Archive for the ‘Shows’ category

Deolinda no Rio

11/06/2016

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Inauguração do evento Festa Santos Populares Portugueses na Praça XV com o show do Deolinda, em um palco espremido entre o Paço Imperial e o Chafariz do Mestre Valentim. Primeira vez deles no Rio, de graça, neste cenário, não dava nem pra reclamar do som, que estava bom, apesar de achar a voz da Ana Bacalhau um pouco baixa.

O pequeno (mas condizente com o espaço) e animado público deixou a banda à vontade. Os músicos foram se soltando com o desenrolar do show, que só foi melhorando cada vez mais. Não foi uma apresentação com altos e baixos, foi só ladeira acima.

Luís José Martins deu show com seus diversos instrumentos de corda, enquanto Ana esbanjava simpatia e empatia com o público, contando histórias e construindo boas pontes entre nossas diferenças culturais.

A presença de palco de Ana lembrou um pouco a de Zaz: gaiata e muito expressiva, com um jeitão meio moleca que combina bem com as muitas letras bem humoradas. Só que Zaz se veste mais como uma descolada cantora de rua de Montmartre (o que ela já foi) e Ana estava, pelo menos nesta noite, com um visual de dama do Fado.

Foram 100 minutos de espetáculo enxuto e eficiente. Sabia que seria bom. Sabia que era imperdível. Mas nem sempre dou azo aos meus instintos. Já perdi muita coisa boa por causa disso. Mas não esta noite.

Que tal agora começarem a lançar os discos deles no Brasil? Já são quatro!

Prince

21/04/2016
Purple Rain

Purple Rain (1984), Prince.

Eu não era fã do Prince. Não era meu estilo, assim como Michael Jackson. Mas gostava de algumas músicas. Vi Purple Rain e até achei o filme razoável, e a música foda! Demorei um pouco mais pra curtir Kiss, e gostar muito. Só nunca tive muito jeito pra dançar. Já o que ele fez pro Batman não curti mesmo. E, claro, a música da carequinha, que eu demorei um tempinho pra saber que era dele. Muito boa!

Por isso me sinto um felizardo infiel que teve a oportunidade de vê-lo ao vivo no Brasil, enquanto muitos amigos fãs não tiveram a mesma sorte. Foi no Rock in Rio 2, no Maracanã, um dia de muita chuva que bagunçou um pouco a ordem dos shows. Alceu Valença, por exemplo, tocou depois de Prince, já de madrugada, e a galera que estava comigo não quis ficar pra ver.

Mesmo sem conhecer muitas músicas, achei o show espetacular. Aliás, literalmente um espetáculo. Som, movimentação de palco, luzes, teatralidade, dança. Lá pelas tantas, umas mulheres saem do gargarejo e sobem ao palco para dançar (não lembro qual música). De repente, uma delas sobe no piano do baixinho e manda ver, para delírio dele. Era possível ver seus olhos faiscando lá do meio do gramado do antigo Gigante. Soube no dia seguinte que era Márcia Bulcão, ex-vocalista da Blitz. Ela desceu do piano e tratou de voltar à plateia, enquanto as outras tiveram que ser retiradas do palco, tragadas de seu deslumbramento. E, sim, ele tocou Nothing Compares 2 U, numa versão diferentemente genial.

Dificilmente quem tem menos de 30 anos vai entender o impacto de Prince nessa época. Pode até imaginar, mas vivenciar é outra história. Mesmo eu, fora do seu público alvo, era afetado, pois Prince era um pacote de influências culturais. Prince foi tantos que até me pergunto se hoje morreram todos ou se apenas um…

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Prince no Rock in Rio 2, 1991.

U2 em Paris

17/01/2016

Paris 2

Finalmente pude ver o especial da HBO com o show do U2 em Paris. Infelizmente, não foi graças à Globo, naquela patética transmissão dilacerada com Pedro Bial dublando o Bono. Mas amigos e Youtube estão aí pra isso mesmo!

A história é conhecida: o U2 já havia tocado duas noites em Paris e havia dado um pequeno break para os shows do fim de semana. Neste ínterim, numa sexta-feira 13, ocorrem os ataques terroristas na Cidade Luz. Os shows são cancelados devido às diversas medidas de segurança adotadas pela polícia francesa.

Em dezembro, a banda irlandesa retorna para dar esses shows e, no fim do concerto, chama ao palco a banda americana Eagles of Death Metal, que teve a sua apresentação no Bataclan violentamente interrompida naquela noite sangrenta. Juntos cantam People have the Power, composição de Patti Smith, que havia tocado com o U2 esta mesma música na noite anterior (show também transmitido pela HBO). Mas não ficou só aí: os irlandeses deixaram o palco e permitiram que os americanos fechassem a noite com seu I love you all the time, momento que o vocalista Jesse Hughes jura que jamais esquecerá.

Tal encerramento (não só do show, mas também da turnê em 2015), assim como o já tradicional painel com os nomes das vítimas dos ataques com a bandeira francesa ao fundo no final de City of Blinding Lights, com Bono cantando trecho de Ne me quitte pas, certamente é o que torna esta noite de segunda, dia 7 de dezembro, inesquecível, mas tem também o resto do show e o que torna esta turnê inesquecível.

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Quando vi o vídeo da ZooTv, não imaginei que um dia alguém pudesse igualar a ousadia no uso de telões em um show. Na Popmart, a banda ousou no tamanho e na tecnologia, mas o palco me parecia apenas uma versão incrementada do palco dos Rolling Stones na tour do Voodoo Lounge. Apesar de toda a parafernália, no final das contas funcionava apenas como um telão. Em termos de interatividade, o telão da Vertigo Tour tinha sacadas mais espertas. Nesta turnê, por sua vez, o palco nos ginásios era uma versão turbinada da humilde Elevation Tour. Já o palco na versão pros estádios se aproximava mais da Popmart, sem o “McDonald” e o limão.

Eis que a banda inova mais uma vez com o alucinante palco da 360° Tour, com um telão circular que descia até o palco, suas passarelas móveis, mais parecendo uma nave espacial. “Pronto”, pensei, “agora só resta à banda voltar ao básico da Elevation Tour, pois nada vai poder superar isso”.

Bem, devido às limitações da paternidade recém adquirida, ainda não tive a oportunidade de checar in loco a Innocence + Experience Tour, mas o que vi em vídeo parece alcançar a grandiosidade da 360° e levar a interatividade da ZooTv a outro patamar.

O show tem vários atos, como em uma ópera. No primeiro, centrado principalmente nas músicas novas, tem como tema as reminiscências nostálgicas de Bono. Assistindo ao show na íntegra, esse caráter conceitual é mais amarrado do que havia me parecido até então. Até mesmo a nova versão para Sunday Bloody Sunday, que antes só havia escutado na transmissão em stream da eterna Sil Rigote, passou a ter sentido. O melhor de tudo é que, ao contrário do ocorrido na 360°, onde as músicas do No Line on the Horizon foram minguando de uma leg pra outra, na I+E são a coluna vertebral de todo o espetáculo.

A sequência, ao menos nos últimos shows de 2015, que vai de Iris a Raised by Wolves, passando por Cedarwood Road, Song for Someone e Sunday Bloody Sunday (a única antiga), funciona como uma peça única a qual é dada um tratamento visual sem precedentes. Lágrimas rolam em Iris e queixos caem no esplendor visual interativo de Cedarwood Road. O “vídeo em quadrinhos” de Song for Someone emociona e prepara para a temática política de Sunday Bloody Sunday e uma ótima Raised by Wolves, que soa melhor e mais urgente do que no disco.

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E quando você acha que valeu o ingresso e já pode ir pra casa, se dá conta de que este é apenas o início. O set fecha com uma estonteante versão de Until the end of the World, onde o telão-passarela é usado para encenar o já tradicional embate entre Edge e Bono, reinventando o que poderia correr o risco de ficar batido.

Semelhante à 360°, o telão desce até a passarela, mas em escala monumental. A banda toda fica dentro pra tocar Invisible, numa teatralidade capaz de deixar Peter Gabriel orgulhoso. Seguida de Even better than the real thing, trata-se de um curto (e belo) ato de transição para o momento seguinte do espetáculo: o E Stage.

O palco E nada mais é do que o antigo palco B já usado na ZooTv, Popmart e dividido na Vertigo. Ali são tocados os números acústicos, a filmagem em webcam (agora com celular), e o momento “suba no palco”, que a cada noite parece crescer o número de convidados. Bono já se deu conta que o público do gargarejo meio que se repete, a ponto de mais de uma pessoa já ter sido agraciada pelo menos duas vezes na mesma turnê. Foi o caso da Trish (se entendi certo o nome da menina), responsável pelo celular e pela dança em Mysteryous Ways (mandou muito bem, aliás).

Na volta ao palco principal, com uma reedição da versão de Bullet the Blue Sky da ZooTv, é dado início à sequência de hits até o final. Nas músicas do falso bis, as estripulias visuais ficam em segundo plano, parecendo-se mais com um show convencional.

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A voz do Bono, como sabemos, não é mais a mesma, mas isso só é relevante quando você está assistindo ao show do conforto de sua poltrona. Pra quem tá lá pulando, cantando, decidindo pra onde olhar (no caso de shows do U2, um detalhe importante), falhas na voz passam despercebidas. O que importa é a percepção holística do concerto. Shows de arena nunca foram só pra ouvir música.

O que me deixa apreensivo é que o espetáculo é todo pensado para ginásios, e não sei se há ginásio no Brasil que comporte esta estrutura ou se, havendo, daria vazão a um show dessa magnitude. Aguardemos.

Final do show com o Eagles of Death Metal, aqui.

Unrepentant Tour

08/12/2015

Ao escrever minha resenha sobre o show do Pearl Jam no Maracanã, dei-me conta de que nunca escrevi minha resenha dos shows da Tori Amos. Chegou a hora de consertar isso.

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Em maio de 2014, parti com minha esposa para assistir (pela primeira vez) a dois shows da Tori na Europa. O primeiro em Londres, no Royal Albert Hall, e o segundo em Bruxelas, no Cirque Royale. Nas duas semanas que separaram um show do outro, uma fértil passagem por Paris (sem Tori). A ideia era escrever uma resenha assim que chegasse de viagem, mas logo de cara recebemos a notícia da gravidez e a vinda do primeiro filho. E foi assim que deixei o blog de lado por longos oito meses.

A Unrepentant Tour iniciou na Irlanda antes mesmo do lançamento oficial do álbum Unrepentant Geraldines. O show em Londres era a oitava noite da tour. Verdes em termos de concertos da Tori, não tínhamos conhecimento dos seus Meet & Greet, costumeiramente na tarde das apresentações no próprio teatro. Informados sobre o assunto por um casal de brasileiros que a acompanhava desde o norte da Inglaterra, prometemos não repetir o vacilo em Bruxelas.

Animado por conhecer o famoso Royal Albert Hall, resolvemos fazer um tour pelo teatro antes do espetáculo (nada como lugar marcado!). Belíssimo por fora, por dentro o teatro é apenas funcional. Classudo, mas espartano. A diferença se fez mostrar quando soaram os primeiros acordes do piano de Tori: som limpo, cristalino, na altura certa.

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Aos (ainda) 50 anos, a voz de Tori parece seguir intocável pelo tempo. Bastante animada (o oposto do humor apresentado em Bruxelas), esbanjou simpatia, comunicando-se todo o tempo com o público, transformando o concerto num sarau para amigos.

Entre as 18 músicas tocadas em Londres e as 19 de Bruxelas, apenas 4 canções foram repetidas: a abertura com Parasol, o “final” antes do bis com Cornflake Girl, a curta Mr. Zebra e a empolgante Take to the sky, que depois trocaram de posição no setlist. Em Londres, Mr Zebra foi na primeira parte e Take to the sky no bis. Em Bruxelas, as posições foram invertidas. Com isso, assistimos a um total de 33 canções diferentes. Portanto, acompanhar uma tour de Tori Amos noite após noite é um grande negócio.

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Assim como ocorre com o Pearl Jam, tamanha flexibilidade e mais de 20 anos de repertório fazem com que os novos álbuns sejam pouco contemplados. Não que sejam ignorados, mas podem ser mais ou menos tocados como um player randômico com cerca de três centenas de canções.

As mudanças não se limitam ao setlist. A mesma música é vivenciada de forma diferente a cada noite, pois Tori a carrega com diferentes matizes emocionais cada vez que a interpreta. Isso só não ocorreu nessa tour em Cornflake Girl, que vem acompanhada de playback e um convite pra galera se levantar e dançar (e invadir a frente do palco). Achei esse playback desnecessário, e até mesmo quebra um pouco o clima do show.

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Royal Albert Hall, 15 de maio de 2014.

A estrutura do show, no entanto, não mudou (aí já é demais, né?). O show é dividido em duas partes. A primeira abria com Parasol e fechava com Cornflake Girl, apresentando sempre um set com dois covers chamado de Lizard Lounge. Depois um “bis” para mais três músicas no mínimo.

Até Londres, Tori vinha tocando covers bastante inusitados. Já na capital inglesa e em Bruxelas, três das quatro músicas ela havia gravado oficialmente: Rattlesnakes, Smells like teen  spirit e Famous blue raincoat. A outra, Sorry seems to be the hardest word, uma composição de Elton John que eu desconhecia. Mas nada a reclamar.

Em Bruxelas, dedicamos a tarde ao Meet & Greet, que acabou sendo corrido devido a um atraso da cantora. No tempo de espera encarando a fome e o frio (choveu quase toda nossa estada na cidade), acabamos conhecendo um punhado de fãs, entre eles dois brasileiros (um quase vizinho carioca e uma paulista que morava em Zurique). Acabamos virando o “grupo de brasileiros”, momento devidamente registrado em foto tirado pela assistente pessoal de Tori.

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Ao retornarmos para o teatro no início da noite, ficamos satisfeitíssimo com nossos assentos, que possibilitava uma vista muito mais próxima do palco. O Cirque Royale é de dimensões bem mais humildes que o Royal Albert Hall. Eis que, no intervalo entre o show de abertura e a apresentação da Tori, ficamos sabendo que “os brasileiros da foto” ganharam lugar na primeira fila… e bem no meio!

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Cirque Royale (Koninklijk Circus), 28 de maio de 2014.

O humor de Tori não estava dos melhores, o que se refletia num setlist mais pesado. O meu vizinho conseguiu emplacar um pedido, Take me with you, um lado B do B. Se não tinha sido um dos melhores dias na vida da cantora, certamente foi um dos melhores nas nossas.

Father Lucifer ao vivo em Bruxelas.

Pearl Jam 2015

28/11/2015

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Pearl Jam é uma banda que transita com bastante desenvoltura entre o folk e o hardcore. Tem também como assinatura a incrível variação do setlist entre um show e outro, similar à versatilidade de um Bruce Springsteen, mas sem o radicalismo de uma Tori Amos, que chega a manter de manter apenas quatro canções fixas em suas apresentações. Assim, alguns shows podem pender mais pra um estilo ou pra outro, defendendo da vibe dos músicos em determinada noite. Naquela noite carioca de lua quase cheia, eles estavam bastante pilhados, apresentando o setlist mais pesado de sua passagem pelo Brasil. Em 2005, por exemplo, a porradaria ficou para os curitibanos. Azar o meu, que preferiria muito mais os setlists de Porto Alegre e de São Paulo (ou o de Bogotá, três dias depois do Rio), e ainda fiquei sem ouvir os covers de Rain (talvez devido ao tempo bom) e All along the watchtower. Mas o pior show do Pearl Jam é ótimo.

Poucos artistas podem navegar por um repertório de mais de 20 anos de carreira com tanta desenvoltura, sem medo de ser feliz ou de desagradar o público. Alguns, como o U2, optam por um setlist mais engessado; outros, como Paul McCartney, não mudam sequer as piadas entre as músicas. O carisma de Eddie Vedder e esse suspense contínuo de qual será a próxima música são garantias de emoção do início ao fim.

Desnecessário falar das músicas, da empolgação da galera, que quicava até mesmo nas cadeiras do fundão, das homenagens às vitimas do Bataclan. O maior destaque da noite foi a própria emoção de Eddie Vedder sobre o palco, esforçando-se ao máximo para ser entendido em seus discursos. Ficou transparente que havia aproveitado bastante sua passagem pelo Brasil, e se divertido muito, e como nunca.

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Assisti aos três shows do Pearl Jam no Rio de Janeiro, nas turnês de 2005, 2011 e a de agora, em 2015. Os dois primeiros foram na Praça da Apoteose, o último no Maracanã. Continuo achando a Apoteose o melhor lugar para shows de arena de grande porte no Rio. Tirando a galera do gargarejo, há pouca diferença visual e sonora entre pista e arquibancada, além da possibilidade de poder circular livremente entre uma e outra (até a invenção da Pista Premium). Os dois shows que assisti no Engenhão, Paul McCartney e Roger Waters, foram muito bons, com ótima acústica, mas não troco pela sensação de integração que sinto na Apoteose, além da questão do acesso (insuperável, no caso do Maracanã, a arena mais central e de mais fácil acesso de todas).

O reduzido Novo Maracanã se mostrou mais apropriado para shows do que o antigo gigante, no qual, enquanto os arquibaldos cantavam “Hey”, a galera da pista já estava no “Jude”. Assistir a um show na arquibancada naquela época devia ser como assistir a um jogo da Seleção em HD: a galera do bar já tá comemorando o gol enquanto no seu sofá o Neymar ainda vai bater o pênalti. Rock in Rio, Rolling Stones, Paul McCartney batendo recorde no Guinness Book, vi e ouvi tudo do gramado.

O Novo Maracanã, entretanto, ainda sofre com um pouco de eco na arquibancada, como foi possível perceber em Black. Mas não foi esse o problema no show do Pearl Jam, e sim a altura demasiada, que fazia o som parecer aquele porta-malas de carro de playboy estacionado na frente do bar, com o som no último volume para impressionar as mina. O pessoal da vizinhança não viu, mas ouviu o show de graça (comentário baseado em fatos concretos). Quem mora na área sabe que a acústica externa do Novo Maracanã faz você se sentir dentro do estádio. Uma vez, ao descer do ônibus bem em frente ao setor Sul, onde estava concentrada a torcida do Botafogo, saiu um gol. Com o susto, meu espírito atravessou a rua antes do meu corpo. Impactante! Imagino o efeito de 50 mil pessoas cantando Alive a plenos pulmões.

Então, foi com uma ponta de tristeza que, logo nos primeiros acordes de Ocean, percebi que o som estaria longe do ideal (pra quem acha som ideal em show uma utopia é porque não ouviu Sir Paul tocando no Engenhão).

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Em alguns vídeos, como o de Yellow Ledbetter, ficou claro que a turma da frente não teve o mesmo problema de som. Percalços de shows de arena…

Zaz no Metrô… digo, no Circo.

22/03/2014
Zaz ao vivo no Circo Voador, Rio de Janeiro (20/3/2014).

Zaz ao vivo no Circo Voador, Rio de Janeiro (20/3/2014).

Na madrugada de domingo pra segunda, fui apresentado pelo meu amigo Bruno à nova promessa da nouvelle chanson, a cantora Zaz (nome artístico de Isabelle Geffroy), avisando aos amigos de seu show no Circo Voador na quinta, dia 20 de março. Não me lembro o que fiquei fazendo no computador naquela noite, mas fiz ouvindo a íntegra de seu 1º disco (ZAZ, de 2010).

O resultado é que no dia seguinte já tinha comprado os ingressos pro show e encomendado o seu 2º CD, Recto Verso. Chegando o dia 20, Zaz estampava sua foto no Segundo Caderno do Globo, e a fila que encontrei sob os Arcos da Lapa era bem maior do que estava acostumado. Pelo menos não choveu. E ainda deu pra ver o finalzinho da passagem de som enquanto retirava os ingressos na bilheteria, pagando o preço justo em troca da doação de 1kg de alimento.

Casa cheia (não precisa muito pra encher o Circo, que sempre põe mais gente pra dentro do que cabe no espaço efetivamente reservado pra assistir ao show), a banda sobe no palco passando de 23:30h, revelando aos gritos a presença ali de muitos e árduos fãs (o que a internet não fez com o mundo…).

A francesinha, com sua voz extremamente rouca, começou emendando canções pop agitadas pra animar a galera, com parcial sucesso. Algumas puxadas de corinho não deram muito resultado, mas ela ficou visivelmente satisfeita com os aplausos e urros no final de cada canção. Simpática, falava francês com a naturalidade com que outros artistas se dirigem a nós em inglês, lendo muitas passagens em português (com pronúncia bem melhor que a dos anglo-americanos). Mas quando chegou a hora de seu sucesso Je Veux, a casa veio abaixo. Até parecia a lendária apresentação do Franz Ferdinand na casa. Para minha surpresa (e para a dela), a galera cantou a música a plenos pulmões com a desenvoltura de um Love of my life no Rock in Rio (em francês? É isso mesmo?!). Dava pra ver os olhos dos músicos brilhando, e Zaz genuinamente emocionada e arrebatada.

A acústica do Circo funciona muito bem da platéia para o palco, numa onda sonora de fazer a alma descolar do corpo. Posso afirmar sem medo de errar que, em termos de show em terras cariocas, o Circo Voador é o nosso alçapão.

Assim, daí pra frente foi só partir pro abraço, com o público na mão, atendendo prontamente a qualquer aceno da musa. No momento “homenagem”, Zaz mandou uma versão moderna de La Vie en Rose e uma tocante interpretação, em português, de Samba em Prelúdio. Esta, aliás, foi a única música lenta que a galera respeitou. Sim, pois no Circo Voador parte da galera que fica na arquibancada e nos limites da tenda não vai pra assistir a um show, mas pra conversar como se estivesse numa boate. Assim, quando o volume da música diminui, é possível ouvir o zumzumzum das conversas tomar corpo. No show do Belle & Sebastian, por exemplo, deu pra saber (involuntariamente) toda a história de uma menina com o namorado. Portanto, se você for ao Circo querendo ouvir música, nunca, jamais fique nas beiradas da tenda, ainda que a visibilidade seja boa.

Creio que o público e Zaz saíram de lá tão ou mais satisfeitos do que eu. Zaz pulava e gritava u-la-lá o tempo todo, talvez querendo que aquele momento congelasse no tempo.

Dia seguinte, passei na Saraiva pra pegar meu Recto Verso. Como não tô ganhando nada com isso, aviso logo que a Cultura também tá vendendo, e pelo mesmo preço. O álbum, claro, é muito bom, alternando o pop-rock com canções mais puxadas pra música popular francesa.

Comme ci, comme ça ao vivo na Espanha e a apoteose de Ja Veux no Circo Voador.

Recto Verso (2013), Zaz.

Recto Verso (2013), Zaz.

Rock in Rio 1985-2013, uma breve história.

28/09/2013

Após o show de Bruce Springsteen no Rock in Rio, começaram a surgir comparações com o show do Queen em 1985, tanto por parte de quem viu como de quem não viu Freddie Mercury e Cia. Eu mesmo comentei que só seria possível comparar o show do Boss com aquele de 85. Claro que apenas o tempo poderá confirma essa primeira impressão deixada por Bruce e a E Street Band. Mas o que torna um show histórico? Por que alguns marcam e outros, apesar de excelentes, não?

Vamos voltar lá em 85 pra tentar entender…

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O próprio Rock in Rio é em si um evento histórico para a música no Brasil. O primeiro festival internacional, juntando grandes bandas, algumas no auge, outras nem tanto. Mostrou para o mundo e para o próprio Brasil que o país era um destino interessante. Na esteira do festival e no vácuo deixado pela pinimba do Brizola com o Roberto Medina (pois o irmão deste, Rubem Medina, era deputado federal por outro partido), surgiu outro, com endereço na Apoteose, o Hollywood Rock.

Então, qualquer coisa relacionada àquele Rock in Rio de 1985 é histórica, da música à lama (que chegou, salvo engano, na noite do dia 16 – o festival foi de 10 dias seguidos, começando dia 11, uma sexta, e terminando dia 20, um domingo). Mas alguns momentos foram históricos por si só.

Ninguém pisca ao eleger o Queen como “o” show. Creio que para um show atingir tal patamar mítico, além da ação do tempo, devem convergir a qualidade musical, a importância do show e algum grau de excepcionalidade. Tudo isso pode ser encontrado nos dois shows da banda. Naquele festival, exceto Iron Maiden e Rita Lee, todos tocaram duas noites. Pelos padrões de hoje, os 10 dias seriam apenas 5. Ambos os shows, dias 11 e 18, foram apoteóticos, casa lotada, plateia extasiada. O show bateu recordes de público, compondo as páginas do Guinness Book. Ainda que para os fãs tais performances não fossem surpresa, assim como o coro em Love of my life já aprendido no ao vivo Live Killers, a magnitude da cena, assim como seu televisionamento pela Globo para todo o país e para vários países trouxe uma dimensão extra. Meses depois, o Queen tomaria Wembley de assalto em sua apresentação no Live-Aid (apenas uma outra performance teve algum impacto na mídia nas semanas seguintes, o de uma jovem banda irlandesa), consolidando o poder magnético da banda para um público muito mais amplo que seus fãs. Para os brasileiros, seria a segunda e última passagem do grupo inglês pelo Brasil (e única no Rio). Após a morte de Freddie Mercury, essa apresentação tornou-se uma das preferidas do tipo “queria estar vivo para ver” ou “ter idade para estar lá” e sua variante “queria ir mas meus pais não deixaram”.

Claro que outros shows agradaram bastante. Assim como Queen, AC/DC e Rod Stewart já tinham passado pelo auge do auge mas ainda estavam em plena forma. Os Scorpions bombavam nas rádios com a balada Still loving you. Whitesnake foi escalado de última hora, substituindo Def Leppard, e tinha acabado de lançar o bom Slide it in, com uma música nas propagandas de Hollywood (“o sucesso”, não só no slogan da marca). Apenas Ozzy Osbourne e James Taylor viviam realmente um momento de decadência pessoal.

James Taylor, uma daquelas apostas pessoais do Medina, estava no fundo do poço. Teve sua carreira resgatada com o sucesso avassalador no Rock in Rio. Este foi realmente um show histórico, ou um momento histórico, sobre o qual se falou por muito tempo, mas que se perdeu no tempo. O valor afetivo gravado em corações cariocas pelas apresentações de Taylor justificou o convite para que retornasse à Cidade do Rock em 2001.

Ainda que do mundo pop, o jazz dançante de George Benson tocava nas rádios, assim como o B-52’s. Assim como nas edições atuais, sucessos de ocasião desapontaram e mostravam no máximo merecer um Palco Sunset, que na época inexistia: o jazz de Al Jarreau, lastreado num cover de Elton John, foi um fiasco; as Go-Go’s foram risíveis. Nina Hagen tocou de graça para ser incluída, ou seja, nem sucesso era, e só valeu pela bizarrice e pelas fotos hilárias e entrevistas nonsense, trazendo Supla a tiracolo.

O Yes é um caso a parte. Dinossauro do então finado rock progressivo, havia ressuscitado temporariamente com o grande sucesso de Owner of a lonely heart, do bom álbum 90125. Inédito no sul das Américas, atraiu gente de várias parte do Brasil e de países vizinhos. Fez um show nostálgico, mas com um pé no presente. O mais longo do festival, encerrando o dia 20 sob chuva de fogos.

E então sobrou o Iron Maiden. A banda queria tanto vir que arrumou um buraco na agenda da turnê americana pra tocar apenas uma noite, dia 11, com apenas a parte básica do palco. Para o público de heavy metal, esse show talvez seja tão mítico quanto o do Queen, pois reúne também vários dos elementos listados acima. Além do malabarismo de agenda, o Iron talvez fosse a única banda que estivesse realmente no topo do topo de sua carreira (algo que apenas o tempo iria demonstrar). O show escancarou as portas para o heavy metal no Brasil, além de um eterno relacionamento da banda com o país. E, como a cereja do bolo, a cena de Bruce Dickinson cantando com o supercílio sangrando. Não menos relevante é notar como o show foi memorável não só para os metaleiros tupiniquins, mas também para a própria banda. Não são muitos os shows no Brasil que adquirem esse status, como os do Echo & The Bunnymen no Canecão em 1987, do U2 no Morumbi em 1998, Franz Ferdinand no Circo Voador e os de James Taylor.

Entretanto, por ser restrito aos fãs de um gênero, o show do Iron é um show histórico do B, por assim dizer, mais underground. Pois outro fator para um show ser histórico em termos de festivais é deslumbrar não só seus fãs, mas também o ladrão.

Na faculdade, ouvi a história sobre um diretor de cinema brasileiro que, quando o produtor ligava pra dizer que a estreia tinha sido um sucesso (toda estreia de filme brasileiro é um sucesso, não importa quão ruim seja), perguntava se o ladrão havia gostado. “Só quero saber se o ladrão gostou. É isso que me importa.”

O ladrão no caso é aquele cara que estava fugindo da polícia e entrou no cinema pra se esconder. Tendo que esperar o tempo passar, relaxa, vê o filme e gosta. Pois bem, toda gangue gostou do show do Queen, que foi comentado por quem viu, não viu, e até por quem não gosta do rock.

Entre as atrações nacionais, houve atrações que surpreenderam por causar excelente resposta do público, como Ivan Lins e Alceu Valença. A cena de Alceu encerrando seu show com Anunciação foi tão vigorosa que, em 1991, eu queria vê-lo em ação tanto quanto Prince. Devido a confusões das quais não lembro (chuva?), Alceu só subiu ao palco de madrugada, depois do Prince. E ninguém que estava comigo quis ficar pra ver.

Blitz e Barão Vermelho já eram realidade, e de certa forma seus shows marcaram o fim de uma época (no caso do Barão, a sua versão com o Cazuza). Lulu Santos, também no auge, fez um show excepcional, acompanhado na época por Leo Gandelman no saxofone.

O show de Kid Abelha foi tão inexpressivo, e as limitações de Paula Toller na época tão constrangedoras, que é de se admirar que a banda não tenha sucumbido. Talvez a pior performance entre os nacionais, até porque todos os demais foram relativamente bem.

Um show mais folclórico (e heroico) do que histórico foi o de Pepeu Gomes no dia 19, única atração nacional originalmente agendada que não pediu pra ser deslocada para outra data. Ele meteu uma roupa cheia de tachinha e mandou solos e mais solos de guitarras nos ouvidos dos fãs de AC/DC, Scorpions, Whitesnake e Ozzy. Saiu aplaudido.

Mas, entre os nacionais, candidato à galeria de histórico só mesmo os Paralamas do Sucesso. Segundo disco recém lançado, o trio subiu semi-desconhecido ao palco munidos apenas de seus instrumentos e de uma palmeirinha. Fizeram um show dia 13 de gente grande a animaram a plateia. Quando voltaram novamente do dia 16, já foram recebidos como grande atração. A banda faria sucesso de qualquer forma, mas certamente queimou etapas e alcançou um patamar que as demais bandas, como Legião Urbana e Titãs, levariam ainda algum tempo a atingir, além de ajudar a “acontecer” nacionalmente a cena rock de Brasília e, por tabela, a de São Paulo. Portanto, ainda que pouco comentado atualmente, aqueles shows do Paralamas foram um marco na história do BRock.

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Em 1991, a segunda edição do Rock in Rio foi no Maracanã. Talvez o grande saldo daquele festival tenha sido a certeza de que ele deveria voltar para a Cidade do Rock, ou seria melhor não fazê-lo. Além da notória péssima acústica da arquibancada (como estará hoje?), o local não provia a mobilidade ideal para longos festivais.

Quanto aos shows, talvez o único candidato a “histórico” seja o do Guns n’Roses. Não que isso signifique a ausência de grandes shows naquela edição. Assim como em 1985, a ideia inicial era de 2 shows cada um, mas essa acabou sendo a exceção, sendo George Michael, Prince e o próprio Guns as mais relevantes. Em vez de 10 dias seguidos, como em 85, 9 dias, pulando a segunda-feira, entre os dias 18 e 27 de janeiro.

Outro evento marcante de 91 foi o boicote das grandes bandas nacionais. Legião não quis saber, os Paralamas foram chamados de ingratos, o Barão desertou em cima da hora e só os Titãs compareceram, fazendo um showzaço apesar do som embolado.

Quando comprei meu ingresso pro dia 20, este era pra ser o melhor line up da história do festival, aqui ou lá fora: Barão Vermelho, Titãs (ainda com Arnaldo Antunes), Robert Plant, Faith No More e Guns n’Roses. Robert Plant alegou problemas de saúde e foi substituído por Billy Idol. Nem precisava, né? Mas pior foi colocar Hanói Hanói, que nunca teve gabarito sequer pra um Sunset, no lugar do Barão.

O grande hype da vez era o Faith No More, que logo depois voltaria para tocar no Maracanãzinho. Não decepcionou. Já muitos sucessos do momento sucumbiram às dimensões do palco, como Dee Lite e Happy Mondays.

George Michael, aguardadíssimo, fez um ótimo show que decepcionou os fãs. Querendo mostrar que era um grande cantor e intérprete, fez um setlist lotado de covers. Quem não curtia George Michael, como eu, gostou muito. Já os fãs…

Prince também fez dois shows memoráveis. No do dia 24, umas meninas subiram no palco para dançar enquanto ele batucava no piano. Entre elas estava Márcia Bulcão, ex-integrante da Blitz, que subiu no piano e mandou ver, pra delírio do baixinho.

O show folclórico da vez foi o do Lobão, escalado pra tocar junto com Sepultura (reconhecimento festejadíssimo), Guns, Judas Priest, Megadeth e Queensryche. Como Lobão sabia fazer um som pesado, a escalação não chegou a causar muita desconfiança. Só que o cara resolveu entrar no palco com uma bateria de escola de samba. Aí lascou…

Dessa vez, o show histórico do B foi do A-Ha. A banda fez vibrar um Maracanã lotadíssimo, que fazia arrepiar mesmo quem via pela TV. Não sei se foi depois disso que eles resolveram fazer uma turnê nacional. Mas, como no caso do Iron, só os fãs da banda falavam do show, e, pouco tempo depois, a própria banda já havia saído do radar.

Quanto ao Guns, esta era “a” banda do momento. Axl e Cia havia dado um tempo dos holofotes e das turnês. E o retorno foi justamente no Rock in Rio, onde eles adiantaram algumas faixas do Use Your Illusion. A banda voltaria pouco depois para um conturbado show no Autódromo, um péssimo lugar para qualquer outro tipo de atividade que não envolva corrida. Isso ajudou a criar uma aura de “eu queria estar no lugar do Pedro Bial e ter visto o bumbum do Axl Rose” aos shows de 91. Por essas e outras a insistência do Medina em trazê-lo de volta em 2001 (que funcionou muito bem) e em 2011 (pra nunca mais).

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O 3º Rock in Rio, dez anos depois, marcou o retorno à antiga Cidade do Rock e inaugurou o formato atual de 7 dias. Também em janeiro, ainda não havia Palco Sunset, mas inaugurou a Tenda Eletro e os “pais” do Sunset: a Tenda Brasil e outra de música instrumental e world music, a Tenda Raízes, na qual assisti a um bom show do grupo mineiro Uakti.

A sessão nostalgia trouxe Sting (em 91 havia sido Joe Cocker, Santana e o não tão velho Colin Hay), James Taylor e Neil Young. Só que Neil Young é como Bruce Springsteen, não fica parado no tempo vivendo de passado. Por outro lado, não tem o menor perfil de pop star e interação com o público não é o forte dele. O cara subiu no palco com a banda, tocou monstruosamente bem, uma parte do tempo até de costas pra plateia, e quem gostar gostou.

Quanto ao Guns, ainda que não tenha tido o mesmo impacto de 91, foi o momento nostálgico perfeito para uma geração ainda jovem. Com voz esgarçada (who cares? Em 91 já não era muito diferente), emocionou o público com suas declarações de amor e carinho para sua assistente brasileira. Pra variar (mesmo!), foi incrivelmente sóbrio e profissional no palco.

Queens of the Stone Age veio antes de estourar pra valer, e marcou mais pela performance desinibida do baixista. Oasis chegou já um pouco saturado e apresentou um show meio insosso. Red Hot Chili Peppers, que tinha acabado de receber de volta John Frusciante e lançar o ótimo Californication tinha tudo para ser “o” show de 2001, mas se transformou em “a” decepção: som ruim e performance desinteressada de Anthony Kiedis. Além disso, o último dia do festival reviveu a mitológica lama de 85. A garra do público que ficou pra ver RHCP virou revolta com o show decepcionante e curto da banda.

Quem aproveitou bem o hype foi o Foo Fighters, que agradou em cheio aos fãs. Já Beck não teve tanta sorte, encontrando no palco principal um lugar bastante inadequado para a sua música. Já a Dave Matthews Band, que fez um ótimo show, não se entendeu bem com o retorno e tocou menos de uma hora. Causou boa impressão, mas não marcou.

Toda edição recebe aquelas críticas de “Pop in Rio”, “rock mesmo foi o primeiro” etc. Esquecem-se (ou simplesmente não sabem) que tanto 85 quanto 91 tiveram sua boa dose de pop (particularmente 91). Em 2001, que foi alvo da mesma lenga-lenga, teve apenas um dia de pop, e numa quinta-feira! A Cidade do Rock foi invadida por selvagens fãs de Sandy & Junior, Britney “Playback” Spears, 5ive, Aaron Carter (quem?) e o antigo grupo de Justin Timberlake. Moraes Moreira, coitado, é o único que tem do que reclamar. Salvo engano, foi o dia de maior ocorrência de furtos e roubos.

Entre os nacionais, Kid Abelha voltou bem mais vitaminado ao festival e Capital Inicial apresentou-se pela primeira vez como a grande banda que é hoje em dia. Fez um show marcante, aproveitando-se, talvez, do vácuo deixado pelas outras grandes bandas dos anos 80. Os Paralamas estavam em recesso e preferiram não participar. Um mês depois, Herbert Vianna sofria o seu acidente de ultraleve. Ira com Ultraje, Barão e Pato Fu fazem shows corretos.

Mas destaque mesmo foram as apresentações de Cássia Eller (que virou DVD) e Elba Ramalho & Zé Ramalho. Quem viu esse show entre primos, com Zé conduzindo Elba pelas veredas do rock, não poderia desconfiar do acerto que foi juntá-lo ao Sepultura nessa última edição. É mais um daqueles grandes shows que passaram despercebidos. Já o show de Cássia, até mesmo devido à morte da cantora no final daquele ano, poderia ter ganho ares míticos não fosse o Acústico MTV gravado dois meses depois.

O show folclórico dessa edição ficou a cargo de Carlinhos Brown, que tocou num dia nem tão pesado assim. Só que a arrogância de Brown levou o público à loucura, e a chuva de água mineral esperou apenas o momento ideal para cair.

Sobraram, portanto, os shows de REM e Iron Maiden. Do último, o momento de reencontro de Bruce Dickinson com a banda, o lançamento de um bom álbum (fazia tempo!) e a gravação de um DVD. Somando-se o momento especial a um show de qualidade, poderíamos ter aqui um show histórico, certo? Sim, se não fosse um show de Heavy Metal. A casa estava lotada, o ladrão não encontrou ingresso nem conseguiu pular o muro.

O REM vinha pela primeira vez ao Brasil, e a primeira vez de uma grande banda é sempre especial. Mas seu auge já havia passado. A banda chegou a antecipar (ótimas) músicas do novo disco ainda não lançado. Só que o disco mostrou-se fraquinho como um todo. Talvez tenha sido um dos melhores shows da história do Rock in Rio, mas não propriamente um show histórico. Certamente um show histórico para os fãs.

Talvez o mais marcante de 2001 tenha sido o próprio festival e seu retorno à mítica Cidade do Rock. O Rock in Rio havia virado uma lenda entre os mais novos, e o retorno do festival foi uma oportunidade deles também fazerem parte dessa história. O hiato que se seguiu fez com que aquela geração também pudesse bater no peito com orgulho e dizer: eu fui ao Rock in Rio.

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Foram precisos mais 10 anos para que o Rock in Rio voltasse ao Rio (por mais absurdo que possa ser um Rock in Rio em outra cidade), mas não pro mesmo endereço. O Rock in Rio mudou, mas apenas atravessou a avenida e se livrou da lama. Finalmente no formato atual, mantendo a Tenda Eletrônica e apresentando o Palco Sunset, voltado a encontros musicais de menor apelo popular (nada a ver com qualidade musical, muito pelo contrário). Também foi trocado o escaldante mês de janeiro por um ameno setembro.

A quarta edição teve 3 dias onde o pop prevaleceu, ainda que Shakira tenha se esforçado em resgatar seu passado mais rock and roll em um show muito competente e bem recebido. Mas a escalação de Elton John como atração secundária, espremido entre uma esforçada Kate Perry (ao menos ela dispensou o playback e cantou, ainda que resfolegante) e uma confusa e insossa Rihanna, talvez tenha sido a maior aberração da história dos festivais. Mais do que o show de Kesha.

Mas se Sir Elton foi relegado a segundo plano, Stevie Wonder fez a alegria dos corações nostálgicos na noite de quinta-feira, tornando-se sério candidato a “melhor show” de 2011. O outro momento nostálgico do festival foi o encerramento caótico e constrangedor com Axl Rose cantando na chuva.

O dia do metal agradou a vários gêneros, com Slipknot (um show bastante comentado mesmo dois anos depois), Motörhead e Metallica. O encontro de Sepultura com os Tambores do Bronx no Sunset foi um sucesso que reverberou pelos festivais na Europa e o fez retornar à quinta edição, dessa vez no Palco Mundo. System of a Down, abrindo pro Guns, foi um show mais comentado antes de acontecer do que depois. Red Hot Chili Peppers se redimiu do mico de 2001, mas sem causar o mesmo furor que teria causado se tivesse feito um bom show naquele ano.

Coldplay fez um bom show para os seus fãs, mas a apresentação teve impacto diluído devido a seu show na Apoteose no ano anterior. Além disso, a banda tem perfil alternativo, e esse gênero parece estar recebendo um treinamento coletivo para fazer rock de arena, utilizando-se de clichês que acabam soando pouco naturais. Snow Patrol, um tanto deslocado entre RHCP, Stone Sour e Capital Inicial (que se consolidou de vez como grande banda de arena), não conseguiu movimentar muito a galera com seu bom rock alternativo sem trucagens.

Entre os brasileiros, além do Capital, o Skank se mostrou muito à vontade no Palco Mundo, o que viriam a repetir dois anos depois. Ivete Sangalo mostrou porque é toda hora convidada pra participar do festival na Europa, gostando ou não. Pra ela não tem tempo ruim.

No Sunset, destaque para os encontros entre Mutantes e Tom Zé, e Titãs com os portugueses do Xutos & Pontapés. Joss Stone, sozinha, fez um senhor show. Poderia ter sido no Mundo, como já havia encarado antes o palcão do SWU.

Por fim, destaque-se a rara participação de artistas latino-americanos: Jorge Drexler, no Sunset, e Maná e Shakira no Palco Mundo. Lamentavelmente, o mesmo não se repetiu em 2013. Este ano, a aposta foi só em bandas portuguesas.

Assim como em 2001, a edição de 2011 foi marcada pelo retorno do festival ao lar, mais do que pelos shows em si, e a construção de uma nova “cidade do rock”, que excedeu em organização e estrutura todas as edições anteriores. E, mais importante, a certeza de que o próximo seria logo mais.

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E 2013 chegou, e com ele a quinta edição (e a próxima já está agendada pra 2015). Se teve 2 dias para o pop, teve 2 dias para o rock muito muito pesado, 2 pro rock tradicional e 1 pro rock alternativo. A maioria das atrações principais entregou o que prometera a seus fãs. Alguns decepcionaram no setlist, como Bon Jovi. Outros parecem ter ido um pouco além das expectativas, como Alicia Keys e Beyoncé. John Mayer agradou aos seus fiéis, mas apresentou um setlist baladeiro demais pra uma grande arena (quem assistiu ao show em São Paulo, dois dias antes, afirma ter sido mais agitado).

Dentre os shows do primeiro fim de semana, Beyoncé foi a atração que mais gerou comentários e elogios, tornando-se candidata imediata a estrela do festival.

Os shows do Palco Sunset continuaram com qualidade, apresentando shows de alto gabarito, como Ben Harper e Charlie Musselwhite, próprio para o Sunset, e outros que poderiam se estabelecer no Palco Mundo, como Offspring e Nando Reis recebendo Samuel Rosa.

A melhor frase da imprensa foi aquela que compara o show do Iron Maiden aos dribles do Garrincha: você sabe que ele vai driblar, como vai ser o drible, mas cai assim mesmo. No fundo, os shows do Bruce Springsteen são assim, ainda que a cada turnê ele acrescente um elemento. Mas aí vem aquela história do ladrão…

Enquanto os shows dessa e das edições anteriores são mais ou menos conhecidos, seja porque a banda seja habitué do Brasil, seja pela divulgação dos DVDs e no Youtube, Bruce Springsteen só é conhecido pelos fãs, que não parecem ser muitos. Em seu show em São Paulo, três dias antes, o Espaço das Américas ainda tinha ingressos para sua lotação de 8 mil lugares. E estamos falando de São Paulo, uma cidade muito mais roqueira e conhecida por atrair mais público aos espetáculos. Tudo bem que o destino dos fãs do resto do país seria naturalmente o Rio. Mesmo assim, sabia-se que John Mayer, atração anterior, atrairia mais fãs próprios que o Boss. Tanto é que foi o mais vazio headline de 2013. O velho bardo foi mais uma daquelas apostas pessoais do Medina, desaconselhado em trazê-lo por colegas do showbizz americano. Mas Medina havia presenciado o efeito Bruce em Lisboa em 2012 e cobriu a aposta.

Bruce Springsteen é um nome mais conhecido do que propriamente visto ou ouvido. Ou melhor, pouquíssimo ouvido além de Born in the USA, Dancing in the Dark e Streets of Philadelphia. Havia passado pelo país há 25 anos, quase clandestinamente, em meio à turnê da Anistia Internacional em São Paulo. Entretanto, é um nome que atrai a curiosidade, bom para ser conhecido num festival com tantas atrações. Mesmo a imprensa, ainda que conhecesse um pouco mais de suas músicas, só tinha a ciência de suas maratonas de 3 horas, não a experiência.

A chegada de Bruce ao Rio já causou burburinho por suas fotos na praia exibindo um corpo que contradizia o registro de sua idade: 63, quase 64. Ao subir ao palco, deixou todo mundo de queixo caído, pegos desprevenidos. Ele e a E Street Band fizeram tudo aquilo que costumam fazer “night after night after night after night”: um longo show muito agitado, com muita vibração e Bruce correndo de um lado pro outro, interagindo o tempo todo com a galera (e nem fez o já tradicional crowd surfing). 100% de intensidade de um artista com mais de 40 anos de carreira, mais de 60 de idade, e por quase 3 horas de show, não é sempre que se vê. Soma-se a isso um carisma que poucos, como Freddie Mercury e Bono, podem igualar. Se, para os fãs, o show foi tudo aquilo que se esperava (um show histórico), para os curiosos que ficaram pra ver ou que ligaram (ou deixaram ligada) a TV na hora, foi como o lateral sueco jogando contra o Garrincha pela primeira vez.

E são esses detalhes que fazem um show entrar para a história. Mas só quem poderá dizer isso, com certeza, é o senhor tempo.