Hello world!

Publicado 19/03/2010 por ahasfma
Categorias: About me

Com o gosto musical formado nos anos 80, vivi a época em que, a cada álbum, buscávamos encontrar a trilha sonora (e, por que não, a solução do mistério) de nossas vidas. Hoje, com a difusão do mp3, parecemos voltar à era dos singles e compactos, onde a canção se sobressai à obra. Entretanto, para os amantes de música surgidos entre os anos 60 e 90, o álbum, a canção dentro de seu contexto artístico, envolvida muitas vezes numa embalagem conceitual, mantém sua importância e constitui parte essencial do universo musical.

Cole Porter, Cartola, George Gershwin, Noel Rosa… Suas histórias são marcadas por suas canções e pelos artistas que as interpretam ao longo do tempo. Bruce Springsteen, Pink Floyd, Led Zeppelin, U2, Tori Amos… Essas carreiras são narradas em seus álbuns, em torno dos quais gravitam singles, shows e entrevistas, pontuando cada momento de suas vidas.

Por essas e outras, esse blog fala de música em todas as suas formas, mas o principal foco são os discos, esse obscuro (com um furo no meio) objeto de desejo.

Formado em Publicidade, Jornalismo e Direito. Ex-cinéfilo, ex-escritor de RPGs, leitor preguiçoso, viajante esporádico, amante de futebol, viciado em séries de TV e fã de música. Cultiva hábitos bizarros como comprar CDs, escrever em blogs para si mesmo, não ouvir rádio, tirar fotos das cervejas especiais que bebe e comprar mais “comics” do que é capaz de ler. Esse sou eu.

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Top 20 – filmes e vídeos de música (final)

Publicado 16/10/2017 por cheibub
Categorias: Top 20 - filmes e vídeos de música, U2

Finalizando o Top 20 de filmes e vídeos, acabo como tudo começou: com o U2.

Under a Blood Red Sky

Quando estava na escola, todo mundo andava debaixo do braço com o EP ao vivo do Under a Blood Red Sky, cuja maioria das faixas foi gravada na verdade em um festival de verão na Alemanha (há um DVD pirata dessa apresentação, e vale bastante a pena), e Pride (in the name of love) bombava nas rádios. Eu não gostava de Pride e New Year’s Day não me encantava. Até então, a única música do U2 que me agradara era Sunday Bloody Sunday.

Então eu estava na casa do meu primo Sérgio quando um amigo nosso, Rogério, pediu pra ver o vídeo de um show do U2: justamente Under a Blood Red Sky, cujo conteúdo é bem diverso (e mais extenso) que o disco. Simplesmente não consegui desgrudar o olho da tela. Fiquei chapado, deslumbrado, apaixonado! Toda a minha paixão pelo U2 deriva dessa tarde em um apartamento de fundos no Flamengo.

A banda tinha consciência de sua força ao vivo e investiu tudo o que tinha na gravação do vídeo. Já é lendário o caso do cancelamento do show em Red Rocks por causa das chuvas, precisando a banda ir à rádio e garantir que eles iam tocar.

Como acontece em toda lenda, a chuva parou miraculosamente pouco antes do show. Os poucos que se aventuraram a subir até o anfiteatro participaram de uma espécie de “seleção natural”: só os verdadeiros fãs passarão pelas portas do Paraíso. Todo este contexto quase bíblico garantiu uma plateia apaixonada e uma noite mágica.

Infelizmente, o vídeo ficou pouco conhecido no Brasil, longe das lojas e da TV (por aqui era mais fácil ver um especial de uma hora da TV alemã de um show da Unforgettable Fire Tour), de forma que o VHS do meu primo foi o único no qual eu pus as mãos (e copiei, claro). Uma versão em DVD só foi lançada 24 anos depois, e dessa vez completa! O vídeo original começava com Surrender, que era quarta música do setlist.

U2 Go Home

Depois da experiência com o do Under a Blood Red Sky, o U2 demorou a fazer um grande vídeo ao vivo. A tour de Unforgettable Fire ficou sem um registro oficial (de fato, na época, não havia essa facilidade de fazer álbuns ou vídeos de cada turnê) e Rattle & Hum escapa totalmente ao modelo tradicional. Nos anos 90, tanto o show da ZooTv em Sidney quanto o da Popmart no México são bastante mornos. O especial da MTV da ZooTv é bem melhor que o vídeo oficial, lançado até em Laser Disc. Só na na Elevation Tour a banda voltou a fazer um DVD tão mágico quanto aquele lançado em 1984. O de Boston talvez já merecesse ser incluído nessa seleção, mas acabou sendo superado pelo gravado em Slane Castle, U2 Go Home, uma semana após a morte do pai do Bono, e no mesmo dia da classificação da Irlanda para a Copa do Mundo de 2002. A eletricidade do momento foi tão intensa que muitos que assistiram à transmissão pela TV pediram que ele fosse lançado em DVD. O que acabou ocorrendo. A interação da banda com o público é sintetizada em Out of Control, quando Bono grita “essa é a nossa tribo!”. Kite soa tão emocionante quanto em Boston, mas você nunca verá uma corrida em Where the streets have no name como aquela. Não, não verá…

Digital vs Analógico

Publicado 07/09/2017 por cheibub
Categorias: Uncategorized

Confesso que não tenho saudades da época do vinil.

Quem viveu, há de se lembrar da fragilidade, dos cuidados, do perrengue. Ocupavam mais espaço, tinham de estar em pé, todo o cuidado pra não empenarem, não deformarem, não quebrarem. Levar disco pra casa de um amigo ou simplesmente comprar e levar pra casa era uma aventura! Comprar em uma viagem, então, sinônimo de muita dor de cabeça.

É bem verdade que o visual das capas e do encarte era deslumbrante, mas tamanho não é documento. A praticidade dos CDs é insuperável! Vinil você tinha de levantar pra trocar de lado, e nem tinha como selecionar só uma faixa, ou faixas. E ainda tinha de limpá-lo volta e meia, pois juntava poeira e mofo. Pouco importa se ficava dentro de um plástico, ou se a própria capa era envolta em um plástico externo: isso só alterava a frequência. E não podia ser qualquer pano, qualquer produto. Às vezes era necessário deixar o vinil em banho-maria em uma solução.

É bem verdade que falo dos vinis antigos. Os de hoje são caríssimos, feitos em alta definição. E aí eu me pergunto: por que os antigos não eram assim?

Quando o CD surgiu, todos realçaram a limpeza e clareza do som. Mas logo apareceram argumentos que mostravam ser o som analógico superior. O mais pertinente dizia que o som analógico era continuo, enquanto que o digital era fatiado. Faz sentido! Isso dava crédito a quem dizia que o som do vinil era mais “quente”, passava mais emoção, provavelmente uma sensação derivada do som contínuo. Mas quem teria ouvidos para perceber a diferença? A única coisa que eu sei que nenhuma versão digital de Aqualung, do Jethro Tull, superou o original.

Contudo, mesmo supostamente superior, a reprodução de um vinil só soaria superior a um CD se os sulcos do vinil não estivessem desgastados e a agulha (que não poderia ser qualquer uma) em perfeitas condições. Ou seja, um vinil perfeito seria como a voz de Axl Rose (no auge), que acaba na terceira música.

E então veio o MP3, que seria o som digital já fatiado com as arestas aparadas. Isso deixaria o som mais compacto e de alta intensidade, o provocaria uma certa saturação auditiva. Curiosamente, em vez das gravadoras apostarem na profundidade sonora dos CDs, algumas passaram a reproduzir o tipo de som dos MP3s, tornando a audição integral de um disco um tanto maçante. Por sorte, nem todos seguiram a onda, e hoje temos vários formatos que tentam dar à música ouvida na internet uma dignidade auditiva.

Relembrando a discussão entre vinil versus CD ao longo dos anos 90, é irônico constatar que quem saiu perdendo foi o CD, suplantado por versões digitais de qualidade inferior.

MP3 e CD é o inverso de cerveja puro malte e cerveja com milho e arroz. Na cerveja, quando você bebe uma pilsen puro malte, você não percebe a diferença pra uma cerveja industrial padrão. Porém, se você fica um tempo só bebendo puro malte, ao voltar a beber a outra, esta fica parecendo água suja. No caso dos formatos digitais, quando você começa a ouvir MP3, não nota a perda de qualidade. Mas quando volta a ouvir CD, o som faz toda a diferença do mundo.  Mas nunca tive a chance de fazer o mesmo teste com vinil.

Nesse meio deste ano, finalmente voltei a ter um toca-discos (ainda não inaugurado). Não me desfiz de nenhum vinil, mas a preguiça de limpá-los será grande. Ainda mais considerando que tenho praticamente todos em CD (e MP3). Mas a nostalgia é uma doença que piora com idade…

Caetano 75

Publicado 08/08/2017 por cheibub
Categorias: Caetano Veloso

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Lá em casa a gente escutava MPB desde criança por causa do meu pai, mas ele não curtia os baianos. Só Gal Costa teve vez por causa da minha irmã. Da Maria Bethania, creio que só um mísero disco. Bem, e aquele ao vivo com o Chico Buarque. Mas é porque lá era “Chico fã clube”. Chico e Elis Regina, acima de tudo, seguido de Vinícius de Moraes com Toquinho e Baden Powell. De Caetano Veloso, com Caetano, só conhecia Alegria, Alegria e Leãozinho.

Gilberto Gil também não entrava, embora conhecesse muito mais canções de Gil, que tocavam no rádio e na TV. E, claro, a épica Domingo no Parque, que tínhamos em um vinil com uma coletânea de canções da época dos festivais, a qual incluía Alegria, Alegria.

Meu irmão foi quem furou um pouco o “bloqueio” e comprou dois discos dele, Outras Palavras e Cores, Nomes, que eu não parei pra escutar até chegar à faculdade. Só fui parar mesmo pra ouvir Caetano na época do programa Chico & Caetano na Globo.

Na faculdade, houve a virada. Era um fã de Chico em meio a uma horda de fãs de Caetano. No final da faculdade, ouvi de um colega, Hugo Sukman, que eu era quem tinha razão: enquanto todo mundo falava do baiano, eu dizia que o bom era Chico. Frase com a qual ele passou a concordar. A ironia é que eu já havia passado completamente pro time de Caetano.

O bom do Chico dos anos 70 é que ele não tapava buraco. Nenhuma faixa estava ali por acaso. Assim como nenhuma frase em suas músicas estava ali só pra fechar a estrofe. Mas depois desandou. Diziam que o combustível de Chico era a rebeldia política. Finda a ditadura, Chico caiu na mesmice com alguns rompantes de inspiração.

Caetano, por sua vez, ainda que tenha sido atingido pela pasteurização dos anos 80, sempre foi inquieto, um experimentador. Assim, nunca envelheceu. De tempos em tempos encontrava um veio musical e o explorava até esgotar. Se os fracassos de Caetano fazem ranger os dentes e estourar a paciência do ouvinte, seus sucessos são revigorantes. Caetano é uma fênix que renasce antes mesmo de se tornar cinzas.

Hoje, tenho toda a discografia de Caetano (exceto um ou outro ao vivo), Mas, de Chico, só até o disco da samambaia (em CD, pois em vinil tinha ido um pouco mais longe, comprando “Vida” e “Almanaque”).

Ainda hoje, aos 75 anos, Caetano pode soar tão jovem quanto a última revelação da temporada.

The Joshua Tree Tour

Publicado 25/06/2017 por cheibub
Categorias: U2

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Quando John Lennon morreu, eu não era ainda um adolescente, de forma que a reunião dos Beatles nunca chegou a ser um sonho real. O show que de fato povoou meus sonhos, fez palpitar meu coração como nenhum outro, e que sempre carreguei a amargura de jamais ter chegado perto de assistir, absorvendo com avidez qualquer migalha dele que chegasse a meus olhos e ouvidos, foi o da The Joshua Tree Tour, ou ainda a Lovetown Tour (algo como a Zooropa Tour para a ZooTv Tour).

Não de cara o U2 se tornou minha banda preferida em vida (antes o lugar havia sido ocupado por Dire Straits), graças ao vídeo de Under a blood red sky. Embora já conhecesse todos os discos anteriores (inclusive um excelente disco pirata da turnê do Boy), o Joshua Tree foi meu primeiro lançamento da banda.

Como costuma ocorrer com o U2, não foi paixão à primeira audição. Talvez na terceira. A coisa explodiu quando veio o filme Rattle & Hum. O U2 tem a curiosa característica de continuar a trabalhar suas músicas ao vivo. O disco é apenas o registro de um momento. Ao vivo, a banda parte para outro plano de existência. Não necessariamente as músicas serão melhores, mas muitas o são. Não é como Bruce Springsteen, em que tudo ao vivo soa melhor. No caso do U2, existe uma química entre banda e público que até hoje escapa à razão.

Assim, Joshua Tree se tornou meu álbum favorito, e a turnê catapultou o grupo irlandês para a constelação do rock. Os fãs mais jovens possuem essa relação com a ZooTv Tour, mas acredito que a maioria dos fãs da minha idade sonham com um show da Joshua Tree Tour como os adolescentes dos anos 50 sonhavam com Brigitte Bardot. Qualquer disco, show, vídeo, entrevista ou matéria de jornal, depois disso, não deixava de ser uma tentativa de compensar o rombo existencial de não poder ter visto Joshua Tree ao vivo.

Portanto, quando a banda anunciou uma turnê nostálgica do disco, comemorando seus trinta anos, e ainda garantindo tocar todo o álbum (o que inclui obrigatoriamente músicas jamais tocadas ao vivo), foi como um portal se abrindo para que eu voltasse ao passado para realizar um sonho. Será o mesmo show? Claro que não. Mesmo que eles tentassem reproduzi-lo, a voz do Bono está muito aquém do que foi no passado.

Ouvi o show do Jethro Tull tocando Aqualung na íntegra. Burocrático e sem alma. Em tese, este tipo de resgate costuma apresentar problemas do tipo, exceto quando se trata de artistas que colocam a alma em tudo que fazem, como Bruce e U2. No Rock in Rio, Bruce Springsteen tocou Born in the USA na íntegra, e pouca diferença fizeram os quase 30 anos que separavam a apresentação da turnê original.

Não perdi nenhuma vinda da banda ao Brasil (assim como as de Bruce), e nem esperava que viessem dessa vez, por isso já havia comprado ingresso pra Barcelona. Mas eles vêm! E eu estarei lá, mais uma vez (ou melhor, duas vezes!). Não é sempre que temos a chance de realizar um sonho.

Top 20 – filmes e vídeos de música (parte 13)

Publicado 19/06/2017 por cheibub
Categorias: Buena Vista Social Club, Documentários, Top 20 - filmes e vídeos de música

Buena Vista Social Club DVD

Buena Vista Social Club (1999), Wim Wenders.

Foi na casa de um amigo que descobri Buena Vista Social Club. Ele havia sido contaminado por um colega de trabalho que escutava o CD o dia inteiro. Quem não viveu a época pode nem desconfiar, mas o álbum foi um furor, trazendo a música cubana de volta às paradas. O sucesso, claro, foi internacional, levando o diretor alemão Wim Wenders, que já havia apresentado Madredeus ao mundo, a fazer um documentário sobre o álbum.

As entrevistas e cenas em Cuba são um espetáculo, numa época em que o acesso à ilha não era tão fácil. Felizmente, Fidel resolveu dar uma força aos velhinhos da música pré-revolucionária. Ry Cooder, o cérebro por trás do álbum, está sempre presente, mas pouco se fala da sua importância para a roupagem atraente dada à música até então considerada brega e ultrapassada.

O toque especial do filme está na forma simples e sincera com que os artistas são retratados. É possível senti-los nas rugas e porosidade da pele, na parede descascada, na ferrugem do refrigerador. O fim, na verdade, é o início de tudo: a apresentação do grupo em Nova York. O clímax se encontra nos olhos esbugalhados daqueles que jamais sonharam vislumbrar as vitrines da Broadway. Perplexos, paralisados, como se surpreendidos acordados em pleno sonho proibido.

Poucos filmes, mas pouco mesmos, são capazes de captar a alma da música como Buena Vista.

HO-BA-LA-LÁ – À procura de João Gilberto

Publicado 14/06/2017 por cheibub
Categorias: João Gilberto, Livros, MPB

Hobalala

Acabei de ler o mais inusitado dos livros sobre João Gilberto.

No segundo semestre de 2010, entre a vitória de Dilma nas eleições e a ocupação do Morro do Alemão pela polícia, o jornalista e escritor alemão Marc Fischer, seguidor do Novo Jornalismo de Gay Talese, veio ao Rio na tentativa de encontrar (e, se possível, entrevistar) o mais recluso dos nossos mitos musicais: João Gilberto.

Quem conhece João já sabe de antemão o final dessa empreitada. Fischer, então, transforma em livro suas desventuras e descobertas, num misto de biografia artística e autobiografia jornalística.

Autodenominando-se um Sherlock moderno, acompanhado de uma Watson carioca que lhe servia de tradutora, assistente e investigadora, Fischer vai contando os bastidores de cada entrevista, cada porta na cara e até mesmo eventuais porres. Em vez de construir uma narrativa em cima do material levantado, ele narra como obteve cada informação. Assim temos o capítulo com Menescal, o capítulo com Marcos Valle, com João Donato, Miúcha, um ex-cozinheiro do Plataforma etc., incluindo uma ida improvisada a Diamantina em busca do banheiro mágico onde a Bossa Nova teria sido inventada.

O mito (real) do banheiro da casa da irmã, o gosto pela maconha e a reclusão de João são bem conhecidos, mas o livro traz outras revelações que, ao menos a mim, surpreendem, como a relação e a filha com a bela e jovem Claudia Faissol. E principalmente, como ele encontrava a filha todos os fins de semana como um avô brincalhão. A batalha com a EMI e a razão da ausência de seus primeiros discos no mercado. A forma como ele se relaciona com o mundo (na verdade, uma pequeníssima parte dele) através do telefone.

A lentidão com que a investigação se desenrola me lembrou a primeira temporada de True Detective. Muito beco sem saída, muita porta na cara, até que a persistência e os contatos rendam frutos. Neste ínterim, o autor preenche as lacunas fazendo elucubrações românticas dignas de um “João Gilberto e a Filosofia”, com uma ingenuidade que ganha ares de literatura adolescente. No final, quando se dá conta que tinha chegado até onde podia sem atingir a meta pretendida, bate o desespero.

Entretanto, um detalhe na orelha do livro acabou por dar sentido à paixão juvenil que permeia a narrativa. Marc Fischer morreu em abril de 2011, aos 40 anos, pouco antes da publicação do livro. Fiquei curioso em saber se havia sido acidente, uma doença terminal ou algo assim. Marc se suicidou. Seu perfil no Facebook continua ativo, com uma última postagem em fevereiro. A maioria de seus posts era de música, e havia alguns sobre a viagem ao Brasil. E, claro, músicas de João Gilberto.

Perguntei-me, então, se, ao vir ao Brasil atrás de João, o jornalista já encarava aquela viagem como uma última e louca missão guiado pela paixão, talvez uma tentativa de dar sentido a sua vida. E eis que me pego fazendo as mesmas elucubrações que ele. Menescal tem razão: esse João é mesmo um perigo…

John Lennon

Publicado 03/06/2017 por cheibub
Categorias: John Lennon, Livros, The Beatles

John Lennon, a vida

Não costumo ler biografias de artistas que viraram símbolos, pois geralmente a narrativa é capturada pelo mito. Seja para exaltá-lo, seja para contestá-lo. Por essas e outras, nunca me interessei em ler sobre John Lennon.

Entretanto, após ler duas biografias sobre Paul McCartney e pesquisar sobre George Harrison, fiquei interessado em conhecer mais sobre aquele lado da história. Coincidentemente, ganhei de aniversário justamente uma biografia do líder dos Beatles: John Lennon, a vida, escrita pelo jornalista londrino Philip Norman, também autor de Shout!, livro sobre os Beatles execrado por Paul McCartney.

A leitura exigiu fôlego. São 800 páginas sobre 40 anos de vida. São, então, 200 páginas para cada 10 anos. A expectativa é, de saída, uma obra bem detalhada, o que não é frustrada pela leitura. Paul McCartney só aparece depois de 100 páginas. O primeiro capítulo é inusitadamente dedicado a contar a história de Alfred Lennon, filho de John Lennon e pai de John Lennon, o Beatle. Se o livro de Norman tem uma particularidade é justamente o fato de resgatar a figura do pai de John, tido como aquele que abandonou o filho. Lendo o livro, você fica com pena do cara: chifrado incansavelmente pela mulher, execrado pela família dela, ele bem que tentou criar John, a quem amava (assim como um tio, irmão de Alfred, que quis adotá-lo), mas acabou deixando que ele ficasse com a mãe. Não sabemos qual teria sido sua decisão se soubesse que, no fim das contas, o filho seria criado pela tia, e não por Julia. Uma coisa que nunca soube é que, quando ainda era casado com Cynthia, John e o pai se reconciliaram; e só lá pelo final da década John, totalmente surtado, chegou a ameaçar o pai de morte e não mais se falaram.

A mãe, por outro lado, era pintada como a tresloucada incapaz de criar uma criança. Na verdade, Julia queria criar John, assim como o novo namorado. Tanto que, com este, teve mais duas filhas. Trata-se no caso de uma alienação parental por parte da irmã Mimi, que, cooptando o pai (avô materno de John), aproveitou-se da personalidade instável de Julia e conseguiu para si um filho sem ter de passar por situações como sexo, gestação e parto. Extremamente rigorosa e preconceituosa, a Tia Mimi achava terrível que John fosse criado sob um lar “ilegítimo”. Há muita coisa aí que o livro não fala, mas que permite supor que ninguém nessa história era normal. A vítima, claro, foi o menino, que não podia jamais ser alguém normal.

A separação dos pais se deu aos 6 anos. John cresceu com sérios problemas de afeto e sofreu sucessivas perdas nesse sentido em um espaço relativamente curto de tempo. Depois da separação, veio a morte do Tio George, figura paternal e afetuosa que aceitava protagonizar um casamento virgem. Em seguida, a morta da mãe, atropelada. Pouco depois, a súbita morte do melhor amigo, Stu. Mais tarde, a de Brian Epstein. Pra piorar o enredo, logo no início do sucesso, sentiu-se obrigado a se casar ao engravidar a namorada, quando já a chifrava frequentemente com outra, por quem se dizia apaixonado. Nos anos seguintes, repetiu impotente a sina da família: mesmo sem desaparecer como Alfred, foi um pai (e marido) extremamente ausente.

John era uma alma conturbada, bipolar. Uma pessoa bastante insegura, mas que sustentava uma persona confiante e arrogante. Escondia de (quase) todos sua sensibilidade e interesses intelectuais. Tinha rompantes explosivos no qual se tornava uma pessoa fisicamente violenta, além de possuir uma ética um tanto duvidosa. Muitos amigos foram alvo de sua fúria, a quem espancava selvagemente. Algumas vezes sem motivo aparente. Numa delas, quase à morte. Fraco pra bebida, duas cervejas já eram o suficiente pra transformá-lo num ogro. E era praticamente incapaz de pedir desculpas. As drogas, por outro lado, poderiam torná-lo divertido e pacífico, mas também mais paranoico e emocionalmente mais instável que o normal. Ninguém se via livre de sua língua ferina, nem seu filho Julian. Só Ringo nunca foi alvo de seus ataques verbais. Se, com Sean, John foi a vanguarda do pai participativo, com Cynthia foi a caricatura do macho abusivo. E, por fim, tinha um enorme apetite sexual.

Dos aspectos positivos, me surpreendeu a crítica positiva de seus livros e os elogios a suas caricaturas, o Lennon artístico, mas não desenvolvido. Sua língua ferina seria inofensiva não tivesse ele um olhar bem perspicaz sobre as pessoas (pena que tal olhar falhou ante a bajulação de Allen Klein). O talento como compositor, desnecessário comentar. Como amigo, deveria ter mesmo um lado bastante cativante, capaz de compensar sua agressividade.

Até os Beatles assinarem com uma gravadora, Norman teve o mérito de entrevistar qualquer um que tenha esbarrado em John pelas ruas de Liverpool e Hamburgo. Da fase dos Beatles, como ocorre em qualquer biografia ou história do Rock, é impossível escapar da força gravitacional da banda, que passa a ser o foco da narrativa. Já não dá pra falar só de John. Fala-se de George, Paul, Ringo, Brian, Martin, os álbuns, as músicas etc. Depois, a base é, principalmente a versão de Yoko Ono, o que pode gerar alguma distorção. Mas o que importa que a sua visão sobre o casal faz sentido.

Aquela simbiose entre John e Yoko na fase final dos Beatles, que sempre me pareceu ser coisa dela, na verdade foi ideia de John. Com drogas na cabeça, paranoico com a Beatlemania, sufocado com o 1° casamento, órfão de Epstein e sentindo-se aquém de Paul, John quis construir para si um mundo próprio, no qual não tivesse que dar satisfações a e não dependesse de mais ninguém. Entretanto, era incapaz de fazer isso sozinho. Quando surgiu Yoko, pôde abrir mão da banda. Mas levou um tempo para sentir-se seguro para tanto. Na verdade, foi Yoko quem teve de abdicar boa parte de sua vida para viver essa fantasia de John. Algo um tanto inusitado para uma feminista. Coisas que eu não sabia sobre o romance: desde o 1° encontro na exposição de arte, demorou muito pro caso engrenar; Yoko engravidou duas vezes de John e perdeu a criança nas duas vezes de forma traumática.

Após o “lost weekend”, período em que ficou separado de Yoko (por iniciativa dela) em meados dos anos 70, a relação dos dois atingiu outro patamar, Logo de início, Yoko finalmente pôde ter um filho com John. O livro traz um generoso relato desses anos em que ele passou longe da mídia, evitando os amigos que pudessem levá-lo de volta ao álcool, às noitadas e à bebida. O jejum não anunciado de produção artística acabou sendo imposto também a Yoko, que não ficou muito satisfeita com isso. Enquanto se dedicava ao lar, ao filho (na tentativa de compensar o fracasso anterior dele como pai e o do próprio pai) e até à gastronomia, Yoko assumiu o papel de mulher de negócios (a contragosto, apesar de mostrar-se bastante talentosa na função). O John que emerge dessa limpeza física (Yoko, por sua vez, teve uma recaída às escondidas) é um ser solar, ainda temperamental e de língua ferina, mas bem mais tranquilo.

Quando tudo parecia ir bem, quando finalmente parecia estar satisfeito consigo mesmo e com sua família, cheio de planos para o ano seguinte, John é assassinado. Se a volta à ribalta o levaria de volta a velhos hábitos é algo que infelizmente nunca saberemos. Um “p.s.” com uma entrevista com Sean Lennon quase me levou às lágrimas. Creio que isso só não ocorreu porque estava em um restaurante. As páginas finais, com a morte iminente, e justamente quando eu começava sinceramente a amar o personagem (e não só a sua arte), já haviam me deixado com um nó na garganta.

Enfim, dificilmente haverá uma biografia tão completa e honesta sobre John (tão honesta que Yoko acabou por não endossá-la). Nas partes mais polêmicas, como a viagem de John e Brian à Espanha, o autor se limita a fornecer as versões, sem tomar partido ou tirar conclusões. Talvez um livro sobre fases delimitadas (como o livro sobre os anos 70 de Paul) possam servir de complemento, mas só.