Archive for the ‘Leonard Cohen’ category

I’m Your Man – A Vida de Leonard Cohen

24/12/2016

im-your-man-a-vida-de-leonard-cohen

Todas as biografias que li até agora, incluindo autobiografias, possuem uma narrativa, um corte específico, uma determinada abordagem que segue do início ao fim, deixando muitas histórias de lado. A biografia que Sylvie Simmons escreveu sobre Leonard Cohen, I’m Your Man, impressiona ao deixar muito pouca coisa de fora. Fica a impressão de que tudo que era possível apurar está contido em suas páginas.

Já li duas biografias de Paul McCartney, duas de Bruce Springsteen, e em nenhum momento tive a impressão de repetição ou perda de tempo, mas de complementação. Neste caso, fica difícil imaginar no que outra leitura sobre o artista, no sentido biográfico, possa acrescentar. Como diz a crítica da Rolling Stones exposta na capa da edição brasileira da Best Seller, “ela torna qualquer outra obra sobre o músico praticamente desnecessária”. E talvez seja mesmo o caso, exceto pelo fato dela ter sido terminada em maio de 2012, quatro anos e meio antes da morte de Leonard Cohen.

Inicialmente, temi por uma leitura um tanto pesada, no que diz respeito ao texto jornalístico. Simmons vai tão fundo e tão detalhadamente nas origens familiares do biografado, e avançando cronologicamente com cuidado, que algumas vezes me peguei pensando: “pra que tanta informação?” Porém, mais pra frente, esse tijolo por tijolo formando um desenho lógico mostra o seu valor.

Ao contrário da maioria das biografias de artistas, onde a parte mais palpitante é a história antes da fama, ou antes da obra que consolidou a carreira, a trajetória de Cohen até o primeiro álbum ocorre quase que por gravidade. Do jovem apaixonado por literatura e música que se torna poeta, do poeta de 30 anos que se torna compositor, do compositor que se torna cantor, do cantor alternativo que se torna mainstream, do artista famoso que se torna monge… A personalidade um tanto desconcertante e problemática é que vai ser, ao longo de toda a sua vida, a grande atração, garantindo emoção a cada capítulo.

Claro que é delicioso acompanhar aspectos de sua carreira, ficar por dentro dos bastidores das gravações, e Simmons é bastante generosa ao enveredar também pelo caminho da crítica musical e literária, particularmente quanto aos livros de Cohen, tanto os de poesia quanto os romances, dando à obra maior completude. Mas o personagem está sempre em primeiro plano.

Como na autobiografia de Bruce Springsteen, chamou-me a atenção desde o início a ênfase na depressão de Cohen. Pensei na coincidência de ler, em sequência, a história de dois artistas que sofrem do mesmo mal. Mas há diferenças relevantes. Bruce não usava drogas e procurou tratamento, obtendo grande melhora na qualidade de vida ao tomar antidepressivos. Leonard abusava das drogas (principalmente ácido e anfetaminas), não procurou ajuda profissional (apenas espiritual) e dizia piorar com antidepressivos. Por fim, com quase 70 anos, viu-se livre de seu mal e viveu os últimos 15 anos sentindo-se leve.

A crítica do New York Times classifica o livro como “um impressionante trabalho de amor”. Nada mais apropriado. Simmons cobriu todas as idas e vindas de alguém que viveu em Montreal, New York, Los Angeles, Londres, na ilha grega de Hidra e ainda passou um tempo frequentando o sul da França para ver os filhos. Enfim, uma penca de entrevistados (muito bem identificados e indicados nas notas finais) e milhas. Ao chegar ao final da leitura, com uma nota pessoal de Simmons, o leitor, assim como a autora, lamenta ter chegado ao fim.

Quando pôs um ponte final em seu livro em 2012, Simmons certamente lamentava ter de se afastar daquele universo Coheniano. Mas, ao ler este livro após seu falecimento (apesar de tê-lo comprado logo após o lançamento), o fato de saber que este afastamento é definitivo deixa um travo de melancolia.

Anúncios

Sincerely…

17/11/2016

essential-leonard-cohen

The Essential Leonard Cohen (2002).

Como disse em meu primeiro texto sobre Leonard Cohen aqui no blog, demorei bastante tempo para conhecê-lo. Já tinha ouvido o seu nome por aí, mas não fazia a menor ideia de que apito tocava. O tipo de música, a nacionalidade, a época, nada. Até, por fim, ouvir seu nome vindo da boca certa: Bono.

Minha forma preguiçosa de buscar novidades musicais, esperando que o peixe pule para dentro da rede pendurada no barco, pode ser um pouco lenta, mas vem funcionando muito bem. Um caminho para provocar meu interesse por determinado artista é conhecê-lo por outro artista, um que eu admire. Pela Legião Urbana e Echo & The Bunnymen, por exemplo, interessei-me por Rolling Stones e The Doors. Claro que eu conhecia as bandas, mas simplesmente não me interessava. Aí você escuta um cover aqui, um cover ali, um elogio, um amigo escutando… até que a coisa acontece.

E assim foi com Cohen. Mesmo apresentado a ele formalmente por Bono, não foi aí que eu corri para ouvi-lo. Isso demorou ainda um pouco mais. Nem quando ouvi a versão de Tori Amos para Famous Blue Raincoat. Precisou o Alexandre (que escrevia aqui no blog) me dar um CD com uma montanha de MP3. E lá estava Songs of Love and Hate. Aí pensei: chegou a hora. Ouvi e adorei (e tinha Famous Blue Raincoat!).

songs-of-love-and-hate

Songs of Love and Hate (1971).

Então saiu uma daquelas famigeradas listas de melhores discos etc, e, para minha surpresa, estava uma coletânea dele, The Essential. Resolvi arriscar. Confesso que, como disco, ainda não entendo a sua inclusão na lista; mas, como toda coletânea, serviu a seu propósito: apresentou-me à obra do poeta cantor em todas as suas variantes. Dali foi partir pra quase toda a discografia (faltam três álbuns, um deles o recém-lançado).

Quando Bob Dylan ganhou o Nobel, meu pai comentou uma crítica lida na folha onde alguém havia dito algo do tipo “se é pra dar a Dylan, por que não a Leonard Cohen”. “E quem é esse tal de Leonard Cohen?”, perguntou a mim. “Ele deve ser muito famoso pra pessoa citá-lo com tanta naturalidade, como se todo mundo o conhecesse”.

Após a sua morte, meu pai descobriu que não só eu o conhecia, como ele também. Através de outros artistas, claro. E aí foi a minha vez de ficar surpreso.

A morte chega para todos. O Nobel, para uns poucos. Mas a música permanece, solta pelo ar, para quem estiver disposto a ouvi-la, ou mesmo sem querer. Portanto, não há pressa. Se você nunca parou para ouvir Leonard Cohen, não lhe faltará oportunidade, mesmo que leve 20 anos.

Top 20 – 1960/1969 (4ª parte)

04/03/2015
Beggars Banquet (1968), The Rolling Stones.

Beggars Banquet (1968), The Rolling Stones.

Beggars Banquet é o primeiro de uma excelente série de quatro álbuns dos Rolling Stones, que marca um distanciamento da Satisfaction Era após uma tentativa fracassada de tentar seguir o mesmo caminho psicodélico trilhado pelos Beatles com Their Satanic Majesties Request. Foi o último álbum com a participação integral de Brian Jones.

A faixa de abertura, Sympathy for the Devil, é uma das mais icônicas do universo pop e, por si só, garantiria a relevância de qualquer álbum. Mas na sequência vem uma série de grandes músicas, embora não tão conhecidas. Street Fighting Man, que abre o antigo lado B, e é a segunda mais conhecida (e talvez tocada) do disco, sequer está entre as melhores.

O grande atrativo de Beggars Banquet para aqueles que gostam da banda mas não conhecem muito além do clássico é ver (e ouvir) o quanto eles se garantem sem os big hits.

No Expectations ao vivo no Hyde Park, em 1969.

*****

Songs of Leonard Cohen (1967).

Songs of Leonard Cohen (1967).

Em um post de maio de 2010 sobre Leonard Cohen, escrevi: em seu primeiro álbum, Songs of Leonard Cohen, de 1967, o artista queria apenas voz e violão. O produtor, John Simon, queria arranjos pra compensar sua voz monocórdia. Prevaleceu o meio termo: a voz e o violão dominam a cena, e uma etérea cama sonora preenche o espaço como se não estivesse lá, sutil, envolvente, aparecendo de tempos em tempos como ecos fantasmagóricos. E assim também funcionam outra marca registrada de Cohen, o contracanto feminino. Esse esquema funcionou muito bem e permaneceu até seu quarto álbum, New Skin for the Old Ceremony, de 1974.

Dessa primeira fase “bardo”, talvez eu revisite mais Songs of Love and Hate, de 1971, possivelmente por ter sido o primeiro que ouvi dele. Mas não tem como escapar do magnetismo daquele que deu origem à série. Não tem faixa ruim aqui.

So long, Marianne ao vivo em 1979 na Alemanha.

 

Top 20 – 1980/1989 (2ª parte)

15/02/2012

I’m Your Man (1988), Leonard Cohen.

Nos anos 80 Leonard Cohen reinventou seu som a partir do álbum Various Positions, de 84. Quatro anos depois, coloca na rua sua nova obra-prima, I’m Your Man.

Tirando a fraquinha Jazz Police (cujo coro lembra aquele dos créditos finais da série clássica de Star Trek), só tem musicão. A melhor de todas, claro, é Tower of Song. Mas First we take Manhattan, Ain’t no cure for Love, Everybody knows, a faixa título, Take this waltz (com base em poema de Federico García Lorca) e I can’t forget, ou seja, o resto do disco, deixam pouco a dever.

Cohen deixou de vez pra trás o estilo bardo e violão para adotar o estilo crooner, com teclados e bateria eletrônica, só não abrindo mão dos vocais femininos.

Eu demorei mais de 15 anos do lançamento desse álbum pra conhecer Leonard Cohen, e um pouco mais do que isso pra conhecer ESSE disco. Portanto, de todo o Top 20 dos anos 80, é o único que se impõe por motivos 100% atuais.

Tower of Song ao vivo no excelente Live in London, de 2009 (simplesmente divino!).

*****

The Lion and The Cobra (1987), Sinéad O’Connor.

No início de 1988 surgiu aquela carequinha (uma gracinha) no vídeo raivoso de Mandinka. A música tinha saído do disco The Lion and The Cobra, lançado em novembro de 87, quando Sinéad O’Connor estava grávida de seu 1º filho, aos 20 anos (esses irlandeses precoces…). O disco saiu com duas capas: ela com cara raivosa e com cara de coitadinha. Reação: que coisa diferente, punk, alternativa… Legal!!!

O disco contou com outro sucesso midiático, I want your (hands on me). Mas o disco vai muito além dos seus dois sucessos imediatos. A assinatura marcante do estilo e voz de Sinéad pode ser sentindo mais profundamente em Never get old (que conta com introdução em gaélico de Enya), Just like U Said it would B (parceria com Steve Wickham, conhecido pelos fãs do U2 como o violino do álbum War) e a abertura crescendo em Jackie.

Mas mesmo que não houvesse nada disso. Mesmo que o disco fosse mais fraquinho, como a canção Drink before the war, há Troy. E um disco que tem Troy não pode ser qualquer um. Mesmo com épicas versões ao vivo, nada se compara a esta gravação em estúdio, que sempre me hipnotiza e arrepia a espinha toda vez que a escuto.

Num DVD recente, piratex, de um show na Suíça acompanhada por orquestra, já fora de forma, muitos quilos a mais e com a voz falhando, à medida que ela vai cantando a música, a mulher meio que é possuída e volta a ser a Sinéad de antes.

Sabe Kurt Cobain em Smell like teen spirit? Esquece. Sinéad, nessa canção, implode de emoção e renasce das cinzas como a fênix da canção. Não uma, mas várias vezes.

Gostando ou não, você pode conferir o que estou dizendo aqui.

Leonard Cohen – Live at The Isle of Wight 1970 (2009)

27/06/2010
Leonard Cohen - Live at The Isle of Wight 1970 (2009)

Leonard Cohen – Live at The Isle of Wight 1970 (2009)

A história de Leonard Cohen já foi contada pelo Flávio, vou falar desse cd/dvd. É uma maravilha. Leonard no tumultuado Festival da Ilha de Wight de 1970, com uma ótima banda,  todo mundo quietinho, ouvindo-o cantar. Quanto ao dvd, poderia ser melhor. O diretor resolveu fazer um documentário, não mostrando todo o show e editando algumas músicas. Mas, ainda assim, é bom. Poucas vezes vi tanto um dvd.

Leonard Cohen

22/05/2010

Eu demorei pra saber que Leonard Cohen existia. E demorei mais um tempo pra me interessar a finalmente ouvi-lo. E não conhecer Cohen é um vazio para qualquer um que goste de música. Não porque seja indispensável, pois isso é uma questão de gosto, mas por ser único, como Queen, U2, Tori Amos. Se você não ouviu Leonard Cohen, você não conheceu uma forma de fazer música, pois você nunca ouviu nada igual, ao contrário de muitas bandinhas novas por aí, que até são legais, mas que se parecem com várias outras coisas.

Songs of Leonard Cohen (1967)

Em seu primeiro álbum, Songs of Leonard Cohen, de 1967, o artista queria apenas voz e violão. O produtor, John Simon, queria arranjos pra compensar sua voz monocórdia. Prevaleceu o meio termo: a voz e o violão dominam a cena, e uma etérea cama sonora preenche o espaço como se não estivesse lá, sutil, envolvente, aparecendo de tempos em tempos como ecos fantasmagóricos. E assim também funcionam outra marca registrada de Cohen, o contracanto feminino. Esse esquema funcionou muito bem e permaneceu até seu quarto álbum, New Skin for the Old Ceremony, de 1974. É o que eu chamo de sua fase “bardo”.

Em 1977 a coisa muda de figura. Death of a Ladies’ Man contou com a produção de Phil Spector. Se Spector conseguiu levar Paul Mc Cartney à loucura, imagine mixando o disco às escondidas de Cohen. O álbum tem saxofone, cordas, sintetizadores, bateria… Enfim, totalmente oposto do que costumava ser. A própria forma de Cohen cantar muda. O disco vai do folk tradicional à Motown. A única coisa que se mantém é a voz feminina. Não lembra um disco de Leonard Cohen, mas é bem interessante. Não deixo de ver neste e nos discos seguintes um vislumbre do que viria a ser a interpretação de Roger Waters em The Final Cut, do Pink Floyd.

Death of a Ladies’ Man (1977)

No disco seguinte, Recent Songs, de 1979, Cohen volta um pouco ao básico, mas de uma forma distinta: teclados, violinos etc. O disco fica aquém do anterior. Não que seja um disco ruim (tem bons momentos em The Guests e The Traitor), mas não traz nada de novo ou relevante. Basta dizer que o melhor momento do disco é um solo de violino. Assim, em Various Positions, de 1984, ele assume de vez seu lado “big band”, consolidando o que chamo de fase “crooner”. É um disco bem melhor do que o anterior, com mais vitalidade, mesmo que não seja um grande disco. Mas um álbum que tem Dance me to the end of love e Hallelujah merece todo o nosso respeito.

Various Positions (1984)

Talvez mais à vontade com seu novo formato, Cohen parte para sua obra prima de sua segunda fase, recheada de teclados: I’m your man. Toda vez que ouço First we take Manhattan não consigo deixar de me lembrar dos Ramones com seu Today your love, tomorrow the world ou de Johnny Cash como profeta apocalíptico em The Wanderer, ou ainda “Pink e Cérebro”. Mesmo a equivocada Jazz Police, que impede o álbum de ser classificado como perfeito, não estraga um álbum que fecha com a espetacular Tower of Song.

I’m Your Man (1988)