

Enfim, não poderia falar do álbum sem comentar a capa, a minha preferida da banda e uma das melhores em geral. Aliás, ela me faz lembrar a Zona Fantasma naqueles filmes de Superman com o Christopher Reeve. Afinal, tratava-se de uma prisão a girar solta pelo espaço.

Rudy ao vivo em 2010.

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Secos & Molhados (1973).

Secos & Molhados (1973).

Desde que me entendo por gente havia aquele disco do Secos & Molhados lá em casa. Não preciso dizer a fascinação que provocava em uma criança aquelas cabeças pintadas servidas numa bandeja. Pra não falar naquela famosa pegadinha: “você acredita que não é uma mulher que está cantando?” (uma década depois a história voltaria a se repetir com Mick Hucknall, do Simply Red – não só não era uma mulher, como não era uma negona).

Na época, minha música preferida era O Vira, enquanto Rosa de Hiroshima não suportava ouvir. Afinal, de gato preto, lobisomem, coruja, saci e de fadas criança entende. Já aquela história de crianças mudas e meninas cegas era muito esquisita… De qualquer forma, não demorou muito pro disco ficar mais arranhado do que eu em tombo de bicicleta.

Creio que só fui revisitar Secos & Molhados na época da faculdade, ouvindo amigos ensaiando Sangue Latino. Mesmo tendo passado tanto tempo, aqueles acordes estavam entranhados na veia como um “atirei o pau no gato”. Eu conhecia a música sem mesmo reconhecê-la. Mas só quando o CD foi lançado é que pude mergulhar novamente naquele oceano criativo.

É difícil crer que um disco desses surgiu no Brasil em 1973, em pleno governo Médici, com toda a exuberância de um jovem Ney Matogrosso e algumas letras incômodas, lotando o Maracanãzinho, então maior palco de shows no Rio de Janeiro. Mas o mais incrível mesmo é constatar o brilhantismo dos arranjos, das composições, um sentimento de “caramba, a gente fazia isso no Brasil?!!” que só fui ter ouvindo Mutantes.

Um hilário playback de Sangue Latino na TV (me lembrou muito a história em que Cebolinha e Cascão montam um grupo de rock).

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The Dark Side of the Moon (1973), Pink Floyd.

The Dark Side of the Moon (1973), Pink Floyd.

Seguindo pelas reminiscências da infância, The Dark Side of the Moon era aquele disco que todos os jovens escutavam… uma, duas, várias vezes. Eu não era jovem, era criança, mas ficava intrigado com aquela capa do prisma. Acho que todo mundo na época devia querer ter uma pirâmide de cristal ou algo parecido para tentar reproduzir o efeito. Creio que a gente tinha um peso de papel em forma de cubo… Não lembro se funcionou.

Minha lembrança concreta mais antiga é de esticar o pescoço pela janela (na velha casa da Aldeia onde meu tio morava) pra dentro do quarto da minha prima Denise e ver o pessoal sentado na cama, no chão, olhando perdido pro papel de parede, pro teto, enquanto ouvia o disco.

Eventualmente esse vinil chegou lá em casa, muitos anos depois. O mais vendido, o mais festejado, o mais tocado, mas não era o meu favorito do Pink Floyd. Wish You Were Here me encantava muito mais. Tenho implicância com a instrumental On the run, que sempre me soou (e ainda soa) como uma encheção de lingüiça entre Breathe e Time. Money e Us and Them me pareciam arrastadas demais, mas só fui me dar conta que o problema era esse quando lançaram o Delicate Sound of Thunder, no qual Money tinha o groove que vinha da minha cabeça, mas não da caixa de som. Ao contrário da sua contraparte do lado A, Any colour you like é um bom instrumental, que só irrita nas divisões de faixa ou arquivos digitais (um problema inexistente na era analógica). A sequência final com Brain Damage e Eclipse era o que realmente redimia o lado B.

No lado A, claro, a sequência de Time, Breathe (reprise) e The Great Gig in the Sky garante ao álbum o seu merecido lugar na história. Só Time já seria capaz de carregar todo um disco nas costas, uma das mais belas letras de todos os tempos. O vocal de Clare Torry em The Great Gig in the Sky vem arrepiando gerações. Há tempos eu tenho a curiosidade de ouvi-la com um saxofone no lugar da voz. Tenho certeza de que alguém já pensou nisso e já pôs a ideia em prática, só não chegou aos meus ouvidos ainda.

Todo mundo reunido no Live 8 tocando Money.

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Ashes are Burning (1973), Renaissance.

Ashes are Burning (1973), Renaissance.

Por muito tempo, Ashes are Burning foi, pra mim, sinônimo de Renaissance (os outros discos, importados, faziam parte da “coleção proibida” do meu irmão). Foi amor a primeira audição. Afinal, já não era tão criança e canções como Carpet of the Sun e Can you understand? me pegavam de jeito, do tipo que grudam mesmo.

Meu irmão era apaixonado por Let it grow, e ficou espumando de raiva quando a canção começou a tocar nas rádios. Seu temor era ser visto como alguém que gostava da música porque ela tocava nas rádios, por modismo, como se estivessem roubando-lhe a identidade.

A faixa-título é sensacional, mas só fui apreciá-la devidamente mais tarde, depois de me desacostumar da longuíssima versão ao vivo (e o incrível solo de baixo de Jon Camp) do Live at Carnegie Hall. Por, a minha versão em CD veio com a abertura e encerramento de La Cathédrale Engloutie de Debussy na belíssima At the Harbour. On the Frontier resta como a mais mediana do álbum.

Tanto o antecessor, Prologue, como o disco seguinte, Turn of the Cards, são muito bons. Mas só Scheherazade and Other Stories rivaliza com Ashes are Burning, saindo fora desse Top 30 na reta final. Esses quatro discos em sequência formam uma discografia de qualidade incomum. Infelizmente, o desprestígio do rock progressivo ao longo dos anos fez com que o Renaissance caísse um pouco no esquecimento.

Hoje tendo a concordar com as críticas aos agudos de Annie Haslam (não que isso me impeça de continuar gostando da banda), mas na época aquilo era o suprassumo.

Carpet of the Sun ao vivo em 1977.